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terça-feira, 3 de abril de 2012

Certidão de Vida

Não. Não há arrependimento
Nessa vida para quem vive
Com a calma chama no peito
Do calor de antigos abraços.

É o queimar das distantes despedidas
Avivado com a quente água dos olhos
Que nos renova a Certidão de Nascimento.

É a triste e renitente lágrima,
O combustível das saudades,
Que nos dá a Certidão de Vida.

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Ilustração: Os retirantes, Cândido Portinari

quarta-feira, 14 de março de 2012

Depois do banho


Assim, depois do banho
Descubro-te nua e bela
Na suavidade branca
Que tece a tua pele.
E rio quando noto
Teu rosto imitando as rosas
Em rubro pudor
Ao perceber que estes impudicos olhos
Descobriram um corpo esculpido pelos anjos
Para desenfeiar o mundo.



terça-feira, 13 de março de 2012

O corrupto chora


Jamais conseguiremos entender a vaidade.
Como a do corrupto que chora em público
Ao ouvir o discurso de famoso puxa-saco.

Sim, tolo homem que a terra terá por pasto,
Palavras vazias e cheias de afagos
São aragens a alimentar egos miseráveis.

quarta-feira, 7 de março de 2012

8 de Março


Na natureza
Tudo vive a seu tempo
E sem pedir licença
Para existir tal como é.

No Universo,
Em sua imensidão
Tremenda,
Tudo vive
Em liberdade.

Feliz é a mulher
Do nosso tempo
Que em todo 8 de Março,
Sem pedir licença,
Faz soprar o antigo
Vento da esperança
Sobre a humanidade
Ao lembrar que todos merecem
Respeito, amor e dignidade.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Testes para se saber gente


Nesta vida perdida em desumanidades,
O sujeito tem que se aplicar testes
Para se confirmar gente.

Tem que provar que não se desumanizou.

Primeiro, é bom verificar os graus internos
De emoção e delírio com a poesia;
Hão de ser enormes, pois viver apartado do belo
É caminhar de mãos dadas com a morte.

Depois, o vivente tem que constatar se ainda dorme
Com leveza, como se ouvisse uma sonata de Bach.
Não dormir com tranquilidade n'alma
É fazer-se danado defunto dentro da tumba do remorso.

Em seguida, é bom colocar a mão no peito
Ao se deparar com o que se diz amar;
Se o coração bater forte, como se fosse a primeira vez,
Com todo o encanto do primeiro encontro,
Aí estará desmedido indício de que se é gente de fato.

E por último, só para confirmar a anterior verdade,
É saudável medir o coeficiente interno de criancice,
Que deve ser alto, nos seguintes parâmetros da inocência:

Olhar para as nuvens numa tarde quente
E descobrir formas no branco algodão,
Um urso-polar que corre fofo,
Corre, corre a perseguir um cão,
Ou uma ovelhinha de cara suja
Que se ajoelha aos céus a pedir perdão.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Quarto crescente


Vê, meu amor e cariño,
O crescente que a Lua forma
E nos deixa enamorados
Crentes na felicidade perene.

Infelizmente, esta Lua-metade
É também a foice Daquele que ceifa
A jogar por terra sonhos
Desgarrados do campo em que florescem estrelas.

Choremos baixinho nossa revolta
Contra a Fortuna que nos esquece
E deixa nossos colos expostos
Ao Ceifeiro de todas as messes.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Canto da espera


O homem
É espera.
Medonha
Espera.
Espera viver
Além do combinado.
Espera a eternidade
E pela eternidade
É esperado.

Amai a vida


Amai o belo, a bela vida
Antes que a realidade
Se descomponha
E nos exponha
O desgastar do vento
O envelhecer no tempo
O fim da própria vida.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Deus faz poesia

Quando Deus está aborrecido faz poesia.
Tasca lá do céu equações matemáticas,
Sonetos numéricos, odes cheias de incógnitas
Em que o mundo inteirinho se encaixa.

