segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Alfaiate de retalhos


Para Irisbel Correia
Trago o coração em retalhos
E grande vontade de juntá-los
Num enorme manto
Costurado com pontos curtos
Com fortes fios sintéticos
Com as duras linhas do tempo

Para tal, preciso dos alfinetes
Espetados no rasgado peito
Juntando pano com pano
Couro novo com a nova pele

Preciso da velha agulha
De alfaiate
Nalgum canto de mim
Esquecida

Vou juntar a esse pano a se tecer
Às antigas costuras de mau começo
E abandonadas
Por preguiça e desânimo
Incompreensão e orgulho

Terei assim colcha reformada
Cosida com as cicatrizes
De tantos amores
Que me ocupam a memória
Senil e falha.

Porém, será uma colcha triste
Pois não terá o colorido aleatório
Dos sentimentos todos
Vivos, inteiros e meninos

Será apenas a última mortalha
Que em derradeiro ato de desespero
Em louca e confusa costura
Tenta reviver o vivo das estampas várias
Que em retalhos desbotaram comigo.


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Aos jovens

Vivam e vivam o máximo possível
Pois haverá tempo na vida
Que viver será ato pesado
No enterrar dos velhos amigos
Até que nos enterrem no passado.

Verônica

Para Verônica Inês Seelaender 
Saudades dos mares e oceanos
Verdes como os olhos de Verônica
Salvadores como o manto de Verônica
Aqui, em terras frias e distantes
Hei de contentar-me com isso
Saudades apenas desses verdes vivos
Em algum relicário no peito guardado.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Os versos que minh'alma há cantado

Certo como em radiante dia
O Sol se põe no horizonte
Em algum momento, cansado
Devo me despedir e apagar-me
Porém levarei comigo
Certo gosto da eternidade
Pois os deuses me deram por sina
Talvez duro castigo
A lavra de poemas, a poesia
E assim, em velhos livros empoeirados
Alguma alma vivente
Depois de séculos passados
Há de encontrar inutilmente
Registrados
Os versos que minh'alma
Há cantado
Lá certamente estarei vivo
E aqui, morto e enterrado.

Marcha do granito


Ah! Corações de pedra
Ah! Calçada de granito
Curitiba não é cega
É do povo, é da gente
E não só dos ricos.

A rua dos piás de prédio
Feita com liso granito
Quem teve essa ideia
Própria de um jerico?


Ah! Corações de pedra
Ah! Calçada de granito
Curitiba não é cega
É do povo, é da gente
E não só dos ricos.


Avenida do Batel
Feita de fino granito
Faz minha alegria profunda
Ao ver os bacanas aflitos
Em ti quebrando a bunda

Ah! Corações de pedra
Ah! Calçada de granito
Curitiba não é cega
É do povo, é da gente
E não só dos ricos.

Conselhos poéticos aos médicos

A poesia é o motor do pensamento
Que nos fala na linguagem dos sonhos
E traz em si a frequência de corações
Que batem descompassados, vivos

(Médicos, cuidado, não queiram constância
No bater dos corações dos poetas!
Os comuns eletrocardiogramas
Não nos servem!)

O cardiógrafo dos poetas é o verso
É nele que se registram as síncopes
E nossos ataques cardíacos diários

(Médicos, cuidado, não nos tratem
Não nos curem da doença do verso
Poeta só se faz vivo
Com o coração ao infinito acelerado!)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Visitas para dias tristes

Melancólico dia
Cinza, cinza e frio
Feito para visitas
De amores antigos
Antigas vontades
Sonhos esquecidos
E infinitas saudades.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A mulher que limpava o mundo

Rosália sempre sorria
Miseravelmente pobre
Escancarava a gengiva
Porque não tinha dentes
E Rosália gargalhava
Juntava restos na feira
Bugigangas nas ruas
E feliz sumia ao anoitecer

Um dia Rosália desapareceu
Sem recado e de verdade
De repente, na rua vazia
Na feira cheia de entulhos
A miséria ficou feia
Todos então notaram
Que Rosália fazia falta
A mulher que sorria
Enquanto fazia faxina
E limpava o mundo.
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Ilustração: Estudo da Mendiga - Almeida Júnior (1899)

domingo, 6 de janeiro de 2013

Sentenças & Constatações

I
Não leia certos filósofos e poetas aos 18 anos de idade. É capaz de você virar gente, e isso é muito perigoso neste mundo cheio de primatas que ainda não desenvolveram minimamente o cérebro.

