domingo, 16 de janeiro de 2011

Mon couer

Gosto, mon couer,
Quando danças
Leve e nua
Dans la rue
Que imaginas.

Finges estar em Paris
E danças... Sobre
Les feuilles mortes
Dos meus poemas
Que tombaram dos céus
Num outono sem fim.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Nauta

Navego pelos vãos de tuas pernas e de teus braços
E agarro-mo, como doido náufrago, às margens
De teus incandescentes lábios entreabertos,
Como se portas fossem do que guardas em pecados.

Ocaso

Hás-de te acostumar, amigo,
Ao com que morre contigo,
Já que a juventude te escapa
Pelos vãos dos dedos
E leva com ela, agarradas,
As luzes do amanhecer.

Não és mais o que era,
Não és mais o senhor
Dos sonhos impossíveis,
Das bravatas de valentia,
Das damas de companhia...
És apenas o que se vai.

O Sol se põe para todos,
Para mim, está no ocaso,
Para ti, também é poente.
Resta-nos fitá-lo
Em sua desistência do dia
E verificarmos que sempre
Poderíamos ter feito mais,
Aproveitado melhor o seu calor
Que se traduzia em vida.

Fizemos pouco, é verdade,
Porque a juventude
Passa sem dela nos dar notícia.
A juventude vem e passa
Num adeus triste e indecente,
Como se portasse bilhete
Para um mundo inexistente.

É quando nos damos conta
Tardiamente, num susto grande,
De que não levamos em conta
O que conta os calendários,
Em essência e excelência,
A nossa natural decadência.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Carnaval nipo-polaco

Curitiba tem
Japonês no samba
Caipira com adoçante
Polaco bamba

Curitiba tem
Crente cordão
Jacaré no lago
Vina com pão

Curitiba tem
Neve no Carnaval
A Boca Maldita
O cara-de-pau

Curitiba tem
Garibaldis sem Anita
Saci branquelo
Operário sem marmita!

Teu colo


Eu estou voltando
Minha flor e caminho,
Levando nas mãos
Infinito carinho
E no coração
Saudade imensa,
Tão grande, tão grande,
Quanto o céu estrelado.

Trago aqui comigo,
No peito guardado,
Teu cheiro e perfume;
O teu meigo lume,
Brilho de teus olhos,
Luz deste meu caminho
Que busca teu colo,
Sempre teu, teu colo!

Brasil-caboclo


Levo no peito saudade,
Essa herança lusitana
Estranha - a carraspana
Tropical e sem verdade! -
Que é banzo sem vontade,
Que me faz assombração
Como Dom Sebastião.
Sou de sangue índio, crioulo
E mouro no Brasil caboclo,
De Mãe Preta e Pai João!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Aboio de partida



Eh, eh, gado magro
Lá está a estrada
Que no peito trago
A me aboiar...

Eh, eh, eh boi
Eh, eh, eh boiá
Bora, peiá!

Pela estrada
Nós vamos agora
Antes que Janu
Comece a chorar!

Eh, eh, eh boi
Eh, eh, eh boiá
Bora, peiá!

Janu me espere
Vou atrás de pasto
Para o boi magro
Pastar e engordar!

Eh, eh, eh boi
Eh, eh, eh boiá
Bora, peiá!

Saudade d'ocê
Levo comigo.
Por isso, vou logo
Para não chorar.

Choro de vaqueiro
É aboio, eh boiá,
Saudade, peiá!

Aboio de chegança

Eh, eia, mundo velho
Sem porteira, eia,
A nos segurar.

Eh morte, a feia peia,
Que deste mundo
Nos faz apear.

Eh, eh, eh boi
Eh, eh, eh boiá
Bora, peiá!

Troveja e não chove,
Corisco faz fogo
E o mato morto
Na fumaça sobe.

Eh, eh, eh boi
Eh, eh, eh boiá
Bora, peiá!

Meu Coração bate
Alegre e ligeiro
Quando te vejo
A me esperar!

