quarta-feira, 24 de março de 2010

Das formigas e moscas

Várias são as coisas risíveis
Naquilo que chamamos
De espírito humano,
Uma delas é essa estupidez
De portar no peito
O germe do fim
E ao mesmo tempo
Essa soberba vontade
De determinar as coisa infinitas:
Formigas que miram o céu,
Moscas que contemplam a eternidade.

terça-feira, 23 de março de 2010

A liberdade em beleza

Defendo a liberdade do homem,
A liberdade do livre pensar.
Queres dar um rótulo a isso
E sentencias: "sois de esquerda".

Que seja, amigo das etiquetas,
Sei que tu não concebes nada sem marca,
E deseja-me etiquetado e arquivado
Dentro das tuas classificações utilitárias.

Serei, por tua compreensão,
Esquerdo ao sonhar um homem livre?
Há lado mais humano?
Que luta há de ser mais bela?

Dá-me sim este dístico,
Porque a liberdade
Convenceu-me inda menina,
Ao acariaçar um pobre menino,
De sua beleza e fascínio.
E desde lá, a carrego leve,
Em clareza e claridão,
No meu esquerdo
E por demais sinistro coração.

domingo, 21 de março de 2010

Desonra (Pecados capitais)


Não vos envergonha,
Caro político larápio,
Caro jornalista venal,
Caro empreiteiro gatuno,
Caro juiz vendido,
Caro funcionário corrupto,
Caro prevaricador usurário,
E caros advogados do infortúnio,
O dinheiro roubado
Que alimenta
Vossas gordas proles,
Vossas festas grosseiras,
Vossas vaidades,
Vossas luxúrias,
Vossas volúpias,
Vossas iras compradas,
Vossas avarezas para com o bem?

Não vos incomoda
O sono em macio travesseiro
Ter condenado à fome e à morte
Milhares de crianças,
Cidadãs brasileiras?

Não vos incomoda
Ver esse povo sem remédio,
Morrendo em filas
Porque o dinheiro
Da Saúde foi roubado
Por Vossas Excelências?

Não vos envergonha
Saber que até o próprio
Berço em que dormem
Seus inocentes filhos e netos
Foi comprado com o desespero,
Suor e sangue de nossa gente?

Não vos incomoda
Que vossos nomes
E de todas as gerações
Que vos seguirão
Estarão manchados
Pelo labéu desses
Torpes pecados?

Não vos incomodam
As quentes chamas
De inexorável inferno,
Que fatalmente
Vos esperam
Por todo o resto da vida
E na morte impreterível
E sempre inadiável?

Não vos incomoda a desonra eterna?

sábado, 20 de março de 2010

O homem na montanha olha para o umbigo

Tenho que colocar ordem em minha vida,
Comprar um pinguim de geladeira,
Subir numa montanha e lá ficar
A ruminar filosofias e outras besteiras.

Deixarei de usar luz elétrica,
A luminosidade da Lua será suficiente.
Jogarei pingue-pongue comigo mesmo
E ganharei de mim, surpreendentemente.

Terei um cão que não come e não late
E cantarei louvores ao pernilongo
Que suga meu sangue empedrado
Pelo frio de um inverno escuro e longo.

Noutro dia, caminharei descalçado no deserto.
Gosto dos meus pés aquecidos
Por grandes andanças e passos perdidos
Neste mundo que por Deus foi olvidado.

Não ouvirei estrelas, delas nada pode ser escutado.
Depois, descansarei nesses infindáveis dias contente
Por meditar naquilo que eu poderia ter sido
Mas que por teimosia sempre tenho desprezado.

Ao morrer, doarei os meus órgãos ao feiticeiro
Para que deles saia alguma mágica desconhecida
Cheia dos caprichos de quem há vivido
A buscar explicações no próprio umbigo.

Amor físico

Fui atraído pela sua singular matéria
Na razão direta de nossas massas
E na razão inversa do quadrado de nossas distâncias,
Tudo isso multiplicado por uma constante
De atração animal e sexual;
De forma empírica, irracional,
Sem equações e validações matemáticas.

Hoje, estudo a termodinâmica de seus beijos
E a hidrodinâmica de sua boca na minha boca.
Perto de você, as batidas de meu coração
Têm brusca variação na aceleração
E se perdem na velocidade e no tempo.

