segunda-feira, 30 de julho de 2012

O tempo certo é o agora

Tudo está no seu correto tempo
Nada acontece antes ou depois
A hora é sempre a exata hora

Sinto que tu és aflita, sofres e choras
Pelo que pode acontecer
E vives assim, esperando
A promessa do tempo
E não o que é o agora

Aflição, sofrimento à toa
É esse esperar contínuo
Pelo ressoar do sino
Até o seu novo encontro
Com o martelo do badalo.

Viver não é esperar
A realização do sonho incerto num tempo
Não menos incerto
Viver é reconhecer o tempo certo
Na incerteza dos intervalos das horas.




O féretro

Relata-me o quão ditosos são teus dias
Realmente, a Fortuna em ti fez morada...
E desde que deste mundo tomaste o ar
Tudo te aparece e vem de mão beijada

Mas também me dizes que és vazio
Nunca fizeste nada além do trivial
Jamais sofreste de amor, porque não amaste
Jamais escreveste sobre o amor, por não tê-lo
Jamais te arranhou o mais leve sofrimento...

E tu me perguntas o que penso disso...
E sem pensar muito nada falo
Porque só tenho nos olhos os tristes cravos murchos
Que enfeitam o ataúde do defunto
No carro funerário que ao largo passa.

domingo, 29 de julho de 2012

Cuida da brisa

O amor é tênue chama
Que o mais leve vento
Da desconfiança apaga.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

A história de Gislaine

Foi num abril
Quando rosas abrem-se,
Os homens fazem revoluções
E nossos corações batem
Com a intensidade
Da bateria da Beija-flor,
Ecoando ainda o último Fevereiro
E o doce reinado de Momo.
Mas, foi em Abril,
Conta-me a viúva,
No último Abril,
E o agente funerário
Foi quem anunciou a desgraça.
Disse que ele,
o companheiro do último cigarro,
E de todos os copos,
Havia morrido num estúpido acidente,
Acidente de trânsito.
Caso duvidasse
A prova estava ali
Numa estúpida foto,
Foto de telefone celular.
Foi num Abril que se abriu
A cova de todos os seus sonhos.




O mercado da estupidez

Eis pois, exposto ao teu rosto
Este mundinho mesquinho
Dos estúpidos que ditam modas.

Não a moda das roupas,
Dos costumes inventados,
Das cores da estação,
Mas a moda da estupidez,
Aquela que se aproveita
Da falta do senso do ridículo
Dessa grande massa que não pensa,
Dessa massa modelável
Como um boneco de neve
Com o nariz de cenoura.

A que ponto chegamos
Nessa sociedade de consumo
Em que tudo se transforma
Em mercadoria e dinheiro:
Hoje é possível vender a estupidez
E chamá-la de moda.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Das esquinas e encruzilhadas


Gostamos das esquinas, de todas as esquinas
Pois são nelas que estão os pontos cardeiais
E dar rumo à vida fica mais fácil

Mas sou poeta, e os poetas não se contentam com rumos certos
Amo mesmo e com inexplicável paíxão
As encruzilhadas em descampados
Porque elas não se fazem Norte, Sul, Leste, Oeste

As encruzilhadas nos levam para o imprevisível
Fora desses ângulos exatamente retos
Que tornam a vida tão aborrecida
Sem poesia, sem o gosto da aventura.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O sopro de teus lábios

O vento que sopra todas as manhãs
Carrega meus poemas
Talhados em noite mágica
Por lugares distantes, não sonhados

Sem eu saber de que essência foram feitos
Meus versos desabam do céu
Como folhas caídas da árvore proibida
Arrastando consigo deliciosos pecados

E sinto imparável vontade
De trazê-los para a realidade
Como se fossem a vida
Do sopro dos teus lábios.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Carmenzita vadia (samba)


Carmenzita, sua vadia, você fez tudo errado
Tirou o sol da minha janela
E meu prazer de caminhar pela calçada
Hoje dou bom-dia para poste, abraço na urtigueira,
Sou triste e sem cor como um filme de Renoir