II
Deus meu, como os governantes são sensíveis a críticas! Se fossem modestos, humildes mesmo, não errariam tanto. Sinto dizer, meus caros, o rei está nu!

III
Em todas as línguas o verbo "ser" é irregular. É que os antigos sabiam aquilo que tentamos ignorar, a vida para ser bem vivida não admite regras.

IV
Todo mundo deveria aprender a atirar. Assim, se ficaria sabendo o estrago que pode fazer uma arma de fogo e que não é uma boa ideia tê-la em casa, principalmente com crianças.

V
Respeite quem fala "nós fumu". Essa pessoa só está recuperando a antiga conjugação do verbo ser (sum) em latim. Na segunda pessoa do plural do pretérito perfeito, os romanos diziam "fuimus".

VI
A caridade é uma virtude quando só o caridoso e quem a recebe têm consciência dela. E a caridade revelada é o marketing da vaidade, o pior dos pecados.

VII
Digo para a infeliz que ela tem a beleza de Helena e a maldita me pergunta em que novela Helena de Troia trabalhou. Não dá para ser poeta nesse mundo povoado por tatus.

VIII
Jornalista, advogado e a vaidade no meio, assim começa o inferno.

IX
Os burocratas deveriam ser proibidos de inventar palavras novas em nossa língua: "desaposentadoria" e "desaposentação" são o fiofó do tatu fuleco escancarado como gaita de gaúcho!

X
Há uma teoria da conspiração que aponta o câncer em líderes da América do Sul como sendo obra da CIA ou coisa que a valha. Pode ser, mas é fato que a morte sempre conspira contra quem vive, líderes ou não, essa é a verdadeira conspiração.

XI
Acidente quando se repete todo mês, todo ano, já não é mais acidente, é descaso, é omissão, é a certeza da incompetência de nossos governantes.

XII
O cara que deu o título de "cidade sorriso" para Curitiba era um tremendo gozador!

XIII
Toda vez que ouço uma nutricionista falando, penso que o homem está neste mundo para passar fome.

XIV
Existem pessoas que adoram estragar festas e para sempre. Principalmente aquelas que se encantaram em antigo Ano Novo - Encantamento, novo significado para o que desaparece e não mais é, de acordo com Guimarães Rosa; de acordo com as duras leis da vida.

XV
Não há lugar melhor para o ridículo se manifestar do que as festas e bailes de final de ano das empresas. Sempre vai ter um grande zero a esquerda homenageado, um puxa-saco para ocupar o microfone, música horrorosa e falsos tapinhas nas costas de grandes canalhas. Sem contar o estagiário que toma um porre e imediatamente começa a pensar que é o diretor-geral dando em cima até da estátua do pátio da empresa.

XVI
O deslumbramento com o cargo, a vaidade expressa no marketing fajuto e a capacidade de se inebriar com falsos elogios dos puxa-sacos, são os elementos que determinam o início de um mau governo e seu fim prematuro.

XVII
Todo vegetariano chato deveria mandar o dentista extrair-lhe os caninos. Sem anestesia. Assim poderiam negar nossa natureza com mais eficácia. A carne, meus amigos, é o capim transformado de acordo com as leis do bom Antoine Lavoisier.

XVIII
Quando esse povo vai aprender que Junior não é nome e sim adjetivo que indica nome igual ao do progenitor e que Neto também não é nome, é a qualidade de quem tem o nome do avô?

XIX
Ó preguiça, tu que nesta manhã sonolenta de sábado me visitas, vai até a geladeira e traz-me uma cerveja e uma boa porção de azeitonas e linguiça.

XX
Tanta imperfeição no mundo, meu Deus! Já mandamos naves espaciais à Marte mas ainda não conseguimos fazer as roupas irem sozinhas para a máquina de lavar. Humanidade atrasada!

