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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Elogio ao clichê

Eu adoraria ser um clichê
De feitio e semelhança
A essas roupas quase perfeitas
Feitas em escala industrial
E que vestem todo mundo,
- Embora nos deixem
Com as bundas ao deus-dará!

Ser o perfeitamente normal.
Ser o ser que acorda pela manhã,
Urina, defeca e vai para o trabalho.

Ser o perfeito pateta.
Ser o ser que acorda pela manhã,
Mija, caga e vai para o calvário.

Ser o perfeito boca-aberta,
Acordar pela manhã
E escancarar um medonho sorriso
Para o papagaio da Ana Maria Braga.

Eu amaria deitar-me num molde
E sair de lá com um rosto imbecilizado
Desses de propaganda de margarina.

Como gostaria de ser um alienado,
Olhar o Sol e contentar-me
Apenas com o seu brilho e calor,
Sem tentar explicar quem no céu,
No meu céu, o Sol colocou.

Seria-me sublime ignorar a existência
E somente existir ignorando a dúvida.

Clichê, artificial alma que pode ser comprada
Em afamadas butiques e grandes supermercados
Que têm em estoque todas a superficialidades!

Como gostaria de sê-lo, impagável clichê,
Para me desobrigar de querer desvendar
Esse mundinho para lá de obscuro e sem verdade.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A polaca dorme

Acordo e vejo Curitiba com seu sorriso cinza.
Molhada, a cidade aguarda-me com seu abraço frigorífico.
Encolhidos, os pássaros congelam o voo e vegetam no alto dos pinheiros.
Os cães latem na cadência da chuva fraca e contínua.
A polaca ainda não foi comprar broa de centeio na panificadora, dorme, dorme.
Perdeu a hora sob a colcha de retalhos amarelos imitando o Sol, quente, quente.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Nemo

Amo o pobre, deixo o rico,
Vivo como o tico-tico.
Luís Gama

- Nemo é nome de peixe -
Esboça em sua sabedoria
A menininha para este velho
E miserável poeta.

Digo-lhe em minha sapiência
Ganha a duras penas
Das traças das bibliotecas:

- Houve tempo, no tempo de Nero,
No tempo em que nossa língua
Nem existia e Portugal ainda dormia,
Que "nemo" significava ninguém.

 - Mas, como alguém pode se chamar ninguém!?! -
Duvidou a infantil mocinha, fã de desenhos animados.

- Qualquer pessoa pode se chamar ninguém.
E garanto: ser nemo na ordem universal
É nosso estado absolutamente natural!

A infanta me olhou, franziu a testa e emendou:
- Nemo bobão!

Dá o mesmo trabalho, vivente!

Gastar a vida na multidão
Gastar a vida sendo você

Gastar a vida na ignorância
Gastar a vida no conhecimento

Gastar a vida no rancor
Gastar a vida no amor

Gastar a vida em coisas menores
Gastar a vida em que vale a pena

Gastar a vida esperando a morte
Gastar a vida vivendo apenas.

domingo, 18 de julho de 2010

Carta de mundo distante

Sonhei ontem ter recebido carta tua, grata amiga.
Vê o quão reveladores podem ser os sonhos,
Em especial, esses que conosco envelhecem!

Quem hoje ousaria escrever cartas, estimada minha?
No máximo um e-mail, um SMS, mensagem de celular.
É, o mundo mudou, não há mais Código Morse,
O plec-plec-plec nervoso dos galopantes telégrafos,
Somente há o infotráfego sequencial em óticas fibras.

Somos cidadãos do mundo e instantâneos.
Ganhamos mais tempo para perder mais tempo,
Essa é a verdadeira lei a nos reger os dias.

Mas eis o que te dizia: recebera perfumada cartinha,
Dessas que vinham em leve envelope par avion
E com as bordas nas cores de nossas vidas:
Liberté, égalité, fraternité. (Lembras disso?).

No papel tu descrevias vários países da Europa,
Os cafés de nossa luminescente e belíssima Paris,
Homens preocupados com mais uma crise econômica
E contava que tua missão na ONU estava terminada.
Tudo acabara, requereste aposentadoria e descanso.
A Amércia Central feriu-te e deixou-te o coração fraco,
As guerras no Golfo e nos Balcãs foram-te a gota d'água.

