sexta-feira, 3 de abril de 2015

Curitiba, 322 anos

É cinza o vestidinho de festa de Curitiba
Já chegaram as nuvens
E daqui a pouco a chuva para os parabéns.

II

Curitiba completa hoje 322 anos.
Daí você grita pela janela: "Bom-dia, Curitiba!"
E um eco responde: "Bom-dia, por quê?!"

Humor sempre

Humor não tem limites,
o que tem limites
é a falta de humor.

Oração da noite

Senhor, a todos dai a luz que não se apaga
E um salário que suba tanto quanto a tarifa elétrica da Dilma.
Amém

segunda-feira, 30 de março de 2015

Nos Campos de Guarapuava

Nos Campos de Guarapuava
Nas sesmarias que restaram
Ainda ecoam selvagens gritos
Dos Kaigangs que ali tombaram
E nos restos da Fortaleza do Carmo
Nada lembra Nossa Senhora
Que por certo, naquele sertão
Ao ver o sofrimento d'outros escravos
Chorou todas suas lágrimas
Nas cristalinas águas do Jordão.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Até jaz

Herberto Helder - (23/11/1930 - 23/03/2015)


Adivinho quando morre um poeta
O silêncio come a noite
Os pássaros não voam
Pois não há vento

Sei quando um poeta baixa à terra
Em respeito, as árvores viram estacas com cabeleiras lunadas
Nada se move
Nada se mexe, anda ou rasteja
Pois, morreu o poeta

Foi assim no encantamento de Vinícius
Com certeza foi assim com Pessoa
Com Ovídio, Camões, Catulo
Grande, minúsculo, tanto faz
O poeta na cova agora jaz
Muito puto no prelo de suas próprias indagações
Assobiadas nas canções do seu próprio tempo, sempre impróprio
Pois foi curto sempre.

Fervente

Era chamada de Sal de Fruta
Pois até na água fria
No amor, a danada fervia.

Quaresma

Respeito a Quaresma,
Não como carne...
Nem galinha.

Injusta vida

A vida é feita injustiças,
uns têm conta no bar,
outros na Suíça.

Culpas para toda vida

Meus amigos,
Não carreguem consigo
Pelo resto da vida
A culpa de ter condenado
Em vez de ter educado,
Matado
Em vez de ter preservado a vida,
Feito a injustiça, iludidos
Ao tentar fazer a justiça.

Charlatães da modernidade

Neste melancólico início de século, ganhamos velocidade, técnica e as facilidades decorrentes. Mas, não avançamos um milímetro para decifrarmos a mais antiga angústia: a de se fazer vivente com morte anunciada. Por não resolvermos o essencial problema, os charlatães e aproveitadores de todos os tipos aparecem e nos prescrevem fórmulas mágicas de unguentos para relaxar espíritos. Induzem-nos com propaganda, ideologia, religião salvadora e com todas as verdades absolutas deste mundo roto e travestido com a roupa da prosperidade. Mas essas fórmulas têm prazo de validade curtíssimo e funcionarão bem até que o primeiro infortúnio nos subtraia da catalepsia induzida.

O ateu solitário


Solitário e ateu,
Quando recebia 
Aos sábados
Pela manhã
Testemunhas de Jeová,
Mandava-os entrar,
Fazia-os sentar
E os servia: 
Café e chá
Com bolacha Maria.

Woodstock

Era uma outra era
Em que uma flor de laranjeira
Enfeitava teus cabelos
E acreditávamos
Na revolução de Aquário
Na Paz
No amor
Que nunca se fizeram.

Cegueira de poeta

Na sempre nublada Curitiba surrealista
Poeta que diz namorar a Lua e as estrelas
Precisa urgentemente de exame de vista.

Carrancas

O que seria de mim
Ao enfrentar as carrancas da vida
Sem a suavidade de teu sorriso?

A vida que gera a morte

Não. Não descartaste um feto,
Deste a ele a mais desumana morte
Sem possibilidade alguma de defesa.
És livre dele, viva.
E ele é vida abortada: morto.

Janeiras Afonsinas





Janeiro veio
Janeiro vai:
feliz daquele
que dele sai.

Janeiro veio
Janeiro foi:
feliz daquele
que tem seu boi.

Janeiro veio,
Janeiro, ó dó:
triste daquele
que vive só.

Janeiro veio,
Janeiro vai:
feliz daquele
que tem seu pai!

segunda-feira, 23 de março de 2015

Outono triste

Outono,
Melancólica estação.
São dias que choram
E que se escurecem.
É a manha do mundo
Para se demonstrar,
Como tudo,
Triste também.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Vivei

Vai minha amiga,
Vai meu irmão, 
Vivei. 
É tempo de viver 
E vós sois nele.

domingo, 15 de março de 2015

Emplasto

Saudade vem de uma topada d'alma
Em aguda dor, que se deu na vida
Que nem emplasto Brás Cubas cura.

