Nesta vida perdida em desumanidades,
O sujeito tem que se aplicar testes
Para se confirmar gente.
Tem que provar que não se desumanizou.
Primeiro, é bom verificar os graus internos
De emoção e delírio com a poesia;
Hão de ser enormes, pois viver apartado do belo
É caminhar de mãos dadas com a morte.
Depois, o vivente tem que constatar se ainda dorme
Com leveza, como se ouvisse uma sonata de Bach.
Não dormir com tranquilidade n'alma
É fazer-se danado defunto dentro da tumba do remorso.
Em seguida, é bom colocar a mão no peito
Ao se deparar com o que se diz amar;
Se o coração bater forte, como se fosse a primeira vez,
Com todo o encanto do primeiro encontro,
Aí estará desmedido indício de que se é gente de fato.
E por último, só para confirmar a anterior verdade,
É saudável medir o coeficiente interno de criancice,
Que deve ser alto, nos seguintes parâmetros da inocência:
Olhar para as nuvens numa tarde quente
E descobrir formas no branco algodão,
Um urso-polar que corre fofo,
Corre, corre a perseguir um cão,
Ou uma ovelhinha de cara suja
Que se ajoelha aos céus a pedir perdão.