terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Tarde de vento

Vieste com o vento,
Num final de tarde,
Cheia de flores amarelas
A te enfeitar os cabelos.

É, vieste com o vento
Soprado em branda brisa.
Deste-me, depois, um beijo leve
A pedir-me breve amparo
Neste voar constante da vida.

(Amparei-te - estava só -
Por que não te dar o braço?
No conhecer do adeus somos esquecidos)

Cômodo, inerte e preso
Guardo-te, muda rouxinol,
Na gaiola dourada
Como triste e calado enfeite.

Hoje, quando sinto o vento,
Vislumbro nele aragem mágica
A lecionar para ti, cativa,
Os antigos e olvidados mistérios
Do voar livre e contente.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Presença


Ausente de mim mesmo
Ando pela cidade a esmo
A sentir-te n’alma presente.


Em latim:

Praesentia

Absens mei ipse
Temere urbe ambulo
In animam te sentiendo.

Taverna do Limbo





Uma mulher flutuava nua...
A taverna à noite ardia,
Mil poemas ali, no espaço,
Desenhados pelo corisco
Que rasgava o céu negro e nu.
Vergílio estava sóbrio e quieto,
Tinha em suas mãos novos versos
Que o temporal logo ouviria.
Tácito procurava a tragédia
No vermelho do molho do prato
Que levado à boca escorria
Pela barba, peito, até a túnica.
Nua flutuava uma mulher
Na taverna que na noite ardia.

Em latim:

Limbi Taberna

Femina nuda fluctuabat...
Noctu hac taberna ardebat
Mille poemates ibi, in spatio,
Fulmine adumbrabant
Quod caelum nigerum et nudum lacerabat.
Vergilius sobrius et quietus erat,
Novi versus in manibus habebat
Quos propediem tempestas audiret.
Tacitus tragoediam quaerebat
In rubricam conditionis patinae;
Qui oris barba, pectore,
Tunica tenus
stillabat.
Femina nuda fluctuabat
In tabernam quam nocte ardebat.


Ilustração de Gustave Doré (séc. XIX): Dante, Homero, Lucano, Virgílio e outras grandes figuras da Antiguidade no Limbo.

Naufrágios

Uma escuna de sonhos
Navega meus mares neuroniais.
O timoneiro é neurótico,
O capitão é lunático
E a tripulação vive
De conspirações e motins.

Em latim:

Naufragia

Sominii navis
Cerebri maria mea navigat.
Gubernator iracundus,
Classis praefectus lunaticus est.
Nautae homines vivunt
Conspiratium et tumultuum.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Oi!


Estou apenas de passagem
Por isso, trago no peito
A solidão dos mestres
E a sabedoria dos imbecis.

Em latim:

Heus!

Solum transitus sum
Ergo, in pectus adduco
Magistrorum solitudo
Et stupidorum sapientia.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Vadia

A Lua,
Esta doce vadia,
Some por sete dias,
Noutros brilha para todo mundo,
Mas, pudica,
Mesmo que sempre nua,
Não é de ninguém.

Em latim:

Errabunda


Luna,
Dulcis errabunda,
Septies evanescit,
Saepe hominibus totis refulget,
Sed, pudica,
Tamen nuda semper,
Nonnulli hominis non est.

Vingança

Sei que o tempo me gasta,
Mas eu gasto o tempo também.


Em latim:

Pæna

Tempus me consumit, non ignoro,
Sed tempum quoque ego consumo.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Haiti, os deuses que te devoram

Ai de ti, Haiti,
Que sofres ao ouvir
Os ais de teu povo.

A terra tremeu por ti Haiti,
Pelos anos de fome,
Pelos anos de matança,
Nos ais infinitos de ti.

Ai de tuas crianças, Haiti,
As que sobraram órfãs.

Ai de tuas mães, Haiti,
As que sobraram sem filhos.

Hoje só há zumbis pelas ruas
E os ais sufocados por entre escombros.

Hoje tuas mães não beijam seus filhos
Que, sem nomes, dividem vala infecta.

Hoje a fome não será dividida,
Os mortos não passam fome.

Hoje a esperança chora
No interior da terra
E os tremores dos ais são seus soluços.

Terra de tantos deuses,
Por que os deuses te devoram?

