sexta-feira, 21 de novembro de 2008

H202

Amar inda o que já foi amado
É derramar na mesma ferida
Litros e litros de água oxigenada.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Presente

Ausente de mim mesmo
Ando pela cidade a esmo
A sentir-te presente.

Noite de São João



Quisera ver-te
Nesta noite em que a Lua fica maior do que a Terra e mesmo assim faz parada em teus pequenos olhos noturnos e de estrelas eternamente enfeitados

Quisera ver-te
Nesta noite em que o orvalho desfolha minha alma e que depois, no seco jardim, em gota, torna-se desolada lágrima na solitária roseira que nunca gerou sequer miserável rosa

Quisera ver-te
Nesta noite de São João, coberta com o brilho das fagulhas da fogueira que ardem no meu espírito e ao meu desatino servem

Quisera ver-te
Nesta noite em que meu destino chora em oração e suplica perdão por saber-se perdido e a ti, em vão, fadado em desejo e pecado

Quisera ver-te
Nesta noite em que meu coração pulsa em angústia por sabê-la docemente impossível e por isso já vestida de toda saudade que se enfeita com os longos laços da despedida

Quisera ver-te
Nesta noite, santíssima e sem pudor, sobre o cansado andor e carregada por toda essa devota gente, a cantar as cantigas profanas que por ti, em andanças, eu hei cantado.

Bacanais

Nossos pensamentos são do pecado
Pecado mortal, é bom que se diga
Vivem em bacanais neuroniais
Em incestos, idéias gerando idéias
E matricídio, descartando idéias
Em infantícido, eliminando idéias nascentes
Em parricído, zombando do pensador
Porque nunca terminam o caminho
Sem a próxima idéia
Sem a próxima pergunta
Que exigirá outros bacanais
Outra luta de aparentados
Para se chegar em resposta alguma.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A morada

Tinha os olhos presos no infinito.
O gemido era a voz marcada em ais.
Os gestos, poucos e sem estudo,
Expressões únicas da alma alienada.

Vivia, portanto, sem se saber,
Para longe do alcance do olho,
Para adiante do alcance da fala.
Noutro mundo deveras habitava.

Num dia deu um grito medonho,
Terror mesmo, o mais profundo.

Não sei que noutro mundo viu,
Não sei que o trouxe do nada.

Mas sei que até hoje está paralisado.
É um corpo que a própria alma esqueceu.

Aquele foi seu momento único aqui deixado,
O medo manifesto, seu grito desesperado,
Que fez morada no hospício e lá permaneceu.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Sonhos


Dormiu para sonhar
E não se viu nos sonhos
Não mais dormiu
Não mais sonhou
E viu que estava morto.


Entrou na fábrica
Bateu o cartão
Bateu ferro
Apertou parafusos
E viu que estava morto.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Preguiça

Acordei indisposto com a vida
Serei preguiça nas próximas 24 horas
Amigos
Não me telefonem
Não queiram saber como vou
E se preciso de alguma coisa
Sim, preciso e desejo o silêncio
Mas, o silêncio que não incomoda
Não quero o silêncio das lembranças
Não quero o silêncio dos amores perdidos
Não quero o silêncio dos sonhos mortos
Quero o silêncio que se esqueceu de tudo
Pois estou indisposto com a vida e
Viver, às vezes, nos dá preguiça.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A vida dos santos

O livro
Falou-me da maldade dos homens,
Das crueldades e tudo que já sabemos.
Coisa medonha, coisa medonha!
Deus meu, sei que causo incômodo
A Vossa solidão eterna:
Mas, tenho notado
Que este espetáculo repetitivo
Vos deixa distraído,
Além de ser uma boa maneira
De testar a fé dos amigos!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

As cruzes do caminho


A cruz na beira da estrada
É a memória de alheia jornada.
Foi ali que alguém deixou a vida,
Foi ali que alguém virou saudade.

Assim, prosseguimos viagem,
Deixando muitas cruzes pelo caminho,
São nossas memórias, nada além,
Até viramos saudade também.

