quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O que disseste de meus olhos

Os teus olhos são segredos
Guardados em mares escuros
Abismos cheios de vales
Por onde caminho e me procuro

Tão grande em dissimulações
Há neles uma paisagem
Tão fria, tão calculada,
Que me sinto nela espelhada
Apenas como útil miragem.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Samba da dor

Guardo no peito minha última ilusão
Que hoje é pura dor
E que amanhã não será mais não.

O destino da dor é virar saudade.

Maltrataste a quem te ama
Sei que tu pensas ser feliz
Mas, amanhã não será mais não.

Amanhã, deste amor sentirás vontade.

Morre aqui no peito
Este apego ao que nada vale
Amanhã, esta dor será mais não.

O destino da dor é virar saudade.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Tolices do coração

Às vezes dou ao meu coração
Tarefas impossíveis
Amar a quem não merece
Esquecer a quem não esqueço
E bater, e bater, e bater, sem querer
Por toda uma vida.

Cansado ele batuca, lento ele me embala
E ensaia falsa obediência
Em falsa cadência sem sustos

Meu coração é traição
E trai-me a torto e a direito
(Porque sou triste quando te vejo
E lembro-me que tu és como ele)

Ele sai-me pela boca
E diz coisas tolas
E pelo que eu não fiz
Ele a ti pede perdão.





sábado, 11 de agosto de 2012

Santa Vontade

Vontade
Eis o que move o mundo

O problema é que esta vontade
Geralmente se faz no coração dos maus
E assim
Guerras
Dor
Violência
E descompaixões
São os combustíveis
Dessa vontade que gira sobre o próprio eixo.

Precisamos de novas vontades
De uma Santa Vontade forjada no bem
Do contrário
Nos restarão apenas velhos infernos
Um choro contido, incrédulo
E soluços de pura impotência.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Pecados na manhã

A cidade acorda em preguiça e desdém
Na manhã
Há uma névoa a encobrir os pecados da noite

E um homem, meu Deus, que dorme
Na podridão e nas caixas de papelão desfeitas
Abraçado a um pulguento e doente cão
(Cobertor de ossos e companheiro das andanças
Pelos lixos da cidade em busca de pão)

O Sol aparece e fecha imediatamente seus olhos
De vergonha, revolta e comiseração,
Pelo cão que dorme, pelo homem, Santo Deus,
Por esses pecados que amanhecem todos os dias
E que também são pecados meus.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A caminho do trabalho

Meu café tem o gosto dos meus dias
Forte, quase sem açúcar e morno.

Abro a porta e vou pelas estradas

Mas antes escuto os passarinhos
Em suas melodias misturadas e próprias

Mas antes vejo a roseira e os beijinhos
Que no orvalho se banham
Como eu nesta manhã banho-me da sorte

Vou pela estrada, livre sigo caminho,
Necessidades desse renascer eterno
E olho no infinito o Sol amanhecer

Penso o que posso nesse dia
E principalmente o que não posso fazer

Não mudarei as manchetes dos jornais
As guerras sempre estarão lá
Em garrafais letras, em horror teatral

E aquele amigo, aquela amiga,
Será que me esqueceram, morreram?
Saudade também vai com o dia meu

Pronto, chego ao trabalho
Escravo, sei que toda poesia deste dia
No caminho ficou e pálida entristeceu.



segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Curiosity está em Marte

Curiosity está em Marte
Procura lá coisas da vida
Na profunda paz dos espaços
E eu aqui neste universo de gente
Nada mais procuro
Pequena me é a curiosidade
Porque do que vi só há desconsolo
Doiradas pílulas que matam o doente.

Curiosity foi deixada numa cratera
Lá há de escalar montanhas
Analisar pedras, a atmosfera
E eu aqui neste universo de solidões
Espero, com sinceridade
Que tal máquina nada encontre
Pois se há em Marte vida
Será vida perdida
Pois toda vida o homem corrompe.

domingo, 5 de agosto de 2012

Camiño

Galega, cariño meu,
Por que me abandonaste
Ao lado da flor que nasce na pedra
Neste ancho camiño
Camiño de Santiago?
Quem há de me apoiar
Nos tropeços, nas dificuldades
Nessa vida de peregrinação
Se no ceo não há estrelas
Se na minha mão
Não tenho a tua mão?

