domingo, 22 de agosto de 2010

O ciúme da Polaca

A Polaca anda estranha,
Deixou seus bordados,
Não assa mais "maréco"
E nem cozinha-me pierogi.
A Polaca anda triste,
Nunca quis tê-la assim.
Ela sentiu cheiro de mulher,
Perfume doutras fêmeas
Em meus poemas.
Ontem, antes de dormir,
Fez discurso, falou desatinada:

- Quero que você escreva meu nome,
Publique minha fotografia,
Cansei de inspirar a sua poesia.

Cansou nada, pensei,
A Polaca está com ciúme
E não sabe que na rima
Nem sempre sua polaquice cabe.
Depois, dormiu com a bunda virada,
Virada para a parede
(E que bunda a Polaca tem!),
De pijama amarrado
E por sobre o lençol.
Chorou e soluçou a noite toda.
Pela manhã, puxou o meu braço
E fez minha mão sentir seu peito
(E que peitos a Polaca tem!):

- Escreva, mas não esqueça
Que meu poeta mora aqui também!

O wojak da polaca

Estou quase morto de cansado.
Distraí-me com geométricos
Cálculos o dia inteiro...

A Polaca toca Chopin...
Ouço a música que julgo
Matemática, tal é a sua perfeição.
As notas em luta,
Fracionadas, nuas e breves,
São os sons dos números
Que saltam do piano
E de repente estancam
Numa nota solta, firme e leve:
- Abrace-me, wojak,
É de amor que devem
Morrer os guerreiros!

Flor seca

A flor morrendo foi,
Seguia destino ao secar,
Assim como os jovens sonhos
Que morrendo foram
No destino a murchar.

O fogo da beata

- A vizinha tem fogo na periquita!
Disse-me a velha beata
Ao fazer o sinal da cruz três vezes.

Sei lá, talvez a menina tenha a bacorinha incendiada,
Pois a vi pela manhã, num frio de freezer,
A caminhar descalça e em trajes mínimos.

E a beata, que devia estar cuidando da própria vida,
Toca a ver hipócrita maldade nos incêndios alheios
E esquece que, no mesmo fogo, forjou onze filhos!

sábado, 21 de agosto de 2010

Flores no céu

A Terra não encontra resistência
Na escuridão do vácuo que atravessa.
Dizem que de longe é rápida bolinha,
Azulzinha! Infantil e inocente brinquedo.

Nela sou boquiaberto passageiro
Às vezes só, às vezes triste ou contente,
Porém estarrecido com tanta velocidade
Ganha na atração dos sóis e planetas.

Aqui, na minha poltrona, nela viajo...
E a Terra executa órbitas elípticas
A embalar meu coração tão estático.

A minha janela abre-se para o céu florido
De estrelas... Deus meu, pare a Terra, pare!
Porque quero sentir o aroma da paisagem.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O beijo na polaca

Por que queres me beijar assim, polaca?
Poeta beija de um jeito diferente,
Com versos que te mordem a língua
E que no céu da boca estrelas acendem.

É que guardei para ti palavras em fogo
Que hão de me escapar ao lamber-te
E que lentas e silenciosas se juntarão
Ao clarão de teus olhos em êxtase.

Não. Não renego teus lábios quentes,
Dulcíssimos como a rubra groselha
A enfeitar teu lácteo corpo, doce deleite.
 
Assim, murmuro a dizer-te o quão és bela...
É que no sussurro também há cálida carícia
A provocar arrepios no vão entre tuas pernas.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Elogio ao clichê

Eu adoraria ser um clichê
De feitio e semelhança
A essas roupas quase perfeitas
Feitas em escala industrial
E que vestem todo mundo,
- Embora nos deixem
Com as bundas ao deus-dará!

Ser o perfeitamente normal.
Ser o ser que acorda pela manhã,
Urina, defeca e vai para o trabalho.

Ser o perfeito pateta.
Ser o ser que acorda pela manhã,
Mija, caga e vai para o calvário.

Ser o perfeito boca-aberta,
Acordar pela manhã
E escancarar um medonho sorriso
Para o papagaio da Ana Maria Braga.

Eu amaria deitar-me num molde
E sair de lá com um rosto imbecilizado
Desses de propaganda de margarina.

Como gostaria de ser um alienado,
Olhar o Sol e contentar-me
Apenas com o seu brilho e calor,
Sem tentar explicar quem no céu,
No meu céu, o Sol colocou.