Viajante, no prosseguir é importante,
Ao cruzar com a solidão da madeira vazia,
Fazer o sinal da cruz,
Rezar ao pé da cruz,
Pois de cruzes são feitos os nossos dias.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Dos perigos de ser só

Deve ser pavoroso encontrar-se
Consigo, sem ninguém, a sós de verdade.
Creio que o hospício está cheio dessa gente
Que se encontrou.
A realidade, o eu nu e só,
A consciência de si,
Enlouquece.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O crime do capiau

Matou a Língua Portuguesa
Na mais cruel e cru crueldade.
Com uma faca desossou os "esses".
A pauladas trocou os "eles" pelo "erres".
Depois, cortou em pedacinhos
A Gramática e o Aurélio.
Feliz, lavou as mãos no rio,
Esticou a vara de pescar,
Inclinou o chapéu de palha sobre a testa,
Acendeu o "paieiro"
E lascou assunto a seu cão perdigueiro:

"Eita, vida amargurada, sô,
Não matei ninguém não,
Só dei sumiço na soberba,
Bestagens dos bestuntos,
Nas coisas de nego metido!".

O cão olhou para o capiau
Abanou lentamente o rabo
Como se matutasse
E latiu duas vezes.

Na conversa da cachorrada
Que vive nos matos,
Na língua deles,
Que não tem gramática,
Dois latidos significam
"Ocê tá certo memo!".

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O que se leva dessa vida

O amor varia em sentido,
Direção e intensidade.
É um vetor, dirão os físicos.
A flechinha do Cupido,
Dirão os tolos apaixonados.
Mas medi-lo, quem pode?
Não há ciência no amor,
Não há nada que o explique:
Ama-se e pronto.
De resto, nesta vida besta,
Nos sobra pouco.
No final, no acerto que é certo
Com nós mesmos, ali,
Antes do último suspiro,
Saberemos da única bagagem
Que nos será permitida.

Não é a glória,
A vaidade dos homens,
Nem o dinheiro
E também não é
O lamber no próprio umbigo.

É a saudade do que foi amado,
O amor tido e havido.

Por isso vou contente,
Já com os braços cansados.
Amei quem quis um dia
E noutros dias fui amado,
Pois é assim que funciona
Este mundo de amalucados.

Mas, Senhor, dúvida tenho
E pela dúvida sou consumido:
Se vou seguir caminho e pedir
No Céu direito à vadiagem,
Quem é que vai me ajudar
A carregar no peito tanta bagagem?

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Penumbra

Apago a luz
A claridade me incomoda
Quero a penumbra
E o que ela guarda
Saudades muitas
Vontades muitas
Detalhezinhos esquecidos
Ditos ao pé do ouvido
Entre dois copos de vinho
Nada além disso
A luz me mostra o hoje
Quero o ontem
E para tê-lo
Tenho que me escurecer.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Versos livres


Há aqueles caídos do Céu
Há aqueles no Inferno moldados
Há versos de todo tipo
Que, porém, precisam ser talhados

Pode ser um verso medido
Na métrica de Vergílio ou
Na tristeza de Ovídio exilado

Para o verso não há modelo
Pode ser um verso com rima
Sem pé, sem ritmo, sem apelo

Pode ser um
ver
so
caído
e
Tor
to
Feito e maltratado
Rabiscado e desfeito

Não é bárbaro rimar no verso paixão,
Alegria que se faria e dor que se tem,
Do coração vale o que está guardado

Lembre-se, não há verso amarrado
Mesmo que nascido na academia
Mesmo que vivo na voz do matuto

Verso também não carece de tamanho
Pode ser gordinho como um hipopótamo
Pode ser denso como um paralelepípedo

Verso não precisa de salamaleques
Ponto, ponto e vírgula, hífen, coma
Pois, a pausa feita é d'alma a oferta

Certa coisa é fundamental e certa
Para se ter um verso verdadeiro
Há de se ter um poeta por inteiro
Que faça da língua canto e alerta

