segunda-feira, 20 de junho de 2011

Gerações no lixo


Toda manhã sou carregado pela tristeza.
Abro a janela e vejo uma velha senhora
Vestida de trapos a revirar o lixo.
Abre saquinho por saquinho, escolhe...
Dias há, em que suas netinhas a acompanham
No frio, com roupas gastas, desbotadas,
Menores do que o tamanho dos magros corpinhos.
Carregam caixas, restos de outras casas,
Restos de outras vidas menos miseráveis.
Para uma, o futuro nada foi além de sobras,
Para as outras, o futuro será feito de lixo.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Tua voz


Suave como tua pele
Ouço a tua voz
Quebrando meus silêncios

Ao ouvi-la aprendi
A interpretar
Teus desejos e vontades

Sei quando tu estás brava
Contrariada com alguma coisa
Em teus agudos trêmulos

Mas, poucas vezes vi em ti
Algum descontentamento
Geralmente, tua voz ri

Ri em compassos bem compassados
Na harmonia que tens com a vida
Amas a vida! Invejo-te tanto!

Noutras horas, tua voz
Calça pantufas, macia, macia
É a tua manha a buscar carinho

Mais tarde sob a Lua, tua voz fica rouca e nua
E me diz coisas inimagináveis, e tão tuas,
Até que, de súbito, te chegues contido grito
Arrastado num delirante gemido entre dentes.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Olhos ao longe


Como arrumar jeito
Para me aproximar
Do teu olhar distante?

Teu olho brilha
Ao ver o que não vê
Quero estar nele

Por trás desta cortina
Há mais do que uma retina
A mirar o longe

Há o mel
Que adocica
A realidade

Olha-me
E faça-me doce
Os tristes dias

Vê, o que era longe
Agora é perto
E pode até te abraçar

Falar coisas ternas
E ser em teus olhos 
A visão de toda a vida.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O que teu olhar me falou

Conjuga-me
Como um verbo que pode acabar
Em coisas que vivas se sentem
Leia-me
Como um livro
Indecente
Que a tudo esconde
Nas entrelinhas de um conto de fadas.

O negro que te veste


Tu vieste de negro vestida
De negro como os mistérios da noite

A Lua
Era branca no branco nu do teu colo
Prata na prata de tua pulseira e anel
Deste-me teu misterioso beijo
E amaste-me em profundo enigma
Por sete dias assim ficamos
Eu a te decifrar
E tu me decifrando
Depois, foste como vieste
Com a mesma veste
Com as mesmas luzes em reflexos
Estilhaçando minh'alma
Tão sem gosto e incolor
Entre teus dentes.


terça-feira, 14 de junho de 2011

Cão vadio


Um dia frio, sem atrativos
Além da janela
Tudo parece dormir
Em preguiça imensa
Corações batem mais lentos
Pássaros não cantam nem voam
Ao longe, solitário cão zanzando
E eu, desprezado pelo sono,
Deixo meu coração bater manso
Escutando o silêncio
Vadio e vadiando
Por pensamentos soltos
Como um cão
A escolher poste para mijar.


segunda-feira, 13 de junho de 2011

Saudade de tocaia


Saudade é cangaceira
Que pega o cabra de tocaia.
Traiçoeira, ataca o caboclo
Quando ele está sozinho.
Vem de mansinho,
Sem fazer barulho
E nos fere em fino corte
Com um punhal agudo
Cutucando o coração.
Mas, não chega a matar.
Essa é sua brincadeira,
Infernizar a vida da gente
E armar todo dia, sempre,
Uma nova tocaia
Nos escuros, antes do sono.
A saudade não nos quer mortos,
Ao nos fazer susto,
Ao nos conceder o vazio,
Ela só quer ser lembrada.

sábado, 11 de junho de 2011

Bomba H no jardim


Estava tudo tão arrumadinho
O jardim no seu lugar
As roseiras crescendo
E depois os botões
E depois as rosas
E depois minha alegria
De contente jardineiro
E vieste para corromper
O cenário
Colheu o botão
Despetalou a rosa
E como uma bomba H
Deixou por lá
Tua radiação
A fazer-me mutante
Jardineiro triste
Em jardim arrasado
Por infinito inverno.


sexta-feira, 10 de junho de 2011

Zodíaco da amada


Ela gosta de ler jornais
E ver as notícias dos signos
As manchetes do futuro
Se Vênus vai bem
Ela vai bem
Se o Sol está em Plutão
Ela diz que estou bem

Não ligo para esse hábito
Da minha Polaca
Parece dar certo

Raramente tem coisa ruim
E os astros são camaradas
Ao nos apontarem
Todo o santo dia
Como sendo muito propício
Para o amor e carinho

E olha que a Polaca
Leva isso muito a sério!

