quarta-feira, 15 de maio de 2013

Vida gerundina

A vida vou levando 
E ela me carregando
Sovina em encantos
Às vezes amando
Às vezes chorando
Às vezes sorrindo
Mas sempre lutando 
Levo esta vida gerundina, 
Severa, severina.

Poesia é a paz d'almas

A poesia oferece ao espírito
Estranha paz, estranho divagar
Por paraísos escondidos
E que estão dentro de nós.

A poesia é a paz do homem.

Toda alma que quer paz, que busca a paz,
Alimenta-se de versos.

Escreve, poeta! Escreve!
Os homens têm fome!

Sem versos, almas padecem
E o que nos resta de humanidade desaparece.

Sem o alento da poesia, almas serão enterradas
Envoltas apenas pela brutalidade, pela mortalha
Das palavras amontoadas em frases de prosa,
Frias como em documentos de cartório,
Cortantes como o fio da faca
De alucinado assassino.

O coração do homem e a alma do homem
Para conterem a paz precisam de palavras macias,
Necessitam de poesia.
Cria, poeta! Cria!

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Cuidados na ciranda do amor

O amor é ciranda colorida
Escolhe-se o par
Escolhe-se a dança
E para ser bem dançada
Não há de se errar o passo
E se errar, há de se pedir perdão
Mas saiba, que depois disso
Mesmo com a desculpa dada
A ciranda não será tão colorida não
Sempre haverá a desconfiança
De um dia se levar outro pisão.

domingo, 12 de maio de 2013

A revolta tem mãe

Mãe
Seus rotos filhos
Que pouco comiam
Que pouco estudavam
Que nada esperavam
E vendiam laranjas nas esquinas
E se viravam como flanelinhas
E que sumiram no mundo
Que alimentam revoltas diárias
E que se fazem revolta nos abrigos
Esperando salvação pública
Serão presos e guardados
Não importando a idade
Pois com tão maus costumes
Não servem à sociedade
A mesma sociedade
Que os jogou no lixo
Como se joga morto bicho. 

Manhãs de domingo

Gosto de escrever aos domingos
Nas manhãs que me despedem indo
Antes do almoço, a esquecer desgostos
A talhar futuras linhas, versos soltos
Passo o café cedo como um rito de fé
Tenho prazer nisso, em pequenos atos até
E sinto, nessas curtas manhãs de domingo
A vida que vai seguindo, seguindo
Ela ficando grande e eu neste mundinho
Ruminando-me, matutando, sumindo-me.

domingo, 5 de maio de 2013

Acredite

Vá homem de pouca fé
Nem tudo está perdido 
Há sempre uma cerveja 
Esquecida na geladeira!

Angélica Diaba


Angélica só era anjo no nome
De resto, uma diaba
Linda e dissimulada
Quente, encalorada
Daquelas que nos apresenta o inferno
Como se fosse a sua própria casa.

Palavra branca


Uma palavra branca e leve
Sai dos teus lábios
Paina que baila no ancho céu
Beija minh'alma inquieta
E me faz paz, me faz anjo.

As utopias não morrem

Essa história de que as utopias estão em crise, que o sonho cedeu seu lugar à realidade bárbara e hipócrita apenas, não passa de historinha para jumento dormir. Uma boa justificativa para o roubo descarado da coisa pública e da submissão do homem a grandes pulhas da ideologia barata do se dar bem, custe o que custar, inclusive a nossa pele. Voltemos a sonhar, pois.

sábado, 4 de maio de 2013

Crianças não matam deuses



Quando criança

Tinha medo dos homens

Que mataram seu próprio Deus

E nas minhas inocentes orações

Esperava aquele criatura

Descer da cruz

Para um longo abraço

De perdão pelo o que não fiz.

Morena na laje

                                                                                             Para a Fernanda Rocha
Nesta tarde de Sol e preguiça
Ao longe meus olhos me convidam
E penso ser o mesmo Sol que te espia
Banhada de morenice na laje.

Desejo e espera

Ali
Há uma estrada que aguarda marcas dos teus pés

Olha a paisagem que a ti observa e te deseja nela

O mundo e tudo que nele há te ansiaram por eras
Ali
Há uma flor que vestiu-se de esperança e te espera.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Doiras meu caminho

Olha, Cariño, o Sol
Que no horizonte
Vem surgindo
Que ilumina teus olhos
Na direção do infinito
E doira o caminho
Que, guiado por ti
Hei seguido e vivido. 

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Da miséria intelectual

Em relação ao pensamento, existem pelo menos três categorias neste mundo: os que não pensam por si só, inconscientes que são até mesmo da própria existência; os que ouvem somente as "verdades" que lhes são convenientes e têm isso como absoluto; os que ouvem e observam tudo e depois formam opinião, passível inclusive de mudanças. No primeiro caso, são as grandes massas informes bem ao gosto dos políticos e outros enganadores; no segundo, é a massa de manobra: teleguiados dos que vivem da miséria intelectual alheia e tenta cooptar as grandes massas ignaras para a escravidão sem questionamentos enfeitada com a propaganda e marketing de uma felicidade inexistente; os últimos, que nada aceitando como definitivo, mudam o mundo e educam seus semelhantes para não servirem aos que os querem sob ferros.