Por isso, aos novos poetas digo

Cantem bardos escravos
Cantem homens perdidos
A vida só nos reserva os cravos
Que vazaram as mãos do Cristo

Aqui expiamos nossos pecados
Aqui exercitamos nossos vícios
No verso, que é a cruz do apenado,
Ofício belo, alegria e sacrifício.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Mundinhos

São tantos os meus mundos
Que perdi a conta e o entendimento
Compreendê-los não sei
E penso mesmo se vale a pena

Aos mundos ofereço a minha ignorância
Assim, com as mãos em concha,
Cristalina, para ser aos golinhos tomada

Tenho um mundo criança
Um mundo inocente e de riso
Que ao longe me vê perdido

Tenho um mundo ausente
Que nele desejei ficar
E lá vai ele... Vai... Tão ontem

Tenho um mundo morto
Que tento em vão ressuscitar
É morto e morto deve ficar

São mundinhos na memória rotos
Lá vai tempo, para que tê-los de novo?

Mas, o que faz caso em mim
O que incomoda mesmo
É saber não ter mundo algum
Com você divido e inventado.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A arte da desconstrução

Mazé tenta encontrar arte na realidade
E encontra,
Na horizontalidade, nas verticalidades
Nas paralelas
Sobrepostas a escombros.
Há beleza no que foi desfeito,
Há simetria no desarranjado.
A arte
É uma desconstrução
Que se reinventa.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

As Parcas na sala de costura


Nona, deusa estranha que a vida tece,
Ganha todos os dias várias encomendas
E quando pica o dedo com suas agulhas
Grita e chora a dor de todos os partos.

São simples encomendas apenas, sem paga,
Sem preço é a vida que pelo seu fio passa.
Chora a mãe de felicidade, chora a criança
Que vem à luz; chora a Parca sua desgraça.

Décima dá tamanho para o fio do condenado.
É triste o labor desta deusa que cose a vida
Em bordado único, sem cor, sempre inacabado.

Chorem as divindades, que se revoltem os deuses,
Que chorem Nona e Décima. Pois não há piedade
Na cega tesoura que a inclemente Morta carrega.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Moda do matuto na quermesse

Veja a lua imensa, quanto brilho nela vai.
Vou sair hoje, a benção mãe, a benção pai!
Dia de quermesse e de muita prece,
Quero encontrar Maria Francisca,
Moça bonita e sem namorado,
Meu Santo Atonio, que pecado:
Bonita de fazer doer, linda de adoecer.

Coração sozinho não fica no cercado,
Abraço só é bom, se for apertado.

Sei que tem muito mocinho letrado
Que me acha caipira e abestado.
Tá certo, sei que não sou estudado,
Mas isso aqui também sei,
Que há coisas que o matuto valoriza na vida:
Ter no peito sempre um canto para os amigos,
Uma sandália velha para descansar os pés,
E para acalmar o fogo, os carinhos da mulher.


O que interessa ao roceiro é o roçado,
O que interessa ao amor é o amado.

Maria Francisca está sem namorado
Bonita de fazer doer. Linda de adoecer.
Moça solteira- Santo Antonio, que pecado!

Coração sozinho não fica no cercado,
Abraço só é bom, se for apertado.

Iracema nua

Iracema perdeu o juízo
Anda nua por aí
Corre atrás das crianças
Entra nos matos
E grita desaforos.

Iracema perdeu o juízo
Desilusão, dizem
Sei lá, ninguém a conhecia
Apareceu aqui num dia
E foi ficando
A correr pelas ruas
Nua, em giros de cigana.

O menino vê Iracema nua
E sua mãe grita:
"Fecha os olhos, morfético!".
Mas o menino não os fecha:
"Mãe, quero ver como é a desilusão!".

