Como não considerar estranho
Um ser que se alegra verdadeiramente
Com um sapato novo,
Com uma sandália nova,
E ainda por cima, deles faz coleção?
O mundo pode estar se acabando
Mas se uma mulher ver um sapato novo
E compra o novo sapato,
Pode escrever, amigo, o mundo recomeça
Ali mesmo, naquele momento,
E o tempo passará a ser contado
Em novíssimo calendário,
Sempre depois da compra do último sapato!
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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Mulher de sapato novo
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sábado, 29 de janeiro de 2011
Imaginações
Imagino,
Por Deus,
Como imagino!
Passatempo
De poeta
É imaginar!
Imagino,
Com todo respeito,
É claro, você
Todinha nua,
Nuinha aqui,
Na minha frente,
Como papel
Em branco
Esperando
Mancha de tinta,
Só para de tinta
Se manchar.
Imagino,
E se imagino,
Toda poesia
Nasce
Do imaginar,
Sem respeito
Algum,
É claro,
Ao poeta,
Ao poetar!
Por Deus,
Como imagino!
Passatempo
De poeta
É imaginar!
Imagino,
Com todo respeito,
É claro, você
Todinha nua,
Nuinha aqui,
Na minha frente,
Como papel
Em branco
Esperando
Mancha de tinta,
Só para de tinta
Se manchar.
Imagino,
E se imagino,
Toda poesia
Nasce
Do imaginar,
Sem respeito
Algum,
É claro,
Ao poeta,
Ao poetar!
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Canção para o amor que termina
Loucuras de amor eu também fiz,
E ao amar quem também não faz?
No amor a gente quer ser feliz...
Românticos o coração nos faz.
Senti ao te conhecer, senti
A loucura que aos céus nos ascende.
Louca ternura por ti senti,
Louca loucura que o Sol acende.
Nunca imaginei a vida sem ti,
O começo do fim não se sente.
Há castelos que caem por si,
Por que o nosso seria diferente?
Loucuras de amor eu também fiz,
E ao amar quem também não fez?
No amor a gente quer ser feliz...
Romântico o coração me fez.
E ao amar quem também não faz?
No amor a gente quer ser feliz...
Românticos o coração nos faz.
Senti ao te conhecer, senti
A loucura que aos céus nos ascende.
Louca ternura por ti senti,
Louca loucura que o Sol acende.
Nunca imaginei a vida sem ti,
O começo do fim não se sente.
Há castelos que caem por si,
Por que o nosso seria diferente?
Loucuras de amor eu também fiz,
E ao amar quem também não fez?
No amor a gente quer ser feliz...
Romântico o coração me fez.
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Samba da ingratidão
Amor é brincadeira dela,
Que não respeita ninguém.
Amor é brincadeira dela,
Que não respeita ninguém.
Vivia numa viração danada,
Caminhava aos trancos e barrancos,
Quando a vi deitada na calçada,
Da vida quase entregando os pontos.
Da rua não se deve juntar nada
Diz velho ditado, que eu ignorei.
Da rua não se deve juntar nada
Diz o ditado, por isso eu chorei.
Amor é brincadeira dela,
Que não respeita ninguém.
Amor é brincadeira dela,
Que não respeita ninguém.
Dei conforto e fiz tudo por ela
E ela desfez e a tudo não quis.
Dei carinho e fiz tudo pra ela
E ela me fez um infeliz.
Da rua não se deve juntar nada
Diz velho ditado, que eu ignorei.
Da rua não se deve juntar nada
Diz o ditado, por isso eu chorei.
Amor é brincadeira dela,
Que não respeita ninguém.
Amor é brincadeira dela,
Que não respeita ninguém.
Que não respeita ninguém.
Amor é brincadeira dela,
Que não respeita ninguém.
Vivia numa viração danada,
Caminhava aos trancos e barrancos,
Quando a vi deitada na calçada,
Da vida quase entregando os pontos.
Da rua não se deve juntar nada
Diz velho ditado, que eu ignorei.
Da rua não se deve juntar nada
Diz o ditado, por isso eu chorei.
Amor é brincadeira dela,
Que não respeita ninguém.
Amor é brincadeira dela,
Que não respeita ninguém.
Dei conforto e fiz tudo por ela
E ela desfez e a tudo não quis.