Mas, que sonho triste e besta. Simplesmente, tu não mais existes!
Sumiste na fumaça do ataque a bomba, covarde e terrorista.
Foste e deixaste os velhos sonhos numa carta possível,
Porque somente os mortos podem escrever para os mortos.
E depois, tenho que te dizer, há tempo não abro a caixa dos correios.
Para o bem de minha saúde, desisti completamente de esperar
Neste mundo em chamas, a ranger os dentes, notícias que valham a pena.

O pano que nos cobre

Não sei se Bandeira disse, mas deixou latente:
A maioria dos poetas reescreve seus poemas,
Seja logo após escritos, no prelo ou pendentes.
São vestidos de festas que devem ser revistos.

O poeta, alfaiate atento ao pano cosido,
Sabe que sempre cabe um ponto novo,
Um alinhavo, uma lantejoula, uma cava,
Naquilo que há dito, porém obscuro.

Ah! São tantas as festas, tantas divas
Disputando as mesmas blusas e saias,
Que o poeta junta panos com cega agulha:
Corisco no céu a bordar estrelas nuas.

Há poemas que exigem trajes de freiras,
Mui pudicos como anjinhos de sacristia,
Porque falam de coisas de sério respeito,
D'alma, de Deus, da morte e seus ofícios.

Há outros que nos saem peladinhos ou seminus,
Impróprios, na devassidão e luxúria implícitos,
Que deixam a bunda e seios da amada expostos
Porque o amor é para o poeta única sina e vício.

Há poemas que exigem apenas vestes comuns,
São os escritos de exercício, calmos e sisudos.
Para esses, costuramos uniformes de trabalho,
Macacão de operário, ou um terninho rústico.

Mas fato é que, seja a poesia de qualquer tipo,
Ela sempre há de nos exigir atenção e labuta,
Às vezes no temível arremate capenga ou bonito,
Ou nos "as"  despidos da crase, esta filha da puta!

sábado, 17 de julho de 2010

Meu coração

Não mais pulsarás
Vou te congelar
Numa câmara fria
Usando a criogenia
Dos adeuses
Das barregãs perdidas
E das amantes
De um único dia.

Não mais baterás
Pelas belas mulheres
Pelos perfumes alucinantes
Pelo amor terrível
Em outros peitos lascivos.

Não mais sentirás
Encantos
Nos oblíquos olhares
Nos sorrisos dissimulados
Nas formas de feitio feminino
A chamar-me para o pecado.

Serás apenas um enfeite
Da vida meu pingente
Frio como o vácuo das trevas
Inerte como solitária erva
Que alegra este mundo
Porém, estática,
Às criaturas serve de pasto.

domingo, 11 de julho de 2010

Ao pé da serra

Denso, mas transparente
Como uma lágrima...
Quem me dera
Um poema assim!
Mário Quintana


A translucidade da fria cascata
Aproveitava-se das sombras
Para refletir no fundo do rio
A nudez angélica de teu pudor.

Ao longe, os morros da serra
Espiavam nossa ingênua natureza
Feita de inocentes brinquedos,
Espumas sobre as duras pedras.

Nossos lábios gelados aqueciam-se
Em beijos refrescados pela torrente
E dispensavam, assim, toda palavra
Que, em desdém, o puro amor rejeita.

Livres, naturalmente libertos e leves,
Amava-nos sobre a rubrocidade
Do pejo do espelho que nos tinha presos
Em abraços abrasados nas águas imersos.

sábado, 10 de julho de 2010

O monge na cela

Logo agora, que me dedicava à vida monástica
E como um monge perambulava pelos jardins
Recitando elegias de malditos e ateus poetas.

Logo agora, em que resolvera renovar os votos
De amor à antiga companheira, à solidão plena,
E desacreditar na verdade dos amores das fêmeas.

Logo agora, tu me apareces a confundir-me as preces
Balbuciadas em lábios trêmulos em que pende o cigarro
A fumar, após o pigarro, meus pensamentos indecentes.

Logo agora, vens iluminada apenas pelo branco da pele,
Nua, sem nada, ornada somente com o doirado dos cabelos...
Nua, na noite, abandonada na cama de lençóis incandescentes.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Das razões do riso


Calados, sós então sem companhia,

íamos, um adiante, o outro em seguida,
como frades menores, pela via.
Dante Alighieri

Não sei, amigo, quanto te custou este teu riso fácil,
Este sonoro gargalhar de tua grave e própria miséria.
Digo-te: não há graça e grandeza no que nos espera!