Imortal e divino

Todo amor tem em si
Algo de imortal e divino
Fora disso, sobra-nos
O que nos faz feras.

sábado, 14 de março de 2015

A Santa Mãe que me socorre

Desde menino adotei mãe alheia.
A minha, a de verdade, não conheci.
Mas, deu-me o mundo mãe postiça,
Divina e linda como todas as mães.
Dela também nunca vi o rosto,
Um retratinho amarelado sequer.
Ela acompanha-me o tempo inteiro
E sem descer do altar, ou dos céus,
Perdoa-me os desatinos, as revoltas,
O que foi feito de ruim e o não feito.
Mesmo ao resvalar pelos abismos
Encontro suas mãos em socorro
E faz-me guiar seus outros filhos
Órfãos que dela têm se socorrido,
Desvalidos sem norte ou abrigo,
Gente que por este mundo anda
A procura de paz e alento.

terça-feira, 10 de março de 2015

Adeuses & Saudades

Somos feitos de adeuses e saudades.
Na vida, engana-se quem pensa estar chegando.
Da vida estamos sempre de saída.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Os nomes da morte

Num tempo que já vai distante
E de fingido respeito
Chamava-se "passamento" 
A morte de algum sujeito
E nas rádios, depois da Hora do Angelus
Debulhavam-se lágrimas 
E votos de pesar à família enlutada
Pelo branco e maquiado defunto 
Que tinha passado desta para melhor
E que agora estava em câmara ardente
No próprio e derradeiro velório

Enquanto as beatas na sala fofocavam:
"O desgraçado deu adeus ao mundo!"

O padre arrematava: 
"Entregou a alma a Deus"

A viúva em suspiros já tinha saudades: 
"Apagou a vela de vez!"

Os bêbados, que nem conheciam o morto, diziam em coro:
"Foi para o beleléu"
"Bateu as botas"
"Foi para a cidade dos pés juntos"
"Esticou as canelas"
"Foi comer capim pela raiz"
"Empacotou"
"Vestiu o pijama de madeira"
"Foi para o além"
"Virou presunto!"

A sogra comemorava:
"Foi bom, parou de sofrer, já estava na hora extra!"

E num canto, um chifrudo do defunto, com despeito, em rogo praguejava: 
"Bem feito, entregou a alma pro diabo!".

Amortecido

Uma nova paixão
Amor
Tece.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Morte, a democrata

Democrática Morte
Que aceitas entre os teus
O pobre e o abastado
O avarento e o pródigo
O saudável e o lazarento
O demente e o normal
Sem distinção de raça
Cor, sexo, ou origem social.

***

Democrática Muerte
Que aceptas entre los tuyos
Al pobre y al rico
Al avaro y al pródigo
Al saludable y al leproso
Al demente y al normal
Sin distinción de raza
Color, sexo, u origen social.

(Versão para o espanhol de Félix Coronel)

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Matuto cismado

Sou matuto cismado,
Desses cabras que conversam em voz alta com a cisma,
Sem da cisma esperar qualquer resposta.
Pela manhã, cedinho, com o Sol quase desperto,
Sigo o caminho da roça a cismar pelos matos adentro.
E pergunto ao meu bom Deus, por que no mundo tem tanta criatura
Sem atinar da felicidade que sinto ao beber da água do ribeirão?
A felicidade
De quando sinto na cara o vento,
De quando sinto crescer os calos nas mãos,
De quando sinto a terra que se revira contente para dar vida à semente?
E Deus, que deve ter cismas mais importantes, não responde nada não.
Já à tardinha, com o Sol mortinho,
Encosto a enxada no eito
E trago a viola pro peito
Pra esquecer as cismas do cansado dia
E procuro nas cordas soltas
O canto que pode ser alegre ou triste
Dependendo do entendimento
Que tive daquilo que não sei nada não.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A encomenda

T. S. Eliot, poeta, Nobel de Literatura de 1948
"A vida é longa demais"
Disse Eliot
Talvez sim, no tempo do poeta
Em que a velocidade
Era menina de berço
E de gatinhas se arrastava

A vida é curta demais, digo
Tão rápida hoje
Que já se nasce
Com cova sob encomenda
Em cubículos no cemitério.

Paixão em águas profundas

Júlio Pomar, “Mulheres na Praia”, 1950, óleo s/ tela
Paixão
É nau com naufrágio anunciado
Em águas profundas para riso de Netuno
Porém, 
Capitão, ela é inevitável
Vá fundo! 
Como descobrir as mansas águas do amor
Ao se largar do barco da paixão o remo?

A geometria do torto

Poema não carece de régua e compasso
Para dizer e marcar o que há de direito no torto
Sua geometria é feita nas curvas dos sonhos
Nas infinitas retas que juntam teu coração ao meu

Sua natural assimetria diz que cada criatura é diferente
No sentimento que se carrega nesta terra penitente

Um poema é feito por poeta criança que desenha
Uma manhã ensolarada generosa em esperança
Que pode ser clara, doce, boa e bela
Para as almas inundadas de amor e compaixão

Mas que pode ser o prenúncio do inferno diário
Para as almas amargas que nada mais esperam
E vagam na devassidão do ódio
Em perpétuo e penoso calvário. 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Coração andarilho

Sou miserável poeta
Tudo que tenho porto comigo

Calço velhos sapatos contentes
Para gastar mundo
E escondo no bolso
Caixinha de lembranças
Onde guardo sonhos

Carrego nos cansados braços
Uma lira de orvalho
Para cantar os encantamentos 
Dessas paisagens
Dessas frescas manhãs
Em esperanças
Dessas mornas tardes
Em labutas tantas
Dessas noites artesãs 
Das cismas dos viventes

Tanjo a lira para poemar a magia
Que sai do meu coração
Em ornato ao que é simples
Em admiração pelo que vive.