terça-feira, 2 de outubro de 2012

Imensidões

Preciso sentir o mar, Cariño
Preso no continente
Há uma parede de serras
Que me priva de sua brisa

Careço, Cariño
De imensidões
Desse oceano sem medida
E que vai dar no Tejo

Faz-me falta teu amor, Cariño
Imenso, imenso, como o Mar Português
Que é a soma de todos mares do mundo

Preciso dessas infinitudes
Porque sinto minh'alma amiudada
Preciso de mar e de teu amor
Porque sem eles, miúdo sou.


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Espetáculo dos estúpidos

Vida doida
Desumanizada
Um atropelamento
Ambulância no engarrafamento
O sangue que corre no asfalto
A massa encefálica exposta
E uma multidão que parou ali
Só para uma espiadinha
 No corpo que expirava

A morte é coisa curiosa

Logo, todos vão embora
A estupidez já deu seu espetáculo
O cadáver já esfriou
Rotina
Todos pesando em suas rotinas
Que se reproduzirá amanhã
Igualzinha, em desumanidade
Porém civilizadamente
Sem tumultos
Sem revoltas
Sem pagar entrada
Pois, para tal circo de horror
Não se cobra ingresso.

sábado, 29 de setembro de 2012

As cores do verso

Há noite de magia que não se esquece
Cheia de truques de magos invisíveis
Como essa que te colocou nua
Sobre minha alma e pele

Nua, nua, em pêlo
Pronta para ser aquecida
Porque o amor a tudo aquece

E os aromas, o teu perfume
O cheiro da tinta do teu trabalho
Faziam mágica combinação
Com as canções de Piaf.

Como é difícil aos poetas
Pintarem com finito canto
Cenas tão incendiadas
E lotadinhas do bem querer
Do gostar muito e tanto

Cariño, toma aqui todas as cores do meu verso
E me ensina a colorir a felicidade de estar contigo.


sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Como acalmar tempestades

Oiço em noite insone
O cair dos pingos d'água

C
   h
      o
        v
           e

Os trovões sacodem a cidade
E vejo tuas mãos no piano
Procurando notas de calmaria
Que acalmem a tempestade

Os graves e os agudos
Se misturam com a batucada
Dos plics-plics d'água

E lá fora a chuva lava os escuros
Para a manhã amanhecer em luz
Serena como uma calma sonata.



quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Cantada

Estou te cantando
A canção de uma vida inteira
Dessas que não se esquece a melodia
E se cantarola a letra

Estou te cantando
Como se canta nos dias de festa
A felicidade da colheita
Como se canta a poesia das flores
No início da Primavera
Como se canta a mulher desejada
Dentre as belas a que se faz mais bela.

A última queda

Tro
     pe
çou
e caiu
no vazio
de si mesmo

Q
u
e
d
a
Sem encontrar chão
         
Anjo
                c
                a
                í  
                d
                o
           E sem amparo

Viver é andar passinho por passinho
Para o escuro do último abismo
Em jornada que não aceita recuo

Enquanto em desespero caímos
Compomos em tristeza nosso próprio réquiem
Tétrica canção que encomenda defuntos
Porque morrer é a última queda da vida.



quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Escrevo em rosas brancas

Penso nas rosas brancas que tu gostas tanto
Suas pétalas são folhas de papel a espera de tinta
Onde escreverei de hoje para diante
Doidas mandingas para tirar-me o quebranto
Atirado-me ao espírito por velhas bruxas
Desde a esquecida e dura infância

Hei de colocar nelas algo de teu sorriso
Algo de amor que muito preciso
Porque do escurecido também se faz a alvura
Para isso é bastante um bom alvejante
Desses que limpam a alma por inteiro
E nos fazem leves e nos tornam ternos meninos

Sonhar já não posso sem te sentir no sonhado
Acompanhada das rosas brancas despetaladas
E que ganham todas as cores no cavalete
Para depois enfeitarem teu colo
E no adiante enfeitarem tuas bem feitas pernas
A beleza ornada com o que há de mais belo.