XXI
Proibir, regular, regrar, entre outros do mesmo naipe, são verbos que têm em si a censura. A liberdade de pensar é para o homem seu patrimônio inalienável. O bom combate no campo das ideias não é estabelecido no proibir de se pensar assim ou assado. O bom combate está no debate até mesmo de ideias equivocadas. Ao se raciocinar sobre o equívoco é que se estabelece a verdade. Censurar é proibir que a verdade aflore.

XXII
O médico me diz: "sua miopia continua progredindo". Olho para ele sem ver e respondo: "obrigado doutor, fico feliz ao saber que algo em mim alcança progresso!"

XXIII
Boa parte dos alunos não entende Física, Química e Matemática, porque não sabe ler e interpretar os enunciados. Ou seja, antes de tentar ensinar números, ensine as letras.

XXIV
Essa divisão maniqueísta entre o bem e o mal é confundida pelos grouchos-marxistas com dialética e daí nasce essa massa de manobra que se diz "esclarecida" por defender grandes pulhas.

Santa Casa de Misericórdia

Havia uma casa de misericórdia
E era chamada de santa
Ali chegavam de terras distantes
Os desvalidos
Os enfermados
Os irremediados
Com suas úlceras expostas

E as enfermeiras em seus uniformes
Divinamente brancos
Se ajoelhavam diante das feridas
E nelas passavam mágica pomada
Vinda da Alemanha em grandes latas
Pomada amarela, densa
Para alívio da dor da vida
E depois, com esparadrapo
As envolviam numa firme gaze
Junto com seus corações

Eu contava poucos anos nesse tempo
Mas aprendi que algumas palavras
E expressões podem existir de fato
Nesse nosso grande teatro
De dissimulações hipócritas

Misericórdia
Compaixão
Amor

O amor desinteressado e que santifica.

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Foto: Santa Casa de maringá, década de 1950. Acervo do hospital.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Versos fast food

Neste ano vou escrever versos
Ao gosto dos críticos afetados
E dos alienados acadêmicos

Meus versos não terão a voz do povo
O sofrimento do povo
Aliás, povo algum

Meus versos não devem mais
Conter história
Sentido, ou mensagem

Meus versos virão dominados
Pela metafísica dos intelectuais
Palavras soltas
Sí la bas  sol tas
E coração acorrentado

Amor no meu verso
Nunca mais espere

Aqui de hoje em diante
Somente a cloaca da Coca-Cola
Os esgotos da civilização
E versos fast food
Para consumo rápido
E descarte em diarreia
Nos sanitários públicos.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Do tempo

Quanto mais se vive mais nos aproximamos da certeza de que o tempo é um senhor sem razão e mormente sem sentido. De todas as criaturas, só nós conseguimos contá-lo em relógios e calendários. O tempo é a nossa pior invenção, porque é nele que contamos os que esperam vez e os que aqui já não mais estão.

A voz que me fala

Somente um monge para saber
O que guarda o silêncio das celas
Acordo, tomo um copo d'água
E recupero-me do medonho susto
De ter pensado escutar no silêncio
A voz do pensado. Sim, a voz minha
Que me falava em sonho e dizia
Que neste planeta não há esconderijo
Para se fugir da vida e suas vontades
Mesmo numa cela, isolado de tudo
Somos atormentados pelas lembranças
Não as vividas em realidade
Mas, as não vividas por falta de coragem

Em exatidão marcada pelos séculos,
Em ponto, no cravar das horas
O mosteiro acorda e contrito ora

Sigo as ladainhas no velho missal
E rezo para ouvir novamente
A voz que vem aqui de dentro
Embargada pelo silêncio do tempo
A silenciosa voz soprada por Deus.


