quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Dolorosa via

Não importa o caminho
Todo caminhante nesta vida
Chegará em exatidão
Ao encontro marcado
Mesmo que nos neguemos
A andar, a seguir adiante
E passemos a vida dormindo
Amarrados ou sentados

A vida nos empurra
Com a chibata do tempo
Na cadência do relógio
A nos rasgar a pele

Seguimos macabra procissão
Com os pés descalços
Sobre pontiagudas pedras
Com nossas cruzes
E coroas de espinhos
Em via dolorosa
Calvário acima
Onde nos aguardam
Os afiados pregos
Encomendados à eternidade
Interrompida no último estalo
Do tempo que nos escapa.

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Ilustração: Cézanne

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Natal dos patifes

No Natal, até mesmo alguns grandes patifes têm por míseros segundos a caridade no coração. Vaidosos, transmitem pela televisão, avisam pelo rádio e publicam no jornal magna e repentina vontade de ajuda ao próximo, desde que isso lhes renda o marketing que irá arrancar fingidas lágrimas de solidariedade dos hipócritas e suspiros de esperança nos desgraçados.

O pó das pedras

Fútil e convencional
Tu andas pelas ruas
E a realidade te fere
Como agudo punhal
Estás pronto, pronto
Pronto para morrer
De medo e susto
No próximo minuto

O céu descolorido
Por certo não irá
Ao teu sepultamento
O céu descolorido
Não gosta de estúpidos
Fúteis e convencionais
Em susto e medo

Há um ódio neste céu
Tremendo ódio
Deste céu por ti
Há desprezo descolorido
Desdém guardado
Deste céu por ti

O relógio te esquece
E o tempo te cobra
Os minutos por ti
Jogados fora
Como inútil e fina areia
Em infinito deserto
Tão farto do pó das pedras

Até este minuto
Que te é o último
Cheio de fútil susto
E convencional medo
Ele te pede de volta.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Fim do mundo

Manhã de Sol morninho prometendo calor de Verão. Vento suave, indo e vindo. Ao longe um chamar de passarinho... É meu amigo, essas coisas embrulham a vida em pacote de presente... E quer saber, acho que este mundão nunca acaba não.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Reflexões - Deus e as religiões

I.
O problema do ateu, aquilo que o faz ateu, não é Deus em si, mas o uso que os homens fazem de Seu nome.

II.
Amor e tolerância deveriam ser as palavras a nortearem qualquer tipo de religião que objetive a paz entre os homens. Do contrário, é isso que estamos vendo, ódio, guerras e o inferno sobre a Terra. É impossível aos sensatos, mesmo que em esforço de fé, o credo num Deus que não ama e tolera.

III
O Deus utilitário e disponível para qualquer coisa e desejo, ora numa súplica de vingança, em prece de ódio, ora para justificar uma guerra, não é Deus. Ele não se prestaria a essas coisas forjadas em doente egoísmo e que determinam a barbárie.  

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Cataléptico eufórico

Preciso da sanidade dos loucos
De suas certezas inexistentes
Cansei-me da loucura correta
Quero a loucura incerta

Não mais obedecerei a horários
E farei meu próprio calendário
Composto de dias sem noites
E com noites sem dias também

Vou misturar em mim, em ti, tudo
Leite, manga e melancia,
Crendices com filosofia
Euforia com catalepsia

Serei do avesso o contrário
Do contrário o avesso também
E quando ouvir de ti louco grito
Gritarei aos teus ouvidos amém

Quero sim a loucura
Que enche nossos doidos olhos
E neste mundo louco
Quero ser louco também.