Carmenzita, minha amante, deixa eu te contar
Isso não vai ficar assim, porque as coisas vão mudar
Pegue todas as suas coisinhas
Suas roupas no camiseiro
E siga o seu caminho
Que eu vou deixar o cativeiro

Cansei de seus caprichos
Não fico mais na reserva do jogo
No meu time eu trago a bola
E escalo cunhado e sogro

No meu time eu dou a bola
Bato escanteio, cabeceio
E escalo o juiz do jogo.

sábado, 21 de julho de 2012

Oração do poeta cibernético

Ó meu Senhor, com a permissão de Vossa graça,
Que nunca me falte a luz da Light, Copel, Eletropaulo
E outras elétricas centrais, todas cheias da claridade.

Na noite, em que faço poemas, lembrando o dia,
Dai-me a luz que nunca se apaga
E quando não, o candeeiro, as velas, as fogueiras
Dos meus antigos ancestrais.

Mantende-me meu Deus, os elétrons em seus ordinários caminhos
Sem sobrecargas, quedas de corrente, ou grandes Diferenças De Potencial,
DDP, ou simplesmente voltagem.

Mas em verdade, Vos peço, de todo o meu coração,
Que não me falte o sinal da internet
E que todos os megabytes não sejam apenas promessas
Do meu provedor. Pois viver na lentidão
Não mais combina com este mundo
Que é rápido e quiçá por demais acelerado.

Levai, meu Pai, minha mensagem delirante instantaneamente
A todos os corações que acessam o Facebook,
Principalmente, àquela menina triste
Que precisa de coragem para continuar vivendo.
Amém.


quinta-feira, 19 de julho de 2012

Vermelha

É vermelha
E tu sabes de meu gosto por tal cor
Da mesma forma que entendes o distante
Em que me recolho quando escrevo

É vermelha
Tua roupa interior
Que me tira da letargia das letras
E assim sei quando tu desejas amar
Além do amor d'almas, é claro

É vermelha
Como a marca da última carinhosa palmada
Estampada na brancura de tua pele, na bunda

É vermelha
A tua última mordida em meu peito
Tatuagem dos teus dentes
Sempre entre sussurros refeita

É vermelha
Tua face de êxtase avivada por gritos
E confissões capazes de fazer corar as putas.

domingo, 15 de julho de 2012

A falta de teus passos

A minha pobre rua se cobre de um cinza tristonho
Nela não mais se escuta ao longe a graça de teus passos
E esse silêncio em que se guardou tua beleza
Faz donde vivo o lugar mais desolador do mundo
Os ipês não mais florescem
E aquela cerejeira que eu mesmo plantei
Tem seu tronco torto e neste ano negou-me a florada...
E as rosas, encarnadas rosas,
Alimentaram as formigas e outras pragas...
E aqui dentro, dentro do meu peito,
Nada é diferente, vazio, desolação, memória apenas,
E uma saudade que a si mente e devora
A tua imagem que descia nesta antiga e defunta rua.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Alma com alma

Depois de comprida saudade,
Quando tu voltas aos meus braços
Sinto teu coração coladinho ao meu.
Assim, peito com peito,
Alma com alma,
Espírito com espírito,
Entre intermitentes batuques cardíacos,
Respiro teus silêncios
E somente neste particular momento
Sinto-me plenamente com vida.


terça-feira, 3 de julho de 2012

Azul-doirado

Um hoje extremamente azul-celeste
E aquela vontade que ao espírito veste
De transformar tudo em verso

O mundo carece de poesia
Que cante cada amanhecer
Principalmente, os hojes azulados em doirado

E tu, que vi nesta manhã incógnita na rua,
Com os olhos orvalhados na aurora da Esperança
Terás aqui o registro da luz de teu sorriso amanhecido

E a Paz, que é boa senhora e vilipendiada sempre,
Ganhará neste matinal céu de Inverno
Versos que rogam aos homens o seu sagrado nome.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Coisas para dizer ao vento

Amor meu, quisera mais oportunidades
Para dizer coisa tão simples
E que as pessoas entendem como complicação
Talvez, o meu silêncio
Quando te envolvo com os meus olhos
Já tenha dito o que guardo comigo
Como esse imenso prazer
Que tenho ao te escutar os passos
Quando tu chegas
E ficas, assim, com um jeitinho sem jeito
Esperando afagos
E outras delícias a serem compartilhadas.
Ah, quisera te dizer tantas coisas
Mas, a minha boca anda sempre tão ocupada
Espalhando ao vento e na ventania
Sempre e sempre "eu te amo, eu te amo"!