Dei carinho e fiz tudo pra ela
E ela me fez um infeliz.
Da rua não se deve juntar nada
Diz velho ditado, que eu ignorei.
Da rua não se deve juntar nada
Diz o ditado, por isso eu chorei.
Amor é brincadeira dela,
Que não respeita ninguém.
Amor é brincadeira dela,
Que não respeita ninguém.
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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Eudóxia Macrembolitissa, ou simplesmente Dó
É claro meu amor e caminho,
Eudóxia Macrembolitissa,
Que um dia vou fazer para ti
Um poema tão grande quanto teu nome.
Se não o faço, não é porque não quero,
É por culpa de teus pais,
Que copiaram teu exótico
E impossivelmente doce nome
Daquela grande regente bizantina,
Que jurou ao marido,
Quando ele morria,
Que jamais se casaria novamente.
Porém, Eudóxia Macrembolitissa
Nem esperou esfriar o defunto
Constantino, a quem dera sete filhos,
E com Romano se casou.
Mas, eis que a Fortuna espreita-nos
E por ter feito desfeita à Morte,
Eudóxia Macrembolitissa
Terminou seus dias
Num convento de freiras.
Mas o que eu queria te dizer,
Eudóxia Macrembolitissa,
É que por força de rima e métrica,
Vou fazer um soneto para ti,
Bizantino, cheio de voltas.
Entretanto, reduzirei teu nominho,
Eudóxia Macrembolitissa,
Com muito carinho, é claro,
Para o simples e terno Dó,
Que rima com meu xodó,
Dó, Dozinha, no poema só!
Eudóxia Macrembolitissa,
Que um dia vou fazer para ti
Um poema tão grande quanto teu nome.
Se não o faço, não é porque não quero,
É por culpa de teus pais,
Que copiaram teu exótico
E impossivelmente doce nome
Daquela grande regente bizantina,
Que jurou ao marido,
Quando ele morria,
Que jamais se casaria novamente.
Porém, Eudóxia Macrembolitissa
Nem esperou esfriar o defunto
Constantino, a quem dera sete filhos,
E com Romano se casou.
Mas, eis que a Fortuna espreita-nos
E por ter feito desfeita à Morte,
Eudóxia Macrembolitissa
Terminou seus dias
Num convento de freiras.
Mas o que eu queria te dizer,
Eudóxia Macrembolitissa,
É que por força de rima e métrica,
Vou fazer um soneto para ti,
Bizantino, cheio de voltas.
Entretanto, reduzirei teu nominho,
Eudóxia Macrembolitissa,
Com muito carinho, é claro,
Para o simples e terno Dó,
Que rima com meu xodó,
Dó, Dozinha, no poema só!
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Cantiga da pastorinha
Vem ver pastorinha
Os carneiros.
Vem ver pastorinha
Os outeiros
E os campos florindo.
Tange a bela
Pastora o rebanho.
Leva a bela
O branco rebanho
À cancela.
Canta a pastorinha
Sua canção
Para as ovelhinhas
No cordão
De nuvens branquinhas.
Os carneiros.
Vem ver pastorinha
Os outeiros
E os campos florindo.
Tange a bela
Pastora o rebanho.
Leva a bela
O branco rebanho
À cancela.
Canta a pastorinha
Sua canção
Para as ovelhinhas
No cordão
De nuvens branquinhas.
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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Os bons mourejam
Moureja o homem modesto
Que porfia na sua peleja
De viver probo e honesto.
Os maus não passam sem teto
E os bons eu vejo passar.
A chuva começa a pingar,
Falta comida na mesa...
O bom tem que trabalhar
Para da Sorte ganhar
Nesse mundo seu tormento.
Espanta-me o sofrimento
Dessa gente indefesa
Que finge contentamento,
Em espanto, sem alento,
Co'a a pobreza a lhe matar.
Os bons vivem a chorar,
Na vida não veem beleza.
São os náufragos no mar
Da riqueza a se ostentar
Na malícia e esperteza.
Que porfia na sua peleja
De viver probo e honesto.
Os maus não passam sem teto
E os bons eu vejo passar.
A chuva começa a pingar,
Falta comida na mesa...
O bom tem que trabalhar
Para da Sorte ganhar
Nesse mundo seu tormento.