Já quebrei dois termômetros e um calorímetro
Quando fiquei longe de seus olhos em plasma.
Calor, sentia muito calor. O médico disse ser febre,
Inexplicável e delirante febre de amor carnal.

Ao seu lado sinto-me curado
E temo - e como temo! - que tudo termine
No zero absoluto em que as paixões são extintas,
No zero glacial da total ausência de sua energia vital,
No zero representativo do nada em que nos tornamos
Quando do amor somos ausentes ou em tolice dele desertamos.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Os anjos da procissão

Na Semana Santa,
Em dia de procissão,
Pendurei-me numa árvore
E, pasmado, acompanhei,
Com os olhos arregalados,
Aquela gente que se arrastava
Curvada sobre os círios,
Pendida por tanto pecado.

Menino demônio,
Invejava as asas tortas
De querubins d'outros meninos,
Que seguiam como frades a procissão,
Ainda com os corações limpinhos
Sem a precisão da faxina do padre.

Inveja tola daqueles anjinhos
De asas feitas de brancas penas de ganso
- ou das galinhas mortas no domingo -
Amarradas com barbante,
Em armaduras de arame,
Pregadas em pobre e falso linho.

Foi quando passou o cantadador
Que em dor a procissão seguia.
Lembrei que ele me havia dito,
Em nossa operária feira,
Que poeta pode voar sempre,
A semana inteira, a vida toda,
Em dia bento, na noite do tempo,
Em dias de pagãs folias festeiras.

Poeta pode falar do Cristo morto,
Do Menino em Belém nascido
E em Nazaré criado e havido;
Chorar na Hora do Angelus, nas Ave-Marias,
Cantar a perene tristeza dos homens
E também as suas efêmeras alegrias.

Para isso seria o bastante
Montar nas asas da poesia
E seguir a procissão dos danados,
Dessa gente que quer a remissão
Dos seus seguidos terríveis pecados.

Perdão para essas pesadas cruzes
Arrastadas em molesta paixão
Pelo mesmo calcário da Via Crúcis
Que levou Jesus, o Cristo, a ser crucificado.
Cristo, o filho e cordeiro de Deus imolado,
Que por nós derramou o seu sangue inocente
Nas pedras do Calvário em que foi fincado.

(Escorreguei da árvore e tive uma queda suave como folha em tarde de outono.
Por certo que, desde aquele tempo, o verso já me amparava na leveza do vento).

Os dias de março

Os dias de março caminham velozes.
Outros marços caminharam velozes,
Mas os marços de infância
São tão lentos, tão lentos
Que custam chegar a minha memória.
Havia neles surpresas de hora em hora
Havia neles brinquedos de criança
Havia neles o desejo de chegar ao agora
Para descobrir que os bons marços
Eram aqueles de outrora.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O último poema de Safo

É, querida Safo, tua poesia perdeu-se
Por sacanagem dos monges copistas.
Pensavam fazer justiça com as próprias mãos
E condenaram os velhos costumes de Lesbos.
A intolerância deles deixou muito pouco de ti
E um grande legado à imaginação humana:
Como eras, como dirias, como escreverias
Sobre o amor avessado de fêmea para fêmea?
Hei de perguntar a Cronos, ao deixar o mundo dos vivos,
Em que obituário do tempo consta teu último poema
E por que a ignorância tomou-te a pena?
Da segunda pergunta suspeito resposta,
Mas da primeira, como gostaria de lê-lo!

Desconstrutivismo poético

Não apontes para mim!
Não sou adulador dos hipócritas.
Não me peças que a minha poesia
Sirva para reerguer as ruínas
Deste teu podre mundo!

Canto o canto do que se aniquila
E, desprezando todas as claves,
Gravo no pentagrama os agudos
Que compõem a sinfonia
Da universal desconstrução.

Nela estão os gritos
Dos que padecem,
Os graves urros
Dos desesperados
E os calmos e confusos murmúrios
Daqueles que, em vigília,
Oram por perdidas almas.

Não me condenes por ter nascido poeta
Num tempo em que os poetas são anacrônicos.

