quinta-feira, 2 de junho de 2016

Dor no caminho

Tire tua dor do teu caminho
Que eu quero ver o teu sorriso...

Coisas arriscosas

Algumas coisas que são arriscosas neste mundo:
Dormir com a bunda de fora. Mijar contra o vento,
Namorar mulher casada com corno bravo e tanso,
Ser o próprio corno que, de bravo, se torna manso.

Abraço

Abraço, abracinho, abração
Abraço de amigo, apertado, de urso
Meu abraço vem do coração.

Tropical

Nasci sob o Trópico de Capricórnio
Linha imaginária que dividiu meu coração
Ora quente, ora frio, em dualidades
Os trópicos não admitem falsidades
Muito menos mergulhos nas mesmices.

A pipa

Voo, voo, voo...
Vou no Poema montado
Voa, voa, voa
Pipa de encantos
Voa em céu azulado.

Ostentação

Triste este nosso ignaro tempo, em que os estúpidos se acham no direito de ostentar a própria ignorância.

Sonho ateu

Um sono eterno e sem sonhos
É a pobreza do sonho ateu
Que tormento isso deve ser
Para quem não tem no peito a esperança.

Em tempo de alices

Em tempo de alices e maravilhas
É bom que se diga que, necessariamente
Antecede-se a uma vida mágica
O sonho também absurdamente mágico.
O sonho é o projeto, a vida é a sua obra.
Portanto, afasta de ti os sonhos medíocres.

Soberbo escravo

O soberbo homem que desdenha o divino dentro de si
Crê deidades outros homens e deles torna-se escravo
Esquece-se que pelo menos os divindades celestiais
Nos dão, por caridade, a faculdade de pensar
E o pensar é a nossa única e verdadeira liberdade.

O Macaco e o Sapo

O macaquinho andava muito triste pela floresta. Não estava contente consigo. Pragmático, odiava o próprio longo rabo. Ao alcançar uma alta árvore, encontrou, no topo, o macaco ancião e disse a ele que os macacos tinham algo em si de imprestável: a cauda que, para o macaquinho, não servia para nada. E apontando para o sapo que descansava perto da lagoa, disse: "Veja que magnífico é o sapo, igual a nós também pula e não tem que andar por aí, carregando coisa inútil alguma". O ancião pensou um pouco e ponderou:"Por que perdes tempo em querer mudar aquilo que é útil em ti? O sapo não se equilibra sobre as árvores para comer nem o macaco se lança no lago para sobreviver". Aos que prestaram atenção, saibam que o defeito só existe nos olhos dos invejosos e a inveja nem sempre é racional. O invejoso despreza a si e a si desama ao almejar muitas vezes o impossível. 

Paço da Liberdade

Em meus perdidos passos, preso em mim
Encanto-me com as quentes cores das flores
No frio curitibano, no Paço da Liberdade.

Caderno novo

Penso que a cada dia ganho caderno novo
Da paisagem tiro coloridos pincéis
Mesmo chorando, desenho sorrisos tantos
E desdenho da vida os desencantos
Porque no meu caderno não cabem mágoas.

O bom caminhar

Existe jeito e maneira para um bom caminhar
Nesta vida, leve apenas o necessário
Coisas ruins, não porte ou carregue
Mas o amor verdadeiro, este é suave 
Leve-o consigo, no coração, ele é sempre leve.

Tristeza que me abandonaste

Desvanecida Tristeza que me abandonaste, assim à toa
Sou poeta perdido sem te misturar ao feliz do que se deseja 
Sem tua presença, descrevo mundo falso e ideal
E desde que o mundo é mundo tu és nele, Tristeza
E como hei de escrever sobre a tarde que cai e morre?
E como hei de escrever sobre a lágrima que corre no rosto
Da mãe que vê seu filho doente e sem remédio?
Volta Tristeza, tu és do meu poema o sal, revolta e verdade.

A PANTERA

Ah, a ingratidão, esta pantera
Que vive no peito dos ingratos
E ataca os caridosos incautos!

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Chovia

Chovia
E tu te juntavas, em prece
Em humildade, aos anjos que choravam.

