quinta-feira, 7 de abril de 2016

Tumba nova

Vive na mentira, é a própria falsidade
E diz que isso é felicidade
No dia em que morrer, vai dizer a si
- Ó meu Deus, não morri
Mudei de casa, é uma tumba, a mais linda que já vi!

Paciencioso

Sou cabra assossegado
Não sei a razão de bulirem comigo
Se sou paciencioso, capaz de esperar dez anos
Para mandar o sujeito haver-se com o diabo.

A natureza do burro

Não gaste boa ração com burro teimoso.
A qualidade do feno não transformará sua natureza.

Em pagamento

Quão terrível é
Aos que odeiam
Receberem o amor
Como paga.

Realidade bruta

A Verdade é a realidade bruta
Por isso muita gente foge dela
A Arte, porém, não é fuga, como algures se imagina
A Arte é a Verdade vista pelo mundo dos sonhos, onírica
Mais leve para alívio das almas dos homens
Do contrário, a Verdade, em gravidade, nos esmagaria.

Raio medido

A morte é raio medido
Pelos deuses do destino
Cai na hora exata, não te enganes
Mesmo que em tempo firme, sem nuvens
Mesmo que tu cales o tic-tac dos relógios
Mesmo que tu te escondas
Sob o manto da fantasia que te ilude e consome.

Tema universal

O amor sempre foi tema da poesia universal
Os poetas descrevem suas possibilidades há mais de 3 mil anos
Embora invariável na forma - sentido igual sempre
Suas variações de conteúdo são tantas e tantas...
... Inesgotáveis, porque é vida.

Mentir dá trabalho

Mentir para si mesmo e aos outros dá muito trabalho; é tolice imensurável, Nunca funciona bem, pois há que se inventar um mundo fantasioso a cada minuto. E a fantasia sempre em algum ponto falha, porque a realidade lhe é superior. O preço da falsidade é a vergonha do tolo, que se julgou esperto dentro do mundo que a si inventou.

Indireta direta

Escrevo e alguém acha que é para ele ou para ela, uma indireta. Não se valorizem tanto, vaidosos, escrevo para a humanidade.

Última refeição

Ao condenado dá-se o prazer da última refeição
Ele viverá minutos supostamente felizes
Enquanto o verdugo afia a lâmina.

Não esqueço

Sou perdão
Mas, esquecer não esqueço
Sou humano.

"Onti"

Nasci no Norte e falava "onti"
E esse ontem passou
Ignorando a gramática.

Ousada onda

No quebra-mar, ousada onda
Lambe tuas bem feitas pernas...
Inveja que me faz sonhar
E que inveja, Guiomar!

Espermacete

Não se confunda, pudica senhorita:
Espermacete é aquilo que escorre da vela, denso e quente... Explico, latim medieval: sperma ceti (sêmen da baleia, macho, por óbvio); substância gorda usada na confecção de velas e cosméticos no tempo dos afonsinhos.

Menina da perna torta

Aquela menina namoradeira tinha a perna torta
Mas de resto era bem feita, quente, em brasa sempre
E o namorado da vez dizia: "Ah, a perna!... !Quem se importa?"

sábado, 26 de março de 2016

A jato

Cuida com o que pedes a Deus
E diante dos homens e dos ratos
Pediste Justiça e ela veio montada num jato!

Arte é liberdade

A arte exige do artista a insubmissão, pois sua natureza é a liberdade. Artista submisso a governos, não é um artista, é um lacaio do status quo, que se vendeu por 30 moedas.

Os três josés

Filhos de nordestinos que pediam chuva
Éramos três irmãos josés em homenagem ao Santo
Dois se foram e no meu coração choram
Em chuvinha fina, em saudade contínua, em pranto tanto.

O resto apenas

Não há nada mais encantador
Do que a inteligência...
O resto, amiga minha,
É isso, o resto apenas.

Na estrada II

Na estrada, quase fronteira com o Paraguay,
esperando a tempestade.
O mundo é lugar arriscoso,
aqui ou num aeroporto europeu,
se carece de uma boa reza,

Na estrada

Na estrada, lamento passar correndo pelas cidades
Feito penitente fugindo dos próprios pecados
Sem vê-las, sem senti-las, sem conhecê-las
Sem abraçar os sonhos de suas gentes.

Pão e silêncio

Eu trago as mãos estendidas
Como quem oferece o pão
Feito de verdade e poesia
Para quem tem paz no coração
E aos ingratos em tormentos
Ofereço o silêncio do perdão.

Até o medíocre evolui



Creio na evolução dos seres.

O medíocre, por exemplo,

inevitavelmente torna-se-á

um tolo completo e, sem modéstia,

alcançará a glória dos estúpidos.

Quartinho de despejo



Joga fora o que tu pensas amar e não te ama
Teu coração é o templo das coisas puras e boas
E não quartinho de despejo para velhas tralhas.

Bom destino



Faz o bem para o bem do teu fado
E tua alma se sentirá recompensada
Mesmo que tu não escutes o obrigado.

Nada não



Claros são meus dias
Belos nos meus olhos, suaves em minh'alma
Não me ofereças a noite, a tua escuridão
De ti e da tua mentira não quero nada não.

Mentir para si



Vive na mentira, é a própria falsidade
E diz que isso é felicidade
No dia em que morrer, vai dizer a si
- Ó meu Deus, não morri
Mudei de casa, é uma tumba, a mais linda que já vi!

sexta-feira, 18 de março de 2016

Nos meus velhos olhos

Nos meus velhos olhos
Já cansados, escorados nas muletas das lentes
Trago antiga Esperança
Cada vez mais menina, cada vez mais nova
Em ternura, em contentamento.

domingo, 13 de março de 2016

Domingo burocrático



Tanta coisa para me ocupar neste belo domingo, tanta poesia nas ruas e eu aqui, neste castigo dos textos técnicos, inspirado nas burocracia das tabelas, na falta de beleza dos gráficos. Mas tem nada não, teimoso, entre um frio parágrafo e outro, faço verso para o ocaso sonolento do domingo. Para aquela flor que teve, neste dia, a sua vida inteira em formosura e eternidade
Ao circular por Curitiba
O jovem intelectual imaginava-se
Em sorumbática perambulação
Pelas ruas e cafés de Paris
A indagar em vão a seus sofridos neurônios,
Sobre as teorias filosóficas que lhe obrigavam
A tomar uma atitude existencial
Ser um existencialista
Como Sartre, Beauvoir etecetera e tal

Não e não, não suportava mais não
Aquelas sensações de homem com comichão:
Desorientação e confusão
Face a um mundo
Aparentemente sem sentido e absurdo.