domingo, 18 de agosto de 2013

Ana

Clara é a manhã, Ana
O dia veio clareando
Leve como teu beijo.

sábado, 17 de agosto de 2013

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Às vezes vivemos

Irrita-me a pergunta
Se eu realmente vivi
O que escrevo. Ora,
Poetas escrevem, sonham,
Escrevem sempre
E às vezes vivem,
Não necessariamente
Nessa ordem.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Valquíria

Valquíria gostava de cavalgar
E escolher seus guerreiros
Para grandes batalhas de amor
Era fogo, amante, chama
E em noites incandescentes
À beira da própria fogueira
Despia-se na varanda
Se refrescava na rede
Fingindo longos abraços no vento
Mas mesmo assim queimava
Enquanto ventava mais se abrasava
E vinha toda de suor molhada
A me convidar para sentir
o cheiro do incenso em fumo
Que de si exalava
Aroma de carne, perfume de flor.


Confissões de um andarilho III

Todos somos andarilhos
Sem pouso certo, sem hora para chegar
Mas com única hora para sair, certa, inadiável
E nessa caminhada
Nesse ir para não sei onde
Que a vida nos obriga
Tu poderás caminhar sozinho
E a tudo observarás atento
Porém, a quem contar das descobertas?
Então, te sentirás só e incompleto

Mas se tu gozares de boa companhia
E se tiveres com quem dividir a paisagem
A quem contares do voo da borboleta
Do leve bater das asas dos pássaros
Da tarde vermelha que se despede do dia
E das ascetas estrelas que temos em guia
Serás um menino com espírito de poeta.


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Ipês de Curitiba

Ipês floridos
Amarelo que traz a Primavera
Roxo que sepulta o Inverno.

Caboclo na praia

Nasci apartado do mar
O Ivaí, o Paranapanema
O Igapó, o Paraná, o Iguaçu
E  as barrentas roxas enxurradas
Foram-me na infância
As referências sobre o infinito
Por isso do meu susto grande
Quando na juventude
Deparei-me com aquela água toda
Lambendo a Baía de Guaratuba
Ora com língua de vaga
Ora com língua de onda
A dizer-me que as infinitudes
Sempre podem ser acrescidas
De coisas imensuravelmente maiores
E que por mais grandioso
Que o infinito se apresente
Ele será sempre minúsculo
Perante a criação divina
Que se chega aos poucos
Aos nossos corações caboclos
Feitos para abarcarem sem pressa
Essas bonitezas, esses mistérios do mundo.

Alma nos Olhos

É nos olhos que se espelha a alma
E a poesia está nas retinas de quem vê
Num passarinho, na vidinha que passa
Em épicos amores, nas simplicidades...
Triste é o espírito que ao viver se cega
E se nega a ver a beleza que o cerca.

domingo, 11 de agosto de 2013

Das sílabas simples

Não gaste palavras
O importante no mundo
Vem nos monossílabos
Pai e mãe
Reunidos no dissílabo
Amor.

Pai

Não. Não é a tristeza da falta
Mas a alegria de lembrar-te,
Que faz este dia tão especial.
Mesmo com lembranças poucas,
Sou no mundo por ti
E apartado de tuas mãos
Quanto nele hei sofrido. 

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Ela: a espera

Vazia a tarde ia
Cheia a Lua vinha
E eu a esperar-te
Vazia de amor
Cheia de saudades.


O cão me deu boa-noite

Noite, escuro das escuridões,
Barulho lá fora
Pensei ser um cão
Vi isso ao longe naqueles olhos
De antigos brilhos apagados
Que me suplicavam piedade

Pensei ser um cão
Que revirava o lixo
Que comia lixo
E se lambuzava com restos azedos

Pensei ser um cão
Que cheirava e sentia o gosto
Dos pedaços de carnes podres
E roía até os ossos
Daquelas sobras imundas

Cheguei ao portão iluminado
Ele notou-me e se afastou do lixo

Pensei ser ele um cão
Aquele ser roto, torto, quase morto
Que se deitou na calçada fria
A me desejar boa-noite
Pedindo-me desculpas
Por ter se parecido com um cão
Ao me revirar o lixo da rua
Seu prato e refeição de carniça.

Summertime

Sopro na janela fria
E escrevo no vapor
Saudades do teu calor
Daquele quase esquecido
Ao dançarmos colados
Como o suor e o desejo
Era ela Ella, escutas?
Summertime, lembras?
Notas longas contínuas
Na noite suada
Para depois despertar
Como alados anjos
Na manhã que veio
Summertime cantando.




Previsão do Tempo

O serviço de meteorologia anuncia ventos
Ventanias e tempestades no cair da tarde
E no meu peito uma leve brisa em sopro
Anuncia uma canção suave em calmaria
Inspirada no mar verde-calmo de teus olhos.

domingo, 4 de agosto de 2013

Solo de Violino

Solo de violino...
Notas que furam
Os escuros da noite
E em tristeza
Na agonia dos agudos
Se despedem do domingo.

Escuros & Silêncios

A escuridão sempre apavorou o homem
Nela, em breu, nada se vê
Além daquilo que vai em nós mesmos
Por isso, nos assustamos
Porque não é fácil encarar o que não conhecemos
Estranhamente, os escuros são irmãos dos silêncios
E escutar nossos silêncios
É meio caminho para a loucura plena
Eis o inferno do homem
A escuridão do caixão e o silêncio dos cemitérios.

sábado, 3 de agosto de 2013

Pen drive lazarento

Pen drive minúsculo
Programado para tomar
Chá de sumiço
Quando o vivente mais
Precisa de ti

Por que fazes isso comigo?