Poema da madrugada

Minha poesia cultiva antigo costume
Aos berros acorda-me de madrugada
E sem cerimônia manda-me cantar
Novas cantigas de manter acordado

Não queira escutar, Cariño meu
Os gritos de minha poesia noturna
É uivo de cachorro louco, danado
Uivo de susto, de alma penada

Por isso levanto-me da cama devagarinho
E vou para a biblioteca escutá-la só
Não quero te acordar, Cariño, não quero
Pois não saberei explicar o que me acorda

Ela vem e dita-me coisas impossíveis
Outras vezes, muitas vezes, terríveis
Palavras soltas, versos avulsos
A descrever vultos e monstruosidades

Mas na manhã que se segue me vingo
E pego todos aqueles versos de medo
E os transformo em coisa calma e boa
Como a suavidade dos teus leves beijos.



domingo, 30 de dezembro de 2012

Teu cheiro

Estou sob o domínio do olfato.
Daquele perfume que gruda na memória, 
Que te impede de lavar as mãos 
E que se revela até em sonhos inconfessáveis.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Dos adjetivos

A morte dispensa adjetivos
Nunca será boa ou ruim
É a morte, apenas fim

Somente a vida merece qualidades
E depende unicamente de ti
A palavra que será anteposta
Com justeza ao que se viveu.

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Ilustração: Cézanne - Pirâmide de crânios.

Dolorosa via

Não importa o caminho
Todo caminhante nesta vida
Chegará em exatidão
Ao encontro marcado
Mesmo que nos neguemos
A andar, a seguir adiante
E passemos a vida dormindo
Amarrados ou sentados

A vida nos empurra
Com a chibata do tempo
Na cadência do relógio
A nos rasgar a pele

Seguimos macabra procissão
Com os pés descalços
Sobre pontiagudas pedras
Com nossas cruzes
E coroas de espinhos
Em via dolorosa
Calvário acima
Onde nos aguardam
Os afiados pregos
Encomendados à eternidade
Interrompida no último estalo
Do tempo que nos escapa.

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Ilustração: Cézanne

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Natal dos patifes

No Natal, até mesmo alguns grandes patifes têm por míseros segundos a caridade no coração. Vaidosos, transmitem pela televisão, avisam pelo rádio e publicam no jornal magna e repentina vontade de ajuda ao próximo, desde que isso lhes renda o marketing que irá arrancar fingidas lágrimas de solidariedade dos hipócritas e suspiros de esperança nos desgraçados.

O pó das pedras

Fútil e convencional
Tu andas pelas ruas
E a realidade te fere
Como agudo punhal
Estás pronto, pronto
Pronto para morrer
De medo e susto
No próximo minuto

O céu descolorido
Por certo não irá
Ao teu sepultamento
O céu descolorido
Não gosta de estúpidos
Fúteis e convencionais
Em susto e medo

Há um ódio neste céu
Tremendo ódio
Deste céu por ti
Há desprezo descolorido
Desdém guardado
Deste céu por ti

O relógio te esquece
E o tempo te cobra
Os minutos por ti
Jogados fora
Como inútil e fina areia
Em infinito deserto
Tão farto do pó das pedras

Até este minuto
Que te é o último
Cheio de fútil susto
E convencional medo
Ele te pede de volta.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Fim do mundo

Manhã de Sol morninho prometendo calor de Verão. Vento suave, indo e vindo. Ao longe um chamar de passarinho... É meu amigo, essas coisas embrulham a vida em pacote de presente... E quer saber, acho que este mundão nunca acaba não.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Reflexões - Deus e as religiões

I.
O problema do ateu, aquilo que o faz ateu, não é Deus em si, mas o uso que os homens fazem de Seu nome.

II.
Amor e tolerância deveriam ser as palavras a nortearem qualquer tipo de religião que objetive a paz entre os homens. Do contrário, é isso que estamos vendo, ódio, guerras e o inferno sobre a Terra. É impossível aos sensatos, mesmo que em esforço de fé, o credo num Deus que não ama e tolera.

III
O Deus utilitário e disponível para qualquer coisa e desejo, ora numa súplica de vingança, em prece de ódio, ora para justificar uma guerra, não é Deus. Ele não se prestaria a essas coisas forjadas em doente egoísmo e que determinam a barbárie.  

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Cataléptico eufórico

Preciso da sanidade dos loucos
De suas certezas inexistentes
Cansei-me da loucura correta
Quero a loucura incerta

Não mais obedecerei a horários
E farei meu próprio calendário
Composto de dias sem noites
E com noites sem dias também

Vou misturar em mim, em ti, tudo
Leite, manga e melancia,
Crendices com filosofia
Euforia com catalepsia

Serei do avesso o contrário
Do contrário o avesso também
E quando ouvir de ti louco grito
Gritarei aos teus ouvidos amém

Quero sim a loucura
Que enche nossos doidos olhos
E neste mundo louco
Quero ser louco também.