Sim, Deus gosta de infintos
E se diverte muito
Ao lembrar que nos fez
Somente com dez dedos nas mãos
E miseráveis mortais.
Como contar aquelas estrelas todas,
Como recitar tão longo poema
Em vida tão curta, em noite tão breve?



O matador de sonhos


Era um teólogo, amigo de eras esquecidas,
E perguntou-me
Qual seria o maior pecado...
O sacrilégio que jamais
Eu perdoaria num homem?

Respondi ao amigo como poeta:
O assassinato de sonhos é o maior pecado.
O homem que mata um sonho alheio
Merece o fogo de todos os infernos.

Depois matutei e ponderei:

Mas há um pior, d'outro assassino,
Daquele que mata o próprio sonho.
Este já arde no próprio inferno:
Quando acorda,
Quando se olhar no espelho
E verifica que ali está
Um outro, um corpo vazio,
Um olhar de morto, um homem-vácuo,
O suicida que se esqueceu de ir para a cova.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Luz-me


Benditos sejam meus olhos
Que mesmo míopes
Fraquinhos que são
Ainda me permitem tua visão

Sim, bem sei,
Há em ti a confluência
Dos raios cósmicos
Que te dão o brilho
A iluminar-me
No caminho deste vale
Tão cheio de adeuses,
Alcoceifas de tristezas
E coisas que morrem

Belo arranjo de tudo quanto é belo
Beija-me com os lábios da esperança
E como criança, abraça quente os meus dias
Para que eu possa sentir sempre e sempre
O resplendor de tua beleza
Em tudo que vive e me envolve.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Janela sem luz

Vi, ontem, teus olhos noturnos
Mirarem a janela de minh'alma.
Não sei se nela algo de valor tu viste
Porque para se ver, ver em plenitude,
Há de se ter o brilho d'alguma luz
E minh'alma anda tão apagada
Nesses dias de desgostos.
Portanto, creio que a noite de teus olhos,
Cheia de estrelas e luminosidades,
Nada mais viu do que o vácuo enegrecido
De um espírito que se esqueceu.

sábado, 23 de julho de 2011

A minha revolta usa lantejoulas


Passei do tempo das descobertas
Embora de roupa nova, de pano importado
Certas coisas aparecem-me
Com cheiro de naftalina

Amofinam-me a velha música
Com novos arranjos
A velha trama romântica
Em livro fresco, de tinta fresca

O lixo literário reciclado
O lixo musical reciclado
O lixo de nossos dias
Cada vez mais lixo
Cada vez mais imprestável

Até mesmo minha revolta sorrelfa
Está de vestido novo, dissimulada e sonsa

Vestia-se de trapo quando menina
Hoje, apresenta-se teórica
Com justificativas
E nas lantejoulas, o orgulho das bestas
Que se intelectualizaram.


quinta-feira, 21 de julho de 2011

Poema da linha torta


Quisera dormir o sono dos sensatos,
Daqueles que têm a vida como nada,
Porque não se deram conta dela,
Vivem apenas, respiram apenas.

Quisera não ter sabido da morte de um amigo,
Ou de outras coisas que me desagradam.

Ou, na verdade,
Quisera
Desagradar-me
Sem sentir
O desagrado.
Isso, sem senti-lo...

Os sensatos não sentem, calculam.
É preciso de quilos de matemática
Para ser um deles.

Por isso, aprendi muita aritmética
E de nada me adiantou ser amigo dos números,
Minhas contas sempre terminam
Em poesia, em versos das mais absurdas
Geometrias, sem teoremas, sem postulados,
Sem demonstrações algébricas.

Minha poesia é a geometria da linha torta,
Do círculo povoado de tangentes,
Da esfera povoada de gente,
E nela todas as retas terminam
No bem querer, no bem sentir
Que vejo no infinito de teus olhos.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A menina na praça

Triste como um azulejo azul
Lusitano e desbotado
E que guarda antiga gravura
De um tempo em que se partia
Dos portos em choro e saudade

Triste, irremediavelmente triste
Sentada num banco de praça
Sem saber que está na praça

Lá está o pipoqueiro
Crianças brincando com balão de gás
E pombos em vadiagem
Ignorantes que são da paz que representam

Triste, inconsolável e triste
Sentada num banco da praça
Enfeitando com a sua tristeza
A melancólica paisagem.

domingo, 10 de julho de 2011

Estrelas novas

Largue tudo,
Vamos embora, vamos caminhar!
Sair do que somos,
Sair para passear!