Ó dispositivo dos infernos
Tu és pequeno
Mas um grande lazarento
Que roubas a minha memória
E com ela somes
E de riso te matas
Até me ver no ridículo
Dos três pulinhos dos parvos
Para São Longuinho!
Aparece, ó descomungado!

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Fim de tarde

Fim de tarde, camarim da Noite
Que se pinta de escuros
Quentura que se esfria
Luz que devagar se apaga
Ocaso das minhas horas
Tão únicas e irrecuperáveis
Em que reguei as flores que plantei
Para a alegria e perfume
Doutras tardes, doutros dias
Desse meu jardim que morre.



quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Se tens dúvidas, vives

Se tens dúvidas: pensas, existes
A dúvida é o grande sinal
Que nos diz vivos

Podem ser dúvidas de fé
-- Crer ou não crer? --
Na dúvida creio.

Mas como responder
Ao que poderia ter sido
E não foi, não aconteceu
Ah, se eu não tivesse feito
Ah, seu eu tivesse dado um jeito
Como seria, como viveria hoje?

A dúvida sobre o não vivido
O real que não foi real
A possibilidade negada, é o sinal
De que construímos nosso destino
E prova que ele não existe
Como sina, como coisa determinada
É apenas isso, destino, caminho

Mas, o encontro com vontades antigas
Desejos esquecidos e revividos
Como o amor juvenil, latente
É a segunda chance de viver
Aquilo que nos negamos
Em outros tempos desatentos.




quarta-feira, 31 de julho de 2013

Os sapos da Fazenda

Era uma vez um governo que dizia que a inflação estava sob controle. E na fazenda do Engana-Trouxas, o sapo-pai coaxava: "Dólar dois!"... E os sapinhos da lagoa respondiam: "E trinta!". E assim, se revesavam, por noites seguidas: "Dólar dois... e trinta... Dólar dois... e trinta"...

Poema pelado

Quisera fazer um poema doce doce
Desses para deixar os mal-amados enjoados
Cheios de brincos e vestidos de babados
Rechonchudos como anjos barrocos
De versos pelados como tomates enlatados
Vermelhos de timidez, mas ousados
Só para te dizer que estou com uma puta saudade!

terça-feira, 30 de julho de 2013

Os agudos do silêncio

Tens em ti
Em noites quentes
Em tardes dormentes
Um canto na voz
Desses que apenas cantarolado
Dizem tantas coisas
Como numa ária na ópera
Teu silêncio tem os agudos
Da soprano que sofre.

Do respirar

Ela me pergunta qual é objetivo da minha poesia. Respondo com outra pergunta: qual é o teu objetivo quando respiras?

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Croquis dos Sonhos

Foi um vento que passou
Tão rápido, tão rápido
Mas tão denso, tão denso
Que carregou sonhos
Coisas que nem lembro
Projetos, muitos projetos
Quimeras arquivadas
Para o depois que nunca veio
A juventude passou
Deixando-me os rascunhos
Os croquis do pensado
Mas digo, antes os rabiscos
Mal elaborados, capengas
Do que não ter rabiscado.

Tragédias e Comédias

Sim, diante das tragédias devemos rir
Sim, diante da comédia devemos chorar
São loucuras que se completam
E por serem paradoxos de quem vive
Há se responder com contradições
A esse viver em solavancos
A essa descida que nos alcança desde o berço
E nos coloca sem freios
Ladeira abaixo, sem encosto
Sem barrancos para nos socorrermos
Rio das tragédias, das palhaçadas da morte
Rio com um riso automático, porque doutra forma
Como aguentar essa comédia sem graça
Que dá o sopro de vida às patéticas personagens
Ao mesmo tempo que as sufocam no palco?

Os lírios do campo

Somente quem dormiu no chão
Na dura terra, em noites de frio
Tendo as estrelas como cobertas
Entende o mistério dos lírios do campo
Que não tecem nem fiam
E mesmo assim são a beleza divina.

Invisível

Ah! Tempo,
Assassino de tocaia,
Invisível
Como minha Alma.

domingo, 28 de julho de 2013

Sonho de Poeta

Dormir
Sonhar em versos
E sentir-te
Dentro do poema:
Ah, que vontade
De não acordar!

Sabedoria Cabocla

Seo moço, sabe que sou matuto
Aprendi com os meus olhos
Assuntando coisas que pouco entendia
Mas juro pela Virgem Santa Maria
E tudo quanto é mais sagrado
Que vossa mercê pode fugir de tudo
De muié braba e contrariada
De peixeira baiana voando no escuro
De cachorro louco desenbestado
De coisa ruim na encruzilhada
De touro gaúcho na invernada
Mas nunca vai conseguir fugir do tempo
Nunca, porque é ele que dá a vida
Com mais tristezas do que alegrias
E num dia qualquer
Enjoa de vossemecê
Como quem enjoa de comer cocada
Doce que de tão doce perde a graça
O tempo... Ele vem mansinho
Some com vancê todo dia um bocadinho
E mansinho, mansinho mata sem ocê sentir.

O último trem

Pensa bem
O passado já não tens
Perdeste
O futuro é trem
Que pode atrasar
O presente é o que tens
Única coisa que realmente
Existe e te pertence
Vive e aproveites
Porque, certamente
O último trem
Tem hora marcada
Para chegar
E esse não atrasa.