quinta-feira, 18 de abril de 2013

Das imensidões


Arrasta aí uma cadeira véia
Porque minha história é grande
Enquanto passo café,
Favor é me escutar, compadre
Sei a razão. Tamo neste mundão
Nessa coisa doida, adescobri disdontem
Prá modo de olhar a noite estrelada
E esses trecos que são maior que nós
Imagina compadre...
-- Não tem açúcar, mas pode tomar o café, é fresco --
... Imagina ser tão grande e espichado desse jeito
Como esse Universo sem fim, essa imensidão,
Sem ter uma única criatura, um zé qualquer
Para lhe admirar, para o sujueito se sentir igual formiga
Seria um desperdício, compadre, uma judiação...
Grandeza carece de admiração, de bem querer
Vai mais café... É bão barbaridade, compadre!

Víscera expostas

Escrever, escrever doidamente
Até que se me gastem os dedos
Até que se esgotem todas as utopias
Até que se evolam todos os sonhos
Até que se esvaia a tinta das minhas veias
Até que se acabem os papéis, os muros
As pedras e todas as paredes e portas
Descrever, descrever com o próprio sangue
O amor esfaqueado nas esquinas
O desamor esfacelado no asfalto
A ave cruzando o céu limpo
E nuvens que se negam a ser chuva
Desprezar, desprezar a pontuação
E outras interrupções da vida
Nada de pontos, somente exclamações
Porque para o poeta
A vida só é vida se for espanto
Com palavras de vísceras expostas
Em espantoso grito contido no verso!

Crimes hediondos

Hediondos são vossos crimes
Caros políticos ladrões e canalhas
Hediondo é o roubo do dinheiro do povo
O surrupio dos recursos da Saúde
Que compraram a tranca de vossas soberbas mansões
As verbas da Educação
Desviadas que compraram vossos livros nunca lidos
As fartas merrecas que saíram da Habitação
Para vossas amantes nos shoppings
Crime hediondo, caros larápios
É ofertar a essa massa de miseráveis
O desrespeito, uma dentadura pelo voto
É abandonar a criança ao relento
É deixar o incapaz morrer de fome e frio
Ofertáreis a esses infelizes o crime e a revolta
E agora desejais prendê-los
Só porque vossos ricos parentes e comparsas morrem?
Sois hediondos duas vezes, hipócritas
Ao negarem a vida aos que sofrem
Ao condenarem à violência e à morte vossos filhos!

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Tu, meu acerto


Fosse-me a existência
Mais dura ainda do que é
Fosse-me a vida
Tão mais desencontrada
Creio que ainda valeria a pena
Tu estás nela, no meu ar
Nas minhas esquinas
No luar da noite finda
No Sol deste dia tão comum
E que brilha em teimosia
Teimosamente sobre nossas cabeças
Amar a ti foi meu acerto
E se o céu cair
E se a Lua sumir
E se o Sol apagar
E se não houver esquina
Não me importarei
Porque a ti ainda respiro.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Amor não se vende


Ontem tomava café
No Paço da Liberdade
E aquela triste mulher
Que cobra por hora
Em infectos cômodos
Da rua Riachuelo
Ficou brava comigo
Enquanto pena eu sentia
De vê-la assim na vida
Tratei-a bem, com educação
Mas não a queria não
No amor não se bota preço
No amor, se bota coração.

Paixão & Conveniência

Se você acha que se apaixona só quando vale a pena, ou quando é conveniente, Então, você não sabe o que é paixão. Ela, a paixão, sempre vale a pena, pois é vida e adora horas inconvenientes, pois é surpresa.

Cérebro & Paixão

Se há coisa neste mundo que não combina com a paixão é o cérebro.
Paixão é para os passionais, para os que se arriscam na chuva mesmo sabendo da dar de cabeça do resfriado, para aqueles que só são coração. 
E vamos e venhamos, o cérebro é um bichinho que odeia chuva; todo indiferença, branco e cinza, sem vivas cores, dentro de uma caixa e por isso detesta a dor.

Pensando bem:

É lógico que o cérebro não combina com a paixão por pura autoproteção. 
Paixão exige que o passional se atire de cabeça. 
E, normalmente, as pessoas têm um cérebro lá na caixinha de comando.

Paço da Liberdade

A tarde vem desabando
Devagarinho
E as amarelas luzes
Dos vapores do sódio
No ferro dos postes
Clamam e evocam
Passados séculos
E no toc toc dos sapatos
Sinto perdidos passos
Da moça que passa
E não me vê
Tomo meu café
Diluo-me na fumaça
Do bandido cigarro
E a florista olha ao longe
Também sem me ver
Translúcido
No ar dissipo-me
Em soturnos pensamentos
Saboreando aos goles
A liberdade deste Paço
De ser invisível
O invisível que a tudo vê.



