Pedi seu colo
Para repousar
Meus sonhos
Tão avoadinhos:
É medo, amor meu,
De sair, assim,
Voando também!
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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Colo
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Exatidões
O relógio do tempo
Que nos gasta
Tem estranha
Preferência
Por horas exatas.
Em latim:
Exactae
Temporis clepsydra
Cujus nos consumit
Insolitae primae habet
horis exactis.
Que nos gasta
Tem estranha
Preferência
Por horas exatas.
Em latim:
Exactae
Temporis clepsydra
Cujus nos consumit
Insolitae primae habet
horis exactis.
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Matinais II
Um dia de luz difusa
Com caras confusas
Dá-me a tua mão
Dá-me teu coração
Vamos sair,
Jogar nossas vozes
Pela calçada inda calada.
Acorda os vagabundos
Que dormem em travesseiros de pedras:
"Acordem! A vida é leve,
Os sonhos é que são pesados".
Com caras confusas
Dá-me a tua mão
Dá-me teu coração
Vamos sair,
Jogar nossas vozes
Pela calçada inda calada.
Acorda os vagabundos
Que dormem em travesseiros de pedras:
"Acordem! A vida é leve,
Os sonhos é que são pesados".
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Matinais I
Já me condicionei e,
Inevitavelmente,
Acordo as cinco horas da manhã.
É lógico que não há sol,
Mas a contragosto
Todo santo dia, às cinco,
Estou abrindo as janelas.
Dou adeus às estrelas últimas
E respiro o ar matinal.
Gosto disso, esses elementos
Acordam-me antiga e certa certeza:
O viver é de uma repetição
Para lá de medonha.
Ao longe, muito longe,
Escuto insistente galo urbano.
O miserável canta na manhã a se tecer.
E no topo das árvores
os pássaros planejam
A revoada. Que confusão danada
Para decidir o que sempre fizeram:
Voar na incerteza do dia.
Inevitavelmente,
Acordo as cinco horas da manhã.
É lógico que não há sol,
Mas a contragosto
Todo santo dia, às cinco,
Estou abrindo as janelas.
Dou adeus às estrelas últimas
E respiro o ar matinal.
Gosto disso, esses elementos
Acordam-me antiga e certa certeza:
O viver é de uma repetição
Para lá de medonha.
Ao longe, muito longe,
Escuto insistente galo urbano.
O miserável canta na manhã a se tecer.
E no topo das árvores
os pássaros planejam
A revoada. Que confusão danada
Para decidir o que sempre fizeram:
Voar na incerteza do dia.
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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Safadeza universal
Miserável poeta que procura sentido
Nesta sublimação do nada que diz ser vida;
Sinto muito, mas essa busca é vã,
Se há algum sentido, ele por si só não se explica.
Como encontrar sentido naquilo que começa
E, inevitavelmente, desaparece?
Como explicar este tosco existir
Num minúsculo lapso temporal que nos foi concedido
Pela eternidade, com a permissão
E a divina indiferença dos deuses?
Como, torturado amigo,
Justificar essa safadeza universal:
Ser por um tempo para não ser mais no tempo?
Nesta sublimação do nada que diz ser vida;
Sinto muito, mas essa busca é vã,
Se há algum sentido, ele por si só não se explica.
Como encontrar sentido naquilo que começa
E, inevitavelmente, desaparece?
Como explicar este tosco existir
Num minúsculo lapso temporal que nos foi concedido
Pela eternidade, com a permissão
E a divina indiferença dos deuses?
Como, torturado amigo,
Justificar essa safadeza universal:
Ser por um tempo para não ser mais no tempo?
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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Os olhos da alegria
É, meu amigo, no frigir dos ovos
Quem acaba por se danar é o frango futuro;
Aquele que nunca será!
Portanto, enfeite sua alegria momentânea
Com os brincos da mais linda mulher,
Com os olhos fumegantes de uma fêmea no cio.
A alegria vem e passa,
Torne-a pois, amigo - há de ser assim - bela.
Mas não lhe dê apenas a beleza vulgar,
Que por si só há de ser desencanto.