Por isso,
Não sigo os códices dos profetas
Que falam em nome de Deus.
Contento-me, apenas, em sentir Deus
Na aragem da manhã
E até mesmo na putrefação
Dos cadáveres desses dias defuntos.

Não me condenes por ter nascido poeta
E devoto da verdade, mesmo que nunca encontrada.

Por isso,
Não sigo os líderes da multidão,
Os enganadores e aproveitadores,
Contento-me, apenas, em seguir-me
Guiado por essa antiga e esquecida guia
Que é a liberdade de dizer não.

terça-feira, 9 de março de 2010

O cheiro do fim

Vejo-vos, amigos, mui preocupados
Com a flatulência dos séculos
A consumir a camada de ozônio.
Destino cruel esse da humanidade
Que, ao acalentar sonhos ledos,
Prepara-se para ser exterminada
Pelos próprios e flácidos peidos!

Suruba atômica

Diz-me que gasto tempo
Ao estudar a ciência dos homens.
Apraz-me, caro amigo,
Ver a suruba dos átomos nas moléculas,
Dos dativos elétrons,
E constatar que nós somos
Um amontoado de células
Que brigam para não envelhecer.
Há muita justiça nisso,
Pobre ou rico,
Ignorante ou erudito,
Todos estão à mercê
Dos distúrbios eletrolíticos.

domingo, 7 de março de 2010

Crueldades celestinas

Nunca mais cuidei das roseiras.
Na realidade, elas dispensaram-me
De tal insano empenho.
As rosas brotam, exuberam-se
E tornam à terra por si,
Sem a necessidade de exéquias, requiem
E lamentos de carpideiras.
Nada será diferente disso
Por maiores que sejam os meus cuidados.
Elas serão sempre reféns do ciclo
Contido na celestina crueldade
Da beleza sucedida pela tragédia.

sexta-feira, 5 de março de 2010

O olhar do carrasco

- Viver é isso: esperar a morte apenas?
Dizes que não há resposta
E que a porta do compreensível
O vento da noite há de ter fechado.

(Um cão passa e, em comiseração, mija no poste)

Falas de algo que não entendo,
Falas de mim.
Logo a mim que nada falo!

Olhas para meus olhos
Que de há muito deixaram de ver
E uma luz enlaça-me ternamente.

Olhas logo para meus olhos
Vazados pelos punhais em brasa
Desses horrores diários!?

Olhas logo para meus olhos
Que até ontem louvavam a misericórdia
No negro capuz oferecido pelo carrasco
Às suas vítimas antes do definitivo ato?

Olhas logo para essas duas covas rasas
- Lagos constantes de lágrimas -
Cavadas pela pá da descrença
Na minha já mui cansada face?

Não queiras ser enterrada aqui,
Pois é grande a tristeza que há de te cobrir.
Olhos de poeta são os túmulos dos profundos enganos:
Executores que fingem ser belo o que já é putrefacto;
Dissimulados cantantes da manhã que ao nascer já caminha pelo cadafalso do dia;
Carrascos que compõem a canção fúnebre da nossa miserável e mortal condição humana.

(Piedoso, o cão volta e mija no poste; assim, o cão passa a ter sentido para o poste)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Todos os e-mails de amor...

Escrevo-te e-mails instantâneos
Tão ridículos quanto as cartas de amor
Do tempo de Fernando Pessoa.

(Escrever coisas de amor
Será sempre esdrúxulo a qualquer tempo)

Criatura, hoje não há mais carteiro!
Meus e-mails trafegam pelo ciberespaço
E, miseravelmente chegam, talvez,
Ao imaculado juízo de teus olhos
Não mais em mal traçadas linhas;
Sem perfumes, sem pingos de lágrimas.
São elétrons ridículos a falar de amor
E que temem a despropositada tecla delete
Ou o simples esquecimento na tua Caixa Postal.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Os mortos não sangram

Triste menina, arma-te com a armadura de Joana,
Empunha a lança da esperança que te faz jovem.
Não dês demasiada importância ao sangue de teus joelhos,
Cair nos é tão comum e somente cai quem em pé caminha.
Apanha este sangue com as mãos em conchas
Esfrega-o no rosto e sente seu calor.
Este rubro esteve há pouco em teu coração
Conhece a ti, pedaço por pedaço.
Nota como ele está quente e fresco,
Saiu do teu corpo para avisar
Que tu pertences a esse mundo indecifrável,
Detestável às vezes, porém por si, maravilhoso!
Mundo que só deixa sangrar os vivos,
Porque os mortos já não mais sangram.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Miragem em bytes

