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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Zanga das horas


Que enfado! Que amofinação!
Repetir a vida a vida inteira
Tirar a remela dos olhos, acordar
Escancarar a bocarra diante do espelho
Lavar os dentes que ruminam afazeres
Todos ainda por fazer
E que se repetem, repetem, repetem
Espero, hoje, algo novo no ritualístico
Caminho que vai da mesa ao sanitário
Talvez, uma música desrotinante, nova
Feita numa escala de doze ou mais notas
Realmente diferente
Para embalar o repetir e a zanga das horas.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Ela: a procura



Como saber-me viva se ninguém mo diz?
Como saber-me viva e necessária?
Como saber-me viva nos braços do vento?

Há no mundo uma vontade do encontro
O criado, posto que separado,
Sente saudade do tempo que se fazia junto

Por isso as coisas e as gentes se procuram
Obedecemos à vontade universal
Que nos pretende e nos quer de mãos dadas

Mas não pode ser qualquer mão nas minhas mãos
Há de ser aquela que ao roçar-me os dedos
Dê-me a certeza de que meu coração abarque.

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Ilustração: "Nua sentada num divã" ("La Belle Romaine"), de Modigliani.

Ele: a procura


Não fomos feitos para a solidão
Do outro que vai ao nosso lado
Precisamos sempre da eterna opinião

Sem essa companhia na caminhada
Não temos a quem comunicar
A beleza e os perigos da paisagem

Sim, há os que pensam caminhar só
Mas há aí um monstruoso engano
Pois estão no meio de uma multidão

O segredo é procurar a companhia certa
Que tenha conosco o mesmo passo
E o olhar no mesmo ponto do infinito.

As rosas que morrem


Cultivo um jardim
Para a vida breve da rosa
Cultivo um jardim
Para a eterna alegria de teus olhos

A rosa vai morrer
O próprio jardim é seu feliz cemitério
Assim, ao cultivar o belo, expresso meu desejo 
De que a eterna alegria que dou aos teus olhos
Tenha em tua alma magnífico túmulo.