Dê a ela as suaves notas de um canto
Composto para o sono dos anjos.
Recompense-a,
Porque esta alegria será lembrada
Por você, caríssimo amigo,
Apenas como a raridade
Que nasceu neste cipoal de tristeza
A nos cercar neste caminho tão breve
Que termina ao nos despedirmos da vida
De supetão, quase sempre sem nos dar tempo
Para um mísero adeus, ou um aceninho que seja.
Quem acaba por se danar é o frango futuro;
Aquele que nunca será!
Portanto, enfeite sua alegria momentânea
Com os brincos da mais linda mulher,
Com os olhos fumegantes de uma fêmea no cio.
A alegria vem e passa,
Torne-a pois, amigo - há de ser assim - bela.
Mas não lhe dê apenas a beleza vulgar,
Que por si só há de ser desencanto.
Dê a ela as suaves notas de um canto
Composto para o sono dos anjos.
Recompense-a,
Porque esta alegria será lembrada
Por você, caríssimo amigo,
Apenas como a raridade
Que nasceu neste cipoal de tristeza
A nos cercar neste caminho tão breve
Que termina ao nos despedirmos da vida
De supetão, quase sempre sem nos dar tempo
Para um mísero adeus, ou um aceninho que seja.
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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Porrada
Sabe desses dias em que você acorda mijando fora do vaso sanitário?
Fui até a sala e vi as duas torres de Nova Iorque fumando.
- Dor de cabeça! Briguei com a namorada.
"Cadê meu cigarro?"
"O Matheus me bateu!..."
"Não se preocupe minha filha, veja na TV, a humanidade inteira acaba de levar uma porrada!" (11-09-2001)
Fui até a sala e vi as duas torres de Nova Iorque fumando.
- Dor de cabeça! Briguei com a namorada.
"Cadê meu cigarro?"
"O Matheus me bateu!..."
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Efeitos ópticos
Bar.
Ao lado
Retamozzo brinca
Com fenômenos ópticos;
Procura imagens no caleidoscópio
Antes de cantar mais
Uma música boa pra cachorro.
(Mazzinha fala consigo mesmo
E depois canta um esquecido samba
Acompanhado pelo Milani.
- Santo Deus, samba italiano! -
Mazé Mendes não veio,
Por certo, está a desconstruir o mundo
Em suas telúricas telas).
Kambé nos mostra
A cópia impressa de seu último quadro
(Que um babaca comprou
Para enfeitar a parede do escritório).
Cá, deste outro lado da mesa,
Encontro uma lente de aumento
No fundo da garrafa.
Olho para os meus amigos,
Meço-os com a lente verde
E vejo que o coração de artista
Vaza-se em espectros coloridos,
Como um caleidoscópio
A conceber o belo e a beleza
Das almas das gentes.
Ao lado
Retamozzo brinca
Com fenômenos ópticos;
Procura imagens no caleidoscópio
Antes de cantar mais
Uma música boa pra cachorro.
(Mazzinha fala consigo mesmo
E depois canta um esquecido samba
Acompanhado pelo Milani.
- Santo Deus, samba italiano! -
Mazé Mendes não veio,
Por certo, está a desconstruir o mundo
Em suas telúricas telas).
Kambé nos mostra
A cópia impressa de seu último quadro
(Que um babaca comprou
Para enfeitar a parede do escritório).
Cá, deste outro lado da mesa,
Encontro uma lente de aumento
No fundo da garrafa.
Olho para os meus amigos,
Meço-os com a lente verde
E vejo que o coração de artista
Vaza-se em espectros coloridos,
Como um caleidoscópio
A conceber o belo e a beleza
Das almas das gentes.
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sábado, 6 de fevereiro de 2010
Agora
Pobre menina,
É impossível voltar
A ser novamente,
O que fomos, fomos:
Em beleza ou sofrimento.
Neste momento,
Resta-nos somente
Ser intensamente o agora
E esquecer o ontem e o amanhã,
Que a rigor, em toda verdade,
Não existem:
Um deixou de ser,
E o outro não nasceu ainda.
