sábado, 27 de abril de 2013

O último ato da bailarina

Estava transtornada e alta
Olhava para mim e gargalhava
No passo que ensaiava
Queria porque queria nova coreografia
Para seu grupo de dança imaginário

Lamentava-se depois de sua idade
(Era tão jovem, igual a mim,
Mas dizia-se velha para Tchaikovski)
As pernas que não obedeciam...

Não suportaria
A falta de aplausos pela cena
Pela desgraciosidade de bailarina
Sem equilíbrio firme:
Demi-plié... Arabesque

Parou, chorou e olhou a janela
Do prédio que se erguia alto
Um dia iria voar em graça e estilo
Como um dia voou e voou

Demi-plié... Sissone en avant...
Vazando o vazio, com o vento no rosto
Até dormir no perro chão 
Daquela penosa realidade 
Que não mais servia para seu cenário.



sexta-feira, 26 de abril de 2013

Sexta-feira

Sexta-feira! Decreta-se a suspensão das responsabilidades
O fazer e o refazer das estafantes fábricas e maçantes escritórios
Dia em que se inicia o fim das inconvenientes formalidades
Para alguns, dia de conhecer novos e acolher velhos amigos
Chorar as mágoas, cicatrizar com um novo amor antiga ferida
Para outros, grande oportunidade de enfiar o pé na jaca
Tomar todas, ir para a balada, esquecer o que deve ser esquecido
Para tantos outros, dia de ficar ou passear com a família
Sexta feira, dia em que lembramos que a vida é para ser vivida.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Chuva na Paraíba

                                                                                                        Para Ana Coeli Bezerra

Às vezes faço versos secos
Porque seca é a terra dos meus ancestrais
Versos de lirismo pouco
Porque não cabe lira no sofrimento alheio
Mas quando as lágrimas do sertanejo secam
E as nuvens engordam, se enchendo delas
E volta a chover contente no chão rachado
Coloco chuva e verde nos meus poemas
E dano-me a chorar a felicidade pequena
Na mesma sina dos meus antepassados.

Sustos

Tudo neste Universo
Nasce, vive e morre
Compreender isso
Em plenitude e verdade
É uma grande economia
De assombros e sustos.

Sem jeito

Vivo sem jeito
Mas doido é o sujeito
Que pensa ter a vida jeito
Porque não há jeito
Porque na vida
A única certeza
É o último escuro leito.


Passageira

vida passageira
motorista inconsequente
sempre termina em acidente. 

Acaso

se por acaso eu te encontrar
faça caso, por favor, sem descaso
esse acaso é armadilha do amor.

Ligação química

Eu não sabia ainda o que era o amor
Vivia da inocência dos números
Que tanto amava, porque por eles
Era amado em exatidão
E teus olhos negros, curiosos e inexatos
Seguiam-me as mãos
Ao equilibrar mais uma equação
E teu queixo encostado em mim
Ao teu coração conectava-me
Não saberia dizer qual ouvia
Se era o teu ou o meu que doido batia
Sentia-te, no silêncio da biblioteca
E devagar te explicava
O primeiro grupo de cátions
Confundindo tuas longas unhas
Bem feitas e pintadas
Com as cores das substâncias
Sentia a química de tua respiração
Que nos ligava pela eternidade
Que só se faria ali, tão breve
Mas tão longa na saudade.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

A tua janela é de pedra

Não sinto o menor desejo
De fazer parte das pedras
Dos azulejos e mármores da cidade
De estar concretado nas paredes
De ser tristeza pintado de cinza
Nasci como os fungos nascem
Grudado nas árvores
Vestido de nu
E enfeitado pelos lírios campestres
Nada em mim me faz pedra
Somente minha vontade imita pedra
Porque a minha janela é o horizonte todo
E de alto morro posso te ver
Por entre os espigões que beliscam o céu
E tenho de ti pena, muita pena
E choro tristemente calado
Porque tua janela é tão pequena
E lhe dá de presente pela manhã
Apenas o paredão do prédio ao lado.

Das beiradas

são as beiradas
que dão vida e sentido
ao fundo abismo.

Bolacha Maria

crec... que macia...
quem dera se essa bolacha
fosse a Maria.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Questão irrelevante

Fui falar sobre literatura numa escola e o aluno pergunta: "o que é, afinal, poesia?" -- "Esse questionamento", respondi, "deve ser feito aos acadêmicos, ao poeta essa questão não tem importância alguma, porque é na poesia que ele entende o mundo, embora de si nada entenda". Exagerei, mas o piá pançudo olhou para mim naturalmente, como se houvesse assimilado o paradoxo da arte, e me mostrou um poema: "escrevi para a minha prima, está legal?".