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Retrato do vazio

E tinha lá nos cantos da casa
Coisas esquecidas e amontoadas
Uma rosa ressequida
Um retrato do nada
Tinha lá suas coisinhas
Suas inutilidades guardadas
E um coração vazio
Sem lembranças atadas
Que triste, lento batia
Por obrigação, talvez
Ao sentir que nem mesmo
O gosto do ter tentado
Fazia nele morada.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A centopeia e a mãe do psicopata

Olho para as crianças brincando no jardim
Uma delas apanha uma indefesa centopeia
E a mutila ao lhe arrancar perninha por perninha
Custo a crer, mas creio enfim que a maldade
No ser humano é algo realmente inato
E a mãe, ocupada em limpar os óculos escuros
Vê aquela cena de explícita tortura
E grita para o pequeno projeto de psicopata:
"Larga isso, menino, é lixo, não coloca na boca!"
Pobre centopeia, torturada, morta e caluniada.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A minha saudade cavalga

Antigamente, os amantes morriam de saudades
De suas distantes amadas e para vê-las
Suavam sobre longas léguas no lombo dos cavalos

Hoje não temos saudades tão distantes
Tudo está ao alcance dos dedos nos teclados
Sejam dos telefones ou dos computadores

De tal modo que sentir saudades
Assume as feições de uma mera equação matemática
Em que o limite é a velocidade da luz
Ou o movimento dos elétrons em circuitos fechados.

Mas mesmo assim, minha cibernética amada,
Sinto de ti uma saudade das antigas,
Uma saudade que envolve o tato e o gosto na boca,
Daquele esfrega-esfrega quente e cada vez mais quente
Que só é possível na presença de teu de corpo

Chega das carícias elétricas,
Do amor contido em bytes
Minha saudade é cavaleira
E gosta de cavalgar

Eia ô! Eia! Vou pôr o arreio no meu cavalo
Suar por muitas léguas
Só pra te beijar
Assim de pertinho, no abraço e no carinho
Como devem ser os beijos dos enamorados.


segunda-feira, 30 de julho de 2012

Os dias que nunca virão

Pode o feitor amar o seu trabalho
Feito de ódio, dor e castigo
Pois o ódio, a dor e o castigo
São a sua felicidade sádica.

Mas não pode o escravo
Amar a escravidão
E a chibata que lhe corta o couro

Não pode o escravo amar o relho
Feito por uma escola que não ensina
E por livros que apenas distraem

Ou, o escravo amar o tronco de suplícios
Urdido pela propaganda que engana
E que diz que a servidão
É o estado normal de 99%
Dos homens que vivem neste mundo
De bocarras escancaradas, a espera
De dias melhores, dias que nunca virão.

O tempo certo é o agora

Tudo está no seu correto tempo
Nada acontece antes ou depois
A hora é sempre a exata hora

Sinto que tu és aflita, sofres e choras
Pelo que pode acontecer
E vives assim, esperando
A promessa do tempo
E não o que é o agora

Aflição, sofrimento à toa
É esse esperar contínuo
Pelo ressoar do sino
Até o seu novo encontro
Com o martelo do badalo.

Viver não é esperar
A realização do sonho incerto num tempo
Não menos incerto
Viver é reconhecer o tempo certo
Na incerteza dos intervalos das horas.




O féretro

Relata-me o quão ditosos são teus dias
Realmente, a Fortuna em ti fez morada...
E desde que deste mundo tomaste o ar
Tudo te aparece e vem de mão beijada

Mas também me dizes que és vazio
Nunca fizeste nada além do trivial
Jamais sofreste de amor, porque não amaste
Jamais escreveste sobre o amor, por não tê-lo
Jamais te arranhou o mais leve sofrimento...

E tu me perguntas o que penso disso...
E sem pensar muito nada falo
Porque só tenho nos olhos os tristes cravos murchos
Que enfeitam o ataúde do defunto
No carro funerário que ao largo passa.

domingo, 29 de julho de 2012

Cuida da brisa

O amor é tênue chama
Que o mais leve vento
Da desconfiança apaga.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

A história de Gislaine

Foi num abril
Quando rosas abrem-se,
Os homens fazem revoluções
E nossos corações batem
Com a intensidade
Da bateria da Beija-flor,
Ecoando ainda o último Fevereiro
E o doce reinado de Momo.
Mas, foi em Abril,
Conta-me a viúva,
No último Abril,
E o agente funerário
Foi quem anunciou a desgraça.
Disse que ele,
o companheiro do último cigarro,
E de todos os copos,
Havia morrido num estúpido acidente,
Acidente de trânsito.
Caso duvidasse
A prova estava ali
Numa estúpida foto,
Foto de telefone celular.
Foi num Abril que se abriu
A cova de todos os seus sonhos.