Surpresas da vida

Surpresas na vida:
É ir comprar flores
E se apaixonar
Pela florista;
É sair calmo para
Comprar jornais
E virar notícia.

Quem é a flor?

Linda, mui bela
Por entre as flores
Ela vende belezas
Para os solitários
As orquídeas
Para os apaixonados
Rosas multicores
Flores dos amores
Flores do encontro
Flores da saudade
Em arranjos
Em vivas fitas

E do rosto sereno
E dos claros cabelos
De luzes descoloridas
Em reflexo
Nas sempre-vivas
Bromélias
Margaridas
Vem-me a dúvida
Dentre elas
Quem é a flor?
Quem é a florista?

domingo, 14 de abril de 2013

Boneca de pano

Em casa, veste-se como uma boneca de pano e enche a cara de creme. Convido-a para sair e se embeleza toda. E ainda pergunta se está bonita! Quem nesse mundo consegue compreender de fato essas complicações chamadas mulheres e que gostamos tanto!

Minha benção

Abençoado seja aquele
que no governo acredita, 
ou é um cretino, ou toma 
da mesma água na bica.

Certas incertezas

Sem certeza alguma
Desta vez quero acertar
Decerto seria certo
Deixar meu coração
Bater por ti incertamente

E neste bater intermitente
Como um rei sem cetro
Espera sonhado reino
Devo esperar-te sem certeza
Infinitamente, infeliz e contente.

O preço da arte

A poesia nos obriga à solidão compulsória
Ninguém pode escrevê-la em teu lugar
Ninguém pode pensá-la por ti
Ela nos faz tão sozinhos
Que chegamos a pensar
Ser esse nosso estado natural

Todas as artes nos pedem preço
Mesmo que não tenham preço
Mesmo que não tenham mercado
Mesmo porque, no mercado não são arte
Poisque serão apenas mercadorias
Feitas em série, artesanato industrial

A solidão, eis o preço da arte
Nosso tempo cavando vazios
Na louca procura pela nudez das ideias
Eis da poesia a moeda de troca
Ideias completamente nuas.

sábado, 13 de abril de 2013

Visita das comadres


Sábado só, arrumo a mesa,
Dia de visita das lembranças:
Uma vasilha, um guardanapo solto,
Uma chávena e os talheres gastos.

As lembranças chegam
Comem bolachas, bolinhos.
Estão desdentadas, velhas
E molham tudo no chá.

Lamentos tantos, tantos, tantos
Na conversa mole de comadres
E para esquentar assunto
Perguntam-me se passa bem, se vai bem
De ti aquela doída saudade.

A morte de um cabra besta

- Acorda, bennheeeê!
- Hoje é sábado, não me enche...
- 13 de abril, Dia do Beijo!
- E você me acorda prá dizer isso! Vá dormir, descomungada! (Silêncio... som de tiro)...
- Toma, cabra besta! Sujeitinho sem coração!

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Perigos do branco na chuva

Toda molhada
E transparente
No teu vestido
Branco e fino
Bendita chuva
Que dá
Ao meu espírito
Teu corpo tão lindo
E este pecado
Que me faz
Puro desatino.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Tua voz no vento

Tenho poucos e boníssimos prazeres
Ouvir-te, por exemplo, em suavidade
Tua voz que corre sossegada no vento
Nesse louco vento que nos carrega
Dali para aqui, dali para aqui, sempre

Não ouvir o teu pontual bom-dia
Por certo me estraga o dia
E dele nada mais espero do que a agonia

Não ouvir o teu boa-noite
É não ter noite, poisque falta-me tua estrela

Não ouvir o teu "eu te amo"
É ter dúvidas se vivo de verdade
Pois somente teu amor me faz na vida crer.

1/2 + 1/2 = 1


quarta-feira, 10 de abril de 2013

Postulados da Geometria Vetorial do Amor

1. Uma reta determina um caminho;
2. Dois caminhos paralelos podem ser percorridos por dois seres ao mesmo tempo;
3. Uma reta pode amar a outra reta e, sobrepostas, determinam o mesmo caminho;
4. O ser na reta paralela pode amar o ser da paralela necessariamente sobreposta à primeira;
5. O amor dos seres determinam apenas um caminho se forem de iguais direção e sentido;
6. Para não se perder no caminho necessariamente há de se dar as mãos;
7. Beijos, abraços e amor profundo alongam quaisquer segmentos de reta ao infinito;
8. O amor abomina desvios, direções opostas, tangentes, transversais e perpendiculares.