RG & CPF

Haveria, sem dúvida,
direito de se me perguntar:
Mas quem é esse todo mundo?
F. Dostoievski


É óbvio:
Tens cabelos
Porque existe xampu

Tens dentes porque existe a Colgate
Que te permite mastigar os teus dias sem gosto

Tens olhos
Porque existem óculos

Tens fome porque existem vacas e agricultura
Afinal, existir nos impõe preço

Existes porque fazes parte das estatísticas do IBGE,
Tens RG, CPF e um fogão a gás

Existo porque posso te ver na TV
E, em dois minutos, saber de tua história.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Sono lento

Daqui a pouco pretendo escurecer,
!!!Pensar em nada dá uma preguiça danada!!!
Morfeu há de dar-me sono movimentado
Arejado pelos morféticos demônios,
Que se aproximam sem sinos no pescoço
E fustigam a insanidade humana.
E neste breu em que tudo se vê,
Andarei, morfeticamente,
A desafiar abismos
Porque mesmo em sonho
Viver se faz arriscado.

Cantagalos

Cabecinha de Vento
Sobe nos móveis
Cai, bate a cabeça
Mas não chora.

O macaquinho se levanta
Sobe na cadeira
(É teimoso nosso
Cabecinha de Vento)
E cai infinitamente

Pela manhã, cedinho
Toda a vizinhança acorda
Com o canto de mil galos
Que vivem no poleirinho
Do Cabecinha de Vento.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Atleta

O poema teimou horas
Em minha cabeça.
Enjoado, fugiu,
Tomou a rua,
Dobrou a esquina...
Memória falha,
Poema ligeiro.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Negro

O Brasil é racista
Só alguns negros não sabem disso
O branco disse que o preto tem nova cor
E a chama de "afrodescendente"
O negro aceitou essa nova cor
Como quem aceita um novo chicote
Que humilha sem ofender
O branco inventou cotas
Para se desculpar de antigos pecados
E o negro aceitou ser cota
Que humilha sem ofender
Cota
Que discrimina outros brasileiros
Também sem ofender
No Brasil,
O branco continua branco como sempre foi
E preta
É apenas uma cor de pele
A ser banida dos dicionários.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Por aí, paisagens

Caminho
A queimar paisagens.

Árvores, campos e até o mar
Fumam;
Ardência nos meus olhos.

A fumaça estampada no céu
Tatua
A brevidade em coisa eterna.

Meus braços soltos
Ardentes
Despedem-me do meu tempo.

Caminho e a fumar ardo,
Queimo,
A queimar-me nas paisagens.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Logo agora, Zilda!

Como são inoportunas as tragédias.
Zilda Arns parte agora,
Parte assim, como devem ser as partidas,
Sem adeuses, no mais repentino repente,
E logo agora, Deus meu!
Quando este pobre mundo carece
De pequeninos gestos de amor!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Choro de espera

Meu pensamento viaja pelo silêncio
E encontra indecifrável lágrima em teus olhos.
Por que chora? – pergunto ao vento.
Por que choras? Por que mesmo feliz tu sofres?
E uma brisa soprada dos mares de todas as sortes
Diz-me que choras, porque chorar é rir às avessas
Dessa humana louca loucura
Que é viver a espera da morte.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A luz da Bem-amada

Bem-amada,
O Sol desponta
E nos promete um dia feliz.

Bem-amada, vive este dia,
Banha-te de luz,
Amanhã o Sol pode não vir.

Dá-me tua luz nesta hora,
Porque noutras auroras
Meu peito pode anoitecer
E sentir saudades
Desta breve manhã de Sol
Que nasce em teus olhos.

Querida e Bem-amada,
Amemo-nos hoje
Na intensa e finita intensidade
Das horas boas que vamos juntar
E que miseráveis minutos já consomem,

Porque
Ser noite é o destino em tristeza da luz,
Anoitecer é a sina única e triste dos homens.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Sopro solar

Coloca teus braços sobre meus ombros e vamos!

Vou te mostrar que a casa do poeta é o mundo inteiro
E que ela tem por teto, apenas,
O firmamento carregadinho de estrelas.

Sobre meus ombros...Vamos!
E bebe da luz do Sol,
Aos golinhos,
Porque a sede de poesia
É a verdadeira sede,
A da beleza que nunca se acaba.