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Ilustração: "A nau dos insensatos" - J. Bosch

(1450-1516)



quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Mãe

Quando dei por mim já vivia triste
Em criança, com três ou quatro anos
Já sentia estranhas saudades

Tinha saudades de minha mãe
Embora só a recordasse até os joelhos
Pois, além não alcançaram meus olhos

De resto, das saudades de minha mãe
Sobrava-me um rosto que inventei
Muito branco, de um severo que sorri

Ela vestia-se com um vestido colorido
E tinha em suas mãos inventadas e lisas
As minhas em tremor sempre suadas

Lembrava-me de todas suas histórias
Que, por sua falta, eu também inventara
Lidas com carinhos em noites temerosas

Sim, a ausência de minha mãe logo cedo
Fez-me amar a poesia que tudo pode e inventa
Inclusive uma mãe da qual não se tem memória.

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Ilustração: Mãe com filho doente - Picasso

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A música que vem de longe

Estranha noite. Os cães não ladram. Um quase silêncio de mistério no ar. E lá do alto do morro, da casa da louquinha que fugiu do hospício, escuto bem baixinho uma música de Wagner.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Enganos do silêncio

Engana-se quem pensa encontrar o puro silêncio na noite ou no próprio sono. É nesses momentos de aparente tranquilidade que a nossa consciência trava um grande debate conosco e geralmente aos berros, na vã esperança que um dia nós a escutemos.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Peso nas costas

Não meus amigos, não são os anos que nos pesam e nos deixam com as costas curvadas, com os braços quase ao nível do chão, num arrastar como veteranos macacos. A injustiça sim, nos pesa. E pior, junto com a injustiça, é-nos demasiado peso essa percepção de que pouco fizemos para acabar com tudo que nos fez insanos dentro da insanidade.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Vou com a ventania

Vontade de sumir na ventania
Sentir no rosto o vento forte
Como as andorinhas
Fugir por uma fresta do mundo
Rasgar o céu
E ver lá do alto a Terra distante
Com suas maldades
Com seus descontentamentos
Vazar a cortina do firmamento
Ver o outro lado
Sentir o vento que lá venta
E abraçar aquela estrela
Como se abraça um amor distante
E que nunca mais mandou notícias.


Corpo fechado

Sou bento sim senhô
De corpo fechado
Pelo benzedô
Benzido com água benta
Com a alma abençoada
Pela Santa Virgem
Senhora da boa morte
E dos bons caminhos
Lá em Aparecida do Norte
Sim, respeito de um tudo
Praga de madrinha
Olho gordo, coisa feita
Mas respeito mais ainda
Reza das bem brabas
Sem salamaleques
Sem ladainhas
E que me guardam
Todos os meus dias.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Riso à toa

Amanheci no um sorriso besta no rosto
Sonhei, por certo, algo bom
Sei lá o que sonhei, não lembro

- Só consigo lembrar de pesadelos -

E rio, rio à toa, o riso dos tolos
Que riem de tudo sem saber
A razão do riso. Riem, apenas riem
Porque diante dessa tragédia
Que chamamos vida
Só nos cabem o escárnio
O riso dos bobos e dos imbecis.

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Ilustração: The court jester, obra do pintor norteamericano William Merritt Chase (1849-1916), que mostra as travessuras de um bobo da corte

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Nome às estrelas

Desejo enorme de não ser deste mundo
Quisera, sei lá, ser de outra galáxia
Num planeta que orbita dois sóis
Com praias infinitas e ventos tranquilos

À noite, olharia para as várias luas
Contaria estrelas dando-lhes os nomes
Daqueles que meu ombro abraçam

Lá, cada dia duraria séculos
E meus amigos seriam eternos
E cantariam sempre, compondo
Canções que falassem apenas do encontro

Ou acalantos para um deus menino que dorme
Jamais canções em acordes menores
De tristeza, de distanciamento dos que morrem.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Dona Chica

Sabe aqueles poeminhas
Cantados em canções de roda
Com gatos espancados
Para espanto da Dona Chica?
Pois é, há neles verdades
Que hoje abominamos
Ensinar às crianças.
E por tal razão
Elas crescem tolas
Acreditando que a vida
Pode ser resolvida
Com controle remoto
Ao se apertar um botão apenas.