1/2 + 1/2 = 1

O amor
Pela metade
De nada vale

O amor
Precisa de 1/2
Que se soma a outro 1/2
Para se fazer inteiro
E só assim, na somas das metades
Se faz único e verdadeiro.

Tuas metades

És feita assim
Metade amor
E a outra metade também
E toda, inteira
És o amor sem fim.

Missa de domingo

Na missa te ajoelhaste ao meu lado
Enquanto tilintava o tintinábulo
Na consagração
E minhas mãos tremiam
Ao alisarem
Tuas pernas
Na celebração
Dos meus pecados
Do sábado.

Poema desaparecido

E aquele poeminha
Curtinho e com rimas
Ficou dias me infernizando
Dando batidinhas
No meu coração
Querendo sair
Ver mundo
Sumiu? Não quer mais ser dos homens!

domingo, 7 de abril de 2013

O Anjo da Guarda - Gabriela Mistral



É verdade, não é um conto;
há um anjo da guarda
que te apanha e carrega como o vento
e com as crianças vai por donde elas vão.

Tem cabelos leves,
ondulados pelo vento,
olhos doces e graves
que acalmam ao te olhar
e afastam os medos com sua luz.

(Não é um conto, é verdade)

Ele tem corpo, mãos e pés alados
e suas seis asas plainam e voam,
as seis levantam leve aragem
a mesma que te fará dormir.
Ele é mais doce do que a polpa madura
que entre teus famintos lábios estreitas;
rompe a nós de sua dura casca
e é quem te livra de gnomos e bruxas.

É quem te auxilia a recolher as rosas
que estão presas em armadilhas e espinhos
ele que te faz atravessar as águas traiçoeiras
e te faz subir as montanhas mais íngremes.
-------------------------------
O Anjo da Guarda - Gabriela Mistral - Tradução Jose Fernando Nandé

EL ÁNGEL GUARDIÁN

Es verdad, no es un cuento;
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.

Tiene cabellos suaves
que van en la venteada,
ojos dulces y graves
que te sosiegan con una mirada
y matan miedos dando claridad.

(No es un cuento, es verdad.)

El tiene cuerpo, manos y pies de alas
y las seis alas vuelan o resbalan,
las seis te llevan de su aire batido
y lo mismo te llevan de dormido.
Hace más dulce la pulpa madura
que entre tus labios golosos estruja;
rompe a la nuez su taimada envoltura
y es quien te libra de gnomos y brujas.

Es quien te ayuda a que cortes las rosas,
que están sentadas en trampas de espinas,
el que te pasa las aguas mañosas
y el que te sube las cuestas más pinas.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Aos de rosto de porcelana

Tenho horror a essas pessoas que se adiam
A esses seres de rosto de dura e fria porcelana
Que se economizam para o depois
Em empoeiradas e antigas cristaleiras
Que guardam ouro, dormem sobre o dinheiro
Cultivam banalidades e se repetem
E que são avaros em beijos, amores e abraços
Não têm vida de verdade e na realidade
Têm por certeza somente incerta riqueza na morte

Ó pessoas vazias! Ó seguidores dos deuses adiados!
Passai ao largo! Guardai distância de mim!

Apelo à chuva

Chuvinha da tarde, tenha compaixão
Caia mansa e simples, levinha e quente
Para aqueles que sofrem sem habitação
E lave a encardida alma dos indiferentes.

Consciente e descuidado

-- Cuidado!
-- Perigo!
Diz a placa na calçada
Não ligo, descuidado vou
Porquanto de longe sei
Que a vida
É feita disso
Perigo descuidado
Porque sempre termina
No último buraco
Num susto de tropeço
Inevitável.

Lá-rá, lê-rém

Meu amor, quero um samba novo
Misture Mozart e Maurice Ravel
Acelere tudo neste piano velho
Enquanto afino a caixa de fósforos
Chame compadre Astolfo da Neném
Vamos colocar sanfona com batuque
Escuta lá longe o apito do trem
Coloque-o no samba também
A letra? Ora a letra, não se preocupe
Cante apenas o lá-rá, lê-rém...


terça-feira, 2 de abril de 2013

Bilboquê

Guardo coisas antigas; objetos
São marcos de longo caminho
Que me mostram lembranças
Um velho brinquedo de infância
Que me faz outra vez sonhador
O bilboquê está sobre uma carta
Que carta será, por que a guardei?
Apanho o papel fino e amarelo
Há gasta tinta, letra caprichada
Num envelope que nunca mandei
Sim, foi para um amor que tive
E que somente ao papel confessei.