O mercado da estupidez

Eis pois, exposto ao teu rosto
Este mundinho mesquinho
Dos estúpidos que ditam modas.

Não a moda das roupas,
Dos costumes inventados,
Das cores da estação,
Mas a moda da estupidez,
Aquela que se aproveita
Da falta do senso do ridículo
Dessa grande massa que não pensa,
Dessa massa modelável
Como um boneco de neve
Com o nariz de cenoura.

A que ponto chegamos
Nessa sociedade de consumo
Em que tudo se transforma
Em mercadoria e dinheiro:
Hoje é possível vender a estupidez
E chamá-la de moda.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Das esquinas e encruzilhadas


Gostamos das esquinas, de todas as esquinas
Pois são nelas que estão os pontos cardeiais
E dar rumo à vida fica mais fácil

Mas sou poeta, e os poetas não se contentam com rumos certos
Amo mesmo e com inexplicável paíxão
As encruzilhadas em descampados
Porque elas não se fazem Norte, Sul, Leste, Oeste

As encruzilhadas nos levam para o imprevisível
Fora desses ângulos exatamente retos
Que tornam a vida tão aborrecida
Sem poesia, sem o gosto da aventura.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O sopro de teus lábios

O vento que sopra todas as manhãs
Carrega meus poemas
Talhados em noite mágica
Por lugares distantes, não sonhados

Sem eu saber de que essência foram feitos
Meus versos desabam do céu
Como folhas caídas da árvore proibida
Arrastando consigo deliciosos pecados

E sinto imparável vontade
De trazê-los para a realidade
Como se fossem a vida
Do sopro dos teus lábios.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Carmenzita vadia (samba)


Carmenzita, sua vadia, você fez tudo errado
Tirou o sol da minha janela
E meu prazer de caminhar pela calçada
Hoje dou bom-dia para poste, abraço na urtigueira,
Sou triste e sem cor como um filme de Renoir

Carmenzita, minha amante, deixa eu te contar
Isso não vai ficar assim, porque as coisas vão mudar
Pegue todas as suas coisinhas
Suas roupas no camiseiro
E siga o seu caminho
Que eu vou deixar o cativeiro

Cansei de seus caprichos
Não fico mais na reserva do jogo
No meu time eu trago a bola
E escalo cunhado e sogro

No meu time eu dou a bola
Bato escanteio, cabeceio
E escalo o juiz do jogo.

sábado, 21 de julho de 2012

Oração do poeta cibernético

Ó meu Senhor, com a permissão de Vossa graça,
Que nunca me falte a luz da Light, Copel, Eletropaulo
E outras elétricas centrais, todas cheias da claridade.

Na noite, em que faço poemas, lembrando o dia,
Dai-me a luz que nunca se apaga
E quando não, o candeeiro, as velas, as fogueiras
Dos meus antigos ancestrais.

Mantende-me meu Deus, os elétrons em seus ordinários caminhos
Sem sobrecargas, quedas de corrente, ou grandes Diferenças De Potencial,
DDP, ou simplesmente voltagem.

Mas em verdade, Vos peço, de todo o meu coração,
Que não me falte o sinal da internet
E que todos os megabytes não sejam apenas promessas
Do meu provedor. Pois viver na lentidão
Não mais combina com este mundo
Que é rápido e quiçá por demais acelerado.

Levai, meu Pai, minha mensagem delirante instantaneamente
A todos os corações que acessam o Facebook,
Principalmente, àquela menina triste
Que precisa de coragem para continuar vivendo.
Amém.


quinta-feira, 19 de julho de 2012

Vermelha

É vermelha
E tu sabes de meu gosto por tal cor
Da mesma forma que entendes o distante
Em que me recolho quando escrevo

É vermelha
Tua roupa interior
Que me tira da letargia das letras
E assim sei quando tu desejas amar
Além do amor d'almas, é claro

É vermelha
Como a marca da última carinhosa palmada
Estampada na brancura de tua pele, na bunda

É vermelha
A tua última mordida em meu peito
Tatuagem dos teus dentes
Sempre entre sussurros refeita

É vermelha
Tua face de êxtase avivada por gritos
E confissões capazes de fazer corar as putas.