Espanta-me o sofrimento
Dessa gente indefesa
Que finge contentamento,
Em espanto, sem alento,
Co'a a pobreza a lhe matar.
Os bons vivem a chorar,
Na vida não veem beleza.
São os náufragos no mar
Da riqueza a se ostentar
Na malícia e esperteza.
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Os bons mourejam
Moda do padre e do santo
Violeiro 1:
Preste atenção, meu compadre,Nessa moda que essa vida explica,
Eu lhe digo a reza que reza o padre
E'ocê o que o santo apita:
1 - Violeiro que não toca a viola
2 - Não ganha mulher bonita.
1 - O sujeito que fugiu da escola
2 - Vai trabalhar de marmita.
1 - O goleiro que não segura bola
2 - Vai comer galinha frita.
1 - A nora que não tem boa sogra
2 - Vai ter uma vida aflita.
Violeiro 2:
Gostei dessa moda. Vixe compadre!Na viola que se agita,
Vamos inverter a reza do padre
E o que o santo apita:
2 - Vai ter uma vida aflita
1 - A nora que não tem boa sogra.
2 - Vai comer galinha frita
1 - O goleiro que não segura a bola.
2 - Vai trabalhar de marmita
1 - O sujeito que fugiu da escola.
2 - Não ganha mulher bonita
1 - Violeiro que não toca a viola.
Violeiros:
Vamos deixar de conversa, compadre.
O povo está no espanto,
Já viu que aqui nunca teve padre
E que aqui não tem santo!
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terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Amor à romana
Mote:
Ela me chamou seu dono
E me disse coisas ternas
Com as palavras vulgares
Para me excitar.*
Glosa:
Tratei por finda a procura
De novo amor e afeição
Pra queimar meu coração.
Assim findava a loucura
Que o espírito apura
Ao tornar a alma tranquila
No fel em que se aniquila.
Senti isso ao cair da noite:
Em voz doce, doce açoite,
Ela me chamou seu dono.
E logo fugiu-me o sono
- Infeliz e tempestuoso,
Afastado dos bons gozos,
Os sagrados e profanos,
Dessa vida, louco sonho.
Ao ver-me entre suas pernas
E nas brasas sempiternas
De seu olhar incendiado,
Ela abraçou-me apertado
E me disse coisas ternas:
"Quem ama não se governa,
Porque a alma não é dela
É da outra alma feita nela!".
Estava pois, possuído
Por aquele amor bandido
Que roubara dos altares,
Pudica mulher e dama
A qual se excita na cama
Com as palavras vulgares.
Tonto pelos ares
E aromas do amor,
Fiz-me em torpor
Na guerra infinda,
Sem fim posto ainda.
Eu queria parar
E ela gritava...
E no cio xingava
Para me excitar!
Ela me chamou seu dono
E me disse coisas ternas
Com as palavras vulgares
Para me excitar.*
Glosa:
Tratei por finda a procura
De novo amor e afeição
Pra queimar meu coração.
Assim findava a loucura
Que o espírito apura
Ao tornar a alma tranquila
No fel em que se aniquila.
Senti isso ao cair da noite:
Em voz doce, doce açoite,
Ela me chamou seu dono.
E logo fugiu-me o sono
- Infeliz e tempestuoso,
Afastado dos bons gozos,
Os sagrados e profanos,
Dessa vida, louco sonho.
Ao ver-me entre suas pernas
E nas brasas sempiternas
De seu olhar incendiado,
Ela abraçou-me apertado
E me disse coisas ternas:
"Quem ama não se governa,
Porque a alma não é dela
É da outra alma feita nela!".
Estava pois, possuído
Por aquele amor bandido
Que roubara dos altares,
Pudica mulher e dama
A qual se excita na cama
Com as palavras vulgares.
Tonto pelos ares
E aromas do amor,
Fiz-me em torpor
Na guerra infinda,
Sem fim posto ainda.
Eu queria parar
E ela gritava...
E no cio xingava
Para me excitar!
*Et mihi blanditias dixit dominumque uoucauit
Et quae praetera publica uerba iuunant. (Ovído in Liber Tertius: VII).
(...Ela)... E me chamou seu dono e me disse coisas ternas com (as) palavras vulgares para me excitar.
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A dança d'alma
Minhalma já foi criança,
Com as tranças
Lindas voando na brisa,
Abraçada a outras almas...
