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sábado, 18 de dezembro de 2010

Onde os adeuses naufragam


À Natália Núñez
Olhas para o mar
Porque há sempre
Uma esperança
A navegar
No clarão dos teus olhos,
Relâmpago
Das tempestades.

Olhas para o mar
E a ele jogas
Vontades do coração
Que, em vão,
Saltam as ondas
E depois
Batem nas pedras,
Afogam-se
Nos vagalhões,
Em impiedades...

Olhas para
O desconhecido
Ondulante
E te acalmas
Ao repousares
Teus olhos
No horizonte
Curvo
Como tuas costas
Que carregam
O mundo.

Para lá seguiram
Os adeuses
Compridos,
Alongados
De infinito a infinito,
Perpétuos,
A se repetirem,
A se repetirem...

Lá, onde o céu
Encontra o mar,
Naufragaram
Os últimos barcos
Que deixaram
Expostas
Suas rasgadas velas
E as lusitanas
Cruzes
Em que Vasco
Crucificou
Todas as saudades.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Cantoria do caminhante


Vá homem de Deus,
Vá pela vida afora...
A morte faz tocaia,
Só não se sabe a hora.
Vá homem de Deus,
A fé é sua Senhora.

Vá, mas não vá sozinho,
É bom ter companhia,
Alguém que nos dê a mão
Na difícil travessia.
Alguém que nos dê amor
Paz, carinho e alegria.

Ande e preste atenção
No ruim que aparece,
O mal mata o coração
E ao homem entristece.
Siga o rumo dos justos
E ao cantar essa prece,

Peça um bom caminho,
Que um homem de bem
Aqui não deixa mágoas
Das mágoas que se tem.
Andar nos põe adiante
E os tropeços também.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Alma-metade

Creio. Outra vez creio ter encontrado
A alma que é de minha alma a metade.
Sei que pode haver aí engano,
Mesmo aos poetas, especialistas em ver
Coisas que, mormente, não se vê,
Não é nada fácil essa procura.

Há os que nunca encontram
Essas almas complementares,
Porque de caprichos a vida é feita
E caprichosas são as ilusões,
As miragens nesse grande deserto
Cheio de movediças areias encantadas,
Que abrigam fatais serpentes
E o tempo perdido que nos relógios
Se amontoa a formar memória
Em agonia de morte.

Mas eis que assim cantava:
Minha alma-metade andava só,
Assim como eu andava.
Nos olhos, muitos sofrimentos,
Assim como os que nos meus choravam.

Nas mãos uma rosa invisível,
Assim como a que carregava.
- A quem dá-la em louvor,
A flor última da roseira cansada,
A quem dá-la em amor? -
É o que nossas almas perguntavam,
Enquanto que, num olhar apenas,
A vida, Os dissabores e os horres
Se faziam refletidos no mesmo espelho.

A bailarina na chuva

Graça dança estranho ballet na calçada...
Chove, ela ri, delira e acha graça.

De graça, Graça grassa por todos os olhos
Dos curiosos que se babam.
Afinal, há muito espanto naquele espetáculo
Oferecido pela bailarina nua.

Graça treme, tem os lábios roxos,
Olhos distantes, alienados, frouxos...
Sua dança é prazer, é o gozo
A deixar-lhe inteirinha molhada,
Até mesmo nas partes
Em que a chuva divina
E a baba dos pasmados babosos
Não chegam em atrevimento.

A sirena da ambulância interrompe a cena.
Graça para, curva-se e agradece
Aos que prestigiaram suas piruetas
Coreografadas por graciosa demência.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Pelos campos da eternidade

Foi naquele infinito caminho
Que a vi pela última vez.
Foi-se por ali, ali mesmo,
Contrariada, a colher flores
Pelos campos da eternidade.

Deixou-me nos lábios o gelo
De derradeiro e singular beijo.
Extremado gesto de quem ama
E teme a fatalidade do destino
Desencantado e no desespero.

Foi por aquele caminho, aquele mesmo,
Sem volta, sem apelo de retorno.
Foi-se pela trilha que se faz segredo
Dos mapas de nossa vida toda
E que só se revela no último suspiro.

Espera

Enquanto o ar encher-me os pulmões,
Enquanto a luz mostrar-me o horizonte,
Enquanto a Lua anunciar-me a madrugada,
Espero-te.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Ladra

Roubaste de mim
Os melhores anos
Ornados de vida.

Tiraste de mim
Os velhos caminhos
Enfeitados de luas.

Mataste meus sonhos
Que a tudo guardavam
Em projetos e esperanças.