Amor no mercado futuro

Ah! essa mercadoria chamada futuro
Vendida em sinistros mercados
Como se vendem bananas na feira
Transforma o presente em pesadelo

Não, meu amigo, o futuro
Não é uma apólice de seguro
Mesmo porque seguros nunca estamos

Não é um belo plano de previdência
Garantias contra a insolvência
Ou muita grana na poupança

O futuro, meu amigo, é algo condicional
Depende de outro capital, mais humano
Somente o amor rende dividendos

Acumula muito amor e sê perdulário
Esbanja-o, gasta tudo como nunca gastaste
Pois só assim tua fortuna aumenta
E no mercado futuro não te fará falta.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O copo de Baco

Dá-me, Baco
Um copo profundo
Para beber a miséria do mundo
Uma jarra imensa
Para guardar os indiferentes
Que contentes e pasmados
Caminham expondo os dentes
Felizes com essa louca Sorte
Medida em sete palmos
Enfeitados de flores mortas

Quero beber os que já se foram
Os que esperam vez
Os que se julgam eternos
E acumulam
Vaidades e sofrimento alheio
E se esquecem
Que o Silêncio das Eras
É o nome do verme
Que dorme com eles.

Cambaleante

Os deuses estão ocupados
E esqueceram-se deste planeta azul
Que cambaleia pelos espaços
Doente, muito doente
De uma doença chamada homem.

Reserva de mercado

Ah, vida minha
Essa mania tua de desejar perfeições
Não há perfeição nas coisas dos homens
Há apenas arranjos convenientes

O perfeito, o irretocável
E delirante para os olhos
É a magia, é o mistério
Que Deus reservou para si somente.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Como eu cheguei ao longe

Sou de antigo tempo
Que de tão velho
Acho que não mais existe

Havia lá um terreiro
Laranjas e carambolas
Que amadureciam no pé

Um pé de manga sempre carregado
Um cachorro bravo
E um beijo menino nunca dado

Caminhos e carreiros que ao infinito levavam
Da casa dos vizinhos
Até o mundão de goela arreganhada

O sabiá de papo laranja sempre ressabiado
Um tico-tico, beija-flor
E doce de mamão feito no tacho

Um terreiro, sim o terreiro
Que em dias de chuva
Se enchia de barro

Havia sim, meu olhar pela janela
Que ao longe viajava
Sem saber que neste longe eu já estava.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Bilhete de adeus

Não mais
Ver com olhos outros
O eu em eu

Não mais
Crer que este que tu vês
Sou eu

Não mais
Crer que sou teu desejo
Desprezando o desejo meu

Não mais
Viver sob teu querer
Sem os sonhos meus

Não mais
Dizer-me teu
Como quem morreu.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A criança e as borboletas

De vez em quando, em dias de calmaria
É bom dar novo passeio por velhos caminhos
Revisitar antigas sendas, pequenas passagens
Ver o que não foi visto, sentir antigos ares

Haverá por lá, por certo
Uma serra rodeada de nuvens
E uma colina envolta em nevoenta saudade
Projetos sempre adiados
Uma palavra não dita
Um amor não declarado
Uma paixão maldita

E lá longe, já inalcançável
Uma criança perseguindo borboletas
Com o teu rosto ainda inocente
Com tuas pernas cansadas.

domingo, 16 de setembro de 2012

Do pensar

O pensamento nos primeiros passos
É igualzinho a uma criança
De gatinhas cai, engatinha e hesita

Depois dispara em rebelde corrida
Em rebeldia adolescente
Rouba coisa daqui, enfeites acolá

Para mais tarde ser preso
Condenado em libelo sumário
Por único juiz sem jurados

E na sua cela andará de lado a lado
Será respeitável ancião que tudo sabe
Em seus passos lentos e ponderados.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A revolução dos indigentes mentais

Hoje, os homens que odeiam pensar
E que forjaram para si um capacete
Feito do aço do pensamento único
Hipócrita, sem-vergonha e besta
Dizem que há preconceito
Ao se chamar as coisas como elas são
Assim como não é nada educado
O sujeito se referir a costumes históricos
Não admitidos pela atual estado  insólito
Evolutivo desta civilização imbecilizada