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Ilustração: "Roda infantil", Portinari.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Picada de aranha

Meu Deus, tanta aranha
Que desejo neste mundo,
Das rubras, negras, loirinhas,
Até as sem pelos, lisinhas,
E logo me deste uma marrom!
De braço inchado pelo veneno,
Pobre e endurecido membro,
Vou urgentemente ao médico...
Mas, Senhor, e as outras?

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Humano

Sois sangue, sois animais
E a história da civilização
Nada mais é do que a tentativa
De negar tão primárias verdades

Por isso, odiamos
Por isso, maltratamos
Por isso, matamos
Por isso, fazemos guerra

Por isso, somos a morte na tocaia
Com nossos caninos limpos e escovados
Com nossas garras de unhas aparadas
Carcarás de panos vestidos a farejar carniça.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Amor inexplicável

Como eu te quis! Como te quis, infeliz criatura
Houve um momento nos meus dias cinzentos
Que ao despertar do sono, ao abrir os olhos
Em mim nada mais cabia além de tua imagem

Foi um amor de se viver abestalhado e anêmico
Não me cansava de ti, de tuas manhas
Ficava sem comer, ficava triste sem te ver
Amei-te exageradamente, desesperadamente

Hoje olho a tua fotografia e tento achar razões
Para tantos desatinos do coração adolescente
E estranhamente não sinto saudade de ti

Tenho saudade apenas de estar apaixonado
E por isso guardo com carinho a tua imagem
É ela que me lembra que o amor é inexplicável.

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Ilustração: Paquera na janela, José Lutzenberger   

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Minha luz procura teus olhos

Sou Diógenes desesperado revirando barris
Num imundo porto qualquer
E nas minhas mãos carrego velha lanterna
Para fazer-te luz nos olhos
Para ver o teu rosto infeliz

Não procuro verdades, há engano nisso
Poetas não querem verdades
Somente os cínicos desejam essas excrescências

Eu, poeta, quero apenas o sonho que em ti habita
Aquele sonho que tu esqueceste
E chama-se hoje irrealizável

Veterano sonho
Posto numa prateleira antiga com a inscrição
"Coisas que me fariam feliz e não dei importância"
Sim, sou tua consciência que chora o não feito

Sim, sou o anjo-demônio que te faz dormir
A lembrar daquilo que tu eras
E hoje não é mais. Nem em luz ou sombra.


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Ilustração: Diogenes sentado en su tinaja. Jean-Léon Gérôme (1860).

A luz e o sonho

Desde criança sempre soube 
que as coisas eram muito mais 
do que aparentavam. 
Na juventude, descobri que a luz branca 
era na realidade a soma de várias cores. 
Hoje, quando falo com alguém, 
tento sentir sua alma, 
para ver quantos sonhos ela tem. 
Não há luz sem cor, não há alma sem sonho.

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Ilustração: Mulher com um Chapéu, de Henri Matisse, 1905

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Poema inacabado

Um dia saberás que aquele poema torto
Tinha o endereço dos negros olhos teus

Aquele frio poema que já nasceu morto
Cheio de curvas barrocas e rimas cruzadas
Foi para ti e para nosso amor nascido capenga

Tinha lá um certo toque de doce ilusão
Falava, por certo, do incerto coração
Manso em suas linhas, nervoso em vontades

Talvez, se tivesse me esforçado
Teria contigo vivido e casado
Sim, teria dado por terminado
Numa contrariedade de dar pena
Aquele torto e maldito poema.


.