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Tatuagem

Essa borboleta tatuada nas tuas costas
Viva e escondida pelos teus cabelos
Finge, por certo, cansaço
E estampada descansa
Na tua brancura de Inverno.
Que inveja, Deus meu. Inveja!
Como desenho em papel de arroz
Estar assim colado em tua pele!


segunda-feira, 18 de junho de 2012

Iguaçu

Não sei se é lenda, se é verdade
Nunca lá estive se não fosse por pensamento
Mas dizem que o Nilo vai ao mar
 Em sete desembocaduras

Conheço apenas o rio de minha aldeia
Um rio triste, quase morto em seu nascedouro
E que não dá no mar
O meu rio é apenas suicídio em sua foz

Verdade, meu rio acaba-se em quedas
Começa feio e termina bonito
Um grande final para quem só faz carregar lágrimas
Da gente que nele obra
Da gente que nele vê um grande córrego de lixo
Da gente que nele faz a piscina dos esgotos

Meu rio alcança o grande Paraná
Como pálido defunto perfumado
E dá urros ao quedar-se verdadeiramente morto
Diante de pasmados turistas
Para assim maravilhar
Este mundo que já se veste de trapos.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Teu aniversário



Desejo que Tu coloques em tua alegria
As coisas boas que te trouxeram até aqui.
Assim Tu hás de lembrar
Em tua caminhada adiante
Que nosso coração fica cada vez mais criança
Quando cheinho da verdadeira amizade
Lotadinho do bem querer e do bem gostar
Enfim, do bem amar que a gente colhe
Ao percorrer essa breve vida
Admirando a paisagem
Que nos foi desenhada
Pelas mãos e amor de Deus.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Namorado, namorada, trastes etc e tal

Fica triste não
Tem tanta gente que pensa estar junta à outra gente
Mas no fundo é a própria solidão manifesta.

Namorado, namorada, caso, ficante, amante,
Trastes, coisas fofas, coisinhas, casinhos, namoradinhas,
Outros inhos, inhas et cetera e tal
Qualquer um arruma.

Mas, o amor mesmo,
Aquele que tem o poder de fundir almas,
Só pode ser alcançado pelos corações que fazem por merecer.

Corações que estão dispostos, realmente disponíveis,
Pois entenderam a pureza de Francisco
Que falava ao vento e para todas as criaturas
Que é mais importante amar do que ser amado,
E assim respeitar e tocar com o espírito
A santidade do espírito do outro.


quarta-feira, 30 de maio de 2012

Beijos n’alma


Namorei teus olhos antes de te conhecer
Nas noites em que me fazia só
E te esperei em cada amanhecer
Sem cansaço, em fé, em esperança

E quando tive teus olhos sobre mim
Senti-me completo e cheio de contentamento
E soube então que o fardo dessa existência
Leve me seria, poisque estás comigo

Tu és a alma que me alcança a água
Quando, cansado, tenho sede
Tu és a alma que me dá suave palavra
Quando meu espírito é desespero

Namorada minha, viver contigo é coisa tão boa
Que chego ter à-toa medo que tu me faltes
Não, não e não. Não fomos feitos para a solidão
A natural lei dá para cada coração uma companhia

Penada é a alma que a outra alma sua desdenha
E que encara essa vida como uma vazia travessia
Danada ponte ligando o nada ao nada
Pavimentada com sofrimentos e ausências

A verdade é que sem ti, vida minha,
Sou apenas um ser que, a contragosto,
Anda sozinho pelo mundo e respira
A gastar criminosamente o ar dos outros

E quando te faço abrasado carinho
Eis expresso desejo de acariciar o teu espírito
Porque tu me dás consolo e amor
Escandalosos beijos na alma minha.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Cariño se foi para a Galiza