Sentados em suas cátedras de beócios
Esses mestres da indigência mental
Ditam cartilhas, códigos e normas
Para esse povo que cai em qualquer lorota
Dizem que é politicamente avançado
Pensar assim e bem assado
Dentro da massa da ignorância

Hoje, estão lá em seus gabinetes
Em suas salas de ar refrigerado
Pagas com o dinheiro suado
Desse povo que querem ajumentado
Barrigudos de tanto comer e beber
Enquanto o populacho passa fome
A física e a do saber

Hoje preparam a fogueira para Lobato
Amanhã para o escritor novato
E depois de amanhã para quem ousar pensar
Espirrar, ou ameaçar pecado
Contra seus dogmas medievais.




Homens de um livro só

Não tema os analfabetos,
Iletrados a mais das vezes por questões sociais.

Tenha receio dos homens de um livro só,
Daqueles que não conseguem viver
Num mundo de liberdades e pluralidade de ideias
E pregam a censura daquilo
Que vai além da ignorância que cultivam. 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Ouve o caracol

Pela manhã, e só pela manhã
Fresca como o orvalho das flores
Captura a alma do que sentes

Depois, faz a tua refeição diária
Preparada com leves essências
Raios frescos de sol, extratos de nuvens

Depois, ouve e observa o caracol
E pensa que o pouco que ele rasteja
É o caminhar de uma vida inteira

Depois, escuta o teu coração
E medita que o seu bater constante
É a magia que cadencia teu espírito

Depois, com a serenidade desses elementos
Com a alma das coisas dentro de ti
Vive cada hora imensa e intensamente

Depois, lembra-te sempre
A única eternidade que conhecemos
Acontece nesta manhã e é o agora.

 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Sonhos e magia

Das geometrias dos sonhos
Seus oníricos teoremas infinitesimais
Não sei muita coisa
Aliás, sei bem pouco
Porque estou sempre aprendendo
E com enormes dificuldades

É que a escola dos sonhos
Tem maus professores
Relapsos mestres
Que ensinam pela metade
Porque das névoas sem densidade
Eles também pouco sabem

Abjuro científicas crenças
Nego-as três mil vezes
E busco a sorte cunhada nas estrelas
Que falam em línguas mortas
E mostram-me os caminhos
Dos antigos magos
Submissos a alquímicas fórmulas
Ao descreverem essa realidade
Nada real, posto que é mágica.


sábado, 8 de setembro de 2012

Meu coração renasce

Cariño
Que fazer dos anos perdidos
Desprovidos de tua aura
Em que somente sentia a tua presença?

Talvez, transforme esses anos em esquecimento
Algo ruim para se olvidar
Porque meu coração renasce neste momento
E os anos que me importam
São só os que me restam, os que virão
E certamente sem as antigas penas
Bem junto a ti.

Cariño
Há um limite no sofrer
Passamos dele
Agora, que tal começarmos a viver?

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Quisera só falar de amor

Quisera só falar de amor
De interior sentimento
Que não se faz parto
E que não se retira de dentro do peito
Em dor aguda
Como se fosse um dente são
Arrancado sem preparativos
E sem a piedade da anestesia

Quisera cantar a flor
E jamais a sua decadência
Que vai da bela e fresca cor
Para a putrefata murchesa
Sobre o próprio galho
Até servir de pasto aos insetos

Quisera ser poeta das coisas leves
E carregar um fardo de penas
E falsamente dizer aos que meu canto ouvem
As falsidades de um feliz poema

Quisera, cariño meu,
Que só você existisse neste mundo
E que todo o resto fosse somente isso
Resto
Coisa que de tão ruim
Não merecesse um único verso

Quisera... Mas, sou poeta
E meu coração me inquieta
E rumino esses males
Como quem chafurda os próprios excrementos
Para deles aprender como se faz
A natural transformação do que não presta
Em coisas tão sublimes como as rosas
Que se alimentam dos cadáveres da terra.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Paleta do dia

Não escolhi a cor da tinta
Para pintar este meu dia
Talvez, um amarelo ensolarado
Mesmo que chova
Ou azul de cerâmica portuguesa
Forte, anil mesmo
Ou a paleta de todas as cores
Juntas e misturadas
Numa aquarela digna de doidos
Não importa
Meu dia, para ser um belo dia,
Tem que ter cor
Para dar fundo ao vermelho
De teu rosto
Quando no riso
Teu rosto cora
Tem que ter uma cor assim, inesperada
Que cante uma melodia
Afinada com a luz de teus olhos.