Hoje, carregas contigo
Estes despojos infensos,
Envelhecidos e sem preço.

A que te servem eles,
Se te curvam as costas
Em peso e pesadelos?

Arrasta-os contigo
Como o condenado
Preso ao vira-mundo.

Nada disso quero de volta,
Fiquem contigo teus crimes
E os apresente a Caronte.

Porém, avisa ao barqueiro
Que a gravidade de tua alma
Pode afundar-lhe o barco!

domingo, 10 de outubro de 2010

Requiem para coisa triste

Hoje acordei com desejo
De compor poema novo,
Escrito para os amigos,
Com o feitio de domingo,
Ensolarado e contente,
Repleto de espreguiçamentos.

Seria um poema assim
Como este que por estas invisíveis linhas vai se alongando,
Teria que ter em si
O brilho dos olhos de todas as gentes do mundo,
Aromas da aurora,
Perfumes da esperança
E sinceros votos de que a vida se faça num bom descanso
Para os que lutam
Como velhos quixotes pela paz e justiça entre os homens.
Seria um poema assim,
Que tivesse dentro dele o silêncio e o conforto dos campos santos
Cantados numa missa matinal,
Requiem para tudo quanto é ruim e que povoa nossos tristes dias.

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Ilustração: "Palhacinhos na Gangorra - Portinari.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Errante

Triste como uma tarde de garoa
Foi como te vi ontem.
Disseste-me ter amado errado
Mais uma vez, outra vez.
Amor, amiga, é tentativa
Baseada em método antigo
Que nos exige grande
Trajetória pelo erro.
Amar é errar buscando acerto.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

As cores da Polaca

A Polaca de pele rosada
Passeia pelo jardim
De roseiras enfeitado.

Dá-me a flor do cabelo,
Peço,
Dá-me a flor, dá-me.

O azul dos olhos da Polaca
É meu céu em contraste
Com o vivo rosa a cobri-la:

Tu és rosa, Polaca!
Tu és foda, Polaca!

Pois no desejo de amar
Finges um não querer
Que se traduz por sim e sim
À sombra das cerejeiras.

Amas assim
Desesperadamente
E pedes a mim,
Entre gemidos,
Nova tatuagem
Na macia pele,
Intensa
E impressa
Por carinhoso
E vermelho tapa!

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Domingo

Levantar bem cedo,
No domingo,
Dando bom-dia
Aos passarinhos.
Passar café...
Beber aos golinhos...
Eita vidinha
Que passa voando!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Inutilidades

Remexo coisas esquecidas...
Organizo quinquilharias
Em amontoados de inutilidades.

Estilingue de infância,
Bolas-de-gude,
Um espelho trincado,
Pregos enferrujados,
Parafusos,
Chaves de antigas casas,
Chave de desabitado quarto,
Um travesseiro sem uso...

No meio dessas coisas, o tempo perdido,
Horas dedicadas ao que não tem valor,
Anos guardados em baús renunciados,
E tua fotografia sem cor, sem saudade.

Fórmula secreta

Senti ontem teu perfume em outra fêmea
E desisti de continuar o que nem havia começado.
Como explicar à infeliz criatura que tua essência
Fora violada em sua fórmula secreta,
Feita de flor de laranjeira, rosas em pétalas
E raros óleos do Oriente Médio?
Como explicar que guardava nas narinas
Teu cheiro de êxtase, único e intransferível?

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Efêmera

Felicidade, tu que és
A mais efêmera
Das efemeridades,
Passa teus braços
Por sobre meus ombros
E serve-te deles
Como travesseiro.
Fica aqui noturna ave
E dá-me sono quieto,
Em que o sonho
Seja de ti repleto,
Porque sonhar
É o que de graça
Ainda me resta
Além dos corvos
A rondar-me
Os pesadelos.

Banzo e saudade

Não sei se sofro de banzo ou saudade.
Porém, trago em mim melancolia guardada
A compartilhar antigas lembranças de adeuses
Choradas no Tejo e no Atlântico dispersas.

Melancolicamente meus olhos choram
As tristes naus e caravelas naufragadas
Que a porto ensolarado algum chegaram
Por imperícia e má sorte deste marinheiro.

Em vão tento alcançar os mágicos e longínquos continentes.
Terras virgens olvidadas, sonhadas em noites passadas,
Esquecidas das cartas náuticas e dos mapas supressas.

