quinta-feira, 10 de maio de 2012

Colheita


Venturoso é o homem que possui as estrelas
E que tem no firmamento seu latifúndio
Para plantar palavras e colher poesia.

Código universal



Marte impera
E as deidades outras
Cuidam dos seus
Tediosos afazeres
A esperar dos séculos
O final tão óbvio.

Depois, em novo Olimpo,
Eles devem
Começar tudinho novamente,
Essa é a ordem no caos,
Porque o refazer
É lei universal
Que até os deuses
Submete e condena.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Do outro lado do rio

Não te enganes, caríssimo meu,
Tudo que é teu vai no teu espírito guardado.

Nesta viagem pelo frenocômio
Não adianta guardar penduricalhos,
Souvenirs adquiridos aqui e ali:
Certamente serão apreendidos
E na última alfândega barrados.

E não tem conversa, porque até hoje
Não temos notícia
De alguém que tenha conseguido
Subornar o guarda
Ao passar para o mundo dos olvidados.

Lá, do outro lado,  depois dos escuros,
E assim dizem todos os livros sagrados,
Só vão querer saber de cargas leves,
Do amor dado, do bem que nos alivia.

Saibas meu caro, o barco de Caronte é frágil,
Não aguenta o peso dos ódios acumulados,
Não suporta os paralelepípedos doirados
Que guardaste no banco
À custa de muito sofrimento alheio.

Sim, chegarás na margem do rio de mãos vazias:
Sem malas, sem carros, sem luxo, sem bolsos...
E a passagem será cobrada do que levarás contigo
Aí bem dentro de tua alma, de teu espírito. 

Lá,  meu amigo, não adianta ligar para o banqueiro,
Contratar empréstimos, pedir ao gerente,
Descontar um cheque, uma letra de câmbio:
Lá, o amor é a única moeda aceita e corrente.
Portanto, vai acumulando bastante desse capital
Para que, quando surpreendido, ele não te falte.


Do amor e das fontes

Amar é estar inquieto n’alma.
É agonizar de sede ao lado da fonte
Pois, por mais que dessa fonte se beba
Mais e mais se morre de sede.

Amas e és inquieta, preocupada.
“E se me faltar o amor?”,
É a tua pergunta infeliz dentro da felicidade;
Não troques a realidade pela possibilidade!

Ama! – A despeito de tudo, ama!
Viver mesmo com as inquietudes do amor
É o que nos faz deliciosamente humanos.

Vive! – A despeito de tudo, vive!
A vida sem amor é uma fonte sem água,
Nada dela sobrevive além do rancor e mágoas.

Meu pecado


Amo-te Incondicionalmente
Como deve ser incondicional o amor dos amantes.

E quando tu estás por sobre mim
Miro teu rosto
Quente
Em sangue avivado.

Teus brincos, tristes
          Em
            p
              ê
                n
                   d
                     u
                       l
                        o
                           s
Medem o tempo dessa fugidia felicidade.

E mesmo em tamanho pecado,
Peço a Deus que te deixe assim sempre
 Por sobre meu corpo,
 Em fogo,
 Viva,
No amor que arde,
Até que a última estrela
Em bilhões de anos que não sei contar,
No fim dos séculos, se apague.

Contigo, a paz

Sei que tens a beleza de Helena
E, principalmente, a paciência de Penélope
E ver a ti outra vez é o que mais quero.

Amanhã, hei de abandonar minhas armas,
É que o campo de batalha me amofina
E vencer os minotauros dos negócios diários
Já não tem glória nem graça alguma.

Sim, preciso de longas férias em teu colo,
Conversar com Baco, tomar um vinho contigo,
Escutar teus versos como quem escuta Minerva,
Admirando teu branco rosto enfeitado por Febe.

Sim, andar pelos bosques sem horários e aborrecimentos,
Com meus braços entre os teus entrelaçados,
Simples gesto de amor e que tanto me faz falta.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Canto do tempo findo




Canto
A vida simples e simplesmente
Porque sou poeta

Canto
Porque o cantar foi o que a vida me deu
Por ofício e condena

Canto
A alegria que não existe
Porque nesta comédia
A vida se apresenta em traje de gala
E com a escura capa que não pode esconder
A nossa destinada e rústica mortalha

Canto
Pois há sempre o definitivo final guardado
Para particulares e tristes tragédias.