Eh, eh, eh boi
Janu na janela
Bora, peiá!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Romance da bela infanta

 

Vê minha bela infanta
O quão triste eu estou
Ando triste neste mundo
Sem falar de amor
Canto triste pelo mundo
Tomado pela dor.

Mas se tu quiseres
Tudo pode mudar
Tu comigo vais
No campo a cantar?
Tu comigo vais
No mundo a amar?

Mas se tu quiseres
Tudo vou enfrentar
Tu comigo vais
No campo a cantar?
Tu comigo vais
No mundo a amar?

Vê minha bela infanta
O quão triste eu estou
Ando triste neste mundo
Sem sentir o amor
Canto triste pelo mundo
Tomado pela dor.

(Apenas uma proposta de letra para esta música que gosto muito!)

domingo, 9 de janeiro de 2011

Dos gênios do nada

Duvido de todo homem
Que passa pela vida
Sem saber do que é constituído
E dos átomos que o fazem ser.
Duvido do homem que não se sabe
Energia condensada na matéria.
Duvido do homem que se expressa
Pretensamente sábio
E não se sabe medir em massa
Multiplicada pelo quadrado da luz.
Duvido da sabedoria vulgar
Comprada nos títulos acadêmicos
Dizendo que ali está um gênio
Especialista em qualquer coisa
Mas que mal sabe de si.

Oração do beberrão devoto

Ó Senhor dos manguaçados,
Que nunca me faltem
O limão, o açúcar
E a divina cachaça.
Fazei que ao andar
Por este vale de lágrimas,
Mesmo que me plena escuridão,
Ou no vale da morte por atropelamento,
Eu encontre um bar aberto
Com bebida barata
E mulheres dispostas.
Dai-me as boas marcas
E livrai-me do uísque falsificado.
Dai-me garçons atenciosos
E donos de bares que me
Ofereçam bom crédito
Na doce ilusão e promessa
Do pagamento no dia
Santificado a São Nunca.
Dai também boa educação
Ao padre Nicolau,
Que toma vinho sozinho
Sem oferecê-lo aos fiéis
Que vão à missa
À espera da saideira
Ou caideira matinal.
Piedade, ó Senhor,
Aos que bebem,
Aos egoístas que bebem escondidos,
Aos hipócritas que pecam e nos criticam,
Aos humildes que não têm o que beber,
Aos soberbos que bebem e desperdiçam,
E aos que não bebem também,
Porque para todos
Só há um destino,
Um caminho que só o Senhor sabe,
Que não se revela em hora e dia
Para o pobre ou rico,
Para o sábio ou tolo,
Manguaçado ou sóbrio,
Ou seja, para ninguém!

Amém

Liberdade do pensar

Não queira dar densidade aos meus pensamentos
Porque o pensar é para o poeta a única liberdade.
Nada há nesta Terra que possa segurá-los
Porque o que se pensa não respeita a gravidade.
Bendito seja aquele que voa para as estrelas
Na hora que bem deseja, no dia que bem quer,
Sem trajes de astronauta e anuência da Nasa.

É vã toda e qualquer tentativa de dar grades
Ou grilhões e pesos às asas da poesia inquieta,
O que é feito para voar sempre voa e voará
Para dizer o que não foi dito e que nos altos é.

O poeta pode estar no exílio, mas sua palavra não,
Pois ela é etérea e livre viaja pelos imensos
A denunciar os supremos escândalos
Daqueles que se vendem e se calam por um punhado de ouro
E queimam no inferno ao renegarem o paraíso da liberdade,
Única razão digna de se viver neste mundo a nos prender
Na mentira, nas falsidades vendidas nas esquinas
E que dão ao hipócrita a dimensão que ele não tem.

Sísifo

Descer profundamente
Naquilo que nós, em nós, desconhecemos
E buscar ali, sem cordas a nos segurar,
As razões a nos determinar
Tanto padecimento.
O que fiz eu ao mundo, meu Deus,
Por que me fizeste no mundo?
Por que me distrais fazendo-me começar
Este tudo que tem por fado o recomeço?
Dá-me ao menos o direito à revolta,
O direito de dizer não quero mais.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Breve paixão por Perpétua

Perpétua foi-me a mais breve paixão.
Enganou-me a promessa do nome
Enganou-me o coração
Que sempre espera do amor
Felicidades permanentes
E em profusão.
Perpétua passou-me como passa-me o vento
Levemente suave e refrescante
Em sufocante noite de Verão.