¡Vive, alma,
Pelo sonho que se bisa!
¿Por que, gasta pelos anos,
Com os sopros
Da morte tua dança atiças?
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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Toada beira-mar
Canta com seu violão,
Meu irmão,
Toda alegria é caminho...
E em noite de lua cheia,
Se a sereia
Cantar e pedir carinho,
Dá amor a te cuidar,
Pois no mar
É que ela faz o ninho.
Meu irmão,
Toda alegria é caminho...
E em noite de lua cheia,
Se a sereia
Cantar e pedir carinho,
Dá amor a te cuidar,
Pois no mar
É que ela faz o ninho.
Toada do caminho
Peão, vou pelo caminho,
Eu Sozinho,
Devagar pra não cansar,
Na teima de penitente
Dessa gente
A viver a se gastar,
Em busca da boa sorte
Ou da morte,
Que vêm em qualquer lugar.
Eu Sozinho,
Devagar pra não cansar,
Na teima de penitente
Dessa gente
A viver a se gastar,
Em busca da boa sorte
Ou da morte,
Que vêm em qualquer lugar.
Moda da choça de palha
Mote:
Quero ao descer as montanhas
À luz que o luar espalha
Ouvir no vale a viola
Soar na choça de palha. (Fagundes Varela).
Glosa:
Quase nada saberia
Dessas doidices modernas,
Ou dos céus, ditas eternas,
Das falsas sabedorias,
Se me faltassem os dias.
Falar assim não me acanha,
É no alto que se apanha
A friagem do vento.
Quero morno vento! Vento
Quero ao descer as montanhas!
Um dia veio aqui um moço
Querendo o sítio comprar,
Para um clube montar.
Então eu disse, Seo moço
Não vendo e faço gosto
Dessa casinha de palha
Que os meus filhos agasalha.
Como se faz pra vender
O sonho que há de ser
À luz que o luar espalha?
Disse ao moço da cidade
Com paciência e calma
Que na roça tenho a alma
E toda a felicidade
Em clarão e claridade;
Burro trato na espora
E mandei o moço embora.
Perdi o meu tempo, ara!
O tempo que tinha para
Ouvir no vale a viola!
A semente vai na cova,
Tem que morrer pra nascer.
Sonho bom para se ter
Nessa vida que nos sova
Sabe quem do sono acorda.
Corda afinada não falha,
Viola boa a vida talha.
Quero tocar a viola, ai
Para o canto que consola
Soar na choça de palha!
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sábado, 22 de janeiro de 2011
Canção do peregrino a Aparecida
Cumpro promessa a Nossa Senhora,
De Aparecida, Nossa Senhora.
É promessa tão pequena,
Ai meu Deus, minhas dores!
Ai meus Santos, tantos andores!
Fiz a promessa a Nossa Senhora.
Mas ao ver este povo,
Milagre pra mim não quero mais.
É um povo que tanto sofre
Em tanto sofrimento, meu Pai!
A minha graça não quero mais,
Rezo um terço pra minhas dores,
Rezo dois para o pobre sofredor.
Troco minha graça pelas graças,
Entenda-me, meu Senhor!
Rezo os terços pros pecadores,
Que no mundo só querem paz.
Troco minha graça pela do povo,
Que só quer de Ti o amor,
O amor que de Ti se faz!
De Aparecida, Nossa Senhora.
É promessa tão pequena,
Ai meu Deus, minhas dores!
Ai meus Santos, tantos andores!
Fiz a promessa a Nossa Senhora.
Mas ao ver este povo,
Milagre pra mim não quero mais.
É um povo que tanto sofre
Em tanto sofrimento, meu Pai!
A minha graça não quero mais,
Rezo um terço pra minhas dores,
Rezo dois para o pobre sofredor.
Troco minha graça pelas graças,
Entenda-me, meu Senhor!
Rezo os terços pros pecadores,
Que no mundo só querem paz.
Troco minha graça pela do povo,
Que só quer de Ti o amor,
O amor que de Ti se faz!
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Nossa Senhora
Aos que chegam ao mundo de azul
Quando vieste ao mundo
Eu estava lá, no hospital.
Carregado pela enfermeira,
Carregado pela infeliz sorte,
Passaste por mim num pano
Com as pudicidades cobertas
A alertar-te que aqui
Os inocentes têm que se banhar
Nas água dos hipócritas.