 

sábado, 1 de setembro de 2012

Quando os anjos te procurarem

Oi!
É Claro que ainda estou Vivo
Se não mandei notícias antes
Contando tudo Tim-Tim por Tim-Tim
É porque havia uma sobrecarga
Nos meus circuitos neuronais
E outra maior ainda
Nas companhias telefônicas
Que adoram me colocar mudo
Adivinhando do Silêncio
O pensamento do mundo

Mas fique triste não
Porque desenvolvo nova máquina
Aparelho de falar
E que leva mensagens
Por meio de mágicos anjos

Presta atenção
Porque eles falam baixinho
Sem amplificações elétricas
Para o teu coração

Eles vão te encontrar em sonho
E devem te comunicar
O quanto estou sozinho
E que a minha saudade
De ti, cariño,
É Mega, é Giga, é baita.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Sol, mãos ao alto!

Rouba os raios do Sol
Na manhã que nasce
Como se não existissem
Outros amanhãs,
Pois este amanhecer é único
Assim como únicos são teus dias

Não caia na habitual mentira
De que tudo é igual
Em torturante rotina
A repetição está no relógio
Coisa mecânica,  coisa sem sangue,
Tua vida não se repete
Tudo é novo a cada instante

Rouba os raios do Sol
E ensina a outros a também roubá-los
A este furto Deus nunca castiga
Porque não é pecado
Desejar luz nesta caminhada

Rouba e os guarda no coração
Para iluminar outras almas
Para dar alento e luz para quem precisa
E que normalmente ignoramos
Porque no escuro quase sempre andamos
E assim não notamos quem está ao lado.


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Quando os ipês florescem


Foi exatamente no dia em que os ipês floresceram. Lembro-me, doutor, que as ruas estavam ladeadas por colunas amarelas e as pessoas nem se davam conta – quanta gente abestada, meu Deus! Creio que para boa parte das gentes, as paisagens não passam de pano de fundo para continuidade mecânica intercalada no intervalo que vai do nascer ao morrer. Entre um ipê e outro ipê, entre um passo e outro passo, ignoramos o relógio natural a marcar brevidades.

Perdoe-me a ansiedade, mas destas coisas que lhe digo e me custam memória, assustadora foi a que veio. De repente aquela vontade de caminhar. Enforcar o trabalho. Ignorar agendas. Não pensar em nada além de minha própria vontade de caminhar. Joguei o telefone celular fora. Desci a rua de casa, parei um pouco na banca de jornal e pela primeira vez, em anos, não tive interesse nas manchetes. Continuei a andar. Respirava fundo: brincava de guardar o ar nos pulmões pelo máximo tempo possível. Coisa de criança, sei disso, doutor. Mas que prazer me fazer criança assim, respirando apenas. Certo, fiquei tonto. Mas não liguei. Continuei caminho e guardando ar.

Perambulei por horas. Dei conta disso pela quantidade de suor em minha camisa. Resolvi tirá-la e descalçar os sapatos. Assim, sem querer chegar, cheguei a um bairro no qual nunca antes estivera. As pessoas eram-me estranhas e nas ruas já não havia um único amarelo dos ipês. Aliás, eu não via por ali árvore alguma, verde algum. Apenas gente e concreto. Fiquei um pouco preocupado. Em que raio de lugar, afinal, estaria? Mas, resolvi continuar, meus pés me obrigavam a isso. As preocupações se dissipam no andar depressa e aparentemente sem rumo. Tenho essa crença, sim senhor.