Vou te mostrar... A tua mão dá-me...
Que é a poesia que nos torna gente
E que é por falta desta poesia
Que nossos corações tomaram as feições do Ártico.

Segure meus ombros curvados pelo peso da despoesia
Dessa gente que não é humana e nada sente...
Vamos!!
E te mostrarei o vale onde dormem as letras
Dos poemas que não foram domados.
Vale onde os poetas vagam
A amar os abismos
Por debaixo de cada coração empedrado.

Vou te mostrar... Que para se ter a poesia
Há de se amolecer, aos pouquinhos,
Com o sopro solar de nossas bocas,
O mar gelado dos corações dos homens.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Beijo solar

Quando o Sol brilhar
Deixe-me adormecer
Num sono diurno
De sonhos iluminados

Deixe-me desfalecer
Abandonado no lago
Desta manhã azulada
E de espreguiçamentos

Quando o Sol queimar
Quero teu beijo
Tão terno e eternizado
Quanto o azul do amanhecer.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Amor infinitesimal

Destripei e esquartejei
Um átomo de mim.
Tirei-lhe os prótons
Arranquei-lhe os elétrons.
Com os nêutrons fiz
Um colar de contas para
A mulher que me olhava da janela.
Para ela, e só para ela,
Que tinha os cabelos enfeitados
Com todas as cores
Da Rosa dos Ventos.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Flores solares

Setembro, 22...
Hoje o Sol deveria anunciar a Primavera,
A nona deste Século nado-morto,
Mas não há Sol e as flores banham-se numa chuva de tristeza imponderável.

Há uma frente fria congelando os jardins
E os poemas vegetam dentro de sementes que não brotaram.

Escuto o sussurrar do vento soprado do Norte...
Promete-me noutro dia, quem sabe na morte, a luz das primitivas eras.

O tempo, os elementos, a poesia
E tudo que nos enche a vida de vida
Felizmente desconhecem calendários
E se fazem, simplesmente se fazem,
desconsiderando relógios e as revoluções solares.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Etérea

De que matéria tu és,
De que tênue trama atômica
Surgiram teus olhos
Em súplicas de amor?

Quero agora saber do teu cheiro
Que tu abandonas
No circuito dos astros,
Nas revoluções dos planetas ao invés.

Por que deixas tuas mãos,
Enfeitadas com os anéis de Saturno,
Agarrarem o luar
E iluminar todos os sóis?

Que energia faz teu corpo tremer
Num beijo, num soluço até,
Neste prazer ínfimo e infinito
No qual te orbitei?

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Para a inveja dos anjos e demônios

Deus não quis que o homem voasse,
Por isso, criou os poetas, anjos e demônios,
Que são seres parecidos com os homens;
Nem no mais nem no menos,
Só nas asas não são iguais.

E nesta parecença apenas,
Para espanto dos bichos alados,
Num porém da vida,
Nesses poréns que a vida descuida,
Em noite de encantamentos, talvez,
Em noite de poesia cheia,
Os poetas, que por assim não saberiam voar,
Negam-se em humanidade e
Avoam, e avoam, e avoam...

Avoam para invejança doutras criaturas
Que tentam cantar a manhã
Numa mesma melodia que se arrepete em eternidades.

Não há poetas entre os anjos e demônios,
Por isso eles desconhecem os versos do dia que se faz.
O voo deles é apenas parte da melodia da coisa repetida.

Para desesperança dos tinhosos e imaculados
Que gostam da ordem e coisa não mexida,
O senhor criou o poeta,
Para voar, para escrever Sua poesia,
A mistura de tudo o que foi criado.

Lá do alto, completo,
O verso escapa da boca do poeta e diz
Do tempo que há de vir
Do tempo que perdeu a asa,
Do agora, deste poema sem hora.

Avoa poeta
E canta inteira a poesia de Deus.
Avoa poeta,
Sua vida é avoar
Para a invejança das criaturas
Cante o poema que se escondeu
Na mais alta nuvem
No céu, nas alturas
E que nem Arcanjos e anjos caídos
Podem alcançar.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Negativa III

Não.
Não pode ser o vácuo
O lugar das inexistências
Pois tudo que existe
E que virá a existir
Precisa de espaço.