É impossível voltar
A ser novamente,
O que fomos, fomos:
Em beleza ou sofrimento.
Neste momento,
Resta-nos somente
Ser intensamente o agora
E esquecer o ontem e o amanhã,
Que a rigor, em toda verdade,
Não existem:
Um deixou de ser,
E o outro não nasceu ainda.
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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
D. Sebastião na claridade de Figueira da Foz
Diviso tão distante Atlântico
E vejo-me em Figueira da Foz,
Luminosa cidade a lamber o oceano.
Sou aqui deste lado,
Deste ocidental mar do desterro;
Mas estou em Figueira oriental,
A juntar minhas lágrimas ao Mondego,
Marinheiro que me faço
Em caravela tropical de puro desespero.
Há em mim a certeza,
No meu peito a esperança,
De que na Praia da Claridade
Dom Sebastião tenha morada;
Vive lá adormecido,
Pois posso ver agora
Sua modesta casa,
Acima de mortais nevoeiros,
Doirada pela luz do Sol
Ou por argentinas noites estreladas.
Ao voltar de dura Cruzada
Acolheu-se ali o soberano.
Quisera El Rey não retornar à corte
Pois, como desejar apenas o brilho dos homens
Se existe tal lusitana praia
Cheia de encantamentos divinos?
Avistara ali, por certo, o rei combatente,
O Desejado dos súditos seus,
Nas areias resplandescentes
O brilho do pó das saudades
Na luzente luz da eternidade
A misturar-se com a criação de Deus.
E vejo-me em Figueira da Foz,
Luminosa cidade a lamber o oceano.
Sou aqui deste lado,
Deste ocidental mar do desterro;
Mas estou em Figueira oriental,
A juntar minhas lágrimas ao Mondego,
Marinheiro que me faço
Em caravela tropical de puro desespero.
Há em mim a certeza,
No meu peito a esperança,
De que na Praia da Claridade
Dom Sebastião tenha morada;
Vive lá adormecido,
Pois posso ver agora
Sua modesta casa,
Acima de mortais nevoeiros,
Doirada pela luz do Sol
Ou por argentinas noites estreladas.
Ao voltar de dura Cruzada
Acolheu-se ali o soberano.
Quisera El Rey não retornar à corte
Pois, como desejar apenas o brilho dos homens
Se existe tal lusitana praia
Cheia de encantamentos divinos?
Avistara ali, por certo, o rei combatente,
O Desejado dos súditos seus,
Nas areias resplandescentes
O brilho do pó das saudades
Na luzente luz da eternidade
A misturar-se com a criação de Deus.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Asas noturnas
A noite liberta de meu peito todo carinho
Que voa, voa... Até encontrar o seu coração.
Aninho-me nele e sonho suavidades
Ouvindo sua canção a compassar carícias
Doces e eternas como o beijo da saudade.
Que voa, voa... Até encontrar o seu coração.
Aninho-me nele e sonho suavidades
Ouvindo sua canção a compassar carícias
Doces e eternas como o beijo da saudade.
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Neandertal cibernético
Absolutamente não.
Não é preciso navegar até as Galápagos
Para entender a evolução
Que nos determinou esta incrível
Vocação para a violência.
Temos no sangue o mesmo rubro ferro
Que corria nas veias dos neandertais.
Por isso, pensamos a cibernética
Enquanto acalentamos monstruosidades.
Brutos deuses de nosso tempo,
afetos à loucura, somos capazes de matar
Em guerras, em disputas por território,
Por comida e por outros torpes motivos
Que envolvem até mesmo a falta de motivo.
- Quer coisa mais primitiva do que isso?!? -
Matamos, ferimos e trucidamos
Até mesmo outros corações desejados.
Podemos matar o que nos apaixona!
A racionalidade não nos suprimiu
A passionalidade, o amor de morte,
Este desejo de ter o impossível,
E matar por desejar é nossa alucinação divina.
Verdadeiramente não.
Não é preciso ver as tartarugas-das-Galápagos
Para saber que o verdadeiro amor
Só atingirá o coração dos homens
A passos pesados marcados por absurda lentidão.