Seria-me sublime ignorar a existência
E somente existir ignorando a dúvida.

Clichê, artificial alma que pode ser comprada
Em afamadas butiques e grandes supermercados
Que têm em estoque todas a superficialidades!

Como gostaria de sê-lo, impagável clichê,
Para me desobrigar de querer desvendar
Esse mundinho para lá de obscuro e sem verdade.

sábado, 14 de agosto de 2010

Flutuações

Há ambientes em que vejo pessoas flutuando,
Não e não! Não estou com o espírito narcotizado
E muito menos sofrendo sob os eflúvios do álcool.
É que, quando amam, as pessoas flutuam,
Despem-se de suas pesadas carcaças e flutuam.
Coisa de dar inveja, amigo, uma puta inveja!

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Olhos de Capitu

À Fernanda Rocha
Francisco era de Assis,
Machado era de Assis...
Enfim, essa gente de Assis
Costuma avistar-se com
Os anjos de Michelangelo.

Francisco viu Fernanda
E disse que o pecado
Não era tão pecado assim.
Fernanda não peca
E se pecar, a sua beleza
Suplica-nos perdão eterno.
As belas estão dispensadas
Dos atos de contrição,
Ladainhas de piedade
E água benta na língua.

Há cem anos, ou mais,
Nosso escritor Machado
Anteviu no cristal da cigana
Os olhos de Fernanda,
Em obliquidades,
Em relances,
Dissimulados.

Machado de Assis viu ali
Mais do que uma personagem.
Ele viu todas as possibilidades
Nos olhos de uma mulher.
Fernanda tem olhos de Capitu!
Abismos por debaixo da rocha
Que deixam casmurros,
E permeados na dúvida,
Os ousados olhares
Que com o de Fernanda cruzam.

A polaca toca Beethoven

Ouço a Sonata ao Luar...
Os dedos rosas da Polaca
Contrastam com o branco e preto
Do teclado do piano quase espelho.
Tento dizer algo, pois é manhã,
Faz um frio tremendo e ela,
Entre os graves e agudos,
Exige-me pianíssimo silêncio.
Na última nota, uma lágrima
Imponderável escorre de seu rosto
E nele deixa um rastro de felicidade
Que se deseja impossivelmente
Em terna e eterna eternidade.

sábado, 7 de agosto de 2010

A Polaca canta

Ela lava a roupa e canta
A canção da velha Polônia,
Triste saudade. Saudade triste.
(Saudade que só seria possível
em palavra nos corações lusitanos!):
Cante Polaca, cante, cante
E alveje assim, em velha tábua,
Minha triste e encardida alma.

Plumas

Ontem ventou sobremodo.
Almas pesadas por aqui ficaram.
Poetas com plumas no peito
Voaram e desapareceram
Pela escura cortina noturna.
Meus bons amigos seguem caminho...
Porém antes, ainda deste lado,
De pé sobre as mesas dos bares
Declamaram bárbaros poemas
E eivaram-se no desejo do verso
A exigir única morte honrada
Neste mundo virado num pandeiro velho,
O bom fim por cirrose hepática.

Sentinela

- Quem vem lá, no calar da madrugada?
- As horas que estão por vir...
- Sois boas ou ruins?
- Somente a noite sabe, mas ela é calada!
- O que guardais para mim?
- Rumos incertos em horas exatas, mais nada!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A polaca dorme

Acordo e vejo Curitiba com seu sorriso cinza.
Molhada, a cidade aguarda-me com seu abraço frigorífico.
Encolhidos, os pássaros congelam o voo e vegetam no alto dos pinheiros.
Os cães latem na cadência da chuva fraca e contínua.
A polaca ainda não foi comprar broa de centeio na panificadora, dorme, dorme.
Perdeu a hora sob a colcha de retalhos amarelos imitando o Sol, quente, quente.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Nemo

Amo o pobre, deixo o rico,
Vivo como o tico-tico.
Luís Gama

- Nemo é nome de peixe -
Esboça em sua sabedoria
A menininha para este velho
E miserável poeta.

Digo-lhe em minha sapiência
Ganha a duras penas
Das traças das bibliotecas:

- Houve tempo, no tempo de Nero,
No tempo em que nossa língua
Nem existia e Portugal ainda dormia,
Que "nemo" significava ninguém.

