quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Noite vadia

Atravessei ontem a cidade.
Gosto de fazer isso à noite,
Nesta hora somos inexatos
E inexata a cidade dorme.
Vi um jardim sem flores,
(É Primavera creio eu)
Árvores desfolhadas
E um cemitério sem almas.

(Estendi as mãos,
Buscava estrelas,
E as mãos tornaram-me
Molhadas de orvalho)

A rua, lá do Bom Retiro,
Tinha cheiro de jasmim.
Ao longe o som de um tiro
Tinha a claridão da morte.

(Pelo menos alguém dará vida ao cemitério)

Um cão tentou fazer-me em susto
Latiu, rosnou e depois calou-se.
Com certeza, para ele,
a pena não valia:
Latir para quem,
Se junto de mim nada havia?

Só, vadiei pela noite
Assustando os cães,
A cutucar o céu
Para ver se alguma estrela caía.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Negativa I


Não vagarei pelo mundo
Chorando minhas mágoas
Minhas mágoas chorarão por mim.
Não. Não duvidarei de Deus
Quem sou eu!?!
Deus há de duvidar de mim!
Não. Não serei do todo a parte,
Do início a morte,
A dualidade de mim.
Serei apenas eu,
O espectro do espectro
De uma dimensão ruim.
Não vagarei pelo mundo
Chorando minhas mágoas
Minhas mágoas chorarão por mim.
Não. Não duvidarei de Deus
Quem sou eu!?!
Deus há de duvidar de mim!
Não. Não serei do todo a parte,
Do início a morte,
A dualidade de mim.
Serei apenas eu,
O espectro do espectro
De uma dimensão ruim. . (1994)

Sussurros

Sua voz é vento leve a carinhar a flor
Leve, suave, leve, suave, leve...
A sua voz é o balanço
De alegre criança
Em sua primeiríssima
Manhãzinha de Primavera.

Brinquedo dos desejos doces,
Aquilo que vai entre o querer e o sentir,
Sua voz, brisa mansa, leve vento,
Leva-me adiante
Num rouco sussurro
Para muito, muito além de mim.

Conversa mole


Caronte, prepare o barco
E não conte com minha ajuda
Na vida fui ruim ao remar

Caronte, empreste-me o barco
Quero conhecer este Aqueronte
Já que para adiante não há esperança

Caronte não tenha pressa
Vamos bater um papo antes
Quantos já estão na outra margem? ...

Caronte, não tenha pressa
Não se desgaste, antes ou depois
Será o mesmo trabalho

Caronte, conte-me de Virgílio
Diga-me como anda Dante
E seu anjo beato, Beatriz

Caronte, determinado barqueiro
Faça-me um último favor
Dê-me de comida ao Cérbero

Caronte, atenda-me!
Adiante!! Pois não é pecado
Desejar uma segunda morte.

Estrela desbotada


Vejo a noite estrelada
Concebida por Van Gogh
Quanta verdade
Nessas pinceladas escuras
Curvas, espiraladas
Sobre uma cidade
Sem sentido
Repousando sobre todos
Os fluidos dos céus
Quisera o poeta poder
Injetar cores nos versos
Tudo seria mais inteligível
E os sonhos poderiam
Ser descritos apenas
Num piscar da estrela
Que nunca se deixou pintar
Nem mesmo por Van Gogh.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Estranha


Cadê a mulher que tinha um sorriso ganha-mundo?
Cadê a mulher que tinha os olhos do querer?
Cadê a mulher que vivia dentro de você, mulher?

Hoje, uma estranha dentro de outra estranha
Sem riso
Sem mundo
Sem querer

Cadê a menina que tinha o rosto banhado em orvalho
E que com o algodão das nuvens o enxoval tecia?
Cadê a menina que havia por entre as estrelas
Com os raios de luz o próprio nome bordado?