Quem dera despertar de meu sono
Sob o Sol que brilha na Galiza
E te ver em luz nestes nublados ollos
Que choram tua ausência, o teu adeus

Depois dessa tristeza de degredado
Camiñar todos os camiños
Que teus pés caminharam
Sempre descompassados dos meus

Ali, na antiga praia ancestral,
Sentir que o Atlântico
Não passou de um lago
A separar os meus sonhos dos teus

Fermosa te encontrar em Santiago
Num fim de tarde e danzar contigo
A música dos antigos bardos
Feita de dor e soidade, cariño meu.


sexta-feira, 25 de maio de 2012

Azul bala

Certeiro como bala perdida lá na vila
Teu olhar, Polaca, tem qualquer coisa
De fuzilamento, de apelo para o último pedido.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Esquina curitibana

Vi sim, Seo Menino,
Como não haveria de ver?
Na rua Riachuelo,
O velho chinês
Que lia seu caderno engordurado
E cantava em mandarim
A canção do rouxinol.

Ali, aquela puta gorda,
De carnes expostas como se no açougue,
Convidava com olhar de navalha
Os traficantes, ladrões e toda a canalha
Para os mofos dos quartos rotos.

Vi sim, Seo Menino,
Ali na rua São Francisco,
O executivo faminto
Revirando as latas de lixo
Para encontrar negócio e lucro.
Ele quer montar uma tal de usina
Para queimar o que nos sobra
E torrar a paciência do bispo.

Tinha também aquele moleque
De olho graúdo e de fome
Com seu tênis colorido
A amolar seu canivete
Para abrir uma lata de picles.

E no cansado de meus olhos,
Ainda na mesma esquina,
Vi a menina das flores e dos doces
Que enfeitava aquele fim de tarde
Com o amargor de sua sina
Ao vender doçura e beleza
Para os esquecidos da cidade.

terça-feira, 22 de maio de 2012

O último incréu morreu ontem

É de rir, gargalhar, rolar pelo chão, amigo,
Ver o sujeito, douto e perfeito, a bater no peito
Ao se declarar descrente, o incréu dos incréus!

Digo:
O último incrédulo morreu ontem!

Porque é condição sine qua non para estar vivo
Ter um coração com um bocadinho de esperança
E tê-la é ter fé. É justificar o hábito de respirar.

O filósofo matou a fé no homem
Junto com seu espírito e seu Deus
E ao mesmo tempo a Filosofia
Ganhou um grande enterro,
Porque deixou de ser esperança.

E para que serve a Ciência
Se não for para salvar o homem
Da loucura do tudo acabado,
Do tudo sem sentido e sem verdade?

E digo:
O último poeta sem esperança,
Que é a mais pura e verdadeira crença
No semelhante, igualmente morreu ontem!

Seus livros de nada servirão,
De nada serão em proveito do homem,
Pois é na poesia que se encontra a beleza do mundo
A flutuar aqui e ali nesse mar de brutalidades.

A poesia é alimento do espírito, fortaleza d'almas,
É a voz que traz d'outros mundos os ecos divinos
Para o encantamento desses nossos duros dias.

Do contrário, seríamos árvore que sofre sob a geada
Para no Verão morrer com a alma ressecada,
Como esses homens que andam por aí iguais a zumbis,
Almas de cântaros no Inverno da descrença:
Pobres, vazios, mortos são e não sabem.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Iguaria divina


Encontrei-te ontem
Na esquina da Lua
Que termina na rua
Caminho do Sol.

Estavas vestida de brilho
E cantavas entristecida
Para as nove musas
Que te escutavam no jardim.

Perguntei ao fauno que passava
Quem tu eras, por que brilhavas
Mais do que as estrelas
Contidas nas galáxias?

─ É a décima musa,
Que foi castigada pelo Tempo
Por ter em si tanta beleza ─,
Sussurrou-me o fauno.

─ Mas para que tanta maldade?

─ Ciúme, meu amigo, inveja!

─ Que mesquinhos são os deuses!

─Sim, e o castigo ainda é maior...

─ Maior!?

