terça-feira, 7 de outubro de 2008

Paisagem

Faço hora e entrego-me à preguiça
Olho pela janela e o mundo se faz velho
Pinço telas vivas, árvores, jardins
Pássaros, folhas caindo, mesmices
Espero. Esperar é o preço do viver
Vozes, risos, conversas passam
Nada entendo, nada quero entender
A preguiça exige esquecimentos
Desentendo-me, esqueço-me
Transmuto-me em dor
Pois agora sou a paisagem
Deste mundo velho, das árvores,
Das mesmices, dos jardins,
De mim e dos passarinhos.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Balaio do tempo



Gosto dessas folhinhas de barbearia
Elas guardam o calendário
O que já foi e o que há de ser
Num susto, suspiro último
Feito navalha na jugular
Antes do próximo fio de barba crescer

Mas, o que eu queria dizer
É que eu gosto mesmo
É de suas antigas vulgares pinturas
Impressas, estáticas,
Paradas, mudas,
Sem nada marcar
Sem nada delinear
A não ser as paisagens

Gosto dessas folhinhas
Que marcam o tempo que passa
Numa gravura do século passado
Na parede da padaria
(Deus meu, dai-nos o pão nosso de cada dia!)

Gosto dessas folhinhas
Com propaganda do açougue
Da farmácia e da tabacaria
Elas trazem imagens
De um tempo que não foi
Rios que não correm
Ursos que não se mexem
Sol que sempre brilha
Árvores que, mesmo no Outono
Não se desmancham em folhas

Gosto dessas folhinhas
Com cães e gatos
Dividindo o mesmo balaio
Ou crianças de bochechas rosadas
Fazendo uma algazarra sem gritos

Gosto dessas folhinhas
Dessas que enfeitam
As cozinhas das vovós
E que, de tão boquiabertas,
Com o passar do tempo
Acabam em depósitos de pó.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Incréu

Olho para o Céu
A buscar morada.
Coração incréu
Por que buscas
No todo, o nada?

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Quem lhe prendeu, Menina?


Tenho pena de você, minha menina,
Que faz da solidão irmã e sina.
Que triste pássaro este que não voa,
Bem acostumado ao medo e à prisão.
Vi você, menina, solta em finais de tarde;
Que nuvem escondeu o caminho
De sua alegria, de sua louca vontade?

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A doença do verso

De vez em quando, poeta,
Só para justificar a lida,
Deixe seus versos
Ficarem doentes.

Doentes de amor.

Poeta que disso não fala,
Que sobre o amor não escreve,
Não é poeta, é um escrevente
Arranjador de sílabas.
Tão vazio... Tão demente.

O amor é a poesia.

No verso, na entrelinha,
Mesmo que não aparente
O amor há de ser presente;
Mesmo que desta doença
O poema não experimente.

Remansos

Quando a noite chega
Meu coração em paz se faz
E tu me abraças
E tu me beijas
E comigo ficas
És a minha canção de ninar
Que me distrai a madrugada
E teus braços são remansos
Que tiram-me do calor da batalha
Aquecem-me noutra peleja
Na luta que vale a pena
Diz-me: "Sou tua"
Transformada no único sentido
Deste coração quase sempre ausente.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Minúsculo instante

Rio de quem se faz ontem.
O ontem já não é mais.
Rio de que se faz amanhã.
O amanhã ainda não é.

O primeiro é o desfeito,
O segundo vai se fazer.

Por isso, sou o agora,
A hora que me fez e que eu faço.
Pois só existo
Neste mínimo
Minúsculo instante.
O ontem é a somatória
Desses mínimos.
É apenas uma conta
Que deve ser atualizada
Nas memórias,
Nas tábuas d'alma.
O amanhã é a conta
De fazer chegar.

O hoje, nesta agora-hora,
É o eu antigo somado a eu:
O que foi e mais este tempo
Subtraído do que será.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Canção dos bytes


Este poeminha temporão
Sairia de dentro da caneta
Mas, o azul da tinta aviza:
- Rabiscarei nada não!

Pobre poeta,
Que tem que domar
Um poema revoltado,
A caneta que não escreve
E apelar para o teclado.

Deus salve o Século XXI
Que nos deu tecnologia
Para escrever
Com as pontas do dedos
Tudo que vai na caneta vazia.

Agora minha palavra
É um aglomerado de elétrons
Na tela do computador.