domingo, 15 de julho de 2012

A falta de teus passos

A minha pobre rua se cobre de um cinza tristonho
Nela não mais se escuta ao longe a graça de teus passos
E esse silêncio em que se guardou tua beleza
Faz donde vivo o lugar mais desolador do mundo
Os ipês não mais florescem
E aquela cerejeira que eu mesmo plantei
Tem seu tronco torto e neste ano negou-me a florada...
E as rosas, encarnadas rosas,
Alimentaram as formigas e outras pragas...
E aqui dentro, dentro do meu peito,
Nada é diferente, vazio, desolação, memória apenas,
E uma saudade que a si mente e devora
A tua imagem que descia nesta antiga e defunta rua.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Alma com alma

Depois de comprida saudade,
Quando tu voltas aos meus braços
Sinto teu coração coladinho ao meu.
Assim, peito com peito,
Alma com alma,
Espírito com espírito,
Entre intermitentes batuques cardíacos,
Respiro teus silêncios
E somente neste particular momento
Sinto-me plenamente com vida.


terça-feira, 3 de julho de 2012

Azul-doirado

Um hoje extremamente azul-celeste
E aquela vontade que ao espírito veste
De transformar tudo em verso

O mundo carece de poesia
Que cante cada amanhecer
Principalmente, os hojes azulados em doirado

E tu, que vi nesta manhã incógnita na rua,
Com os olhos orvalhados na aurora da Esperança
Terás aqui o registro da luz de teu sorriso amanhecido

E a Paz, que é boa senhora e vilipendiada sempre,
Ganhará neste matinal céu de Inverno
Versos que rogam aos homens o seu sagrado nome.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Coisas para dizer ao vento

Amor meu, quisera mais oportunidades
Para dizer coisa tão simples
E que as pessoas entendem como complicação
Talvez, o meu silêncio
Quando te envolvo com os meus olhos
Já tenha dito o que guardo comigo
Como esse imenso prazer
Que tenho ao te escutar os passos
Quando tu chegas
E ficas, assim, com um jeitinho sem jeito
Esperando afagos
E outras delícias a serem compartilhadas.
Ah, quisera te dizer tantas coisas
Mas, a minha boca anda sempre tão ocupada
Espalhando ao vento e na ventania
Sempre e sempre "eu te amo, eu te amo"!

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Tatuagem

Essa borboleta tatuada nas tuas costas
Viva e escondida pelos teus cabelos
Finge, por certo, cansaço
E estampada descansa
Na tua brancura de Inverno.
Que inveja, Deus meu. Inveja!
Como desenho em papel de arroz
Estar assim colado em tua pele!


segunda-feira, 18 de junho de 2012

Iguaçu

Não sei se é lenda, se é verdade
Nunca lá estive se não fosse por pensamento
Mas dizem que o Nilo vai ao mar
 Em sete desembocaduras

Conheço apenas o rio de minha aldeia
Um rio triste, quase morto em seu nascedouro
E que não dá no mar
O meu rio é apenas suicídio em sua foz

Verdade, meu rio acaba-se em quedas
Começa feio e termina bonito
Um grande final para quem só faz carregar lágrimas
Da gente que nele obra
Da gente que nele vê um grande córrego de lixo
Da gente que nele faz a piscina dos esgotos

Meu rio alcança o grande Paraná
Como pálido defunto perfumado
E dá urros ao quedar-se verdadeiramente morto
Diante de pasmados turistas
Para assim maravilhar
Este mundo que já se veste de trapos.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Teu aniversário



Desejo que Tu coloques em tua alegria
As coisas boas que te trouxeram até aqui.
Assim Tu hás de lembrar
Em tua caminhada adiante
Que nosso coração fica cada vez mais criança
Quando cheinho da verdadeira amizade
Lotadinho do bem querer e do bem gostar
Enfim, do bem amar que a gente colhe
Ao percorrer essa breve vida
Admirando a paisagem
Que nos foi desenhada
Pelas mãos e amor de Deus.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Namorado, namorada, trastes etc e tal

Fica triste não
Tem tanta gente que pensa estar junta à outra gente
Mas no fundo é a própria solidão manifesta.

Namorado, namorada, caso, ficante, amante,
Trastes, coisas fofas, coisinhas, casinhos, namoradinhas,
Outros inhos, inhas et cetera e tal
Qualquer um arruma.

Mas, o amor mesmo,
Aquele que tem o poder de fundir almas,
Só pode ser alcançado pelos corações que fazem por merecer.

Corações que estão dispostos, realmente disponíveis,
Pois entenderam a pureza de Francisco
Que falava ao vento e para todas as criaturas
Que é mais importante amar do que ser amado,
E assim respeitar e tocar com o espírito
A santidade do espírito do outro.