Vi teu rosto ontem na tela do computador
E desde então considero-te verdade.
Sim, já havia te visto antes
Belíssima miragem;
Até falei contigo, tomamos cerveja,
Criticamos esses velhos-novos tempos,
A falta de diálogo,
O homem automático,
O homem expresso em bytes
De oito bits e coração zero.
Mas precisava disso,
Ver teu rosto no computador ontem
Para perceber-te em verdade e real.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Sabedoria do rio

Ah, esta incrível mania, amigo,
De querer saber donde o rio vem,
Em que lugar vai ter e desagua!
Toma de sua água
Se isso te agrada.
Banha-te nele
Se isso é de tua vontade.
De onde ele vem
E em que lugar ele vai dar
São mistérios da sabedoria do rio,
Algo, velho amigo,
Algo que nunca vamos alcançar.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Devassa

Teu beijo, amor meu,
É a mistura de finas essências,
A quintessência da loucura.
Tem o frescor da água pura
E a violência da tempestade
A surrar um campo de trigo.

Mas, ao sentir-te melhor, amor meu,
Vejo que teu beijo
Tem um leve amarguinho de fundo,
O amargor do lúpulo do coração
De todas as fêmeas.
É por isso que te bebo
E vivo embriagado de ti.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Valéria de alma tatuada

Valéria ficou louquinha.

Louca de dar tapinhas
Em mosquitos imaginários,
No noivo que não existe
E na bochecha roxa do própria face.

Valéria ficou doidinha.

Encantada noutro mundo,
Ela deseja tirar a velha
Torturante tatuagem d'alma:
Um anjo de asas curtas,
Genuflexo e suplicante.

Valéria não quer a castidade.

Aliás, ela nunca desejou tal santidade.
Valéria, a louca Valéria,
Quer casar dez vezes em Coimbra.
Dez vezes sim! Dez vezes
Para que seu noivo dela não se esqueça!

Valéria diz que seu anjo agora ri.

Ele gargalha de verdade,
Pois tal criatura celestial
Já não lhe é apenas um rabisco n'alma:

O querubim ficou louquinho.

Ele cedeu suas asas aos mosquitos imaginários
Genuflexos e suplicantes por suas vidas
Ao pressentirem da doida o doidinho tapa!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Colo

Pedi seu colo
Para repousar
Meus sonhos
Tão avoadinhos:
É medo, amor meu,
De sair, assim,
Voando também!

Exatidões

O relógio do tempo
Que nos gasta
Tem estranha
Preferência
Por horas exatas.

Em latim:

Exactae

Temporis clepsydra
Cujus nos consumit
Insolitae primae habet
horis exactis.

Matinais II

Um dia de luz difusa
Com caras confusas

Dá-me a tua mão
Dá-me teu coração

Vamos sair,
Jogar nossas vozes
Pela calçada inda calada.

Acorda os vagabundos
Que dormem em travesseiros de pedras:
"Acordem! A vida é leve,
Os sonhos é que são pesados".

Matinais I

Já me condicionei e,
Inevitavelmente,
Acordo as cinco horas da manhã.
É lógico que não há sol,
Mas a contragosto
Todo santo dia, às cinco,
Estou abrindo as janelas.
Dou adeus às estrelas últimas
E respiro o ar matinal.
Gosto disso, esses elementos
Acordam-me antiga e certa certeza:
O viver é de uma repetição
Para lá de medonha.
Ao longe, muito longe,
Escuto insistente galo urbano.
O miserável canta na manhã a se tecer.
E no topo das árvores
os pássaros planejam
A revoada. Que confusão danada
Para decidir o que sempre fizeram:
Voar na incerteza do dia.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Safadeza universal

Miserável poeta que procura sentido
Nesta sublimação do nada que diz ser vida;
Sinto muito, mas essa busca é vã,
Se há algum sentido, ele por si só não se explica.
Como encontrar sentido naquilo que começa
E, inevitavelmente, desaparece?
Como explicar este tosco existir
Num minúsculo lapso temporal que nos foi concedido
Pela eternidade, com a permissão
E a divina indiferença dos deuses?
Como, torturado amigo,
Justificar essa safadeza universal:
Ser por um tempo para não ser mais no tempo?