E minhas memórias
Se gravam em bytes,
Um Giga de horror.

Salve, santa tecnologia!
Pois, pode nos faltar a tinta,
Que nos falte a caneta,
A veterana ponta do lápis,
Mas, pelo amor do bem sagrado,
Que nuca nos falte a dita,
Da nova técnica o agrado,
A sacrobendita eletricidade.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Noite vadia

Atravessei ontem a cidade.
Gosto de fazer isso à noite,
Nesta hora somos inexatos
E inexata a cidade dorme.
Vi um jardim sem flores,
(É Primavera creio eu)
Árvores desfolhadas
E um cemitério sem almas.

(Estendi as mãos,
Buscava estrelas,
E as mãos tornaram-me
Molhadas de orvalho)

A rua, lá do Bom Retiro,
Tinha cheiro de jasmim.
Ao longe o som de um tiro
Tinha a claridão da morte.

(Pelo menos alguém dará vida ao cemitério)

Um cão tentou fazer-me em susto
Latiu, rosnou e depois calou-se.
Com certeza, para ele,
a pena não valia:
Latir para quem,
Se junto de mim nada havia?

Só, vadiei pela noite
Assustando os cães,
A cutucar o céu
Para ver se alguma estrela caía.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Negativa I


Não vagarei pelo mundo
Chorando minhas mágoas
Minhas mágoas chorarão por mim.
Não. Não duvidarei de Deus
Quem sou eu!?!
Deus há de duvidar de mim!
Não. Não serei do todo a parte,
Do início a morte,
A dualidade de mim.
Serei apenas eu,
O espectro do espectro
De uma dimensão ruim.
Não vagarei pelo mundo
Chorando minhas mágoas
Minhas mágoas chorarão por mim.
Não. Não duvidarei de Deus
Quem sou eu!?!
Deus há de duvidar de mim!
Não. Não serei do todo a parte,
Do início a morte,
A dualidade de mim.
Serei apenas eu,
O espectro do espectro
De uma dimensão ruim. . (1994)

Sussurros

Sua voz é vento leve a carinhar a flor
Leve, suave, leve, suave, leve...
A sua voz é o balanço
De alegre criança
Em sua primeiríssima
Manhãzinha de Primavera.

Brinquedo dos desejos doces,
Aquilo que vai entre o querer e o sentir,
Sua voz, brisa mansa, leve vento,
Leva-me adiante
Num rouco sussurro
Para muito, muito além de mim.

Conversa mole


Caronte, prepare o barco
E não conte com minha ajuda
Na vida fui ruim ao remar

Caronte, empreste-me o barco
Quero conhecer este Aqueronte
Já que para adiante não há esperança

Caronte não tenha pressa
Vamos bater um papo antes
Quantos já estão na outra margem? ...

Caronte, não tenha pressa
Não se desgaste, antes ou depois
Será o mesmo trabalho

Caronte, conte-me de Virgílio
Diga-me como anda Dante
E seu anjo beato, Beatriz

Caronte, determinado barqueiro
Faça-me um último favor
Dê-me de comida ao Cérbero

Caronte, atenda-me!
Adiante!! Pois não é pecado
Desejar uma segunda morte.

Estrela desbotada


Vejo a noite estrelada
Concebida por Van Gogh
Quanta verdade
Nessas pinceladas escuras
Curvas, espiraladas
Sobre uma cidade
Sem sentido
Repousando sobre todos
Os fluidos dos céus
Quisera o poeta poder
Injetar cores nos versos
Tudo seria mais inteligível
E os sonhos poderiam
Ser descritos apenas
Num piscar da estrela
Que nunca se deixou pintar
Nem mesmo por Van Gogh.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Estranha


Cadê a mulher que tinha um sorriso ganha-mundo?
Cadê a mulher que tinha os olhos do querer?
Cadê a mulher que vivia dentro de você, mulher?

Hoje, uma estranha dentro de outra estranha
Sem riso
Sem mundo
Sem querer

Cadê a menina que tinha o rosto banhado em orvalho
E que com o algodão das nuvens o enxoval tecia?
Cadê a menina que havia por entre as estrelas
Com os raios de luz o próprio nome bordado?