Quando vieste ao mundo,
As árvores embaladas pelo vento
Simplesmente não se deram conta
Que tu estavas no mundo.
E todo o resto também foi a ti
De uma indiferença pungente.
Quando vieste ao mundo, chorei
Ao te ver de roupinha azul desbotada,
Já usada por outro infeliz como tu,
Era a mesma cor do uniforme
De trabalho de teu pai e avós.
Quando vieste ao mundo,
Ele, teu pai, não estava no hospital.
Não porque se fazia indiferente
Como o vento que soprava fraco,
Mas porque fazia hora extra
Para alimentar o novo operário
Que acabara de chegar alarmado,
Fadado e marcado como escravo,
De olhos para o mundo fechados,
Em choro, fome e espanto.
Eu estava lá, no hospital.
Carregado pela enfermeira,
Carregado pela infeliz sorte,
Passaste por mim num pano
Com as pudicidades cobertas
A alertar-te que aqui
Os inocentes têm que se banhar
Nas água dos hipócritas.
Quando vieste ao mundo,
As árvores embaladas pelo vento
Simplesmente não se deram conta
Que tu estavas no mundo.
E todo o resto também foi a ti
De uma indiferença pungente.
Quando vieste ao mundo, chorei
Ao te ver de roupinha azul desbotada,
Já usada por outro infeliz como tu,
Era a mesma cor do uniforme
De trabalho de teu pai e avós.
Quando vieste ao mundo,
Ele, teu pai, não estava no hospital.
Não porque se fazia indiferente
Como o vento que soprava fraco,
Mas porque fazia hora extra
Para alimentar o novo operário
Que acabara de chegar alarmado,
Fadado e marcado como escravo,
De olhos para o mundo fechados,
Em choro, fome e espanto.
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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Adeuses e crueldade
Nosso destino é esse mesmo,
Lá pelas tantas, um inopinado adeus
A encher de lágrimas os olhos teus.
Os adeuses não nos dão aviso,
Vêm num murchar que não se acredita
A encher de lágrimas os olhos meus.
E entre os adeuses, o mais cruel adeus
É o adeus de amor, o mais cruel adeus
A encher de lágrimas os olhos teus.
É o adeus nunca sonhado e que não se queria adeus
Mas nasceu mesmo a não se querer, o mais cruel adeus
A encher de lágrimas os olhos meus.
Lá pelas tantas, um inopinado adeus
A encher de lágrimas os olhos teus.
Os adeuses não nos dão aviso,
Vêm num murchar que não se acredita
A encher de lágrimas os olhos meus.
E entre os adeuses, o mais cruel adeus
É o adeus de amor, o mais cruel adeus
A encher de lágrimas os olhos teus.
É o adeus nunca sonhado e que não se queria adeus
Mas nasceu mesmo a não se querer, o mais cruel adeus
A encher de lágrimas os olhos meus.
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Urgências
Tu me falas de urgências...
Sim, minha hora é urgente,
Meu penar sobre os versos é urgente
E pede todos os silêncios
Contidos na falta de urgência.
Os silêncios da coisa eterna,
Os silêncios glaciais que devo derreter
E colocar em forminhas
Para ganharem forma.
Urgente, minha amada,
É ter teu coração batendo aqui, comigo,
Pois quero entendê-la
Em plenitude e verdade.
Não te quero apenas de forma vulgar e urgente,
Quero ter as tuas dores e alegrias em mim.
Quero de ti
A outra escondida em ti e silenciosa,
Inteira, plena
Nas urgências que minhalma pede.
Urgente agora é parar o vento
Que, neste momento, em silêncio sopra
E ameaça levar junto com ele
A última folha verde desta árvore morta.
Sim, minha hora é urgente,
Meu penar sobre os versos é urgente
E pede todos os silêncios
Contidos na falta de urgência.
Os silêncios da coisa eterna,
Os silêncios glaciais que devo derreter
E colocar em forminhas
Para ganharem forma.
Urgente, minha amada,
É ter teu coração batendo aqui, comigo,
Pois quero entendê-la
Em plenitude e verdade.
Não te quero apenas de forma vulgar e urgente,
Quero ter as tuas dores e alegrias em mim.