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Ilustração: "A nau dos insensatos" - J. Bosch

(1450-1516)



quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Mãe

Quando dei por mim já vivia triste
Em criança, com três ou quatro anos
Já sentia estranhas saudades

Tinha saudades de minha mãe
Embora só a recordasse até os joelhos
Pois, além não alcançaram meus olhos

De resto, das saudades de minha mãe
Sobrava-me um rosto que inventei
Muito branco, de um severo que sorri

Ela vestia-se com um vestido colorido
E tinha em suas mãos inventadas e lisas
As minhas em tremor sempre suadas

Lembrava-me de todas suas histórias
Que, por sua falta, eu também inventara
Lidas com carinhos em noites temerosas

Sim, a ausência de minha mãe logo cedo
Fez-me amar a poesia que tudo pode e inventa
Inclusive uma mãe da qual não se tem memória.

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Ilustração: Mãe com filho doente - Picasso

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A música que vem de longe

Estranha noite. Os cães não ladram. Um quase silêncio de mistério no ar. E lá do alto do morro, da casa da louquinha que fugiu do hospício, escuto bem baixinho uma música de Wagner.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Enganos do silêncio

Engana-se quem pensa encontrar o puro silêncio na noite ou no próprio sono. É nesses momentos de aparente tranquilidade que a nossa consciência trava um grande debate conosco e geralmente aos berros, na vã esperança que um dia nós a escutemos.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Peso nas costas

Não meus amigos, não são os anos que nos pesam e nos deixam com as costas curvadas, com os braços quase ao nível do chão, num arrastar como veteranos macacos. A injustiça sim, nos pesa. E pior, junto com a injustiça, é-nos demasiado peso essa percepção de que pouco fizemos para acabar com tudo que nos fez insanos dentro da insanidade.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Vou com a ventania

Vontade de sumir na ventania
Sentir no rosto o vento forte
Como as andorinhas
Fugir por uma fresta do mundo
Rasgar o céu
E ver lá do alto a Terra distante
Com suas maldades
Com seus descontentamentos
Vazar a cortina do firmamento
Ver o outro lado
Sentir o vento que lá venta
E abraçar aquela estrela
Como se abraça um amor distante
E que nunca mais mandou notícias.


Corpo fechado

Sou bento sim senhô
De corpo fechado
Pelo benzedô
Benzido com água benta
Com a alma abençoada
Pela Santa Virgem
Senhora da boa morte
E dos bons caminhos
Lá em Aparecida do Norte
Sim, respeito de um tudo
Praga de madrinha
Olho gordo, coisa feita
Mas respeito mais ainda
Reza das bem brabas
Sem salamaleques
Sem ladainhas
E que me guardam
Todos os meus dias.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Riso à toa

Amanheci no um sorriso besta no rosto
Sonhei, por certo, algo bom
Sei lá o que sonhei, não lembro

- Só consigo lembrar de pesadelos -

E rio, rio à toa, o riso dos tolos
Que riem de tudo sem saber
A razão do riso. Riem, apenas riem
Porque diante dessa tragédia
Que chamamos vida
Só nos cabem o escárnio
O riso dos bobos e dos imbecis.

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Ilustração: The court jester, obra do pintor norteamericano William Merritt Chase (1849-1916), que mostra as travessuras de um bobo da corte

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Nome às estrelas

Desejo enorme de não ser deste mundo
Quisera, sei lá, ser de outra galáxia
Num planeta que orbita dois sóis
Com praias infinitas e ventos tranquilos

À noite, olharia para as várias luas
Contaria estrelas dando-lhes os nomes
Daqueles que meu ombro abraçam

Lá, cada dia duraria séculos
E meus amigos seriam eternos
E cantariam sempre, compondo
Canções que falassem apenas do encontro

Ou acalantos para um deus menino que dorme
Jamais canções em acordes menores
De tristeza, de distanciamento dos que morrem.