Não.
Os astros que enchem nosso céu de luz
Que nos fazem em poemas
Que nos velam o sono
Que nos têm em sonho
Não são vaga-lumes condenados à morte.

Não.
A vida não pode ser explicada apenas
Pelo início e pelo fim
Pois há o meio
E é no meio que se vive.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Miudezas

Juntem esses poucos retalhos,
Juntem esses pequenos ciscos,
Juntem os pensamentos apequenados,
Juntem as migalhas da mesa,
Juntem o que nos sobra direito ou torto,
Juntem essas pequeninas coisas
Porque é de miudezas que se enche o mundo.

Juntem os últimos suspiros dos moribundos
Juntem tudo que vaga entre os vagabundos
Porque é a partir do miúdo que se explica o todo.

Juntem o ar da manhã com o vento noturno
Juntem os signos às luas de Saturno
Juntem o perdão à pena do condenado
Juntem o remédio aos irremediados
Porque é da miudagem que se tem o inteiro.

Juntem tudo que não presta
Juntem tudo que tem serventia
Juntem tudo e bem juntado
Porque é da miuçalha que o Universo se veste.

Canora

Ouça,
A verde ave canora canta...
É um canto único, novo.
Em suave sonoridade
Canta
A velha esperança renascida na aurora.
Ouça,
Não há dor neste canto,
A esperança não comporta dores de outrora.
Ouça,
No último agudo
Há o riso de uma criança
Gerada na dor - esta velha senhora.
Ouça,
Ouça a esperança canora
Que nada espera
E se faz num canto único
A cantar o agora.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Lá fora

Minha doce Senhora,
O céu já é claro,
Vejo isto pela janela de seus olhos,
Lá fora o frio quer encontrar sua pele
Durma novamente
Vou-me
Vou-me
Lá fora, vejo pela janela,
A labuta quer tirar a minha pele.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Ausente

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Tinha o olhar de nadavê,
As feições do nadacrê,
E estava no mundo
Satisfeito como grama
Em dia de chuva.

Dava por si raramente
Quando na dor se sentia.
Percebia nestes momentos,
E somente neles,
Que tinha em si, nos ossos,
O ruminar do existir
E o tempo a roer tudo.
Mas logo esquecia o tudo e o tempo.
De resto, como vivia bem
Na ignorância total de si!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

O pavor de sempre

Cansam-me as tragédias do mundo,
Elas se repetem, tragicamente se repetem...
Meus amigos arregalam os olhos,
Comentam manchetes,
Fazem o sinal da cruz...
E na fila do banco, e no conforto da cama,
Na solidão sanitária,
Oram evocando terrível Deus.
Cansam-me meus amigos
Com as tragédias embutidas em suas rezas.
Ignoram eles, ou assim pensam ignorar,
Que ser homem entre os homens
É a única e verdadeira tragédia
De final por demais conhecido:
A estupidez se repete na morte
E, estupidamente, nos apavoramos sempre.

terça-feira, 7 de julho de 2009

A caminho de Cocanha


Meus pés são cansados
Mas, a Cocanha chegarei!

Em Cocanha não há pecado
E se houver, um abade esfarrapado
Há de dispensar minha confissão.
Em verdade, em tal cidade
Não viver bem é aberração .

Meus pés são cansados
Mas, a Cocanha chegarei!

Ah, Cocanha fica além de Pasárgada,
Dorme no colo do vento
E tem, em léguas bem medidas,
O tamanho do nosso pensamento!
Lá todos são soberanos,
Porque só há engano
Em apenas ser amigo do rei:
É preciso também ser rei no lugar do rei!

Meus pés são cansados
Mas, a Cocanha chegarei!

Em Cocanha, o amor se tem aos metros
Cantado em versos e de graça dado.
Lá não há o certo e o errado,
O direito e o avesso,
O torto e o perfeito.
Lá cada um é de seu jeito.

Meus pés são cansados
Mas, a Cocanha hoje chegarei!

Lá meus amigos não negarão seus abraços,
As belas mulheres não medirão minha carteira.
E dividirei meu copo servido por Baco
Com o abade gordo, sorridente e bêbado,
Porque em Cocanha não há pecado
Para quem desejou na vida apenas ser e ter estado;
Em Cocanha sou rei no lugar do rei!

Meus pés são cansados
Mas, a Cocanha hoje chegarei!