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

História de Anita

Lá - observe aqui do alto:
Naquele prédio
Levantado no horizonte
Aconteceu uma morte ontem
Sofria dos nervos a mulher
Sofria de viver

Anita teve sono
Ligou o gás
E dormiu
Perto do céu
Perto do horizonte
Naquele prédio alto
Dormiu ontem

Anita tinha seus demônios
Que lhe tiravam o sono
Anita inalou gás
E dormiu como anjo
O gás foi seu calmante

Sinistro avessado

"Este menino é sinistro"
- Esquerdo, para que melhor entendam -,
Disse a velha benzedeira
A sacudir os ramos de arruda e alecrim.

E desde então carrego esta sina
De ser amigo do contrário,
De escrever ao contrário,
De pensar ao contrário,
De querer um mundo contrário.

Do direito sou o avesso
E do avesso a vida faço.

Trago no peito desejos miúdos,
Vontades mudas:
Quero do mar a tempestade
Da onda alegre a vaga triste
E no coração sentir
A intensidade da vida
Até no mais puro silêncio.

Trago isso nas mãos calejadas pelos adeuses,
No rosto, escrito no franzir da testa:
Não há um mundo o direito e o completo
Porque nele tudo se faz torto e metade;
Por isso, sou canhoto por inteiro
Porque sinistro é meu coração, confesso.

A medida das almas

Que tamanho nossas almas têm?

Se no bem,
Abarcam o mundo.
Se felizes,
Abarcam o céu.
Se meditativas,
Abarcam o nada.

Mas mesmo assim, acredito,
Que é preciso uma alma grande
Para do nada se encher
E em tudo pensar.

É isso, a alma se pensa
E este pensar,
Que tudo alcança,
É sua medida.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Pássaros raros


Anoitecido sou forte,
Faço susto aos astros,
Brigo com minhas sombras
E, ao largo, boto a fugir as luzes todas.
Assim cansado, deixo de lado o sono
E em vigília terna, no colo, nos braços,
Envolvo os escuros da noite
Como se fossem pombos,
Pássaros raros
Que, contrariado,
Aos céus sempre devolvo.

Mas, de dia, que desastre sou.
Puro medo; medo e horror!
Cedo, topo e tropeço na luz,
Que em fina réstia
Vaza da janela ao quarto.
Asim, iluminado fica este velho corpo
Cansado e desnorteado
Por não saber você
E de você nada ter provado.


Tivesse prestado mais atenção,
Tivesse no seu coração estado,
Tivesse ido além do permitido,
Entrado em sua alma, amado,
Não sentiria este quente arrepio
De tê-la sempre em pensamento,
chama, eternamente ao meu lado.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

O canto das gentes

Poeta, toda vida merece um canto
De amor, de terror ou de ódio...
Às vezes, de felicidade
Ou até de contentamento.

De amor quase sempre falo
Mesmo ao amor que nada consente.

De terror grito pelos fracos
Que morrem de fome
De desamor
De tristeza
E de esquecimento.

Grito depois num canto de ódio
Aos que ferem nossas almas
E aos que fazem desses males
Os deuses de nossos tormentos.

E repito este canto todos os dias
Mantra de todo vivente
Pois quem não ama nem odeia
Pois quem não canta nem sente
É morto em vida, não é gente.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Cantiga para amores assombrados



Todo adeus é de dar pena.
É um esquecer-se triste,
É um esquecer-se sem paz,
Sem contentamento.


A saudade é a alma do adeus;
Da solidão, companheira e tormento.
É ela que nos assombra
E nos põe o medo do esquecimento.

Sou feito de adeuses, arrependimentos
E assombrado por muitas saudades vivas.

Por isso, antes de dormir,
Rezo por quem conheci
No terço da saudade havida.


Depois sonho em tranqüilidade
Ao refazer a vida antiga,
Plena de quem me faz falta,
Cheia de quem me fez sentir
Num adeus triste nova tristeza, saudade.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Canção da sina encantada


Canto todo canto para tê-la,
Encanto, a meu lado.
Busco tanto tê-la minha,
Sabê-la toda na língua
Com gosto de gostosa sina.
Quero sim, você me ensina,
Amar como ama a estrada
O caminheiro.
Quero sim, você me ensina,
Amar o oceano
Como ama o marinheiro.
Canto todo canto para tê-la
Nesta canção de amor, amada.
Canto tanto para sabê-la
Dentro do peito, no coração guardada.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Noites de tempestade


E veio a tempestade...
Os trovões,
Os sons todos
Do céu furioso.
Madrugada de terra molhada.
Madrugada de almas aterrorizadas.
Madrugada em que o céu grita.
Madrugada pelo silêncio abandonada.