À noite, acende uns incensos
Velas perfumadas
E na penumbra
Convida-me para cumprir
Nosso belo destino
Desenhado nas constelações.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O amanhã dos amantes


Tu me perguntas de quando o Sol raiar...
Como vai ser, o que há de ser?...
Calado, nego resposta,
Porque não sei resposta.

Sei apenas do hoje,
Deste momento singular,
Que a Sorte inveja
Pronta para tomá-lo
Em seus perversos braços.

Somos os bonifrates da Fortuna
E ela me deu agora esse grande prazer
De estar contigo, de saber-te.
Amanhã? Amanhã?
Marionetes não são conscientes
Do próximo passo,
Do puxar do barbante e do cadarço.

Para os amantes, o que está por vir
É tão incerto. É tão inexato.

Importa, querida e amada,
Este minuto que transformamos em eterno
E não há o amanhã naquilo que não tem extremidades.
Nele, tudo é o agora e com intensidade.
Sejamos pois, intensos em carne e alma no amor,
Porque pode ser breve esta pequena eternidade.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A freira ensina latim


Era a madre superiora,
Já velha, ainda forte,
Embora austera,
Gostava de palavras ternas.
Apontava para o quadro
E fazia-nos repetir
As esquecidas declinações:
"Rosa, rosa, rosae..."

Na janela do hábito fechado,
Em dia de calor,
Sua boca se movia
Trêmula e indecisa
Ao nos ensinar
Mais uma conjugação:
"Amo, amas, amat..."

Dizem que morreu aposentada
Cultivando jardim imaginário
E chamando os alunos
Para a última lição:
"Rosas amo... Vitam amamus..."

terça-feira, 7 de junho de 2011

Quente como chaleira no fogo


Sabes querida, queria aqui falar de amor,
Mas, creio não ser esta a forma adequada,
Afinal, quem ousaria hoje falar de amor
E em poesia, em versos adocicados?

Não, dizem os acadêmicos, isso acabou,
Os românticos falavam de amor no século 19,
Nós, no século 21, temos que falar sobre o nada,
A dura metafísica do nada que sobra no nada
Em que nos transformamos sem amor.

Como falar, escrever, sobre teus passos
Que sigo ao mesmo tempo que admiro tuas pernas
E empilhar
Palavras
Sem sentido
Ao gosto
Do crítico
Ou do acadêmico?

Como minha bela, dizer que tu és bela
E por isso, e só por isso,
Tu mereces um poema assim, na segunda pessoa,
Íntimo como um beijo no umbigo?

Como minha doce flor de laranjeira
Dizer que tu tens essa aparência,
Se a única laranja que os pasmados conhecem
É aquela comprada na feira?

Sim, meu amor e paixão,
Nego-me a fazer a poesia de shopping center,
Cheia de pingentes vazios,
Falsos brilhos e que por isso vai bem
Com essa gente que não ama
E se agrada com versos tolos.

Amor meu, eis o meu desabafo
Que faço aqui a ti encolhidinha nos meus braços
E quente como uma chaleira esquecida no fogo:
Amar a ti é mais importante do que seguir a moda!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A atriz ensaia o choro


Teu rosto de porcelana
Branco, branco,
Em contínuo e belo susto.
Cabelos presos...
Andar de bailarina...
Andas pela casa
E eu nem te escuto.
Depois, em sussurros,
Falas baixinho
A ensaiar o texto
Do dramaturgo infeliz
De quem nunca ouvi falar.
Choras, soluças...
É a cena dramatizada
A pedir-te o choro
Que na realidade não existe.
És boa atriz, Polaca,
Mas não me deixa nesta agonia
De ouvir-te representar
A infelicidade de um maluco!


sábado, 4 de junho de 2011

O céu em papel doirado


Modesta e graciosa,
Pediste-me o Céu de presente
Com todas as suas estrelas
E o que mais há no firmamento...
Estou providenciando, meu amor,
Creio que logo tu receberás
Teu Céu, tua Lua e outras cintilâncias,
Mas é que agora se apresentam
Alguns pequeninos problemas:
Para tanta coisa falta-me a embalagem;
Uma caixa do tamanho do meu peito
Envolta num grande papel doirado,
Amarrada com singela fitinha vermelha
E um cartão, desses enfeitados com rosas,
Ursinhos fofinhos e solitários,
A dizer-te que o meu amor por ti
Ainda é maior do que isso tudo!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Batom vermelho

Que frio, minha flor!
Chegue aqui mais pra perto
Que é pra modo de esquentar
E esquecer os tormentos.