Canto
A ladainha das contritas procissões
Dos meus taciturnos companheiros
Que lutam em meio a pesadelos
E esperam melhor sina no além
Anunciada pelos santos
E pelo próprio desespero

Canto
A dor da mãe que sem amparo e remédio agoniza
E que depois sem vida é impedida de ouvir
Nos urros das futuras gerações
O ressoar dos doloridos gritos
Saídos de suas enfermas entranhas

Canto
O cansado pai
Que do seu trabalho não vê sustento
Para a pobre e contínua prole
Condenada à miserável ignorância de si
Sua estúpida e verdadeira pobreza

Canto
As injustiças que campeiam mundo
O que come e deixa morrer de fome
O que de branco e encardido colarinho
Rouba
Mata
E se refestela
E se lambuza
Nos excrementos de fétidos festins

Canto
O que abusa dos fracos e inocentes
E bebe do vinagre dos que mentem

Canto
Porque assim como o oceano
Dará sempre na areia ou no rochedo
A vida de quem quer que seja
Dará certamente no último minuto de seu tempo
Naquele inegociável e extremado juízo
Com única e exclusiva sentença
Sem a oportunidade de adeuses demorados
Ou de inúteis lágrimas de tardio arrependimento.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Tarô e outros fados


Tristes são certas conclusões neste tempo
Ao qual damos o nome de existência.
Uma delas diz que 99,99 porcento dos viventes
Atracaram no porto do mundo
Sem a assistência de um cometa
Somente os reis, os papas
(E ao que parece também os cantores sertanejos!)
É que gozam desse privilégio celeste

Outra dedução não menos grave
Diz que quando a cigana põe o tarô
São 77 cartas de vaticínios prováveis
E apenas uma de predição certeira

É... O viver é coisa incerta e medonha
Aos opulentos, aos remediados
Ou até mesmo aos condenados
Que gastam a vida no chão de fábrica
E não ligam para as coisas do pensamento

No baralho, ao se brincar com a sorte
Haverá sempre a ameaça sobre os amores
Reis e rainhas distantes
E uma inevitável forca
Para lembrar-nos das desgraças próximas.

Haverá também a carta última
Terrível
A dizer-nos do destino comum
Óbvio
E tão certo aos homens
Como é a dúvida para o filósofo.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Meus versos usam tuas asas

Nem em sonho, Anjo e cariño meu,
Não me faltes

A vida deste poeta já é miserável
E sem tua presença
Esvoaçante sobre o peso dos meus dias
Nada ganhará leve densidade
Na fina linha do papel

Meus versos usam tuas asas
Voam contigo
Fica aqui, não faltes não
Preciso de ti
Para ser poesia
E esquecer a brutalidade
De nosso  rijo tempo
Tão apartado do sentir.

Em ti sinto meu destino
Como sente o calmo vento
A ave que adiante parte
Em tranquila confiança
Sem temer as tempestades.


quinta-feira, 26 de abril de 2012

Amaste e odeias


Um dos grandes mistérios da alma humana
É essa capacidade de odiar o que já foi amado
Principalmente o amor que nos foi errado

O bom amor é semelhante ao amor ruim
Ignora defeitos
Desdenha erros
E o mal que a nós fazemos

Diferem um do outro apenas pela duração
O bom será eterno
O ruim apenas brevidade

E quando odiamos o ruim desejado
É porque não somos mais tão cegos
Somos apenas o que somos
O ego inconformado e em rancor
Contra o que não foi verdadeira
E infinitamente querido,
Incondicionalmente amado
Em plena reciprocidade.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Naquela tarde de sol, vi


Vi, moço, vi sim
E com estes olhos
Que o caruncho há de comer:

Insana, a doidinha deixou o sanatório,
Estava curada, disse o médico

E por assim ser, plena de sanidade,
Ansiosa, ela abraçou a árvore da calçada
E logo, deu um beijo no pipoqueiro
(Na boca, de língua - escândalo!)

Depois, dobrou a esquina
E parou sob as rodas do ônibus
- Uma pancada! Nossa Mãe! -

Comovido, alguém trouxe uma vela
Outro cobriu o corpo com jornal
E tudo isso
Numa louca tarde de sol
Com ipês floridos
E gente sem ter o que comentar, fofocar
Da vida bestial, bestinha, estúpida mesmo...

