sábado, 27 de junho de 2009

Toada corre-mundo

Corro mundo, corro dia,
Carrega-me o vento, ventania.
Meu caminho é a saudade
De teus beijos vida minha.
Sou caboclo corre-mundo,
Que tem nos olhos
O feitio das paisagens,
No peito, vida minha,
Carinhos não esquecidos,
Amor, calmaria e tempestade.
Corro mundo, corro dia,
Só não corro da saudade.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Quinta Avenida



Seres bovinos ruminam o ar da manhã.
Guiados por seus pés, deixam-se engolir por carcaças de lata.
Bovinamente vão fazer alguma coisa,
Ocupar o tolo tempo entre o nascer e o morrer.
Tolamente moverão mundos e fundos.
E no ruminar do ar da noite,
Depois destas tolicies todas,
Num fundo poço, hão de descobrir
Que de nada valeu tanto esforço
Porque o mundo, que de seu eixo não se moveu milímetro,
Bovinamente rumina o tempo do homem.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Insulto

Fagundes Varela
Morreu no Século XIX
De insulto cerebral
(Está no seu atestado de óbito!)
Vou adiante
Em nosso Século
Século findo
Permeado de absurdos
Profundamente nauseantes
E bárbaros
Esta é a causa da morte
De todos os poetas! (29/10/97).

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Celas abertas

A Ana Clara Garmendia

Arrependimento mata, Maninha
Se eu soubesse que seria tão duro assim
Tudo de errado teria feito

Teria Cativado a flor
Num jardim somente meu

Teria preso os pássaros
Armado arapuca
E guardado o canto deles
Numa concha pequenina
Abandonada no jardim

Teria roubado a flor do campo
E aprisionado sua beleza
De uma semana
Numa garrafa carmim

Arrependimento mata, Maninha
Se eu soubesse
Roubaria de você o perfume
E o guardaria todo num frasco
Antigo, translúcido, marfim

Arrependimento mata, maninha
Por respeitar o belo
Nada de belo guardei para mim

Estou morto, Maninha. (Verão de 1998).

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Noite

Na mais profunda das ausências
Sinto teu cheiro e teu calor
Enfim, teu corpo inteiro
Enrolado no meu
Como lençol
E teu peito serve-me
De magnífico travesseiro.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Fogueiras de antigo Inverno

Zunido de bala no escuro
Zumbido de abelha na bananeira
Estampido das cores do arco-íris
Assobio de cana chupada numa tarde de Inverno
Calafrio do medo de assombração
Frio medroso ao namorar Maria Imaculada da Conceição em arrepios
Debaixo do abacateiro plantado pelo pai da moça, "Seo Matassete"
Frio aquentado nas mornas fogueiras de São João que queimavam:
Estampidos de um coração moço, inocente e absurdamente tolo.

terça-feira, 24 de março de 2009

Sem pecados

Maria Francisca
Tem no nome marcas da caridade.
E na Casa da Luz Negra
Maria Francisca
Troca, com orgulho,
A luxúria pela piedade.
E para os homens avaros
Dá, sem ira, gratuito amor.
Bela, Maria Francisca é invejada
Pelas gulosas e gordas companheiras de ofício.
Maria Francisca ri da vaidade alheia
E, em silêncio, depois de mais um ato de caridade,
Pede a Francisco e Maria
A paz de impudica santidade.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Devoto

Sou devoto das coisas simples.
Na complexidade própria,
Na complexidade do entardecer,
Fico simplesmente parado,
Observando, vendo... Escutando
As explicações dos matos e flores,
Que crescem sem fazer barulho,
Sem mostrar que crescem.
Escuto minhas explicações
Sobre as dúvidas que crescem:
Por que a chuva molha a terra,
Por que deste molhar leve,
Por que dos adeuses,
Por que dos encontros,
Por que do conhecer...?
E em resposta simples,
Sem fazer barulho,
Devotamente rezo.

terça-feira, 10 de março de 2009

Eternidades

Senhora dos pensamentos meus,
É hora de recomeçar os versos,
Alisar esse tempo de bárbaros
E dele tirar a fina pele.
Sonho contigo, minha senhora,
Pois de ti emana toda poesia
Que se faz luz na noite dos homens.
Descobri a eternidade, minha senhora,
Queria confessar isso agora,
Ela mora nas entrelinhas dos versos
E, escondida, só se mostra aos poetas.
A poesia é eterna,
O poeta é eterno,
E tu, minha senhora,
És a substância
Dessas eternidades.