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

História de Anita

Lá - observe aqui do alto:
Naquele prédio
Levantado no horizonte
Aconteceu uma morte ontem
Sofria dos nervos a mulher
Sofria de viver

Anita teve sono
Ligou o gás
E dormiu
Perto do céu
Perto do horizonte
Naquele prédio alto
Dormiu ontem

Anita tinha seus demônios
Que lhe tiravam o sono
Anita inalou gás
E dormiu como anjo
O gás foi seu calmante

Sinistro avessado

"Este menino é sinistro"
- Esquerdo, para que melhor entendam -,
Disse a velha benzedeira
A sacudir os ramos de arruda e alecrim.

E desde então carrego esta sina
De ser amigo do contrário,
De escrever ao contrário,
De pensar ao contrário,
De querer um mundo contrário.

Do direito sou o avesso
E do avesso a vida faço.

Trago no peito desejos miúdos,
Vontades mudas:
Quero do mar a tempestade
Da onda alegre a vaga triste
E no coração sentir
A intensidade da vida
Até no mais puro silêncio.

Trago isso nas mãos calejadas pelos adeuses,
No rosto, escrito no franzir da testa:
Não há um mundo o direito e o completo
Porque nele tudo se faz torto e metade;
Por isso, sou canhoto por inteiro
Porque sinistro é meu coração, confesso.

A medida das almas

Que tamanho nossas almas têm?

Se no bem,
Abarcam o mundo.
Se felizes,
Abarcam o céu.
Se meditativas,
Abarcam o nada.

Mas mesmo assim, acredito,
Que é preciso uma alma grande
Para do nada se encher
E em tudo pensar.

É isso, a alma se pensa
E este pensar,
Que tudo alcança,
É sua medida.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Pássaros raros


Anoitecido sou forte,
Faço susto aos astros,
Brigo com minhas sombras
E, ao largo, boto a fugir as luzes todas.
Assim cansado, deixo de lado o sono
E em vigília terna, no colo, nos braços,
Envolvo os escuros da noite
Como se fossem pombos,
Pássaros raros
Que, contrariado,
Aos céus sempre devolvo.

Mas, de dia, que desastre sou.
Puro medo; medo e horror!
Cedo, topo e tropeço na luz,
Que em fina réstia
Vaza da janela ao quarto.
Asim, iluminado fica este velho corpo
Cansado e desnorteado
Por não saber você
E de você nada ter provado.


Tivesse prestado mais atenção,
Tivesse no seu coração estado,
Tivesse ido além do permitido,
Entrado em sua alma, amado,
Não sentiria este quente arrepio
De tê-la sempre em pensamento,
chama, eternamente ao meu lado.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

O canto das gentes

Poeta, toda vida merece um canto
De amor, de terror ou de ódio...
Às vezes, de felicidade
Ou até de contentamento.

De amor quase sempre falo
Mesmo ao amor que nada consente.

De terror grito pelos fracos
Que morrem de fome
De desamor
De tristeza
E de esquecimento.

Grito depois num canto de ódio
Aos que ferem nossas almas
E aos que fazem desses males
Os deuses de nossos tormentos.

E repito este canto todos os dias
Mantra de todo vivente
Pois quem não ama nem odeia
Pois quem não canta nem sente
É morto em vida, não é gente.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Cantiga para amores assombrados



Todo adeus é de dar pena.
É um esquecer-se triste,
É um esquecer-se sem paz,
Sem contentamento.


A saudade é a alma do adeus;
Da solidão, companheira e tormento.
É ela que nos assombra
E nos põe o medo do esquecimento.

Sou feito de adeuses, arrependimentos
E assombrado por muitas saudades vivas.

Por isso, antes de dormir,
Rezo por quem conheci
No terço da saudade havida.


Depois sonho em tranqüilidade
Ao refazer a vida antiga,
Plena de quem me faz falta,
Cheia de quem me fez sentir
Num adeus triste nova tristeza, saudade.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Canção da sina encantada


Canto todo canto para tê-la,
Encanto, a meu lado.
Busco tanto tê-la minha,
Sabê-la toda na língua
Com gosto de gostosa sina.
Quero sim, você me ensina,
Amar como ama a estrada
O caminheiro.
Quero sim, você me ensina,
Amar o oceano
Como ama o marinheiro.
Canto todo canto para tê-la
Nesta canção de amor, amada.
Canto tanto para sabê-la
Dentro do peito, no coração guardada.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Noites de tempestade


E veio a tempestade...
Os trovões,
Os sons todos
Do céu furioso.
Madrugada de terra molhada.
Madrugada de almas aterrorizadas.
Madrugada em que o céu grita.
Madrugada pelo silêncio abandonada.