Sim, vi tudinho, naquela tarde
Em que tudo parecia
No mais perfeito juízo.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Cuidados com o coração


Tens aqui meu coração
Que te entrego com sinceridade.
Mas, te peço cuidados
Com os antigos estigmas
De antigas coroas de espinhos
Nele postas em calvário.
Há nele um bater fraquinho
Porque é cansado
Com tanto engano,
Com tanto açoitamento.
Ele, velhinho, de batalhas tantas,
Vive de esperanças
Que têm o teu nome.
Mas, te rogo,
Se algum dia
Quiseres outro nome,
Saudade, talvez,
Não, não digas nada a ele,
Diz adeus apenas,
Porque meu coração
Será a compreensão que chora.



terça-feira, 17 de abril de 2012

Nem o vento sabe


A fortuna é como a chuva de Verão,
Dias vem e te molha, te encharca todo.
E depois vai, silêncio após o escândalo.
Mais tarde é segredo, quando virá novamente
Nem mesmo o vento sabe.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Tua esperança tem preguiça

Portaste, um dia, em teus olhos
Todas as manhãs em brilho,
Esperanças e vontades.
Hoje, essas manhãs estão esquecidas
E as esperanças bocejam em preguiça.
Teus olhos, meus Deus, teus olhos...
Teus olhos são as vontades do opaco.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Certidão de Vida

Não. Não há arrependimento
Nessa vida para quem vive
Com a calma chama no peito
Do calor de antigos abraços.

É o queimar das distantes despedidas
Avivado com a quente água dos olhos
Que nos renova a Certidão de Nascimento.

É a triste e renitente lágrima,
O combustível das saudades,
Que nos dá a Certidão de Vida.

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Ilustração: Os retirantes, Cândido Portinari

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Vadiagem


Vadiei ontem o dia todo
Em você,
Pelo seu corpo inteiro.

Foi um dia de carícias incertas.
Em você
Tantas delícias descobertas.

E aquelas horas marcadas por ais,
Em você
Vestidas de suor e quero-mais.

Hoje, no trabalho, sem remédio,
Sem você
Só posso sentir o perfume do tédio. 


terça-feira, 20 de março de 2012

O certo me dá preguiça

Desisti de pensar coisas que me dão preguiça
Como uma vida certinha
Com horário de chegada e saída
Com agradecimentos ao chefe
E tapinhas nas costas dos promovidos
Geralmente funcionários larápios relapsos.
Por isso penso somente no possível
Naquilo que me deixa disposto
Penso, o tempo todo, incansavelmente,
Na poesia que há no mundo.

Garçom, a conta, por favor!

Linda, linda, linda
Como esta noite de Lua
E tão, tão, tão distante
Como estas estrelas cintilantes.

Vou para casa, já pedi a conta da vida
E, por conta, vou escrever
Fazer poema, dizer de ti
Comunicar tua bela existência
Para a noite que me ignora.

Talvez, um e-mail um dia te encontre
Para dizer as coisas que no poema escrevi
Talvez, meu coração te alcance
Para dizer que é ínfima a minha coragem
Para dizer que ela não é bastante
Para aprisionar tua beleza noturna
Em dias soturnos. Em dias de rotina absurda.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Depois do banho


Assim, depois do banho
Descubro-te nua e bela
Na suavidade branca
Que tece a tua pele.
E rio quando noto
Teu rosto imitando as rosas
Em rubro pudor
Ao perceber que estes impudicos olhos
Descobriram um corpo esculpido pelos anjos
Para desenfeiar o mundo.



terça-feira, 13 de março de 2012

O corrupto chora


Jamais conseguiremos entender a vaidade.
Como a do corrupto que chora em público
Ao ouvir o discurso de famoso puxa-saco.

Sim, tolo homem que a terra terá por pasto,
Palavras vazias e cheias de afagos
São aragens a alimentar egos miseráveis.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Teus olhos, meus olhos


Lembro-me da ternura de teus olhos, meus olhos,
Na infância de nossas vidas.
Olhos tão diferentes dos que hoje me olham, te olham,
Sem maldades, sem cansaços,
Sem embaraços, tristezas e descontentamentos.
Quem nos roubou a luminosidade,
A curiosidade, o prazer dos descobrimentos?
Quem nos fez assim desprovidos de fé
No que tu és, no que sou, em tudo que nos deu alento?


quarta-feira, 7 de março de 2012

8 de Março


Na natureza
Tudo vive a seu tempo
E sem pedir licença
Para existir tal como é.

No Universo,
Em sua imensidão
Tremenda,
Tudo vive
Em liberdade.

Feliz é a mulher
Do nosso tempo
Que em todo 8 de Março,
Sem pedir licença,
Faz soprar o antigo
Vento da esperança
Sobre a humanidade
Ao lembrar que todos merecem
Respeito, amor e dignidade.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Testes para se saber gente


Nesta vida perdida em desumanidades,
O sujeito tem que se aplicar testes
Para se confirmar gente.

Tem que provar que não se desumanizou.