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Os olhos da alegria

É, meu amigo, no frigir dos ovos
Quem acaba por se danar é o frango futuro;
Aquele que nunca será!
Portanto, enfeite sua alegria momentânea
Com os brincos da mais linda mulher,
Com os olhos fumegantes de uma fêmea no cio.
A alegria vem e passa,
Torne-a pois, amigo - há de ser assim - bela.
Mas não lhe dê apenas a beleza vulgar,
Que por si só há de ser desencanto.
Dê a ela as suaves notas de um canto
Composto para o sono dos anjos.
Recompense-a,
Porque esta alegria será lembrada
Por você, caríssimo amigo,
Apenas como a raridade
Que nasceu neste cipoal de tristeza
A nos cercar neste caminho tão breve
Que termina ao nos despedirmos da vida
De supetão, quase sempre sem nos dar tempo
Para um mísero adeus, ou um aceninho que seja.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Porrada

Sabe desses dias em que você acorda mijando fora do vaso sanitário?
Fui até a sala e vi as duas torres de Nova Iorque fumando.
- Dor de cabeça! Briguei com a namorada.
"Cadê meu cigarro?"
"O Matheus me bateu!..."
"Não se preocupe minha filha, veja na TV, a humanidade inteira acaba de levar uma porrada!" (11-09-2001)

Efeitos ópticos

Bar.
Ao lado
Retamozzo brinca
Com fenômenos ópticos;
Procura imagens no caleidoscópio
Antes de cantar mais
Uma música boa pra cachorro.

(Mazzinha fala consigo mesmo
E depois canta um esquecido samba
Acompanhado pelo Milani.
- Santo Deus, samba italiano! -
Mazé Mendes não veio,
Por certo, está a desconstruir o mundo
Em suas telúricas telas).

Kambé nos mostra
A cópia impressa de seu último quadro
(Que um babaca comprou
Para enfeitar a parede do escritório).
Cá, deste outro lado da mesa,
Encontro uma lente de aumento
No fundo da garrafa.
Olho para os meus amigos,
Meço-os com a lente verde
E vejo que o coração de artista
Vaza-se em espectros coloridos,
Como um caleidoscópio
A conceber o belo e a beleza
Das almas das gentes.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Agora

Pobre menina,
É impossível voltar
A ser novamente,
O que fomos, fomos:
Em beleza ou sofrimento.
Neste momento,
Resta-nos somente
Ser intensamente o agora
E esquecer o ontem e o amanhã,
Que a rigor, em toda verdade,
Não existem:
Um deixou de ser,
E o outro não nasceu ainda.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

D. Sebastião na claridade de Figueira da Foz

Diviso tão distante Atlântico
E vejo-me em Figueira da Foz,
Luminosa cidade a lamber o oceano.

Sou aqui deste lado,
Deste ocidental mar do desterro;
Mas estou em Figueira oriental,
A juntar minhas lágrimas ao Mondego,
Marinheiro que me faço
Em caravela tropical de puro desespero.

Há em mim a certeza,
No meu peito a esperança,
De que na Praia da Claridade
Dom Sebastião tenha morada;
Vive lá adormecido,
Pois posso ver agora
Sua modesta casa,
Acima de mortais nevoeiros,
Doirada pela luz do Sol
Ou por argentinas noites estreladas.

Ao voltar de dura Cruzada
Acolheu-se ali o soberano.
Quisera El Rey não retornar à corte
Pois, como desejar apenas o brilho dos homens
Se existe tal lusitana praia
Cheia de encantamentos divinos?

Avistara ali, por certo, o rei combatente,
O Desejado dos súditos seus,
Nas areias resplandescentes
O brilho do pó das saudades
Na luzente luz da eternidade
A misturar-se com a criação de Deus.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Asas noturnas

A noite liberta de meu peito todo carinho
Que voa, voa... Até encontrar o seu coração.

Aninho-me nele e sonho suavidades
Ouvindo sua canção a compassar carícias
Doces e eternas como o beijo da saudade.