E veio a calma...
E as breves sonoridades d'água
São o silêncio que pinga entre os pingos d'água.
É quando volta-me a alma...
Meu coração bate triste, suave e
Minha oração se faz silêncio entre suas batidas:
É o mudo aguardar de outras madrugadas,
Sons, trovões e o terror de todas as mágoas.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Requiem para coisa finda


O inverno de 2008 é defunto
E pede flores para enfeitar
Seu túmulo cinza.
Logo, o ano será morto
E nos lembrará
O destino frio
Tão comum,
Tão escuro,
Tão defunto
Quanto este inverno findo.

Lá fora...
Deus meu, o que vai lá fora?
Venta...
Suspiros dos anos meus
Perdidos em invernos
Soltos naquilo que não mais sou eu.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

A solidão de Deus

Sois Deus e só.
Ser divino é optar pela solidão.
E de vez em quando este abandono proposital carece de companhia.
Não uma só. Uma alma parece não acabar com Vossa solidão divina.
Almas precisam ser encomendadas no atacado:
Mais de duas mil na guerra da Geórgia,
Centenas de milhares em África,
Purificadas em martírios e sofrimento.
Senhor, quando aprendereis a viver só?

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Um poema só

Ontem fugiu-me mais um poema.
Poemas têm este costume: fogem.
São amantes de uma noite só.
Aparecem, insinuam-se e somem.
Noutros dias, voltam,
Mas fingem não notar seus poetas
Com medo que lhes reconheçamos os defeitos.
Bobos, ignoram que somos fracos em sabê-los
E que os defeitos estão nos olhos de quem olha!
Mas um dia eles hão de voltar...
Como volta para casa a amante querida
Que de tão querida não se acreditava assim.
Hão de voltar...
Como o mar torna à praia,
Como a luz torna ao dia,
Como o sonho torna ao sono.
Estarei pronto, por certo,
Para, no peito, fundo, recebê-los,
Pois sou feito dos beijos destas amantes
Que me abandonaram na noite.
Sou feito de poemas sem tê-los.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

A folga de Abuquerque Maria

Maria Cristina Campos Lago Abuquerque
Num dia fazia-se santa e dizia-se Cristina,
Noutro dia soltava-se, corria-se em campos,
Noutro, acalorava-se e alcamava-se no lago.
De Albuquerque também tinha seus dias
E fechava-se numa fotografia amarela e fria.
Reflexiva, Maria Cristina Campos Lago Abuquerque
Jamais quis ser Maria. Pois ela fazia-se outras.
E Maria apenas... É pobre ser Maria.
Num dia, sentiu-se em quentura n'alma.
Santa Cristina correu-se ao campo,
Atirou-se no lago e por desgraça
Morreu-se.
O guarda-vidas Abuquerque Maria
Deu-se folga.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Todo triste

Triste. Já nasci triste.
Como alguém pode ser alegre
Ao sentir-se, todos os dias,
Os dias todos,
Em todas as horas,
Nos minutos todos,
Na totalidade toda,
Neste gastar-se medonho?

Não existo

Você diz que não existo.
Assim, tão simples.

Pois saiba, não existo mesmo!
Nego-me a existir!
E boa parte da Filosofia
Diz que você está certa!

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Sofro de poesia

Não me chame, não reclame, nada diga:

Sofro de poesia e meu coração está ausente.

Falo com você depois de pensar nos tolos

E doces versos que me envenenam.

Sou doente assim desde menino:

Sofro de poesia, meu bem!

Em rezas, benzedeira alguma

Conseguiu tirar-me este quebranto

Soprado por anjos nada santos.