Há sempre uma estrela nova
No firmamento nos esperando
E que os amantes devem admirar.
Do contrário, ela deixará
De ser uma estrela
Dos que se apaixonam,
Ganhará então um nome feio
Dado pelos astrônomos
E ao amor não mais servirá.

Amor não demora, demora não!
Vamos salvar as estrelas!

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O Outro

Há um grande engano no outro
Nem sempre o que imaginamos
Como uma perfeita roupagem
Cabe no manequim alheio

Idealizamos coisas e pessoas
Damos a elas nossa imagem
Ideais e semelhanças
- Pequenos deuses fabricando gente -

Por isso dos desenganos, do espanto
Quando alguém não reage
Da forma de nosso gosto e vontade

Haveria, por certo, aqui maior felicidade
Se nós compreendêssemos que o outro
É para se compartilhar e não para se criar.

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Ilustração: Cézanne - Cinco banhistas.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Perfume para o pensamento

Compraste vela de cheiro
Posso sentir daqui
É um cheiro bom
E que dá perfume
Ao que penso e escrevo

Tu dormes em suavidade
Enquanto eu tiro da noite
Todos os aromas
Para falar de ti

Tu tens esses costumes
De dar bondade às coisas
De dar luz ao que é opaco
De dar sensibilidade
Ao que é grosseiro

Mas o que eu mais gosto
É essa capacidade que tu tens
De perfumar o pensado.

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Ilustração - John Willian Godward

terça-feira, 5 de julho de 2011

Quando conheço seus sonhos


Quando quero conhecer verdadeiramente a pessoa
Pergunto o que ela sonha,
Não o sonho de projetos futuros, o por fazer
Ou aquilo que desejamos por conquista
Mas os sonhos tidos e havidos, ou pesadelos
Aqueles devaneios que não são combinados
Porque acontecem na noite da razão

Boa parte das pessoas diz não se lembrar
Outras acham que não devem contar
Outras ainda, seguem seus sonhos como novela

Daí concluo:

As que não lembram do sonhado
Geralmente se fazem pessoas pouco interessantes
Dizem o trivial, fazem o trivial, têm a vida como peso
Afirmam-se contentes com essa realidade bárbara
Que barra até mesmo o seu outro viver

As que acham que não devem contar suas graves quimeras
Têm medo de se trair, pois guardam desejos secretos
Coisas muito íntimas, medonhas barbaridades
Essas já são mais interessantes, são mistério

E por último, as noveleiras sonhadoras inveteradas
Aquelas que acham que essa vida é o sonho
E que a realidade está do outro lado
Aquelas iluminadas que enxergam com o espírito
Estas valem a pena e são as que transformam o mundo
São artistas, são poetas, são humanas!!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Talvez

Tem muita gente infeliz neste mundo
Umas mais e outras apenas melancólicos
E essa infelicidade vem delas mesmas
Encaram a vida como coisa para mil anos

Estão sempre de olho no amanhã
Não admiram o belo alvorecer de hoje
Porque pensam no entardecer do amanhã

A infelicidade vem para elas
Porque se julgam eternas.
Não, meu amigo, não somos deuses
Somos o que somos, ciscos ao vento

Nubífagos, os infelizes andam em temores
Porque querem o que ainda não existe
Esquecem-se que para frente tudo é talvez
De concreto é o sonho que sonhamos agora
Não o sonho que vamos sonhar talvez.

Olha o menino que gira o pião
Porque amanhã, esse giro será talvez
Olha com ternura teus amigos
Porque amanhã, a ternura será talvez
Olha para teu amor ao teu lado
Porque amanhã, ao teu lado, ele será talvez
Olha para dentro de ti nesta hora
Porque amanhã, aí dentro, tu serás talvez.