sábado, 4 de março de 2017

Domingo desaforado

Domingo desaforado
Disse-me todo molhadão
Que ser sempre ensolarado
Não é de sua obrigação!

Dá tempo

O mundo acaba dia 16
Ainda dá tempo, amiga
Amar antes da escuridão.

Raras gentes

Há certas raras gentes
Que nos oferecem sorrisos
Enfeitados em caixa de presente.

Amores ordinários

Certos amores ordinários
Mesmo se jurados em cartório
Não valem um fósforo queimado.

O osso

Hoje é segunda-feira
Dia de pegar no batente
Sem medo, sem sobrosso
Do trabalho vem a carne
Da preguiça vem o osso.

Com cuidado

Nos escuros
Abra portas para buscar a claridade
Mas, cuidado
Algumas dão para o Sol do jardim
Outras para os terrores da tempestade.

Caritó

Separa no coração um caritó
Um cantinho para coisas velhas
Em desuso, coisas de dó.

A joaninha

Chove no jardim
E a esperta joaninha
Faz da folhagem
Seu guarda-chuva.

Goteiras

Casas velhas, goteiras
Tetos furados
Velhos olhos, cachoeiras
Afetos apartados.

Louvor à vida

Tela a se pintar na memória
Dia de louvor à vida
Em manhã azul, na aurora luzida.

Brisa safada

Brisa-safada
Levanta-saias
Refresca-amada
Esquenta-amores.

Sim!

Distraídos amaremos!

Capricho

Café perfumando esta manhã
Escandalosamente de Sol
Deus tem dias em que capricha.

Bem acompanhado

De certos lugares a gente parte
Bem acompanhado
Com a boa saudade
De braços dados.

Espaço-tempo

Minha saudade, cariño meu
Ignora o espaço-tempo
E vive no último beijo teu.

Aquela mulher

Aquela mulher
Não me fale daquela mulher
Ela pode se fantasiar de ouro
Será ouro de tolo
Neste Carnaval...

Teimoso coração

Bate por amor
Bate pela dor e desilusão
Bate e te faz vivo
Teimoso é o coração.

Sonhei contigo, Cariño

Sonhei contigo, Cariño
Vieste doutro Multiverso
Por certo e ficaste tão perto
Belisquei-me para saber-te real
Neste meu Universo de padeceres
Desencantado e troncho

Vieste para ficar, bem o sei
Pois trazias contigo teu cão
E teu coração doente exposto
Trouxeste-me ramalhetes de rosas
Roubadas do meu jardim
Que há anos deixei de cultivar
Mas, ao me beliscar
Machuquei-me tanto
Que, miseravelmente, acordei
Mas, como pode, estavas aqui
Conversaste comigo, sorriste
E dividiste o mesmo travesseiro?
Na escuridão, apanhei os óculos
Olhei para o relógio, madrugada
E do meu lado, tu não estavas.
Esvaneceste em ais, Cariño
Foste em fumaça, diáfana
Pelas veredas atemporais.

Somos e não somos

Somos e não somos,
assim como as distantes estrelas
que brilham, mas não mais vivem.

Tempo flácido

Que tempo este, amigos
Este tempo no qual vivemos
Fingido, líquido, flácido...

A cobra cega

A cobra é cega e lisa, menina
Nasce com uma só cabeça
Mas como não tem ombro
Mente que é só ali nas coxas
Nas beiras, e neste bem-bom
Escorrega e está feita a besteira!

Assombração

Nas noites escuras da quaresma
O peão se benze:
- Assombração, ó peste, cruz credo!

Campeio

Campeia bons sonhos.
Os que avivem arriba,
Nos céus, são os me'ó.
Os do chão, cate não,
Põe fora, são veneno
De fel, de dor e de dó.

Choros

Saudade a chorar em mim,
Qual soluço é o teu,
Qual soluço é o meu, enfim?

Pobre vírus

Tenho quase pena do Vírus
Sujeito popular e poderoso
Porém sem reino, esse tinhoso
Não é vegetal, nem mineral
E muito menos animal
Por assim ser e não ser
Em revolta faz estragos
Deixa-nos doentes
Divagadores em febre
Em noite de sexta-feira
Em dias de festa, alegres
Mau, ele ignora
Xaropes, sulfas, sopinhas
E até mesmo antibióticos
Vem sorrateiro, o lazarento
Trazendo com ele
Sua prima Gripe
Morfética e ardente
E que nos força
A dormir com ela
Em cama quente.

Mel e fel

Para os que não gosto,
O fel das frases secas.
Para os que gosto,
O mel dos versos.

Brinquedos

Sol, bolinha de fogo no céu
Nuvens brincam de pegar
O vento da Serra do Mar.

O cisne samba

O cisne desceu dos palcos
Cansou das piruetas clássicas
E no samba tem seus passos.

Ad infinitum

Amar, assim no infinitivo
Sem objeto, intransitivo
Ab aeternum ad infinitum.

Poema de arrimo

Construo poema de arrimo
Nivelado nas rimas transversas
Do amor que'inda me resta.