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Encantos

O que me encanta não é saber que vai longe a estrada
O que me encanta, e o que conta mesmo, é a paisagem

O que me encanta não são os livros velhinhos e fechados
O que me encanta é saber que o mundo está ali guardado

O que me encanta não são nossos corações num tolo bater
O que me encanta são nossos corações no mesmo compasso

O que me encanta não é pensar que estou sempre no meio
O que me encanta, e o que conta mesmo, é não saber o desfecho.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Canção Peregrina


À frente, lá onde a vista se perde
O caminho que advém é impreciso.
Mas, só Deus e os anjos sabem
Que para sentir o que agora sinto
O quanto foi preciso caminhar.
Acertei o passo, andei mansinho,
Às vezes, com o corpo aprumado,
Às vezes, com o coração avoadinho.

Sinta as dores e quanta poeira
Que sobre os meus ombros trago:
E estas mãos cheias de adeuses
E nos olhos quantas saudades.

Mas, deixe que eu lhe diga
Baixinho, no ouvido,
Para que ninguém dele possa escutar:
Já tive medo! Medo de continuar.

Hoje, sei que do havido só o silêncio fica.
No fundo, todo medo é medo de sofrer:
O silêncio é o solitário vagido grito
Do destino, canção fúnebre do viver.

(Tolo, penso que a felicidade
Um dia pode me ver,
Cruzar meu caminho
E meus lábios de leve roçar.)

Por isso, sigo adiante
Porque sempre é preciso
Dar sentido a essas pernas
Imprecisas no caminhar.

Sei que estou cansado
E que um dia devo parar
Mas, permita-me, Deus meu,
Entre um passo e outro, rezar.

Rezar apenas... Apenas rezar...

Rezar pelos meus inimigos,
Pelo que ignoro e não sei,
Pelo que vi de maldade,
E por tudo que já chorei.

Permita-me continuar
Ainda hoje, meu Deus,
Seguindo por este mundo,
Moribundo e gasto pela vida.

E quando meu corpo ganhar descanso,
Ou quando minh'alma for desatinada,
Que o Senhor seja sempre o bom amparo
E bendita luz na noite da nova jornada.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Última essência

"Oh, meu deus, minha flor de lótus!...
por gratidão vou partir...
Meu desejo é banhar-me diante de ti."
(Fragmento de poema anônimo egípcio, 1.000 a.C.)


Os poetas nasceram antes das línguas
Porque o homem queria entender o sentir
Por isso, há milênios pelejamos descrever
Aquilo que não se descreve
Porque não há palavras novas
Não há expressões certas
Que medem e pesem nossas almas.

E mais mil anos passarão
Outras flores hão de vir
A rosa, a flor de lótus
Na flora do bem, a flor do mal
Espelhos toscos, foscos
Das gentes, do amado
Do sentimento odioso
Do desejo não explicado
Do que não pode ser dimensionado
E que não se submete a esquadros.

E que venham mais mil anos ainda
E que o poeta desenvolva outras línguas
Precisas, quiçá pretensamente exatas
Tudo isso não passará além do nada
Porque a poesia é reticências
É o desejo que não se acaba
Eterna e sempre ao incompleto atada.

E que venham mais mil anos ainda
Um milhão de poemas escritos
Um milhão de amores encontrados
E mesmo assim, embora tenha lutado,
Poeta algum terá decantado
No destilar do seu canto
De amor, do doce sentir,
A última e bela essência
Da alma leve
Em seu coração pesado.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Paisagem

Faço hora e entrego-me à preguiça
Olho pela janela e o mundo se faz velho
Pinço telas vivas, árvores, jardins
Pássaros, folhas caindo, mesmices
Espero. Esperar é o preço do viver
Vozes, risos, conversas passam
Nada entendo, nada quero entender
A preguiça exige esquecimentos
Desentendo-me, esqueço-me
Transmuto-me em dor
Pois agora sou a paisagem
Deste mundo velho, das árvores,
Das mesmices, dos jardins,
De mim e dos passarinhos.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Balaio do tempo



Gosto dessas folhinhas de barbearia
Elas guardam o calendário
O que já foi e o que há de ser
Num susto, suspiro último
Feito navalha na jugular
Antes do próximo fio de barba crescer

Mas, o que eu queria dizer
É que eu gosto mesmo
É de suas antigas vulgares pinturas
Impressas, estáticas,
Paradas, mudas,
Sem nada marcar
Sem nada delinear
A não ser as paisagens

Gosto dessas folhinhas
Que marcam o tempo que passa
Numa gravura do século passado
Na parede da padaria
(Deus meu, dai-nos o pão nosso de cada dia!)