 - Mas, como alguém pode se chamar ninguém!?! -
Duvidou a infantil mocinha, fã de desenhos animados.

- Qualquer pessoa pode se chamar ninguém.
E garanto: ser nemo na ordem universal
É nosso estado absolutamente natural!

A infanta me olhou, franziu a testa e emendou:
- Nemo bobão!

Dá o mesmo trabalho, vivente!

Gastar a vida na multidão
Gastar a vida sendo você

Gastar a vida na ignorância
Gastar a vida no conhecimento

Gastar a vida no rancor
Gastar a vida no amor

Gastar a vida em coisas menores
Gastar a vida em que vale a pena

Gastar a vida esperando a morte
Gastar a vida vivendo apenas.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

A palavra

A palavra para dizer tudo
Que precisa dizer a palavra
Deve ser cunhada num poema
(Invariavelmente recolhido
No silêncio dos livros!).

Em seu gosto e sabor
Deve ser açucarada na ponta da língua
Mesmo se nascida em amargo peito contrito
E vomitada por desprovidos de espírito.

Algumas vezes
Deve ser paina só e esvoaçante
Pelo céu em tarde quente
E de calma, calma brisa.

Outras vezes
Deve ser a trovoada - com cuidado! -
Porque o raio na tempestade
Fulmina a verdade do verbo.

Sempre, sempre
Deve desprezar os penduricalhos
Os enfeites de última hora
Que lhe dão falso brilho.

E pela eternidade
Deve ser densa em sua precisão
Porém suave no significado
Para não machucar os dicionários.

sábado, 24 de julho de 2010

Vento na macega

"Ainda sinto na pele o sol e a lua,
ouço a chuva cair na minha rua,
e a vida ainda me aperta nos seus braços".
Fernanda de Castro in 

"E Eu, Saudosa, Saudosa"


Ame, triste moça! Ame, pobre pirralho!
Amem! Amem ao infinito, jovens e velhos!
A vida afora amar não pode ser algo
Além de daninha erva a espera da sega.

Amem! Proclamem algures e alhures a pessoa amada.
Gritem! Pode ser clamor avulso e perdido na tarde.
Importante que o amor a todos seja gratuita dádiva,
Porque se abrasada, toda macega na ventania arde.

Assim, que nos incendeiem os estrênuos ventos
Por este mundo feito de tumulto e tempestades.
No amor sabemos que não somos bem seguros,
Sem amor somos no mundo o conteúdo do nada.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A felicidade é polaca

Doirada toda até nos mais escondidos pelos
Por sobre uma pele arrepiada em puro rosa,

És albinua sob a Lua,
És o lume do meu Sol,
És a minha lúdica polaca.

És aquela que grita lá da cozinha
Inda esfaimada, em pelo, sem pudor:

- Estou fritando "maréco", amor!

E doiras na intensa chama a ave
Que, na cama, darás a comer
A este poeta que sofre no torpor
Da anterior extenuante cruzada,
Mísero sarraceno sobrevivente 
Do mais loiro dos incêndios.

domingo, 18 de julho de 2010

Carta de mundo distante

Sonhei ontem ter recebido carta tua, grata amiga.
Vê o quão reveladores podem ser os sonhos,
Em especial, esses que conosco envelhecem!

Quem hoje ousaria escrever cartas, estimada minha?
No máximo um e-mail, um SMS, mensagem de celular.
É, o mundo mudou, não há mais Código Morse,
O plec-plec-plec nervoso dos galopantes telégrafos,
Somente há o infotráfego sequencial em óticas fibras.

Somos cidadãos do mundo e instantâneos.
Ganhamos mais tempo para perder mais tempo,
Essa é a verdadeira lei a nos reger os dias.

Mas eis o que te dizia: recebera perfumada cartinha,
Dessas que vinham em leve envelope par avion
E com as bordas nas cores de nossas vidas:
Liberté, égalité, fraternité. (Lembras disso?).

No papel tu descrevias vários países da Europa,
Os cafés de nossa luminescente e belíssima Paris,
Homens preocupados com mais uma crise econômica
E contava que tua missão na ONU estava terminada.
Tudo acabara, requereste aposentadoria e descanso.
A Amércia Central feriu-te e deixou-te o coração fraco,
As guerras no Golfo e nos Balcãs foram-te a gota d'água.