Quero de ti
A outra escondida em ti e silenciosa,
Inteira, plena
Nas urgências que minhalma pede.
Urgente agora é parar o vento
Que, neste momento, em silêncio sopra
E ameaça levar junto com ele
A última folha verde desta árvore morta.
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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Mentira da chuva
No chuvisco plic-plic,
A chuva sempre mente.
Na garoa orvalhada,
Que o frio se sente:
"Eu não molho nada!",
Ela nos diz, contente!
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Quem me chama de Lisboa
Quem me chama de Lisboa
E se faz escutar no Amazonas?
Quem canta em Lisboa
O meu fado de degredado?
Quem me emprestou este idioma
Para dizer de saudades?
Quem a língua dos romanos sangrou
Para lhe dar sentimentalidades?
As águas do Amazonas tropeçam
Na minha lus'alma sempre sedenta
Das águas que correm no Tejo.
Quem pôs este Atlântico enorme
A separar irmãos que se desesperam
Nas dores nostálgicas que nele navegam?
E se faz escutar no Amazonas?
Quem canta em Lisboa
O meu fado de degredado?
Quem me emprestou este idioma
Para dizer de saudades?
Quem a língua dos romanos sangrou
Para lhe dar sentimentalidades?
As águas do Amazonas tropeçam
Na minha lus'alma sempre sedenta
Das águas que correm no Tejo.
Quem pôs este Atlântico enorme
A separar irmãos que se desesperam
Nas dores nostálgicas que nele navegam?
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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
A história de amor de Botelho Pinto
Chamava-se Maria Botelho Pinto.
Casou-se com Mário Tarugo Vara,
Pois que andava só e deveras encruada.
Na lua de mel, as coisas ficaram bravas,
Porque Tarugo insistia e colocava,
Numa dor de unha encravada,
Uma vírgula depois do nome da amada.
E no vai e vem que a todo amor agrava:
- Maria, Botelho Pinto! - Tarugo suspirava!
Casou-se com Mário Tarugo Vara,
Pois que andava só e deveras encruada.
Na lua de mel, as coisas ficaram bravas,
Porque Tarugo insistia e colocava,
Numa dor de unha encravada,
Uma vírgula depois do nome da amada.
E no vai e vem que a todo amor agrava:
- Maria, Botelho Pinto! - Tarugo suspirava!
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Mote das flores
Mote:
Lá se vão as flores
E com elas meus amores!
Glosa:
Há no vaso flores
Mortas de saudades
De antiga cidade,
Antigos amores,
Veteranas dores.
Viver é perder
Tudo a se querer.
Lá se vão as flores
E com elas meus amores!
Lá se vão as flores
E com elas meus amores!
Glosa:
Há no vaso flores
Mortas de saudades
De antiga cidade,
Antigos amores,
Veteranas dores.
Viver é perder
Tudo a se querer.
Lá se vão as flores
E com elas meus amores!
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Cantiga de amigo
- Morena linda,
O que queres?
- Quero meu amigo!
Quero meu amigo!
- Morena bela,
O que esperas?
- Espero meu amigo!
Espero meu amigo!
- Morena bonita,
O que desejas?
- Desejo meu amigo!
Desejo meu amigo!
- Morena triste,
Dá-me um beijo!
- Não, meu amigo!
Não, meu amigo!
O que queres?
- Quero meu amigo!
Quero meu amigo!
- Morena bela,
O que esperas?
- Espero meu amigo!
Espero meu amigo!
- Morena bonita,
O que desejas?
- Desejo meu amigo!
Desejo meu amigo!
- Morena triste,
Dá-me um beijo!
- Não, meu amigo!
Não, meu amigo!
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Mote do desengano
Mote alheio:
Cada dia que passa é mais um dia
De saudade, tristeza e desengano.
Glosa:
Quisera ter vindo ao mundo a passeio,
Namorar mulher fiel sem desengano,
Viver solto nos rumos tal cigano
E enfrentar tudo na vida sem receio.
Mas, Deus me quis pobre poeta a relho
E deu-me por sina algo desumano,
Que é sentir no envelhecer dos anos
A esperança que de mim se distancia.
Cada dia que passa é mais um dia
De saudade, tristeza e desengano.
Cada dia que passa é mais um dia
De saudade, tristeza e desengano.