Não é preciso navegar até as Galápagos
Para entender a evolução
Que nos determinou esta incrível
Vocação para a violência.
Temos no sangue o mesmo rubro ferro
Que corria nas veias dos neandertais.
Por isso, pensamos a cibernética
Enquanto acalentamos monstruosidades.
Brutos deuses de nosso tempo,
afetos à loucura, somos capazes de matar
Em guerras, em disputas por território,
Por comida e por outros torpes motivos
Que envolvem até mesmo a falta de motivo.
- Quer coisa mais primitiva do que isso?!? -
Matamos, ferimos e trucidamos
Até mesmo outros corações desejados.
Podemos matar o que nos apaixona!
A racionalidade não nos suprimiu
A passionalidade, o amor de morte,
Este desejo de ter o impossível,
E matar por desejar é nossa alucinação divina.
Verdadeiramente não.
Não é preciso ver as tartarugas-das-Galápagos
Para saber que o verdadeiro amor
Só atingirá o coração dos homens
A passos pesados marcados por absurda lentidão.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Cicuta, o colírio dos olhos
Na realidade - não leves em maldade -
Tu só podes existir reflexo nas retinas
Desses olhares vazios e entediados que perambulam mundo.
Mas, por sorte ou desespero,
Tu não tens importância para esse vulgo que vê apenas o que deseja ver.
Afinal, como existir de verdade
No olhar desta gente desnorteada que, apavorada, tenta esquecer do triste destino, da própria e inadiável morte, assistindo ao Big Brother e tendo na retina aquilo que jamais vai encostar o dedo?
Desta multidão que lava os dentes após ruminar o nada?
Como existir de verdade
Aos olhos desses pobres condenados
Que nunca vão entender, minimamente que seja, o existir?
Não penses, por isso,
Ser a cicuta o melhor colírio para tais globos oculares.
Não os tenhas em ódio.
Lembra:
Não é permitido ao homem
Deixar de ser somente porque vaza
Os olhos de quem o vê.
Ainda, lembra:
É a ignorância que mantém o juízo
De boa parte da humanidade.
Todos querem viver, mesmo que inutilmente,
Fazendo besteiras, colecionando ossos,
Estocando dinheiro... Todos querem
Ser a insanidade dentro da insanidade.
Assim são distraídos pelas inutilidades,
Porque pensar para eles
É vislumbrar a própria, a escura, e inevitável cova
E crê, essa não é uma boa imagem de companhia!
Tu só podes existir reflexo nas retinas
Desses olhares vazios e entediados que perambulam mundo.
Mas, por sorte ou desespero,
Tu não tens importância para esse vulgo que vê apenas o que deseja ver.
Afinal, como existir de verdade
No olhar desta gente desnorteada que, apavorada, tenta esquecer do triste destino, da própria e inadiável morte, assistindo ao Big Brother e tendo na retina aquilo que jamais vai encostar o dedo?
Desta multidão que lava os dentes após ruminar o nada?
Como existir de verdade
Aos olhos desses pobres condenados
Que nunca vão entender, minimamente que seja, o existir?
Não penses, por isso,
Ser a cicuta o melhor colírio para tais globos oculares.
Não os tenhas em ódio.
Lembra:
Não é permitido ao homem
Deixar de ser somente porque vaza
Os olhos de quem o vê.
Ainda, lembra:
É a ignorância que mantém o juízo
De boa parte da humanidade.
Todos querem viver, mesmo que inutilmente,
Fazendo besteiras, colecionando ossos,
Estocando dinheiro... Todos querem
Ser a insanidade dentro da insanidade.
Assim são distraídos pelas inutilidades,
Porque pensar para eles
É vislumbrar a própria, a escura, e inevitável cova
E crê, essa não é uma boa imagem de companhia!
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terça-feira, 26 de janeiro de 2010
O berço do pequeno Jimi
Curtiu muito Rock and rool
Na breve e interrompida adolescência.
Hoje, ao lavar panelas
Olha para o berço descontente.