A mediocridade como escolha

A virtude é uma escolha
A mediocridade não é escolha
É burrice mesmo.

Mercúrio alinhado

Mercúrio alinhado com os meus olhos
Desfila na claridade do Sol 
Pequenino, porém vaidoso
De contribuir com a ordem celeste
E de às vezes bagunçar o horóscopo
E o destino dos pobres viventes desta Terra.

Perfumados estrumes

Ó tempo, ó costumes
Que a política nos vende
No marketing indecente
Perfumados estrumes.

Caipira erudito

A erudição nos dá aulas de humildade
Ao mostrar que parte do português caipira
Era a língua dos cultos do Século XVII.

O burrinho e o camelo

O jovem Burrinho encontrou um Camelo descansando sob uma árvore ao lado do rio, enquanto chovia muito. Arrogante em sua juventude, ele desafiou o Camelo:
- Vamos atravessar o rio agora, do outro lado tem muita comida...
- Não – disse o Camelo – vamos esperar terminar a tempestade e depois passamos. 
Sem observar a prudência do velho camelo, o Burrinho entrou na água e foi imediatamente arrastado pela forte correnteza e, se afogando, gritou:
- Salve-me, Camelo!
E o camelo respondeu:
- Não posso. O que poderia fazer já fiz. Avisei-te. Pede ajuda a tua soberba que, com a gula, te fizeram ignorar a experiência dos mais velhos.
Aos que escutam esta fábula: saibam que há limites ao se ajudar o teimoso.

Vida que sopra em brisa breve

Nas tardes em que me esqueço
Escondido em meu terno preto
Atônito atravesso ruas descoloridas
E vejo-te vagar vestida de vida
Vida que sopra em brisa breve
Que a ti canta como a mim cantou
Ah, quanto encanto não percebi
Nesse vento que me encantava
E que me avisava da brutalidade
Do tempo que me gastou
Hoje te sopra o mesmo vento
Mas, não faças como eu
Que encantado pelo seu canto
Da própria vida se esqueceu.

Imenso rio

Imenso Rio Paraná 
Em tuas margens 
Penso ver o mar.
És denso, porém
Segues suave
Para as cataratas
Como as almas
Que tu lavas
E em murmúrios
Ao desconhecido
Se largam e seguem.

Dia de algodão doce

A despeito de manhã sem graça
O fim de tarde trouxe-me
Pedaços de algodão-doce
Num céu de lua antecipada
Em ornatos doirados
A este dia que terei saudades
Pois em bondade se despede.

Nas barrancas do Iguaçu

Nas barrancas do Iguaçu
Com a Lua e Júpiter repousando n'água
Vi uma moça branca, branca, linda, linda que se banhava
O índio que guiava o piloto do barco
Disse-me que era visagem
Capricho de seus deuses pagãos
Arrepiado, em minhas crendices de poeta
E depois do sinal da cruz
Falei a ele que era alma de anjo
Que ali vagava e brincava, pensando ser pirilampos
As estrelas que na lâmina do rio brilhavam.

Doidice diária

Nessa doidice de fazer muito
Sem se saber muito bem a razão de fazê-lo
É mister portar alguma loucura lúcida.

A pior memória

Tenho a pior memória do mundo
Aquela que nada esquece
Principalmente o prometido
Que espera seu tempo certo.

Para afinar

Escuto-te ao piano
E procuro colocar em partitura imaginária
Tuas notas firmes que não desafinam
Para ver se afino-te ao destino meu.

Saudades das Sete Quedas

Saudades das Sete Quedas
Que mais adiante de Guaíra
No rio Paraná que descia
Itaipu, obra dos homens, fez engolir
Saudades das Sete Quedas
Obra de Deus, que o homem destruiu
Que soberos fomos ao pensarmos
Que o duro concreto armado
Seria mais belo do que as quedas
Do velho rio que rugia

A rosa vermelha dos ventos

Bailavas sobre o lago
Na leveza das borboletas
E carregavas nos lábios
A rosa vermelha dos ventos
Dizias assim, sem palavras
Que a vida pode ser mansa
E que a flor pode dançar
Levada em bailado brando
Por quem tem alma de luz
Leve, leve, muito leve.