Felicidade

Sei que a felicidade é fugidia
E o tempo é a sua desgraça.
Não adianta trancá-la numa garrafa,
Como um gênio a nos dar fortuna,
Ela vem e simplesmente passa.
Resta-nos reconhecê-la,
Vivê-la em plenitude
E tê-la depois em recordação;
A lembrança do tempo bom
Faz belo o que foi ilusão.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Coração

Veio-me com o coração cansado.
No peito, um largo rasgo
Dizia-me de antigos sofrimentos.
Veio trazendo-me antigo amor
E o riso de antigas tristezas.
Veio-me acordar de letárgico sono
Imposto por mim mesmo.
Veio-me linda como em criança
Na doçura do primeiro beijo.

terça-feira, 3 de março de 2009

Crescente

A Lua quer crescer
E forma um “cê” enorme
Num céu inexplicável, escuro e limpo
A Lua é a alegoria da vida
Do crescente ao minguante, do "cê" ao "dê"
Sempre Lua
Sempre, sempre...
Venha ver a Lua
Venha ver a gente
Nossos braços
Formam “cês” e "dês" enormes
Que tocam ombros
"Cês e dês" de abraços
Que aninham amizades
Que guardam amores
"Cês e dês" complementares
Que, num minguante,
Estarão cruzados sobre nossos peitos
Definitivos
Em adeus e despedida.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A cor do abismo

Esperar-te...Esperar-te...
Quanto tempo inda posso
Mirar ao longe a esperar-te?
Lá, leve sombra passa
À sombra das disformidades,
Tão viva, tão presente...
Lá, teu rosto some
Tão vivo, tão presente:
Sei que tens ainda os cabelos da noite estrelada,
Ainda tens como prisioneiro o riso de minh’alma,
Ainda tens teu olhar distante pregado no que não foi,
Tão infinito que não mais o tens em alcance.
Ainda tens nos olhos todas as profundidades;
Neles, o negro é meu antigo abismo,
Vazio contínuo, queda sem fim...
Neles desde a infância caio; desabo sentindo no rosto o vento,
O leve vento soprado pela tua eterna e terrível ausência.
Desabo e nele caio
A esperar-te... A esperar-te...
Quanto tempo posso ainda?

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Unidos do Vaticano

Há um boi nos ares
Da América do Sul
Há uma brasa, ilha,
No Planalto Central
E um rio que nos arrasta
Para as águas da Guanabara
Em todo janeiro
Que se faz em fevereiro
Nas carnes das mulatas nuas
Nos morros, vilas, favelas.
Viva, salve, Mangueira!

O burocrata não caiu no samba
Por falta de protocolo, terno e gravata

O turista argentino não foi para a avenida
Por pura incompatibilidade com os seus pés

Todos, a mulata, o burocrata
E o argentino sumiram na quarta-feira
Pois há um boi nos ares
Da América Latina
E uma brasa, ilha, no Planalto Central.
E viva o Vaticano, que decide todo ano
Quando será o nosso Carnaval!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Ford



Primeiro apito
Seis horas da manhã repetida

Chaminés nervosas
Tiram o azul do céu
Pois ele não se faz necessário

Segundo apito
Sete horas da manhã sem esperança

A avalanche azul-servil
Desaba sobre o portal fabril
Num automatismo maquinal

Apitos
As oito horas seguintes ainda sem esperança

Tantãs, baques surdos, cronômetros,
Parafusos, arruelas, porcas,
Chave inglesa, martelos, micrômetros

Apito
Seis da tarde, não esperança no inferno
Metade das duas sagradas diárias horas extras

Caldeiras, suores, vapores,
Músculo, porcas, engrenagens,
Apertos, força, controle, tempo

Apito
Sete horas da noite que promete ser igual a todas as noites

Fila, cartão-ponto, pernas
Portão, calçada, rua
Bar, cachaça, amigos, casa

Badalada
Dez da noite que parecia boa e igual a todas as noites

Filhos, choros, cachorro
Sogra, mulher, novela
Marmita pronta, uniforme limpo, sono

Primeiro apito
Seis horas da manhã repetida.