Tempos bárbaros

A história da civilização -- para ser entendida como tal -- é uma medonha luta do homem contra a ignorância; se estamos neste atual estágio de barbárie, quando se mata por nada, um tênis, um relógio, gosto e maldade apenas, é porque esta luta se mostra inglória, porém não perdida, não obstante a galopante apologia à burrice, à falta de conhecimento, ou a esse se dar bem sem estudo e esforço. Lutemos pois, a vida seria uma chatice se fôssemos todos concordantes, inclusive com os bárbaros desprovidos do espírito humano. Barcos não navegam em calmaria e até mesmo a tempestade nos leva adiante. Em outras palavras, "trupicando" também avançamos.

domingo, 28 de abril de 2013

Existência padrão

Não tem coisa mais aborrecida do que tentar conversar com sujeitos de história retilínea e comum, sem solavancos no viver, uma aventura sequer e que cultuam os padrões do nada existencial.

sábado, 27 de abril de 2013

O último ato da bailarina

Estava transtornada e alta
Olhava para mim e gargalhava
No passo que ensaiava
Queria porque queria nova coreografia
Para seu grupo de dança imaginário

Lamentava-se depois de sua idade
(Era tão jovem, igual a mim,
Mas dizia-se velha para Tchaikovski)
As pernas que não obedeciam...

Não suportaria
A falta de aplausos pela cena
Pela desgraciosidade de bailarina
Sem equilíbrio firme:
Demi-plié... Arabesque

Parou, chorou e olhou a janela
Do prédio que se erguia alto
Um dia iria voar em graça e estilo
Como um dia voou e voou

Demi-plié... Sissone en avant...
Vazando o vazio, com o vento no rosto
Até dormir no perro chão 
Daquela penosa realidade 
Que não mais servia para seu cenário.



sexta-feira, 26 de abril de 2013

Sexta-feira

Sexta-feira! Decreta-se a suspensão das responsabilidades
O fazer e o refazer das estafantes fábricas e maçantes escritórios
Dia em que se inicia o fim das inconvenientes formalidades
Para alguns, dia de conhecer novos e acolher velhos amigos
Chorar as mágoas, cicatrizar com um novo amor antiga ferida
Para outros, grande oportunidade de enfiar o pé na jaca
Tomar todas, ir para a balada, esquecer o que deve ser esquecido
Para tantos outros, dia de ficar ou passear com a família
Sexta feira, dia em que lembramos que a vida é para ser vivida.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Chuva na Paraíba

                                                                                                        Para Ana Coeli Bezerra

Às vezes faço versos secos
Porque seca é a terra dos meus ancestrais
Versos de lirismo pouco
Porque não cabe lira no sofrimento alheio
Mas quando as lágrimas do sertanejo secam
E as nuvens engordam, se enchendo delas
E volta a chover contente no chão rachado
Coloco chuva e verde nos meus poemas
E dano-me a chorar a felicidade pequena
Na mesma sina dos meus antepassados.

Sustos

Tudo neste Universo
Nasce, vive e morre
Compreender isso
Em plenitude e verdade
É uma grande economia
De assombros e sustos.

Sem jeito

Vivo sem jeito
Mas doido é o sujeito
Que pensa ter a vida jeito
Porque não há jeito
Porque na vida
A única certeza
É o último escuro leito.


Passageira

vida passageira
motorista inconsequente
sempre termina em acidente. 

Acaso

se por acaso eu te encontrar
faça caso, por favor, sem descaso
esse acaso é armadilha do amor.

Ligação química

Eu não sabia ainda o que era o amor
Vivia da inocência dos números
Que tanto amava, porque por eles
Era amado em exatidão
E teus olhos negros, curiosos e inexatos
Seguiam-me as mãos
Ao equilibrar mais uma equação
E teu queixo encostado em mim
Ao teu coração conectava-me
Não saberia dizer qual ouvia
Se era o teu ou o meu que doido batia
Sentia-te, no silêncio da biblioteca
E devagar te explicava
O primeiro grupo de cátions
Confundindo tuas longas unhas
Bem feitas e pintadas
Com as cores das substâncias
Sentia a química de tua respiração
Que nos ligava pela eternidade
Que só se faria ali, tão breve
Mas tão longa na saudade.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

A tua janela é de pedra

Não sinto o menor desejo
De fazer parte das pedras
Dos azulejos e mármores da cidade
De estar concretado nas paredes
De ser tristeza pintado de cinza
Nasci como os fungos nascem
Grudado nas árvores
Vestido de nu
E enfeitado pelos lírios campestres
Nada em mim me faz pedra
Somente minha vontade imita pedra
Porque a minha janela é o horizonte todo
E de alto morro posso te ver
Por entre os espigões que beliscam o céu
E tenho de ti pena, muita pena
E choro tristemente calado
Porque tua janela é tão pequena
E lhe dá de presente pela manhã
Apenas o paredão do prédio ao lado.

Das beiradas

são as beiradas
que dão vida e sentido
ao fundo abismo.

Bolacha Maria

crec... que macia...
quem dera se essa bolacha
fosse a Maria.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Questão irrelevante

Fui falar sobre literatura numa escola e o aluno pergunta: "o que é, afinal, poesia?" -- "Esse questionamento", respondi, "deve ser feito aos acadêmicos, ao poeta essa questão não tem importância alguma, porque é na poesia que ele entende o mundo, embora de si nada entenda". Exagerei, mas o piá pançudo olhou para mim naturalmente, como se houvesse assimilado o paradoxo da arte, e me mostrou um poema: "escrevi para a minha prima, está legal?".

Credo

Não crês em nada - está certo - és livre. Porém, não atino com a razão de estares por aqui, porque viver neste bruto mundo exige do vivente um bocado de crença, inclusive nele mesmo, principalmente nele mesmo.

Dos abismos

Deus fez tudo certo, duvide disso não. Ao fazer o buraco nunca menor do que sete palmos, repare, fez as beiras. Viver é saber ficar bem agarrado nelas, sentindo o vento na bunda, os apelos do abismo.