Como se me apresentam os versos

Apresentaram-se dois poemas novos
No meu amanhecer.
Ontem, eram sílabas soltas, sem sentido
E que dormiram comigo
Para no sonho de poeta
Ganharem brincos e penduricalhos.
Hoje, cambaleante e sonado
Tomei nota de algumas palavras
Para guardar as bases e estruturas
Da futura lapidação e encaixes.
Mas, para que no segredo não fique
Posso dizer deles o adiante
Que um fala da Rua das Flores
E que o outro é sem flores delirantes!

Chamado noturno

Oiço no meio da noite
A voz de antigo amor.
Arrepia-me a pele
Esse chamado noturno.

Benzo-me no sinal da cruz...

Há de ser assombração
De quem se fazia defunta
Na tumba branca caiada
Com a cruz assinalada
Na minhalma esmorecida?

Há de ser ela própria
Em pessoa, a suicida
Que à vida retorna
Para devolver-me
A vida que me tomou?

Acalmo-me, essas hipóteses
Agradam-me sobremodo
Porque nada há de pior
Do que ser chamado
E não escutar o apelo
Da saudade que vai conosco em viagem...
Que vai cansada
De tanto desassossego
Infelicidade e desgosto.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Pingo d'água


Mania boba essa, besta, besta,
De achar que todas as coisas têm sentido!
Nada tem sentido fora de nós mesmos:
Se não vejo, se não boto as mãos,
Se não escuto, se não sinto o cheiro
Ou o gosto, com prazer ou desgosto,
A coisa não existe,
É coisa inexistente,
É coisa ausente.

O mundo é feito de miudagens
E só encontraremos sentido nele
Ao examinarmos as pequenas partes
Deste grande todo inexplicável.

Não se explica a montanha
Por meio de um único grão de areia,
Mas é preciso entendê-lo nas pedras
Para se saber o que é a montanha.

Carece-se pois, olhar melhor,
Matutar nos detalhes miúdos.
Às vezes, é necessário assumir
As dimensões de uma formiga
Para admirar a grandeza do pingo d'água
E alegrar-se com ínfimas sobras.

Para a  formiguinha,
O apoucado orvalho
É profundo poço
E o bocado de migalhas
É farto almoço.

Novena

As beatas chegavam no começo da noite
- Uma delas trazia a capelinha da santa -
E logo punham-se a desenrolar o rosário.
Algumas de olhos fechados,
Outras de olhos abertos, fitando o teto,
Em busca do céu que estava lá fora.
Pater Noster et Ave Maria
Resumiam a fé, aliviavam dores,
Tiravam grandes toneladas das almas.
Por fim, o Salve Regina
A lembrar que todos ali estavam
Mergulhados num vale de lágrimas,
Gemendo e chorando,
Inclusive eu, aquele menino
Que começava destino
Já evocando a misericórdia dos céus.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

As pequenas tragédias de cada um

Todo mundo tem algo de trágico na vida
Um mal nascer
Uma desavença familiar
Um amor terrível
Algo querido que se foi
Planos que ficaram à deriva
Enfim
Cicatrizes d'alma.

A felicidade por inteiro
Só é possível para quem não vive
Para quem não sente
Para os que passam por esta vida como uma pedra
Pedra inerte, cômoda e que não sangra
Porque viver é colecionar essas pequenas tragédias
E a sabedoria está em curar bem as feridas abertas
Enquanto a alma à lâmina do infortúnio fica exposta.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Ao alcance das mãos

Bendito seja Deus
Ao criar-te para a beleza do mundo
E maravilhar meus olhos.

Duas vezes bendito seja Deus
Por deixar-te ao alcance
De minhas mãos.

Do que me valeria o jardim
Sem os aromas florais
E suas complexidades
Floridas desnudadas pela luz?

