quinta-feira, 23 de junho de 2016

A cola

Não há boa cola para porcelana ou vidro
Que lhes devolva a beleza depois de quebrados
Não há boa palavra de cura ou alívio
Para o coração ferido e falsamente cicatrizado.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Passos da bailarina


Teu rosto de porcelana
Branco, branco,
Em contínuo e belo susto.
Cabelos presos...
Andar de bailarina...
Andas pela casa
E eu nem te escuto.
Depois, em sussurros,
Falas baixinho
Do amor contido
Porém, jamais tido.
Escuto os sussurros
E imagino-te
Estancada num plié
Ou genuflexa
Em súplica de adeus
Mas, tu és teimosa
E em tendu
Alcança-me o peito
Em pêndulo
Como são
Os corações dos poetas.
Imediatamente
Afasta-me com um jeté
Rond de jambe en l'air
No rondó, rodopio
E volto a mim
És doutro mundo
E eu, desse mundo meu
Tão poesia
Teu rosto de porcelana
Branco, branco,
Em contínuo e belo susto.
Cabelos presos...
Andar de bailarina...
Andas pela casa
E eu nem te escuto.

O fogo de Lurdes


Lurdes, dei dois espirros E fiquei mui indisposto. Julguei ser gripe das bravas, Com quentura por todo corpo, Abracei-me a ti para esfriar E por pouco não peguei fogo!

Três lições para jovens jornalistas


1 - Duvide 2 - Duvide novamente 3 - Duvide sempre.

E se tudo não fosse verdade


E se tudo isso não fosse verdade E se vivêssemos numa dimensão simulada Manipulada de futuro distante Por homens-deuses-crianças entediados? Neste game dos infernos Seríamos os desgraçados títeres Num jogo horrendo, insano e débil Em que se ignoram as regras E quantos pontos nossas vidas valem.

O cemitério das artes


As artes não precisam de governos Nem submissão a ministério As artes precisam de artistas Artistas que não se vendem Diferentes daqueles que têm no mercado Das artes o cemitério.

O Sena e o Belém


O Sena transborda em Paris O Belém enche-se em Curitiba O Sena é vivo; o Belém é morto.

Bons-dias, Pedra


Se no caminho encontro uma pedra, digo: - Bons-dias, Pedra! E por outra vereda sigo. Meu medo é um dia ela me responder E na insuportável solidão das pedras, suplicar-me:: - Abraça-me, fica comigo!

Até onde atino


Certo, certo mesmo, amigo E digo até onde atino Com clareza e claridão É que deste mundo Ninguém sai vivo não Por isso, vamos trocar prosa Falar do conhecido Especular o coração Sobre essa coisa chamada amor Que é o único bem Que nos dá satisfação.

Sofro de poesia II


Sofro de poesia, cariño, Já te disse, sofro E estou cada vez pior Sonho em versos E, eles, perversos Rimam teu nome E me atazanam Até quando me escondo Em mim mesmo.

Gente que é gente

Tem gente que de tão gente Temos que agradecer a existência Erguer as mãos para o céu e gritar - Que bom ter te encontrado nesta vida!

O bom caminheiro

O bom caminheiro sabe
Que a jornada pode ser longa
E o que prestou ontem, talvez não preste mais
Assim, desfazer-se das tralhas sem serventia
Do pesado que prende a alma
É imperativo para o prosseguir
A gastar sapatos, a gastar paisagens.

Vidinha

Esta tua vidinha com tudo medido e no lugar
Com hora certa para comer e peidar
Fez fugir teu anjo-guardião, que passou por mim e gritou:
"Que tédio, esse cagão!"

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Dor no caminho

Tire tua dor do teu caminho
Que eu quero ver o teu sorriso...

Coisas arriscosas

Algumas coisas que são arriscosas neste mundo:
Dormir com a bunda de fora. Mijar contra o vento,
Namorar mulher casada com corno bravo e tanso,
Ser o próprio corno que, de bravo, se torna manso.