II

"Zé... Ó Zé!
A fábrica já pitou; Zé, alevanta, home!...
Zé... Ó Zé..."

"Que é, muié!?"

"A fabrica pita, é seis, alevanta."

"Humm..."

"Que vida home, todo dia a mesma coisa!"

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Montagem

Quisera ter agora, neste momento
Minhas vacilantes mãos sobre as suas...
Repousar minha cabeça, meu pensamento
No seu colo, nas suas coxas nuas

Quisera. Quero tanto e tanto quero
Seu sorriso guardado num dos bolsos

Quisera tanto
Sua voz num eterno acalanto

Quisera e tanto
Quero. Quisera tanto
Juntar esses pedaços e tê-la,
Uma vez que seja, inteira.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A poesia de Rosa

Dona Rosa chora saudade
Da filha que ganhou mundo
Está prenha? Não sabe
Está viva? Não sabe
O marido morreu de desgosto e cachaça
O mais velho está preso
Roubou, matou, fez o diabo
Dona Rosa chora,
Faz faxina em casa alheia
Limpa, lava, cozinha
Mas não consegue limpar a saudade
Rosa chora, não é mais dona
Não é mais nada
Além do choro que endurece
Rosa pensa em deixar o mundo
Mas quem há de limpar o mundo?
Rosa pensa sumir
Mas quem há de chorar sua saudade?
Rosa pensa em não pensar
Rosa pensa
Rosa pensa
E Rosa não sabe.
Rosa lava a roupa
Amanhã lavará outra vez
Rosa limpa a casa
Amanhã limpará outra vez
Rosa chora
Rosa chora
Amanhã, Rosa será outra vez
Pobre vida, pobre Rosa
Rosa só tem poesia no nome.
.

Aerojoanamoça

Joana, por onde andas
Com tua armadura
Feita de latas de sardinhas?

Joana, Joaninha, diz para quem te ama
Que fim deu aquela lança
Feita de vento e enfeitada de laços?

Joana, minha amada
Espero-te em França
Sentado na pista
Calada do aeroporto

Joana, Joaninha, faz frio
Aterra agora
Na careca do Charles de Gaulle

Não quero ouvir um não
Antes do próximo voo
Vamos dar um passeio
De pés descalços
Pelas brasas da fogueira
Da inquisição
De nossos corpos.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Vontades das gentes


Tem verso metido que já nasce com vontades de ser música
Tem paixão mirradinha que já nasce com vontades de eternidades
Tem gente miudinha que já nasce com vontades de ser gente
Tem gente que nasce da arrogância e tem desvontades de beleza
Tem gente que de tão gente nasce para fazer versos pras gentes
E mostrar que estas desvontades são coisas de mentes indigentes.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Ao amor ausente

Chamo-te (vazio)
- Ausência em dia que te desejo carinho -
Chamo-te pela casa
Espero que tu abandones demorado banho
Chamo-te à mesa
Sem me importar com teu lugar à cabeceira
Chamo-te por toda parte
Doidamente esperando impossível resposta
Chamo-te sob lençóis
Chamo-te sob minha pele
E, em resposta, somente o silêncio em carne viva.

Augusta no photoshop


Augusta Regina dos Reys terminou curso para modelo
Mas ela não quer passarela - trabalhar seria seu último apelo!
Augusta Regina dos Reys quer casar com um trouxa rico
Que lhe dê gordo cartão de crédito e outros paparicos.
Hoje tem festa no Golf Club, Augusta Regina dos Reys vai
Mas antes, em exame no espelho, confere o que com ela sai:

Está linda como fotografia de flor editada no Photoshop
Nariz empinado sinalizando stop
As mãos macias como as de ladrão de dinheiro público
Peitos siliconados na mentira de 300 centímetros cúbicos
Enfeitadíssima como penteadeira de puta
E burra como uma burra mesmo!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Linguagem universal

De fio a pavio
Do you understand me?