Primeiro, é bom verificar os graus internos
De emoção e delírio com a poesia;
Hão de ser enormes, pois viver apartado do belo
É caminhar de mãos dadas com a morte.

Depois, o vivente tem que constatar se ainda dorme
Com leveza, como se ouvisse uma sonata de Bach.
Não dormir com tranquilidade n'alma
É fazer-se danado defunto dentro da tumba do remorso.

Em seguida, é bom colocar a mão no peito
Ao se deparar com o que se diz amar;
Se o coração bater forte, como se fosse a primeira vez,
Com todo o encanto do primeiro encontro,
Aí estará desmedido indício de que se é gente de fato.

E por último, só para confirmar a anterior verdade,
É saudável medir o coeficiente interno de criancice,
Que deve ser alto, nos seguintes parâmetros da inocência:

Olhar para as nuvens numa tarde quente
E descobrir formas no branco algodão,
Um urso-polar que corre fofo,
Corre, corre a perseguir um cão,
Ou uma ovelhinha de cara suja
Que se ajoelha aos céus a pedir perdão.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Quarto crescente


Vê, meu amor e cariño,
O crescente que a Lua forma
E nos deixa enamorados
Crentes na felicidade perene.

Infelizmente, esta Lua-metade
É também a foice Daquele que ceifa
A jogar por terra sonhos
Desgarrados do campo em que florescem estrelas.

Choremos baixinho nossa revolta
Contra a Fortuna que nos esquece
E deixa nossos colos expostos
Ao Ceifeiro de todas as messes.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Canto da espera


O homem
É espera.
Medonha
Espera.
Espera viver
Além do combinado.
Espera a eternidade
E pela eternidade
É esperado.

Amai a vida


Amai o belo, a bela vida
Antes que a realidade
Se descomponha
E nos exponha
O desgastar do vento
O envelhecer no tempo
O fim da própria vida.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Deus faz poesia

Quando Deus está aborrecido faz poesia.
Tasca lá do céu equações matemáticas,
Sonetos numéricos, odes cheias de incógnitas
Em que o mundo inteirinho se encaixa.

Sim, Deus gosta de infintos
E se diverte muito
Ao lembrar que nos fez
Somente com dez dedos nas mãos
E miseráveis mortais.
Como contar aquelas estrelas todas,
Como recitar tão longo poema
Em vida tão curta, em noite tão breve?



O matador de sonhos


Era um teólogo, amigo de eras esquecidas,
E perguntou-me
Qual seria o maior pecado...
O sacrilégio que jamais
Eu perdoaria num homem?

Respondi ao amigo como poeta:
O assassinato de sonhos é o maior pecado.
O homem que mata um sonho alheio
Merece o fogo de todos os infernos.

Depois matutei e ponderei:

Mas há um pior, d'outro assassino,
Daquele que mata o próprio sonho.
Este já arde no próprio inferno:
Quando acorda,
Quando se olhar no espelho
E verifica que ali está
Um outro, um corpo vazio,
Um olhar de morto, um homem-vácuo,
O suicida que se esqueceu de ir para a cova.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O espelho que te refletia


Saudades de ti, cariño,
De tua beleza
Que sorria para o espelho
Em manhãs depois dos sonhos,
Antes do trabalho, pesadelos.

Saudades de ti, e grandes
De teu beijo de até logo
Pintado com vivo batom,
Marca vermelha e derretida
Que sumia e se desfazia
Escorrendo quente liquefeita
Como se fosse meu sangue
Neste, hoje, exangue rosto.

Saudade de ti, cariño,
Nestas manhãs que se repetem
E que, por capricho,
Esqueceram-se do espelho
E não mais teu riso refletem.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Vamos para a estrela GJ 667 C


Apanhe as suas coisas,
Bote seu vestido estampado
E solte os seus cabelos
Para deixar assanhado
O vento das estrelas.

Junte juntinho e bem juntado
Seus trecos, cacarecos,
Calcinhas de renda,
Batom perfumado
E vamos ganhar mundos.

Há sim, me acredite, existe sim,
Doce como d'ocê é o carinho,
Um paraíso perdido,
Com três estrelas pequeninas
E muitas luas para abraços enamorados.

Vixe! Menina! A viagem será longa,
Leve aí uns sanduíches,
Umas rapaduras, uns sucos de cupuaçu,
Aguardente e a quentura dos seus beijos,
Suficientes para 22 anos luz.

Carinho, vamos para a GJ 667 C!
Lugar  de bom tamanho, acredito,
Pra gritar aos deuses da crueldade:
"Esqueçam-nos pela eternidade,
De vocês não queremos nada não!".