Abraço

Abraço, abracinho, abração
Abraço de amigo, apertado, de urso
Meu abraço vem do coração.

Tropical

Nasci sob o Trópico de Capricórnio
Linha imaginária que dividiu meu coração
Ora quente, ora frio, em dualidades
Os trópicos não admitem falsidades
Muito menos mergulhos nas mesmices.

A pipa

Voo, voo, voo...
Vou no Poema montado
Voa, voa, voa
Pipa de encantos
Voa em céu azulado.

Ostentação

Triste este nosso ignaro tempo, em que os estúpidos se acham no direito de ostentar a própria ignorância.

Sonho ateu

Um sono eterno e sem sonhos
É a pobreza do sonho ateu
Que tormento isso deve ser
Para quem não tem no peito a esperança.

Em tempo de alices

Em tempo de alices e maravilhas
É bom que se diga que, necessariamente
Antecede-se a uma vida mágica
O sonho também absurdamente mágico.
O sonho é o projeto, a vida é a sua obra.
Portanto, afasta de ti os sonhos medíocres.

Soberbo escravo

O soberbo homem que desdenha o divino dentro de si
Crê deidades outros homens e deles torna-se escravo
Esquece-se que pelo menos os divindades celestiais
Nos dão, por caridade, a faculdade de pensar
E o pensar é a nossa única e verdadeira liberdade.

O Macaco e o Sapo

O macaquinho andava muito triste pela floresta. Não estava contente consigo. Pragmático, odiava o próprio longo rabo. Ao alcançar uma alta árvore, encontrou, no topo, o macaco ancião e disse a ele que os macacos tinham algo em si de imprestável: a cauda que, para o macaquinho, não servia para nada. E apontando para o sapo que descansava perto da lagoa, disse: "Veja que magnífico é o sapo, igual a nós também pula e não tem que andar por aí, carregando coisa inútil alguma". O ancião pensou um pouco e ponderou:"Por que perdes tempo em querer mudar aquilo que é útil em ti? O sapo não se equilibra sobre as árvores para comer nem o macaco se lança no lago para sobreviver". Aos que prestaram atenção, saibam que o defeito só existe nos olhos dos invejosos e a inveja nem sempre é racional. O invejoso despreza a si e a si desama ao almejar muitas vezes o impossível. 

Paço da Liberdade

Em meus perdidos passos, preso em mim
Encanto-me com as quentes cores das flores
No frio curitibano, no Paço da Liberdade.

Caderno novo

Penso que a cada dia ganho caderno novo
Da paisagem tiro coloridos pincéis
Mesmo chorando, desenho sorrisos tantos
E desdenho da vida os desencantos
Porque no meu caderno não cabem mágoas.

O bom caminhar

Existe jeito e maneira para um bom caminhar
Nesta vida, leve apenas o necessário
Coisas ruins, não porte ou carregue
Mas o amor verdadeiro, este é suave 
Leve-o consigo, no coração, ele é sempre leve.

Tristeza que me abandonaste

Desvanecida Tristeza que me abandonaste, assim à toa
Sou poeta perdido sem te misturar ao feliz do que se deseja 
Sem tua presença, descrevo mundo falso e ideal
E desde que o mundo é mundo tu és nele, Tristeza
E como hei de escrever sobre a tarde que cai e morre?
E como hei de escrever sobre a lágrima que corre no rosto
Da mãe que vê seu filho doente e sem remédio?
Volta Tristeza, tu és do meu poema o sal, revolta e verdade.

A PANTERA

Ah, a ingratidão, esta pantera
Que vive no peito dos ingratos
E ataca os caridosos incautos!

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Chovia

Chovia
E tu te juntavas, em prece
Em humildade, aos anjos que choravam.

A mediocridade como escolha

A virtude é uma escolha
A mediocridade não é escolha
É burrice mesmo.