Uma mordida na língua...
- Ai Carol, teu peito vai furar o lençol! -
Can you understand me?

Nas americanas o peito abunda!
E nada de nádegas!

"I don't know!"

Está certo, não insisto
Minha língua é um dialeto
A deslizar pela tua cintura
Mas, santíssima alvura...
Pensando bem, meu bem,
Como é esquisito
Só conversar pelos instintos!

Cantoria das miudezas


Peço a Deus sabedoria
Co’a graça da Virgem Maria
Que os anjos me acompanhem
Nesta minha cantoria...

...Eia, eia, boi, boi, ei, eia...

Avoa tristeza afora
Da lida que se anuncia
E faz o coração caipora
Compassar co'as miudezas
Desta vidinha simplória

Enquanto arreio o cavalo
É favor me escutar
Isso a muita gente falo
A vida leva o vento
Só é preciso ventar

Passam os anos, voa tempo
No aperto da espora
Do sonho a galopar
A vida leva o vento
Só é preciso ventar

...Eia boi, ei, eia, boiada...
Caboclo se assossega
A morte vem de mão dada
Co’a a vida que nos leva
...Eia boi, ei, eia, boiada...

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Bucólica

Meu céu desenho a carvão
Dos traços escuros
Faço o dia
Projeto o Sol
Um rio que desce calmo
Ao lado de calma estrada...
Num canto qualquer
Deixo lugar para uma lagoa
Com patos nadando
- Há de se dar utilidade para as coisas –
Na estradinha, coloco um homem
Que há de caminhar triste
Pois está em desacordo com a paisagem
Ao longe, ao pé do morro,
Uma casinha tosca
Cercada de animais domésticos
Um cão preguiçoso,
Uma vaquinha,
Algumas galinhas...
Mais adiante
No campo
Coloco lá algumas árvores
E uma saudade distante
Que, de tão comprida,
Toma todo o horizonte.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Caí

De súbito
Num susto de tropeço
Senti você
Em meu coração.

Morfismos

Da mais simples flor
Nasce o orvalho da manhã
O Sol cresce por trás do monte
Enquanto a noite finge dormir

A luz salta para os campos
Tudo renasce, vive. Alegria
A relva avança o milímetro
Verde mesclado à névoa pálida

Roedores fugitivos...
Serpentes, rastejantes feras,
Unicélulas, moneras

Rio desce
Morro abaixo
Vida acima
Flui em calmaria
Segue sempre
Sempre firme

Palmo a palmo
É o mesmo rio
Da mesma fonte
Vaza sereno... Vítreo

O tempo é estático
Mas, o rio se afasta
Gota, orvalho, gota
Turva-se, perde-se
Na curva, em caminho.

Mea culpa

É incrível saber como a vida, que nada nos dá
além da aproximação constante da morte,
nos torna culpados de tudo.

Incréu II

No sétimo dia, não quis ascender aos céus,
Estava com preguiça e receava o tédio,
Desconfiava: logo ele?! Ele, um incréu,
Que para os pecados não achou remédio?!?

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Do tempo e lembranças

O tempo tem os pés voltados pra frente,
Só as lembranças os têm para trás.
Necessário é,
Não mantê-los amarrados no peito,
Sob pena de não se sair do lugar.
A amargura é uma lembrança
Que se amigou ao tempo presente.
Encardida, a amargura é a mancha do tempo.
Mesmo lavada com o sabão das lágrimas,
Fica lá, enfeiando o seu melhor vestido, seu paletó de festa.
A única coisa que podemos fazer
É escondê-la com um broche ou um lindo lenço
E assim teremos uma amargura enfeitada,
Como deve ser toda namorada que se quer desejada.