sábado, 4 de março de 2017

As árvores da Eufrásio

Nas árvores da Eufrásio Correia
Um canário canta de pulmão cheio
Esperando encantar sua companheira
Mas eis que aparece um urubu
E diz: "Canário besta, tomaste na orelha,
Veja que coisa feia, vou te multar
Por ordem da vereadora infeliz:
Em Curitiba é proibido cantar
O amor, paixão ou até mesmo tesão
Para a fêmea própria ou para alheia!"

Amarga vida

Chove, chove, chuvinha abençoada
Mas seja breve
A abelha triste se escondeu no favo
É operária
E minha amarga vida precisa de mel.

Abraços

Abraço, abracinho, abração
Abraço de amigo, apertado, de urso
Meu abraço vem do coração!

De terno preto

Nas tardes em que me esqueço
Escondido em meu terno preto
Atônito atravesso ruas descoloridas
E vejo-te vagar vestida de vida

Vida que sopra em brisa breve
Que a ti canta como a mim cantou

Ah, quanto encanto não percebi
Nesse vento que me encantava
E que me avisava da brutalidade
Do tempo que me gastou

Hoje te sopra o mesmo vento
Mas, não faças como eu
Que encantado pelo seu canto
Da própria vida se esqueceu.

Fantástico

Aos domingos à noite
Saio de casa e miro a Via Láctea
O céu é o Fantástico.

Estrela só

Namoro aquela estrela só
Afastada das constelações
A solidão e seus segredos
Instigam-me, comovem-me.

Nuvens rosas

Gosto dos finais de tarde do Verão curitibano: nuvens rosas, tal e qual o algodão doce colorido do Passeio Público, no Céu em que o Sol é um balão de gás encantado, perdido e errante no lusco-fusco do horizonte, fugitivo das mãos de uma criança.

A sonata

Sinto teus pés suaves, em ponta
Pas-de-deux no meu coração
Suaves como uma sonata de Chopin.

Sina do Sol

É fevereiro, linda que dorme
Sai aqui fora e venha ver
A sina do Sol, no amanhecer!

Matadeiras

Ontem foi dia da saudade
Muitas tenho
Umas pequeninas
Outras matadeiras.

Desencontro

É dois de fevereiro
Meu amor não chegou
Esperei no lugar errado
Ou foi ele que errou!

Curitibanas tardes

Um velho calção de banho
E o Passeio Público para vadiar...
Duro é ver o Sol, escondido pelo mar de concreto
Que cobre o horizonte dessas curitibanas tardes.

Coração vadio

Eita, coração vadio!
Basta ver a medonha
E dispara em batucada
De sambista campeão!

Velho tema

Há cinco mil anos
Os poetas insistem no tema amor
Adoráveis teimosos!

Janaíma manda amar

Mar, mar, mar, vasto mar
Janaína manda amar
Amor tão grande como o oceano.

Aulas com as orquídeas

Contrariado, tive aulas com as orquídeas
Crianças não gostam de cuidá-las
Exigem paciência, espírito e calma
E assim passou-me o tempo das brutalidades
Hoje, cuido de versos e aplico neles
Os ensinamento das orquidáceas
Sobre as descomposições da terra
Fazer florescer beleza, cor, em plurais formas.

Meu teorema

Você foi meu teorema inacabado
Dona das variáveis indeterminadas
E equações de vida sem soluções
É... O amor é o quântico calor
Para o qual não temos termômetro
E sempre será isso: inexatidões.

Sem calendários

Os pássaros
Não têm calendários
Todo dia é dia de canto
Para acordar, para viver!

Nu

Nu
Vens
Nu
Vais.

Bailado de passarinhos

Acordei ouvindo Tchaikovski
É que havia em minha janela
Um bailado de passarinhos.

Do meu gostar

Já ganhei o dia, poeta miúdo
Fiz poesia p'ros pássaros
E p'ras gentes do meu gostar.

No altar

O falso não me engana
Sei o santo
Que boto no meu altar.

Engana-te

Criança, cadê teu cata-vento?
Engana-te ao tentar
O vento com as mãos segurar.

O galo

O galo da vizinha
Respeita o domingo
Ou foi para a panela:
Hoje não teceu a manhã!

Tu me olhas

Tu me olhas
E imediatamente
Afundo-me
Nas delícias
Destes verdes mares.

Brilho de vaga-lume

Foi em noite de cheia Lua
Foi de eclipse
E tua pele, brilho de vaga-lume, nua.

Aprendizado

Nesta vida bruta, em caminhadas
Aprendi muita coisa, meu irmão
A não ajudar a quem não se ajuda
E a quem não se ama não
No caminho sigo com os que amo
Que dão paz ao meu coração.

Canta

Minha esperança precisa se alegrar.
Canta, canta, amiga minha
Para minha esperança se encantar.

Fratura

Tropecei num verso
E caí aos teus pés:
Fratura exposta no peito.

Incensos

Acendia incensos
Ascendia-me
Recitava o Sutra:
Nesses ascensos
Perdia-me, ardia-me.