Ao longe avistei uma longa fila. Todos aguardavam entrar num prédio velho e acho que abandonado. Perguntei ao último da fila a razão daquilo. O homem, de rosto cúbico e olhos sem vida, nada disse. Ignorou-me. E a mesma coisa se repetiu com mais três ou quatro seres geométricos aos quais repeti a pergunta. Nada.

O senhor sabe, doutor, a curiosidade é a pá do coveiro e move o mundo. Eram centenas de pessoas sectárias da ordem e silêncio a fitar nucas. Seguíamos rápido, logo entrei no prédio. O contraste da luminosidade me deixou cego por alguns segundos. Na rua, há pouco, o sol brilhava. Meio-dia talvez? Demorei um pouco para me acostumar com a penumbra e, instintivamente, segui a nuca da pessoa que estava na minha frente.

O corredor marrom-cinza fazia-se estreito. O ar era pesado e viciado. Um cheiro de mofo ardia nas narinas. Ninguém falava nada. As pessoas fitavam nucas como se estivessem olhando para uma parede de chumbo. Emoção nenhuma. Transe puro. O corredor ficava cada vez mais escuro. Estreito. Mas logo chegamos a uma sala enorme. Sem janelas. De contato com o mundo exterior somente aquele túnel mofento pelo qual havíamos chegado ali. Mofo. Calor. Centenas de pessoas esperando. Esperei. Mesmo porque não dava para voltar. Esperei.

Depois de algumas horas, minutos, sei lá - pois os escuros guardam o estranho costume de esconder o tempo -, uma moça puxou-me pelo braço. Esforcei-me para ver o seu rosto. Parecia-me familiar. Morena, talvez. Bonita, talvez. Talvez a minha corretora de seguro. Senhorita pudica por inteiro. Ou a vagabunda do puteiro Real. Sei não. Dei-lhe o braço e fui guiado para o canto oposto ao que estávamos. Entramos depois numa espécie de porão estreito. O cheiro de mofo aumentava junto com a escuridão. Ela agora andava abraçada a minha cintura e me direcionava pelo labirinto. A certa altura paramos. Num tempo, que de tão breve não se conta e que de tão eterno não se esquece, ela beijou-me. Tirou a roupa. Abraçou-me. Desapareceu. Mudo e tonto, levei algum tempo para me recuperar do susto e do prazer inesperado. Refeito, tornei-me desespero. Precisava sair dali. Comecei a correr pelos escuros até encontrar uma portinhola. Ganhei a rua e vi que não era a mesma rua pela qual havia entrado no prédio. Olhei para o Sol: cego, respirei em alívio e tornei a caminhar sem rumo.

Neste ano, doutor, dois passados após esses acontecimentos, os ipês floresceram antes da época. Ainda estamos no inverno e as ruas são escorregadias com tantas flores espalhadas pelo vento. Não me julgue leso somente porque uma vez por semana entro na fila do prédio do corredor mofado. Espero. Há de se encontrar prazer nisso. É a espera que nos faz vivos.

O homem da cara cúbica é meu amigo. Pelo menos assim eu acho, pois no seu olhar, sempre a guardar a nuca da frente, brilhou a vontade de um dia conversarmos. A moça? Sim, doutor, nunca mais encontrei-me com aquela moça que talvez fosse morena. Encontro nesses dias outras mulheres. Todas parecidas com alguém que conheci em minha vida. Mãe, minhas irmãs, colegas de escola, antigas namoradas, freiras do colégio... Entretanto, não são quem imagino que sejam. Porém, na dúvida, jamais permito que elas repitam o beijo, ou ainda se dispam, como fez aquela moça que talvez fosse pudica ou vagabunda. Não sou dado a incestos, sacrilégios. A fidelidade faz parte do meu caráter.