Credo

Não crês em nada - está certo - és livre. Porém, não atino com a razão de estares por aqui, porque viver neste bruto mundo exige do vivente um bocado de crença, inclusive nele mesmo, principalmente nele mesmo.

Dos abismos

Deus fez tudo certo, duvide disso não. Ao fazer o buraco nunca menor do que sete palmos, repare, fez as beiras. Viver é saber ficar bem agarrado nelas, sentindo o vento na bunda, os apelos do abismo.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

De pegada

Amor íntimo
Querida
É sua orelha
Na minha boca
Para me escutar
Por dentro.

Amor ardente
Faminta
São seus dentes
Mordendo-me
A língua.

Amor de pegada
Desalmada
Nos pega de jeito
E sem jeito
Mente e nos diz
Que não é nada.


Das seguidas cirurgias cardíacas

E quando me descosturaste o peito
E puxaste linha por linha, ponto por ponto
E tiraste de lá dentro artigos de carinho
Revestidos de velhos tecidos de sonhos
E as gazes que estancavam amores olvidados
Pensei-me curado por essa última e estranha cirurgia
Mas, médica d'almas, falhaste com a agulha
E em largo alinhavo de fios feitos de inesperado adeus
Terminaste a operação esquecendo-te dentro de mim.

Avisos do tráfico

Espocam os fogos nos céus da vila
Pelo barulho deve ser boa mercadoria
E os operários que descem a rua
No fim do dia, a caminho de casa
São temerosos dos descaminhos
Que esperam seus inocentes filhos.

Em ti confio

sim, confio em ti
mas, de mim desconfiando
porque sou paixão.

Paixão elétrica

electrocutado
pelo corisco arisco
de teu fogo e brilho.

Crime

a boca calada
em tempo de injustiças
é terrível crime.

Meu livro

letras que me somem,
livro vazio e etéreo,
vida não escrita.

Meu pecado

profana paixão
meu pecado inconfesso
na cama te rezo.

Calmarias

mar das serenidades,
teus verdes e mansos olhos...
calmarias do dia.

domingo, 21 de abril de 2013

Minha

inverno. és nua
solta sobre a cama, quente
sussurras: sou tua.

Passadas

dobro esquinas
engomadas
com cinza concreto.

O egoísmo está no verbo

Os dois verbos básicos de todas as línguas são o "ser" e o "haver", também no sentido de "estar" e "ter". Eles são conjugados sempre a partir da primeira pessoa, "eu". Daí se explica nosso egoísmo medonho, a vontade de sermos mais do que somos e de se ter mais do que precisamos. Eis nosso espírito, eis nossa miséria e vergonha implícitas na língua.

Sonhos alados

Teus sonhos alados
Estão hoje sobre a montanha
Divisam horizontes, os novos
Conferem os rumos
Em cartas siderais
E lamentam antigos voos
Desastrados por Ícaro
E desistem de alcançar o Sol
Não por covardia ou preguiça
Mas por vontade e esperteza
Para eles, experientes, sábio é
Orbitar a Lua
É nela que mora a poesia
A luz que ilumina os escuros. 

Tristezas de Domingo

Acordar cedo no Domingo
Esticar o braço na cama
E sentir o travesseiro vazio
E a cama ainda quente
Do corpo que já não existe
É estar condenado à morte
Uma morte que se repete
Para quem sobrou vivo
E ainda pode sentir a tristeza
De todos os Domingos vazios.



sábado, 20 de abril de 2013

Fantasmas públicos

-- Valha-me Deus, Nossa Senhora!
-- Saia, coisa ruim!!
-- Vade retro, Satanás!!!
Frases para se falar e se benzer
Naquela fantasmagórica
Repartição Pública.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Polaca zangada

Agarrei no pandeiro e cheguei tarde
Ajeitei a rede prá modo de escutar
Nos sonhos as músicas que nem sei
Aquelas que nunca fiz ou cantei

A Polaca acordou cedo, azeda
Com aquela cara de você me paga
Zangada, zangada
Não fez café e zanzou de lá prá cá

Estava com um bico sem tamanho
Olhos vermelhos e no fundo,
Coisa  de quem não dormiu

Passou por mim sem um pio
Embora eu visse nela
A vontade de me mandar para...
(...Ora, vocês sabem pradonde!...)
...É só rimar o pio e rezar por mim!
E assim, talvez chegue vivo
Na Quarta-feira de Cinzas!