Chora ao ouvir um blues da Joplin
E reclama da vida
Ao ver aquele miúdo vermelho
- com a carinha de joelho -
A escancarar a boca,
Ainda sem dentes,
Num gutural choro de fome.
Impaciente, tira o peito e grita:
"Mamãe já vai dar o mamá, Hendrix!".
Na breve e interrompida adolescência.
Hoje, ao lavar panelas
Olha para o berço descontente.
Chora ao ouvir um blues da Joplin
E reclama da vida
Ao ver aquele miúdo vermelho
- com a carinha de joelho -
A escancarar a boca,
Ainda sem dentes,
Num gutural choro de fome.
Impaciente, tira o peito e grita:
"Mamãe já vai dar o mamá, Hendrix!".
Tarde de vento
Vieste com o vento,
Num final de tarde,
Cheia de flores amarelas
A te enfeitar os cabelos.
É, vieste com o vento
Soprado em branda brisa.
Deste-me, depois, um beijo leve
A pedir-me breve amparo
Neste voar constante da vida.
(Amparei-te - estava só -
Por que não te dar o braço?
No conhecer do adeus somos esquecidos)
Cômodo, inerte e preso
Guardo-te, muda rouxinol,
Na gaiola dourada
Como triste e calado enfeite.
Hoje, quando sinto o vento,
Vislumbro nele aragem mágica
A lecionar para ti, cativa,
Os antigos e olvidados mistérios
Do voar livre e contente.
Num final de tarde,
Cheia de flores amarelas
A te enfeitar os cabelos.
É, vieste com o vento
Soprado em branda brisa.
Deste-me, depois, um beijo leve
A pedir-me breve amparo
Neste voar constante da vida.
(Amparei-te - estava só -
Por que não te dar o braço?
No conhecer do adeus somos esquecidos)
Cômodo, inerte e preso
Guardo-te, muda rouxinol,
Na gaiola dourada
Como triste e calado enfeite.
Hoje, quando sinto o vento,
Vislumbro nele aragem mágica
A lecionar para ti, cativa,
Os antigos e olvidados mistérios
Do voar livre e contente.
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domingo, 24 de janeiro de 2010
Presença
Ausente de mim mesmo
Ando pela cidade a esmo
A sentir-te n’alma presente.
Em latim:
Praesentia
Absens mei ipse
Temere urbe ambulo
In animam te sentiendo.
Taverna do Limbo

Uma mulher flutuava nua...
A taverna à noite ardia,
Mil poemas ali, no espaço,
Desenhados pelo corisco
Que rasgava o céu negro e nu.
Vergílio estava sóbrio e quieto,
Tinha em suas mãos novos versos
Que o temporal logo ouviria.
Tácito procurava a tragédia
No vermelho do molho do prato
Que levado à boca escorria
Pela barba, peito, até a túnica.
Nua flutuava uma mulher
Na taverna que na noite ardia.
Em latim:
Limbi Taberna
Femina nuda fluctuabat...
Noctu hac taberna ardebat
Mille poemates ibi, in spatio,
Fulmine adumbrabant
Quod caelum nigerum et nudum lacerabat.
Vergilius sobrius et quietus erat,
Novi versus in manibus habebat
Quos propediem tempestas audiret.
Tacitus tragoediam quaerebat
In rubricam conditionis patinae;
Qui oris barba, pectore,
Tunica tenus stillabat.
Femina nuda fluctuabat
In tabernam quam nocte ardebat.
Ilustração de Gustave Doré (séc. XIX): Dante, Homero, Lucano, Virgílio e outras grandes figuras da Antiguidade no Limbo.
Naufrágios
Uma escuna de sonhos
Navega meus mares neuroniais.
O timoneiro é neurótico,
O capitão é lunático
E a tripulação vive
De conspirações e motins.
Em latim:
Naufragia
Sominii navis
Cerebri maria mea navigat.
Gubernator iracundus,
Classis praefectus lunaticus est.
Nautae homines vivunt
Conspiratium et tumultuum.
Navega meus mares neuroniais.
O timoneiro é neurótico,
O capitão é lunático
E a tripulação vive
De conspirações e motins.