E veio a calma...
E as breves sonoridades d'água
São o silêncio que pinga entre os pingos d'água.
É quando volta-me a alma...
Meu coração bate triste, suave e
Minha oração se faz silêncio entre suas batidas:
É o mudo aguardar de outras madrugadas,
Sons, trovões e o terror de todas as mágoas.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Requiem para coisa finda


O inverno de 2008 é defunto
E pede flores para enfeitar
Seu túmulo cinza.
Logo, o ano será morto
E nos lembrará
O destino frio
Tão comum,
Tão escuro,
Tão defunto
Quanto este inverno findo.

Lá fora...
Deus meu, o que vai lá fora?
Venta...
Suspiros dos anos meus
Perdidos em invernos
Soltos naquilo que não mais sou eu.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

A solidão de Deus

Sois Deus e só.
Ser divino é optar pela solidão.
E de vez em quando este abandono proposital carece de companhia.
Não uma só. Uma alma parece não acabar com Vossa solidão divina.
Almas precisam ser encomendadas no atacado:
Mais de duas mil na guerra da Geórgia,
Centenas de milhares em África,
Purificadas em martírios e sofrimento.
Senhor, quando aprendereis a viver só?

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Um poema só

Ontem fugiu-me mais um poema.
Poemas têm este costume: fogem.
São amantes de uma noite só.
Aparecem, insinuam-se e somem.
Noutros dias, voltam,
Mas fingem não notar seus poetas
Com medo que lhes reconheçamos os defeitos.
Bobos, ignoram que somos fracos em sabê-los
E que os defeitos estão nos olhos de quem olha!
Mas um dia eles hão de voltar...
Como volta para casa a amante querida
Que de tão querida não se acreditava assim.
Hão de voltar...
Como o mar torna à praia,
Como a luz torna ao dia,
Como o sonho torna ao sono.
Estarei pronto, por certo,
Para, no peito, fundo, recebê-los,
Pois sou feito dos beijos destas amantes
Que me abandonaram na noite.
Sou feito de poemas sem tê-los.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

A folga de Abuquerque Maria

Maria Cristina Campos Lago Abuquerque
Num dia fazia-se santa e dizia-se Cristina,
Noutro dia soltava-se, corria-se em campos,
Noutro, acalorava-se e alcamava-se no lago.
De Albuquerque também tinha seus dias
E fechava-se numa fotografia amarela e fria.
Reflexiva, Maria Cristina Campos Lago Abuquerque
Jamais quis ser Maria. Pois ela fazia-se outras.
E Maria apenas... É pobre ser Maria.
Num dia, sentiu-se em quentura n'alma.
Santa Cristina correu-se ao campo,
Atirou-se no lago e por desgraça
Morreu-se.
O guarda-vidas Abuquerque Maria
Deu-se folga.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Todo triste

Triste. Já nasci triste.
Como alguém pode ser alegre
Ao sentir-se, todos os dias,
Os dias todos,
Em todas as horas,
Nos minutos todos,
Na totalidade toda,
Neste gastar-se medonho?

Não existo

Você diz que não existo.
Assim, tão simples.

Pois saiba, não existo mesmo!
Nego-me a existir!
E boa parte da Filosofia
Diz que você está certa!

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Sofro de poesia

Não me chame, não reclame, nada diga:

Sofro de poesia e meu coração está ausente.

Falo com você depois de pensar nos tolos

E doces versos que me envenenam.

Sou doente assim desde menino:

Sofro de poesia, meu bem!

Em rezas, benzedeira alguma

Conseguiu tirar-me este quebranto

Soprado por anjos nada santos.

Por isso, dou canto às palavras

E vozes aos silêncios d’almas.

sábado, 21 de junho de 2008

Olhos míopes

Os míopes foram feitos assim
Quase ceguinhos
Quase sem luz
Para não verem o mundo
Do jeito que todos acham que é
Que, em verdade, não é
O mundo é mais
Muito mais do que cores mudas sobrepostas
Mas para vê-lo
Há de se afastar a luz
A luz toda
Toda luz
E trazer para si
A alma das coisas
Feitas em contornos inexatos
Construídas com olhos míopes
Só aí então
Estaremos prontos
Para com o tato de nossos corações
Entender a mudez de nosso mundo.