Gosto dessas folhinhas
Com propaganda do açougue
Da farmácia e da tabacaria
Elas trazem imagens
De um tempo que não foi
Rios que não correm
Ursos que não se mexem
Sol que sempre brilha
Árvores que, mesmo no Outono
Não se desmancham em folhas

Gosto dessas folhinhas
Com cães e gatos
Dividindo o mesmo balaio
Ou crianças de bochechas rosadas
Fazendo uma algazarra sem gritos

Gosto dessas folhinhas
Dessas que enfeitam
As cozinhas das vovós
E que, de tão boquiabertas,
Com o passar do tempo
Acabam em depósitos de pó.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Incréu

Olho para o Céu
A buscar morada.
Coração incréu
Por que buscas
No todo, o nada?

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Quem lhe prendeu, Menina?


Tenho pena de você, minha menina,
Que faz da solidão irmã e sina.
Que triste pássaro este que não voa,
Bem acostumado ao medo e à prisão.
Vi você, menina, solta em finais de tarde;
Que nuvem escondeu o caminho
De sua alegria, de sua louca vontade?

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A doença do verso

De vez em quando, poeta,
Só para justificar a lida,
Deixe seus versos
Ficarem doentes.

Doentes de amor.

Poeta que disso não fala,
Que sobre o amor não escreve,
Não é poeta, é um escrevente
Arranjador de sílabas.
Tão vazio... Tão demente.

O amor é a poesia.

No verso, na entrelinha,
Mesmo que não aparente
O amor há de ser presente;
Mesmo que desta doença
O poema não experimente.

Remansos

Quando a noite chega
Meu coração em paz se faz
E tu me abraças
E tu me beijas
E comigo ficas
És a minha canção de ninar
Que me distrai a madrugada
E teus braços são remansos
Que tiram-me do calor da batalha
Aquecem-me noutra peleja
Na luta que vale a pena
Diz-me: "Sou tua"
Transformada no único sentido
Deste coração quase sempre ausente.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Minúsculo instante

Rio de quem se faz ontem.
O ontem já não é mais.
Rio de que se faz amanhã.
O amanhã ainda não é.

O primeiro é o desfeito,
O segundo vai se fazer.

Por isso, sou o agora,
A hora que me fez e que eu faço.
Pois só existo
Neste mínimo
Minúsculo instante.
O ontem é a somatória
Desses mínimos.
É apenas uma conta
Que deve ser atualizada
Nas memórias,
Nas tábuas d'alma.
O amanhã é a conta
De fazer chegar.

O hoje, nesta agora-hora,
É o eu antigo somado a eu:
O que foi e mais este tempo
Subtraído do que será.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Canção dos bytes


Este poeminha temporão
Sairia de dentro da caneta
Mas, o azul da tinta aviza:
- Rabiscarei nada não!

Pobre poeta,
Que tem que domar
Um poema revoltado,
A caneta que não escreve
E apelar para o teclado.

Deus salve o Século XXI
Que nos deu tecnologia
Para escrever
Com as pontas do dedos
Tudo que vai na caneta vazia.

Agora minha palavra
É um aglomerado de elétrons
Na tela do computador.

E minhas memórias
Se gravam em bytes,
Um Giga de horror.

Salve, santa tecnologia!
Pois, pode nos faltar a tinta,
Que nos falte a caneta,
A veterana ponta do lápis,
Mas, pelo amor do bem sagrado,
Que nuca nos falte a dita,
Da nova técnica o agrado,
A sacrobendita eletricidade.