Em latim:
Naufragia
Sominii navis
Cerebri maria mea navigat.
Gubernator iracundus,
Classis praefectus lunaticus est.
Nautae homines vivunt
Conspiratium et tumultuum.
sábado, 23 de janeiro de 2010
Oi!
Estou apenas de passagem
Por isso, trago no peito
A solidão dos mestres
E a sabedoria dos imbecis.
Em latim:
Heus!
Solum transitus sum
Ergo, in pectus adduco
Magistrorum solitudo
Et stupidorum sapientia.
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Vadia
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Vingança
Sei que o tempo me gasta,
Mas eu gasto o tempo também.
Em latim:
Tempus me consumit, non ignoro,
Sed tempum quoque ego consumo.
Mas eu gasto o tempo também.
Em latim:
Pæna
Tempus me consumit, non ignoro,
Sed tempum quoque ego consumo.
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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Haiti, os deuses que te devoram
Ai de ti, Haiti,
Que sofres ao ouvir
Os ais de teu povo.
A terra tremeu por ti Haiti,
Pelos anos de fome,
Pelos anos de matança,
Nos ais infinitos de ti.
Ai de tuas crianças, Haiti,
As que sobraram órfãs.
Ai de tuas mães, Haiti,
As que sobraram sem filhos.
Hoje só há zumbis pelas ruas
E os ais sufocados por entre escombros.
Hoje tuas mães não beijam seus filhos
Que, sem nomes, dividem vala infecta.
Hoje a fome não será dividida,
Os mortos não passam fome.
Hoje a esperança chora
No interior da terra
E os tremores dos ais são seus soluços.
Terra de tantos deuses,
Por que os deuses te devoram?
Que sofres ao ouvir
Os ais de teu povo.
A terra tremeu por ti Haiti,
Pelos anos de fome,
Pelos anos de matança,
Nos ais infinitos de ti.
Ai de tuas crianças, Haiti,
As que sobraram órfãs.
Ai de tuas mães, Haiti,
As que sobraram sem filhos.
Hoje só há zumbis pelas ruas
E os ais sufocados por entre escombros.
Hoje tuas mães não beijam seus filhos
Que, sem nomes, dividem vala infecta.
Hoje a fome não será dividida,
Os mortos não passam fome.
Hoje a esperança chora
No interior da terra
E os tremores dos ais são seus soluços.
Terra de tantos deuses,
Por que os deuses te devoram?
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RG & CPF
Haveria, sem dúvida,
direito de se me perguntar:
Mas quem é esse todo mundo?
F. Dostoievski
direito de se me perguntar:
Mas quem é esse todo mundo?
F. Dostoievski
É óbvio:
Tens cabelos
Porque existe xampu
Tens dentes porque existe a Colgate
Que te permite mastigar os teus dias sem gosto
Tens olhos
Porque existem óculos
Tens fome porque existem vacas e agricultura
Afinal, existir nos impõe preço
Existes porque fazes parte das estatísticas do IBGE,
Tens RG, CPF e um fogão a gás
Existo porque posso te ver na TV
E, em dois minutos, saber de tua história.
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Sono lento
Daqui a pouco pretendo escurecer,
!!!Pensar em nada dá uma preguiça danada!!!
Morfeu há de dar-me sono movimentado
Arejado pelos morféticos demônios,
Que se aproximam sem sinos no pescoço
E fustigam a insanidade humana.
E neste breu em que tudo se vê,
Andarei, morfeticamente,
A desafiar abismos
Porque mesmo em sonho
Viver se faz arriscado.
!!!Pensar em nada dá uma preguiça danada!!!
Morfeu há de dar-me sono movimentado
Arejado pelos morféticos demônios,
Que se aproximam sem sinos no pescoço
E fustigam a insanidade humana.
E neste breu em que tudo se vê,
Andarei, morfeticamente,
A desafiar abismos
Porque mesmo em sonho
Viver se faz arriscado.
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Cantagalos
Cabecinha de Vento
Sobe nos móveis
Cai, bate a cabeça
Mas não chora.