Em banzo e saudade nas minhas lágrimas Magalhães navega,
Vasco segue com a lusitana vela de proa enfunada por Netuno...
E desisto, pois a boa esperança não é norte neste mar soturno.

domingo, 5 de setembro de 2010

O juntador de sílabas

O sujeito é um empilhador de palavras.
Qualquer novo som ouvido
Torna-se um rugido
Desenhado em letra de domingo
Em mais um inútil livro
Financiado pela Lei de Incentivo
À Cultura dos incultos imbecis;

Lei infalível que os políticos criaram
Para garantir a ausência de críticas
Da "intelectualidade" e acadêmicos
Aos podres poderes constituídos.

Em troca, pelo silêncio consentido,
Deram aos verdugos da nobre arte
A possibilidade deles viverem
Em eterna vagabundagem
Custeada pelos impostos
Surripiados aos iletrados,
Povo anêmico e faminto.

Na realidade, o "escritor" de quem falo
Sempre se fez um gozador,
Porque diante da pilha de letras,
Arranjadas sem guardar sentido,
Anuncia aos quatro ventos:
- Escrevi mais um neopoemanovo;
Poesia neomerdística
Feita nas coxas e parasita!

E os trânsfugas da inteligência,
Meus colegas de imprensa,
Os maus neocríticos literários,
Da neo-arte e outras neosandices,
Saúdam o amontoado silábico
Como quem saúda e aplaude
O neopalhaço no circo:

- É um novo Bilac!
- É um novo Camões!

Por não terem estudado a gramática,
Avessos aos dicionários
E às sutilezas da inculta e bela língua,
Todos eles ignoram
Que ali está um cara,
Ignorante de pai e mãe,
Um asno parido,
A ganhar fácil dinheiro,
A brincar com as palavras
Como se elas fossem
O que vai dentro de bonito penico:
Sílabas do cagatório das verbas públicas
Que em farta urina navegam, fedem e flutuam!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O Céu que nos condena

Estamos todos miseravelmente condenados a viver sob o mesmo céu.
O Sol que dá vida à unicélula nos dá também os dias, as horas, os desalentos.
A Lua a nos inspirar o amor é a mesma a revirar o mar revolto nas tempestades.
O vento que nos refresca é o mesmo que as ondas encrespa e nos fere de morte.

Há muito risco em viver e sonhar como conteúdo desta campânula azulada,
Neste aquário airado que se serve dos elementos para quebrar monotonias,
Nesta angústia de querer se adiantar ao imprevisto já predestinado pelos deuses
Que a tudo parecem governar em inúteis e descuidados gestos, em preguiça divina.

Talvez, o céu nos caia por sobre as cabeças como adivinhavam bárbaras profecias.
Estaríamos assim libertos do cativeiro, do túmulo moldado em ancestrais eras.
Flutuaríamos, por certo, na liberdade dos espaços a comunicar nossos desesperos.

Talvez, o céu nunca saia de seu lugar e deixe de cumprir seu estático destino,
Pela eternidade há de sustentar as estrelas para nosso boquiaberto e tolo êxtase.
Assim, eterno, o céu nos lembra que somos apenas o infeliz arranjo de brevidades.

domingo, 29 de agosto de 2010

A polaca na praia

"Nam castum esse decet pium poetam
Ipsum; versiculos nhil necesse est"
Catulo



A tarde dorme em preguiça comprida...
O Sol desenha para si caminho doirado
E a loira onda se penteia sobre o oceano
Com os macios dedos roliços da brisa.

Graciosa como o silencioso voo da gaivota,
A Polaca caminha pela praia de Boa Viagem.
As espumas lambem e lambem as suas pernas
E as salgam. É o tempero do pecado da carne.

Sigo seus passos que se acomodam na areia...
Guia-me ainda o rubro vinco na pele que foge
Da minúscula e apertada calcinha de seu biquíni.

Ela para, junta um búzio e o leva ao ouvido:
- Querido, estás a ouvir ao longe o mar rugindo?
- Não. Só ouço o meu choro por este dia findo.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Antinós

Há de se encontrar por aí
Um outro eu, um outro você.
Nisso não há engano algum
Ou especulação do tédio
Que de há muito tempo
Sequestrou a Filosofia.
Temos sim, um outro eu.
Um eu antimaterial.
Um antinós ao avesso
Feito da antimatéria de Dirac
E guardado em outra dimensão.
Oremos por nosso anti-eu,
Mais um entre os desconhecidos.
Oremos,
Porque o que ele faz, o que ele pensa
Nem os deuses deste nosso mundo irreal
Percebem e sabem.

Costume

Sentir é o nosso estranho costume
E descrever o que a gente sente
É dos poetas a estranha mania.