─ Hoje, quando o Sol brilhar,
A décima musa deve envelhecer
Até ser morta para sempre.

─ Mas, por que ela canta?

─ És tolo, amigo,
A juventude é o alimento do Tempo e de todos os deuses.
Morremos aos poucos numa comédia improvisada
E ao morrer fingimos inexplicável contentamento
Em doidos cantos, em doidas gargalhadas.

─ Tens razão, a tarefa do Tempo é desfigurar o belo.
Enrugar as horas e enfeiar os próximos minutos...

─ O Tempo é deus menino
E aparentemente sem apetite
Brinca com a comida!
Eis a verdade: no banquete da vida:
A nossa juventude é para os deuses
Iguaria, o mais divino dos divinos pratos!

Evocação da Poesia



Vem, bela e encantada,
Beija-me a boca
Para que eu cante ao mundo
Todos os teus encantamentos.

Morde-me a língua
Até que a língua me sangre
E tire de minhas veias
A tinta que ao mundo serve.

Dá-me uma estrela nova
Em cada noite que se repete,
Porque quero sempre claridade,
Tua nova luz sobre velhas ideias.

Aos poetas novos


 
Aquele que não conhece bem
Mas muito bem mesmo
As entranhas das palavras
Suas sonoridades, suas eternidades
E apelos sintáticos,
De ordem e merecimento,
Não pode ser poeta.
Será, quando muito, um modista,
Um empilhador de versos
Como um pedreiro a empilhar tijolos
Sem a cola da argamassa.

Metafísica do Irracional


Vejo metafísica nos números irracionais.
São algarismos que se negam em pensamento,
Estranhamente estranhos, têm vida suspeitosa
E jamais se fazem definitivamente certos.

O Pi, por exemplo, essa reticência tão maluca,
É um árabe que se veste de túnica grega
E se faz símbolo incerto e misterioso
Presente em todos os círculos.

Ele parece bem definido, mas é inexatidão.
Lembra-nos assim, que mesmo
Em figuras geométricas supostamente perfeitas,
Há um bocado de imperfeição.


quarta-feira, 16 de maio de 2012

Morrer, péssimo costume


O que dizer, como reagir, como confortá-lo, amigo,
Diante desse mau hábito humano que é morrer?

Sim, meu bom amigo, temos esse bruto costume
De abandonar o mundo de abrupto e para sempre;
Essa mania de levar pedaços de corações queridos
Para passeios que não sabemos exato destino.

Sim, meu triste amigo, nascemos para os adeuses
Em portos  sempre melancólicos e enevoados,
Pois aqui todos estão guardando tempo para a viagem.

Resta-nos viver esperando que o navio se atrase
E que os pedaços tirados com carinho doutras almas
Sejam em nós esperanças de novo encontro
Num grande e apertado abraço de terna saudade.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Infidelidade

Trair
É alimentar descaso
Mesmo que momentâneo
Ao que se ama.

Na realidade
Trair
É desamar o que até há pouquinho
Era delirantemente amado.

Trair
É um tremendo ato de desonestidade
Para consigo mesmo
E do amor, o maior pecado.

E perdoar
A quem trai
Não é grandeza de espírito
Nem obra de um coração
Cheio de bondade e misericórdia
É desamar desamando-se.

Perdoar a quem trai
É trair o amor próprio.
E eis aí
Nossa miséria
Só se pode expressar nobreza
Ao se perdoar um ato torpe.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O vento que há de vir


Gosto de acordar antes de ti
Nestes dias que se vestem de Outono
Olho para teu rosto e dormes suave
Em brancura sob brancos panos
Na candura de teus sonhos tão teus

Espero o teu acordar
E aquele teu sorriso conforme
De contentamento com tão pouco
Que dizes ser fortuna
Vaticinada pelas estrelas
Na noite feita de sussurros e segredos

É verdade, Anjo e cariño meu,
Já tenho da última noite saudades
E ao te observar assim tão feliz
Tenho absurdo medo, medonho mesmo
De não te encontrar na próxima Lua
Na manhã de fraco vento que há de vir
Previsível somente no cair das folhas
Dos conformados arvoredos.