O macaquinho se levanta
Sobe na cadeira
(É teimoso nosso
Cabecinha de Vento)
E cai infinitamente
Pela manhã, cedinho
Toda a vizinhança acorda
Com o canto de mil galos
Que vivem no poleirinho
Do Cabecinha de Vento.
Sobe nos móveis
Cai, bate a cabeça
Mas não chora.
O macaquinho se levanta
Sobe na cadeira
(É teimoso nosso
Cabecinha de Vento)
E cai infinitamente
Pela manhã, cedinho
Toda a vizinhança acorda
Com o canto de mil galos
Que vivem no poleirinho
Do Cabecinha de Vento.
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Atleta
O poema teimou horas
Em minha cabeça.
Enjoado, fugiu,
Tomou a rua,
Dobrou a esquina...
Memória falha,
Poema ligeiro.
Em minha cabeça.
Enjoado, fugiu,
Tomou a rua,
Dobrou a esquina...
Memória falha,
Poema ligeiro.
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sábado, 16 de janeiro de 2010
Negro
O Brasil é racista
Só alguns negros não sabem disso
O branco disse que o preto tem nova cor
E a chama de "afrodescendente"
O negro aceitou essa nova cor
Como quem aceita um novo chicote
Que humilha sem ofender
O branco inventou cotas
Para se desculpar de antigos pecados
E o negro aceitou ser cota
Que humilha sem ofender
Cota
Que discrimina outros brasileiros
Também sem ofender
No Brasil,
O branco continua branco como sempre foi
E preta
É apenas uma cor de pele
A ser banida dos dicionários.
Só alguns negros não sabem disso
O branco disse que o preto tem nova cor
E a chama de "afrodescendente"
O negro aceitou essa nova cor
Como quem aceita um novo chicote
Que humilha sem ofender
O branco inventou cotas
Para se desculpar de antigos pecados
E o negro aceitou ser cota
Que humilha sem ofender
Cota
Que discrimina outros brasileiros
Também sem ofender
No Brasil,
O branco continua branco como sempre foi
E preta
É apenas uma cor de pele
A ser banida dos dicionários.
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Por aí, paisagens
Caminho
A queimar paisagens.
Árvores, campos e até o mar
Fumam;
Ardência nos meus olhos.
A fumaça estampada no céu
Tatua
A brevidade em coisa eterna.
Meus braços soltos
Ardentes
Despedem-me do meu tempo.
Caminho e a fumar ardo,
Queimo,
A queimar-me nas paisagens.
A queimar paisagens.
Árvores, campos e até o mar
Fumam;
Ardência nos meus olhos.
A fumaça estampada no céu
Tatua
A brevidade em coisa eterna.
Meus braços soltos
Ardentes
Despedem-me do meu tempo.
Caminho e a fumar ardo,
Queimo,
A queimar-me nas paisagens.
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Logo agora, Zilda!
Como são inoportunas as tragédias.
Zilda Arns parte agora,
Parte assim, como devem ser as partidas,
Sem adeuses, no mais repentino repente,
E logo agora, Deus meu!
Quando este pobre mundo carece
De pequeninos gestos de amor!
Zilda Arns parte agora,
Parte assim, como devem ser as partidas,
Sem adeuses, no mais repentino repente,
E logo agora, Deus meu!
Quando este pobre mundo carece
De pequeninos gestos de amor!
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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Choro de espera
Meu pensamento viaja pelo silêncio
E encontra indecifrável lágrima em teus olhos.
Por que chora? – pergunto ao vento.
Por que choras? Por que mesmo feliz tu sofres?
E uma brisa soprada dos mares de todas as sortes
Diz-me que choras, porque chorar é rir às avessas
Dessa humana louca loucura
Que é viver a espera da morte.
E encontra indecifrável lágrima em teus olhos.
Por que chora? – pergunto ao vento.
Por que choras? Por que mesmo feliz tu sofres?
E uma brisa soprada dos mares de todas as sortes
Diz-me que choras, porque chorar é rir às avessas
Dessa humana louca loucura
Que é viver a espera da morte.
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