Hoje não saio das cobertas,
Nem penso em trabalhar,
Aquecido pelos seus carinhos,
Vou ficar de papo pro ar.

Ligue para o escritório,
Diga que estou indisposto
Com o ruim que a vida obriga,
Com a amargura que marca o rosto.

Diga que quero ser feliz
Nos abraços de minha amante e amiga.
Chega pra perto, minha querida,
Hoje não trabalho não:
Um anjo me deu esse conselho,
Ficar em casa e descobrir
De sua alma seus segredos
E por que você teima em dormir
Enfeitada de batom vermelho!

Bela, minha bela


Bela, minha bela,
Esta manhã parece você,
Linda, linda, doirada
Num céu que ainda se faz em névoa
Nas névoas de seus segredos.
Linda é a manhã e não quero deixar seus braços
Bela, minha bela,
Esta manhã parece você.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Insultos por e-mail


Mandou-me um e-mail
Doido, patético, desaforado:

"Poeta do que é feio,
Pobre morfético, descomungado!",
Pois sua beleza estética
Nunca eu havia louvado.
Como não falar ou mencioná-la
Em versos, poemas e épicos?
Uma deusa na terra, um anjo encarnado!

Mando em resposta
Este e-mail perverso, porque fui provocado:

Você é engano para quem quer ser enganado;
É que sua imagem poética
Falsa e triste ficaria
A destacar uma linda cabecinha
Feita de vácuo perpétuo, dura e vazia.

Os poetas não mentem
Diante do esdrúxulo:
Bonita por fora
E por dentro pão bolorento!

Você é o invólucro do nada,
Embalagem do vento.

Como falar da rosa que nasce na bosta
Sem considerar a sabedoria da roseira,
As virtudes do solo e do adubamento?

segunda-feira, 30 de maio de 2011

As guerreiras mulheres de Marte


Por Deus, elas existem e estão por aí!
Um dia, amigo, tu poderás topar com uma delas.
Em aparência, fáceis de ser identificadas:
São de Marte, sanguíneas, guerreiras
Em rostos pálidos de anjos de igreja.
Porém, quando se desfazem de suas armaduras,
Se fazem de santas como Joana Darc,
Falam baixinho, com ternura,
Com extremo zelo e educação.
Mas lá, debaixo dos lençóis,
Urram como nossos ancestrais
Ao cercarem-se da caça, da carne crua
E nos devoram até o último osso.
Quer viver, amigo, de verdade mesmo?
Por Deus, seja esse animal devorado,
É nosso destino ser tal refeição!

sábado, 28 de maio de 2011

Tristeza e saudade


Minha tristeza às vezes fica menos triste
E daí ela tem outro nome: saudade.
Sou triste por não ter o antigo desejo ao meu lado
Mas, infinitamente contente por lembrá-lo
Tão vivamente, a ponto de poder tocá-lo
Com o mais intenso amor em meu pensamento.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Completa


O poeta escreveu seu livro definitivo
E deu a ele o nome de "Poesia Completa".
Ainda bem que é a dele que está completa,
Pois que, felizmente para nós, viventes,
Ela será sempre uma medonha incompletude.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A beleza aprisionada


Maquiavel aconselhava príncipes e reis,
E eu aconselho as crianças aqui da rua,
Deuses que brincam de governar borboletas
Apanhadas e presas dentro de vidro e garrafas:
"Ó menino, sua peste danada,
Tudo que é belo quando aprisionado se faz triste!"

terça-feira, 24 de maio de 2011

O perfume das gentes


Há pessoas que vivem
Ao nosso lado a vida inteira
E delas nem sabemos o cheiro.
Mas há outras que, num olhar apenas,
Nos gravam seus perfumes singulares
Em nossas almas por eternidades.

Nunca mais vou vê-la, sei disso,
Mas fica-me a imagem
Que guardarei junto a outras,
Tão distantes que parecem não vividas.

O que fazer com essas lembranças
De coisas boas, lindas, efêmeras
E experimentadas uma única vez?

Nunca mais a verei
E mesmo assim ela me acompanhará
Em leves sussurros a me dizer
De uma esperança inexistente
Além do pensamento, do sonho,
De algum dia tê-la inteira
A dar-me perfume às horas.

domingo, 22 de maio de 2011

Curto trapo



Fim de caso, fim do amor...
Encontrei-te terrivelmente triste,
Acabara-te o mundo ontem,
Findaram-te os dias, contaste-me.