O mundo já nasceu com vontades de desaparecer
E nos reservou apenas essas pequenas paisagens
Sempre exibidas com variações de luzes em disfarce.

Rir, amigo, é fugir do choro desejado constante
Pelos fados revelados nos anéis dos orbes celestes
E por este vago Universo que se expande e fenece.

Nascemos, amigo, já vítimas dos minutos que nos arruinam,
Com curtos braços para longas e contínuas despedidas
E olhos úmidos para serem secados pelo sal da terra.

Rir, amigo, é o nosso jeito de fugir do terror e do medo
Ao nos sentirmos abandonados no oceano do incerto,
Na titânica ignorância da existência e de nós mesmos.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Olhai os lírios do campo

Passou por este mundo
Como um lírio do campo,
Nada teceu, nada fiou.
Vagabundo, vestiu-se de trapos.
Ignorou, por conta e risco,
O esplendor de Salomão
Em sua diviníssima glória.
Porém, amou perdidamente o Sol
Que lhe matou aos pouquinhos,
Infinitamente, todos os dias.
A luz, que lhe dera cor e vida,
Fora-lhe também a escura mortalha
De toda beleza sempre efêmera.

sábado, 5 de junho de 2010

Cirurgia para peito doente


Abrir o peito com uma fina faca
E dele retirar a alma em essência.
Será isso um procedimento cirúrgico
Para conhecermos quem nos habita
Há tanto tempo, o tempo todo.

No começo,
Ela, a alma, aparecerá fetal,
Ligada pelo cordão umbilical
Ao que nunca entenderemos de fato,
Aos deuses que nos conceberam,
Aos demônios que nos forjaram,
Aos infinitos que nos impõem susto e medo.

Depois, a alma
Será criança curiosa.
Chamará a si os sentidos
Para sentir o mundo
Ao tatear os elementos:
Sentirá no rosto o mistério da chuva,
O frio do vento que a tudo leva
E será arrastada também, sem rumo.

Depois, a alma
Será a adulta dúvida de si,
Esquecerá sua natureza etérea,
Assumirá a dureza dos concretos
Que cegará aquela fina faca
A nos libertar do nosso próprio peito.

Assim,
Os homens que conhecem suas almas
Estão curados e se privam da loucura.
É fácil reconhecê-los:
Portam no tronco estranha cicatriz,
Ferida mal fechada, mal costurada,
Mas que lhes devolveu a sanidade.

Não pense escapar,
Não há como fugir do cirurgião,
Todos estão fadados
A essa incisão terrível.

É certo,
Que alguns não devem suportar
A ausência dos anestésicos
E o inevitável encontro
Com a essencial fragilidade
Imaterial que nos faz vivos.

Amolemos nossas facas nas pedras em que tropeçamos.
Afinal, do que nos serve a vida, se desconhecemos
O mistério deste sopro divino que nos habita e sustenta?

domingo, 30 de maio de 2010

Amorímetro

Inventei máquina nova,
Finalmente, um engenho útil!
Consigo agora medir o amor.
Na realidade, é um medidor
Que tem uma escala infinita
Vem dos negativos números
Passa pelo zero e avança ao eterno.
É invisível e funciona assim:
Traga para seu peito
O objeto do teu querer;
Segure-o firme, apertado mesmo;
Sinta-lhe o calor, o desejo;
Depois, meça o bater do coração alheio
E multiplique pelo logaritmo
Da quentura que sobe ao rosto.
Não há erro nessa operação.
Na máquina só há um defeito,
Ela não funciona em sujeitos
Que desejam o amor em precisão monótona.
Naturalmente, tem que ser usada todos os dias.
No amar sempre haverá uma quantia nova
Que foge das imutáveis tabelas, da álgebra fria.
No modo de usar, ainda uma advertência,
Tal máquina aponta para o nada em vidinhas vazias.

O homem que rumina

A minha alma é um túmulo profundo
Onde dormem, sorrindo, os deuses mortos!
Florbela Espanca

Que prazer há em mastigar o vento?

Onde dormem teus segredos e destino,
Nas linhas de um diário não escrito,
Nas folhas das árvores não nascidas,
Nas palhas arrastadas pela ventania?

Que prazer há em mastigar a escuridão?

Onde dormem tuas desumanidades,
Nos cadáveres de teus dias despropositados,
Nas auroras e crepúsculos repetidos,
Nas indiferenças que te cegaram completamente?

Que prazer há em mastigar as horas?