Mil vezes seja bendito
Aquele que me deu o tato
Para dar-te carinho
E amor que vazam
Do nascedouro
De minhalma!

domingo, 2 de janeiro de 2011

Artistas

Passar o Ano Novo
Sentindo a arte de amigos.
Falar sobre pintura,
Uma nova escultura,
Boa música,
E dividir com eles
O mesmo pão,
O mesmo vinho,
Nos deixa esperançosos
De que a arte
É a salvação do homem.

O desconhecido que ria

Para nós, ele era um tonto,
Ria de tudo, até de enterro.
Andava com um paletó puído,
Toscos sapatos furados
E amarados com barbante.
A péssima figura desmangolada,
Ao final da tarde, lia no jornal
A parte dedicada aos mortos.
Assim, espalhado no banco da praça,
Ria, e do que ria ninguém sabia.
Como tinha algum recurso,
Pensávamos que era aposentado
Por demência ou coisa que a valha.
Um dia não mais apareceu
E desde então, ao ler o jornal,
Sentado na mesma praça,
Rio muito, na gargalhada satisfeito,
Ao ver a lista dos ricos poderosos
Que do mundo levam paletó novo
De boa madeira e de flores repleto.

O juntador de partículas

Não quero mais cantar as estrelas
E esse Universo material,
Que cantado, cantado e cantado
Pelos séculos todos
Se faz indiferente ao que lhe damos
Em beleza e belo.

Vou cantar as cósmicas partículas
Da vida imaterial,
Poeiras que ninguém entende e deixadas
Em grande desprezo,
Porém, quando juntas e bem juntadas
São o sopro de Deus.

sábado, 1 de janeiro de 2011

O coração de Bach

Villa-Lobos falou aos brasileiros
Com o coração de Bach.
Desde então, segue o trem caipira
Cantando pelo sertão,
Atravessando a serra das almas
De todas as gentes.

Sinfonia dos insanos

Pronta está a sinfonia dos insanos.
Ela é composta de longos silêncios
E tem um prelúdio agonizante
Feito dos graves hiatos d'alma.

Nos seguidos movimentos trágicos,
No coro, ela canta a solidão dos escuros,
Dos quartos vazios, do choro contido,
Da lâmina no pulso, dos desatinos suicidas.

Depois segue rápida, pálida, exangue,
Como se fosse o branco do rosto
Da moça que saltou do prédio em chamas.

Ao final se faz espanto contínuo e reflete
Os olhos abertos e estáticos  do morto
Que se assustou com o silêncio da morte.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Bolo de baunilha

Ah, aquele cheiro de desodorante barato
Dissolvido no mais puro álcool
E que você dizia ser perfume!
Ah, aquele aroma de baunilha
Que saltava da cozinha
E que você dizia ser um bolo
Feito de prazer!
Ah, aquele afeto comum
Sem filosofias
Que você dizia ser amor!
Ah, essas saudades
Feitas de coisas simples
E que você deixou tão grandes!

Desacordos

Vivo em desacordos com a vida
Porque faço poesia

Os meus versos são contrariedades
Porque vivo a poesia

As letras não aceitam conformidades
Porque são revoltas

O poeta não aceita falsas alegrias
Porque essas mentiras
São angústias sorridentes
Deste mundo que morre.

No meu céu

O dia já vai pela metade
E de você notícia alguma
Telefone mudo
Jornais falando do ontem

Os aviões passam
E deixam rastros de nuvens
Num céu tão limpo.

Você passou ontem
E teu caminho
Apagou-se do meu céu.

Música e poesia

A música  e a poesia
De vez em quando
Deixam o céu
Para nos mostrar
Aos pouquinhos
Do que é feito
O coração de Deus.

Árvore morta

Não procure frutos
Em árvores mortas
Aqui não há amor
Já dei o que tinha
Alimentei o belo
Alimentei os porcos
Fiz sombra a tudo
E hoje nem folhas
Tenho para abrigo.
Vá, nem todo verde
Guarda em si a vida.