Descobriste, enfim, o inevitável,
Em tudo há o germezinho do fim:
A eternidade é tecida em doirado pano para os deuses,
Porquanto é breve e curto o trapo que cobre os homens.

Nada é perene nessas águas que nos levam adiante,
Às vezes,
Refrescadas por leves brisas de felicidade
E quase sempre,
Agitadas pelos ventos da tempestade.

Assim em rotos trapos, somos pobres marujos
Afogados sempre em pequenos naufrágios
Enquanto o derradeiro no horizonte se prepara.


sábado, 21 de maio de 2011

Trompete solitário


A noite em seu fim não nos pede para se despedir.
Sai à francesa dando lugar à claridão.
Quantas vezes mais darei a ela adeuses,
O até logo, o até mais? Quantas vezes ainda
Tornarei a vê-la em seus silêncios afinados
Com a solidão do trompete do músico de jazz;
Em seus silêncios, alinhada com a vontade da linha vazia
Que, doida, espera sua sombra escura para se tornar verso?

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Canção para quem espera



Procuro-te muito e tanto e sempre
Em universos distantes, inexistentes,
Nas quadraturas da Lua, luminescentes,
Nas conjunções dos astros, impossivelmente
E te encontro de há muito, de há muito tempo,
Escondida na alma minha, encolhidinha.
Esperas assim, tão só, tão sozinha,
Que me esgote e me canse
Em buscar no longe o que tenho perto
E que fatigado o coração deixe
Em teu colo bater lento, lentamente.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

As beatas e o passarinho


O azul melancólico do céu
Avisa-me do Inverno
E diz-me que tímidos raios de sol
Prometem aquecer a manhã.

As beatas passam por mim
De negro, com melancólicos véus,
Com seus livrinhos de oração:
Pedirão mais uma vez perdão...

Mais uma vez celeste misericórdia
Por um trem inteiro, uma vida inteira
Do mais puro e declarado pecado.
Por isso vão corcundas, por isso vão curvadas.

Que inverno eterno é este
No enlutado peito das beatas?
Por que o sol de infinitas absolvições,
De diários e sucessivos perdões,
Jamais o aquece?

O passarinho, bonita criatura,
Voa e atravessa a fria manhã;
A tudo ignora: as beatas,
O perdão, o certo o errado...

Pássaro incerto na manhã certa
Faz o que é e para que foi feito
E nas suas asas faz da vida o que ela é,
Penitência em manhã gelada.


terça-feira, 17 de maio de 2011

Amor neolítico


Não somos deste falso tempo, íntima amiga,
Pelos deuses fomos emprestados a esta época de bárbaros
Pré-históricos de terno e gravata.

Em tardes de sol preguiçoso, de nuvens chorosas,
Você de sandálias à moda grega
E eu contando as horas como os sumérios.

Fugimos do shopping feito de pedra
E para não esquecermos de nosso passado neolítico
Marcamos encontros sob as árvores.

Ali somos o que somos, naturalmente feras
A buscar o amor em abafados gritos e grunhidos
Tirados à linguagem dos amantes primitivos doutras eras.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Vereda estreita

 
A fé é a esperança em trajes de gala.
Aguda e curta como um punhal,
Com duas letras apenas,
É a pá que remove montanhas.
Estrela a guiar-nos na escuridão
Do vale profundo,
Cortado pela escorregadia senda,
Travessia de quem vive
Em susto, com medo de explicar a si
O que vai no mundo,
Pois que também se sabe mistério,
Como um grito apavorante e agudo
A ressoar no ar da noite sem luar.



segunda-feira, 4 de abril de 2011

Decadências na janela


Comprei TV nova, dessas grandes,
Fininhas como vidro de janela.

Nela posso ver a atriz quase viva
Num rio com cascatas de águas brancas
de
sa
ban
do
Na cachoeira da propaganda.

Nela posso ver vidas sem sentido
Das pessoas de sorriso branco
Pro
cu
ran
do
Encaixe nas decadências do mundo.

sábado, 2 de abril de 2011

Quando sonho contigo


Por que tu me acordas?
Estava num sonho bom
E tu também estavas nele,
Linda, como sempre linda,
Coberta de flores de laranjeira
Com os olhos cheios de sol.
Colhias flores, corrias,
Brincava com o vento
Em teus cabelos soltos.
Coração, faz assim:
Tira-me deste sonho não,
Porque tu és nele!