Rara

Rara,
Tu és da minha luz
A claridade

Do meu deserto
O fresco oásis

Nos meus dias
Minha alegria,

No meu viver
Minha vontade.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Canção da Lua

Amanhã, essa imensa Lua
Vai continuar seu destino
A fazer a noite após o dia
Amanhã, essa Lua
Que me viu cantar
Coisas de amor e saudade
Escutará outras canções
Talvez não minhas
Porque posso faltar
E ser também saudade
No seu caminho feito de poesia
Estrada de prata no firmamento
Aberta por poetas miseráveis.
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Ilustração: Paisagem com lua cheia - COELESTIN BRÜGNER

D'ocê

Saudade medonha d'ocê
No meio da tarde

Sem dúvidas
A chuva da manhã
A fez florescer, Saudade,
E ficar tão grande assim.

sábado, 17 de novembro de 2012

Relógio antigo

Esperei-te olhando para o Céu
Limpo, limpo em sua escuridão
E a Lua em quarto crescente
Contava comigo as horas
No relógio parado e fora de moda
Antigo como eu, sem forças, sem corda.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O que Páris ensina

Para Carla Meira Scheffer
Meus bons poetas e bons amigos
Encantaram-se com o fígado inchado
Levaram daqui o álcool
Combustível para divinos versos encantados
Cantados pelos querubins

Para eles, talvez
Morrer bêbado
Com os sentidos entorpecidos
Seria a única morte heróica
Embora suicídio

Mas, na minha lira tenho que dizer
Que há causa melhor pela qual vale morrer
Nesse mundo que é sofrer em desencanto
A cada minuto, a todo momento

Morrer de amor
Como nos ensinou Páris
Ao amar desesperadamente Helena
Ainda é a única morte
Que para o homem vale a pena.

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Ilustração: Enrique Simonet - El Juicio de Paris - 1904

Soneto para o amor que dorme

Esses mansos versos que nascem na meia-noite
Vão para ti como a mansa brisa vai para o mar
E alcançam teu colo, teu respirar cadenciado,
Tua brancura nua sobre o rosa da rede rendada

Ouve o riscar do lápis sobre o pardo papel
A cantar a louca e breve felicidade dessa hora
Que se faz canção risonha e que por fim chora
A proximidade das incertezas do alvorecer

Dorme porque a vida é desilusão e cansaço
Sonha alegre, poisque o sonho é vida verdadeira
Não acordes, a realidade é do sonho o pesadelo

Contenho o choro que me chega neste momento
Ele vem arrastado pelo tempo que a tudo devora
Até esta tua nudez que hei de guardar na memória. 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Soneto para quem luta

Trago um fuzil em que as balas são as palavras
E que, calada, a baioneta é feita de agudos versos
Tenho sempre na alça de mira os que exploram
Os homens que vivem do abuso sobre outros homens

Faço-me assim então guerreiro solitário
Franco-atirador a espera de vítimas
E são tantas as que cruzam meu caminho
Que temo um dia me faltar a munição

E em noite em que urra de fome o meu povo
Na solidão das ruas geladas e sem teto
Faço-me sentinela das suas poucas esperanças

E na manhã, antes do Sol no horizonte ereto
Levanto-me e vou à guerra para denunciar
Esse horror provocado por quem rouba e mente.




segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Luísa

Aos 14 anos, Luísa sumiu
Dizem que fugiu
Ainda com o uniforme do colégio
Pulara a janela
Outros dizem que foi roubada
Era adotada
Quem iria notar e sentir falta?
A mãe postiça
Ficou sentada na varanda
Na Vila Operária
Engordando e se alimentando do nada
E hoje, depois de mais 40 anos passados
Quando o Sol escurece
Na varanda da casa abandonada
Um vulto enorme de sofrimento e saudade
Pode ser visto esperando Luísa
A colegial de olhos azuis
Que nunca mais deu notícias.



sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Almas

As dores e as alegrias
Das almas que, a contragosto
Já abandonaram este mundo
Somam-se em nós

Somos seus olhos
Que um dia viram
Essa realidade duvidosa

Somos seus ódios
A ira por não se saberem de fato

Seus amores e desejos
E seus medos de viverem sós

Um dia seremos assim também
Somente almas
Que por esta Terra vagaram
Em dúvida e desespero.