O mofo já não me incomoda. Treinei muito para não respirar durante a travessia pelos corredores do prédio. Passo tempo sem inalar um único grama de ar. Doutor, sinto que os ipês aprovam esta dose extra de oxigênio que lhes ofereço. Agradecidos, eles me dão em troca flores fora de época e, em exuberâncias, me fazem menos penoso este caminho quiçá finado em longa espera.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Segunda-feira cínica

Segunda-feira cínica, trânsito pesado,
Motoristas com cara de dor dente,
Olho a cínica paisagem da cidade:
Prédios, lixo, favelas, indigentes, alienações.
Quanto cinismo pode haver num homem
Para que ele aceite tais aberrações
E ainda dê a isso o nome de vida?

domingo, 26 de agosto de 2012

A piedade de tuas mãos

Tuas mãos em cirurgia de urgência
Tiraram-me do peito o coração
E ao recortá-lo fizeram-me susto
Pois dele saíram coisas ocultas
Fingidamente esquecidas
E nos meus lábios mudas.

Tuas mãos, que poder têm as tuas mãos,
Deus meu!
Finas, cativantes e ágeis te explicavam
Em cada lembrança infantil,
Roubando manga,
Pulando muro,
Nadando no rio. 

Enquanto a noite se adiantava
Em frio, em escuridões.
Tuas mãos, que pintam tua alma
Em delicadeza na tela de quem vive,
Por que quiseram também pintar
Os antigos temores, em piedade,
Deste agoniado peito meu?


sábado, 25 de agosto de 2012

Armstrong pisou meus sonhos

Aos seis anos de idade
O mundo se forra de heróis
E assim fica dividido
Entre mocinhos e bandidos

E foi, em 1969
Com esses mortais
E hoje míopes olhos
Que vi pela TV em P&B
O homem ganhando a Lua
Numa Epopeia difícil
De explicar nesses modernos dias

Foi o primeiro grande feito
Da humanidade cantado
Pela publicidade do rádio
E com imagens instantâneas

Colecionei figurinhas,
Bótons e peças de propaganda
Em que meus heróis
Eram Aldrin e Armstrong
Este o maior de todos
Porque foi o primeiro
Dentre os primeiros
A marcar seus pés fora desse mundo
Que já por aquelas épocas
Claudicava em caduquices

Aos seis anos eu já tinha a cabeça na Lua
Hoje ainda tenho a cabeça além das nuvens
E rendo homenagem a Armstrong
Por ter pisado no solo dos meus sonhos

Hoje, verdadeiramente, Armstrong alcançou as estrelas
Traído por um coração que muito viu
Sem foguete, sem máquinas, apenas por destino
Que é o destino comum a todos os homens
Fado que se cumpre sem companhia
Porque os astros nos pedem em solidão
E sem as glórias dos mortais heróis, dos semideuses.

Aos internautas poéticos

Temerários viajantes em naus elétricas
Não procurei aqui respostas exatas
Exatidões matemáticas, teoremas vivenciais
Receituários de ajudas impossíveis

Procurai sim, aqui, nesses meus versos
A dúvida que santifica o homem
Quando ela se faz apenas rito de fé

Procurai e encontrai aqui
Essa medonha vontade de pelejar
Contra o que já nos venceu
Desde o primeiro berro no berçário
Ao abandonarmos a madre entranha

Procurai e encontrai aqui
Tudo aquilo que nos faz tão humanos
O respirar com algum sentido
Muitos amores perdidos
Inexplicações inexatas
Saudades em toneladas medidas

Procurai, caros marinheiros dos elétrons,
As vossas consciências nessas linhas
E as medi e as comparai com a lira minha
Que é o canto daqueles que na vida teimam
Porque viver é um belo ato de teimosia. 

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Ilustração: Théodore Géricault - A Jangada da Medusa, 1819

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Ramo de arruda

"Menino, vá se benzer!", mandavam-me.

E o benzedor, preto e velho,
Morava numa casa de madeira
Lá no fundo de um enorme quintal
Simples, simples de dar pena.

Na sala, imagens santificadas,
No canto, uma velha moringa,
Água para deixar bento
Tudo que andava errado.

Na mesa, sem toalha, sem comida,
De madeira bruta e desnuda,
Um ramo de arruda
Para tirar quebranto.

E eu, criança de tudo,
Acompanhava com curiosidade
A ladainha que o homem rezava
Ao falar sinceramente com Deus.

E eu, restrito ao silêncio meu,
Buscava lógica naquele ritual
Que me deixava tão bem,
Tão em sintonia com as coisas do Céu.