Por isso, dou canto às palavras

E vozes aos silêncios d’almas.

sábado, 21 de junho de 2008

Olhos míopes

Os míopes foram feitos assim
Quase ceguinhos
Quase sem luz
Para não verem o mundo
Do jeito que todos acham que é
Que, em verdade, não é
O mundo é mais
Muito mais do que cores mudas sobrepostas
Mas para vê-lo
Há de se afastar a luz
A luz toda
Toda luz
E trazer para si
A alma das coisas
Feitas em contornos inexatos
Construídas com olhos míopes
Só aí então
Estaremos prontos
Para com o tato de nossos corações
Entender a mudez de nosso mundo.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

PARTITURA PARTICULAR


Maestoso
Canto a música do silêncio
Anotada nos pentagramas
De teus dentes quando me beijas



Molto delicato
No teu peito uma clave
Sugere-me o amor noutro tom
Do silêncio cada vez mais lento



Allegro
Casa de poeta não tem teto
E a Lua dá cor ao silêncio
Do corpo que se retorce



Allegro non tropo
Suave, muito suave, doce,
Dois tons acima, teu silêncio
Desfalecido por sobre minha língua.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

A moça no jardim

O jardim está em desuso;
Quem ousa usar o jardim?

Oásis no meio do concreto e asfalto
Por quem espera com seu verde sem fim?

As flores, a grama, os pássaros
Ignoram quem por eles passam
Mas guardam os que por eles ficam.

A moça sentada espera: lê revista,
Fuma cigarro; compenetrada,
Esquece os pássaros, a grama, o jardim.
Espera, espera, espera;
Eis o resumo da vida:
Uma curta espera pelo fim.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Cata-vento


A voz do poeta é irmã do vento,
Às vezes suave como a brisa;
Às vezes ligeira como tempestade.

A nossa voz se faz nos ventos
E sopra, e canta, e leva
Melodias, pesares e pensamentos.

A mão do poeta é um cata-vento
A envolver teu coração no manto
Do querer bem, do querer muito e tanto.


quinta-feira, 20 de março de 2008

Artigos de perfumaria


Sabão de cheiro Lavalma

Shampoo que dê brilho às idéias

Perfume para os olhos

Sais para banhar paisagens.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Avoanças

“Para lá vejo ir Nosso caminho! Ó pai, vamos partir!” J. W. Goethe


Meus pés seguem os apelos do lá
Do que há de ser; do que pode ser
Do que se faz além do além
Sou andanças
Sou voança

Aprendi isso menino:
Para viver
Há de se correr
Há de se voar
Antecipando-se ao sonho
Antecipando-se ao pensar

Aprendi isso menino:
Viver em andanças
Com asas em avoanças
De modo que a morte
Não me alcance.

Passa-tempo

Penso na velocidade das horas
(Tão mansas que, a priori, é preferível não pensá-las)
Penso na brevidade do encontro
(Que de tão doce é melhor não prová-lo)
Penso e penso suspenso nos teus brincos
Onde brinco de pensá-la.

A violista


Solta, entre uma nota e outra,
Só, a violista sola.

A música, fio longo, se tece
Solitária no jovem espírito.

Do palco treva
Trespassam sonoridades
Impulsionadas pelo braço
- Fantasma branco a furar o escuro -
Em arco que viola a viola.

Este sobe e desce sugere
Estupro das cordas
Ao arrancar suspiros
Da oitava máxima.

Silêncio ( )
Outro fio longo
Em nova nota aparece
Depois mais silêncio ( ) que
No peito eternidades tece.

Toque.
Toque querida,
Tenho frio
E meu agasalho
São estas eternidades breves.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Para sempre

Quero de tuas mãos uma última carícia
Tão suave e tão permanente como um definitivo adeus.
Adeus tão para sempre, tão para nunca mais.

Dê-me de teus lábios um último beijo
Cheio dos desejos finados em teus olhos fechados.
Fechados tão para sempre, tão para nunca mais.

Dê-me teus dias que virão apartados de mim.
Neles, por certo, farei-me só alma e pensamentos.
Pensamentos tão para sempre, tão para ti somente.