Onde dormem tuas essências,
Nos livros nunca abertos e jamais decifrados,
Nos gestos corretos e impossivelmente manifestos,
Nos distantes brinquedos que te permitiam o sonho?

Que prazer há em mastigar a própria língua?

Onde dormem tuas múltiplas faces,
Nos baús dos deuses da tragédia ou comédia,
Nos afazeres sem sentido que te absorvem,
Nos pesadelos de morte que te apavoram?

Que prazer há em mastigar a ti mesmo?

domingo, 23 de maio de 2010

Verniz da eternidade

A saudade tem o hábito de lembrar a última vez
E destruir todas as outras recordações felizes ou tristes
Lembro-me da última vez que vi meu irmão, já morto
No branco rosto, a paz que nunca teve em tão curta vida
Foi enterrado de tênis, quase nunca usava sapatos
Com uma camisa simples, jamais usou paletó
De jeans como seus ídolos drogados do Rock and Roll
Desceu à terra na simplicidade de uma folha ao despir a árvore
Esta é a saudade última que matou todas as suas lembranças
Desgraçadamente lembro-me ainda que morri também
Um morrer horrível que nos condena a viver na saudade
Na loucura da esperança do que poderia ter sido
E nunca será, porque no meio encontramos a tragédia
Tenho nas narinas o cheiro das velas e doido eco na cabeça
Do som que os Stones e os Beatles nunca fizeram
A terra sobre seu caixão tem um barulho medonho
É o rufar dos tambores de tétrica bateria
Pedrinhas rolantes sobre o verniz da eternidade.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Mãe portuguesa

O chio da saudade
Vem da leiteira
Lambida pelo fogo
Ao lado da chaleira

Na mesa posta e muda
Doces multicores
Formigas que lá passeiam
No xadrez da toalha velha

O vapor da saudade
Fumega da chávena
De porcelana branca
Que viu tanta novena

O calor da saudade
Vem do xale da triste mãe
Que vê olhos de lombriga
Nos olhos do magro rebento.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Manias da ninfa

Desfrutável:
Para ela, a brisa não é simples vento
Para ela, qualquer soprinho é carícia

Insaciável:
Para ela, interessa a infinita repetição do ato
Para ela, o ato só é real na delícia da fantasia

Ilacrimável:
Para ela, sofrer de amor não é sofrer
Para ela, morrer de amor é estar viva

Incansável:
Para ela, só importa a paixão sem fim na horizontal
Paralela a mim, amar é adiar-se no orgasmo animal.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Instrumental I

Dá-me, estimada e querida amiga,
Divino e celeste diapasão para afinar
O estampido da cosmogonia explosiva
Desse Big Bang que nos fez em vida

Dá-me, ainda, um metrônomo novo
Que consiga mensurar a vagabundagem
Desse nosso tempo andarilho e pulsante
Em ordinários relógios descartáveis

Dá-me, querida, uma semínima pontuada
Para que eu possa compor uma infinita ária
Com os longos ais suspirados no sofrimento
Dessa gente que só espera a câmara que arde.

sábado, 24 de abril de 2010

Amor galático

Em noites de Lua,
Tinha por hábito
Orbitar galáxias.

Circundava estrelas,
Bebia da láctea via
E ficava bêbado.

Tinha este estranho hábito
De fugir da gravidade
E ocupar vácuos profundos.

Seu mal foi encontrar a Anã Branca.
Paixão doida, provocada por neutrinos.
Logo ele, que nunca descia das alturas!

Mas, amor é amor. Cacete,
Branca estava iluminada
Por raios gama!

Tinha agora um buraco negro no coração.
Calculava: luzes não percorrem linha reta;
O amor universal segue linha torta.

Talvez, ao vencer 10 mil anos-luz,
Consiga coragem para pedi-la
Em casamento. Tímido, tímido.

Caminhava pela Via Láctea,
Sonhava buracos de minhoca
E se enforcava na teoria das cordas.

domingo, 18 de abril de 2010

O homem metade

Morria de lembrança.
Pensava, matutava
E morria todos os dias.

Tinha por castigo
Uma vida longa
Muito além da conta.

Vivia para lembrar
Não o que fez
Mas o incompleto.

Tudo lhe fora metade
Por isso não mais dormia
Dormir era viver pela metade.

Amou pela metade
Odiou pela metade
Viveu pela metade

Somente acumulou metal por inteiro
E viu que este buscar pelo inteiro
Era a razão dele ser metade.