Glosa:
Quisera ter vindo ao mundo a passeio,
Namorar mulher fiel sem desengano,
Viver solto nos rumos tal cigano
E enfrentar tudo na vida sem receio.
Mas, Deus me quis pobre poeta a relho
E deu-me por sina algo desumano,
Que é sentir no envelhecer dos anos
A esperança que de mim se distancia.
Cada dia que passa é mais um dia
De saudade, tristeza e desengano.
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Mote do desengano
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Imolado
Nesta vida sangro
Como sangrou Cristo.
Não sou dono
Até mesmo de minhas roupas
E no dia-a-dia me sacrifico.
Na minha cruz de santo imolado
O que me dói não são os pregos
Nem a lança que me fura o lado,
Mas, saber que o ladrão
Terá no céu um bom bocado.
Como sangrou Cristo.
Não sou dono
Até mesmo de minhas roupas
E no dia-a-dia me sacrifico.
Na minha cruz de santo imolado
O que me dói não são os pregos
Nem a lança que me fura o lado,
Mas, saber que o ladrão
Terá no céu um bom bocado.
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Doutora na praia
À Carmen Sílvia Garmêndia
Ó menina dos livros,O que fazes aí desnuda
Sem o Código Penal,
Solta, a negar-nos ajuda
No rol da Justiça muda
Nas férias do Tribunal!?!
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Janeiras
Janeiro veio
Janeiro vai:
feliz daquele
que dele sai.
Janeiro veio
Janeiro foi:
feliz daquele
que tem seu boi.
Janeiro veio,
Janeiro, ó dó:
triste daquele
que vive só.
Janeiro veio,
Janeiro vai:
feliz daquele
que tem seu pai!
Janeiro vai:
feliz daquele
que dele sai.
Janeiro veio
Janeiro foi:
feliz daquele
que tem seu boi.
Janeiro veio,
Janeiro, ó dó:
triste daquele
que vive só.
Janeiro veio,
Janeiro vai:
feliz daquele
que tem seu pai!
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Invocação
Ó Santo Deus nas alturas
Que por minha vida vela,
Ajudai-me no cordel
Em que o amor se revela
Nessa história encantada
Pela luz de bentas velas.
Que por minha vida vela,
Ajudai-me no cordel
Em que o amor se revela
Nessa história encantada
Pela luz de bentas velas.
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Gemedeira do olho gordo
A inveja vai te matar!
O dialho a pôs no mundo
Porque nela tem o fumo
Dos infernos a queimar
E dos bobos a abrasar.
Bateu olho gordo em mim,
Um olhar assim sem fim,
Meio torto, enviesado,
Mando o cabra pro diabo!
Ai! Ai! Ui! Ui!...
Gemer de dois é assim!
O dialho a pôs no mundo
Porque nela tem o fumo
Dos infernos a queimar
E dos bobos a abrasar.
Bateu olho gordo em mim,
Um olhar assim sem fim,
Meio torto, enviesado,
Mando o cabra pro diabo!
Ai! Ai! Ui! Ui!...
Gemer de dois é assim!
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Galope à beira-mar II
Vamos cantar, meus amigos,
Canto simples, canto manhoso, choroso,
Canto nosso, canto maneiro, gostoso,
Que a vida pede cantigas, amigos,
Porque o que é bonito guardo comigo!
Tristeza é não cantar
Na fortuna, na nossa sorte, ou azar...
Sempre há uma alegria escondida
E saudade acoitada, só e sofrida,
No galope à beira-mar!
Canto simples, canto manhoso, choroso,
Canto nosso, canto maneiro, gostoso,
Que a vida pede cantigas, amigos,
Porque o que é bonito guardo comigo!
Tristeza é não cantar
Na fortuna, na nossa sorte, ou azar...
Sempre há uma alegria escondida
E saudade acoitada, só e sofrida,
No galope à beira-mar!
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domingo, 16 de janeiro de 2011
Na Praia dos Ganchos
Perdida em meus olhos
Como uma andorinha
Que passeia livre
Na primeira luz
Deste domingo
Segues o vento
Que te faz tão bela
Neste meu amanhecer.
Como uma andorinha
Que passeia livre
Na primeira luz
Deste domingo
Segues o vento
Que te faz tão bela
Neste meu amanhecer.
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