Mas, que sonho triste e besta. Simplesmente, tu não mais existes!
Sumiste na fumaça do ataque a bomba, covarde e terrorista.
Foste e deixaste os velhos sonhos numa carta possível,
Porque somente os mortos podem escrever para os mortos.
E depois, tenho que te dizer, há tempo não abro a caixa dos correios.
Para o bem de minha saúde, desisti completamente de esperar
Neste mundo em chamas, a ranger os dentes, notícias que valham a pena.

O pano que nos cobre

Não sei se Bandeira disse, mas deixou latente:
A maioria dos poetas reescreve seus poemas,
Seja logo após escritos, no prelo ou pendentes.
São vestidos de festas que devem ser revistos.

O poeta, alfaiate atento ao pano cosido,
Sabe que sempre cabe um ponto novo,
Um alinhavo, uma lantejoula, uma cava,
Naquilo que há dito, porém obscuro.

Ah! São tantas as festas, tantas divas
Disputando as mesmas blusas e saias,
Que o poeta junta panos com cega agulha:
Corisco no céu a bordar estrelas nuas.

Há poemas que exigem trajes de freiras,
Mui pudicos como anjinhos de sacristia,
Porque falam de coisas de sério respeito,
D'alma, de Deus, da morte e seus ofícios.

Há outros que nos saem peladinhos ou seminus,
Impróprios, na devassidão e luxúria implícitos,
Que deixam a bunda e seios da amada expostos
Porque o amor é para o poeta única sina e vício.

Há poemas que exigem apenas vestes comuns,
São os escritos de exercício, calmos e sisudos.
Para esses, costuramos uniformes de trabalho,
Macacão de operário, ou um terninho rústico.

Mas fato é que, seja a poesia de qualquer tipo,
Ela sempre há de nos exigir atenção e labuta,
Às vezes no temível arremate capenga ou bonito,
Ou nos "as"  despidos da crase, esta filha da puta!

sábado, 17 de julho de 2010

Meu coração

Não mais pulsarás
Vou te congelar
Numa câmara fria
Usando a criogenia
Dos adeuses
Das barregãs perdidas
E das amantes
De um único dia.

Não mais baterás
Pelas belas mulheres
Pelos perfumes alucinantes
Pelo amor terrível
Em outros peitos lascivos.

Não mais sentirás
Encantos
Nos oblíquos olhares
Nos sorrisos dissimulados
Nas formas de feitio feminino
A chamar-me para o pecado.

Serás apenas um enfeite
Da vida meu pingente
Frio como o vácuo das trevas
Inerte como solitária erva
Que alegra este mundo
Porém, estática,
Às criaturas serve de pasto.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

De esquina

Vou ver se te esqueço lá na esquina.
Depois do chope,
Deixarei toda saudade na latrina.

Vou ver se te esqueço lá na esquina.
Depois da dor,
Outros amores, eis a nossa natural sina.

Vou ver se te esqueço lá na esquina.
Depois do vinho,
Dormirei na casa de suspeitas meninas.

Maltratos do tempo



A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus.
Vinicius de Moraes

Desejo tolo,
Impossível e tolo,
Vê-la novamente
Na mesma juventude,
Em igual meninice
Que hoje é perdida
Na noite dos anos.

O tempo nos maltratou
Tanto, tanto e tanto quanto
A leve água em velha rocha
Mortificada na areia fina.

Somos gastos, este é o fato
E para isso não há conserto
Ou salvadoras cirurgias plásticas.
Reforma-se a pele,
Jamais a alma em andrajos.

De resto, o que nos resta,
É o desespero
Contra essa ordem
Violentamente natural:
Todo nascer
É o princípio da decadência
E beber da vida é morrer
Num requinte perverso,
Lentamente, aos golinhos.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Sou substância e palavra

Sou substância e palavra,
A junção de químicos elementos,
A vida pensada pelos deuses
Que se alimentam de vento.

Minhas células nunca dormem
Nem dormem meus pensamentos;
Há horror no roubo dos elétrons,
Há temores naquilo que faço e penso.

Minha palavra é impulso fotônico
Moldado em ancestral gramática
Dos que passaram pela vida
A juntar primitivos grunhidos aos fatos.

Meu amor, meu ódio, meu silêncio,
Meu querer, meus distanciamentos
Podem ser mensurados pela elétrica
Pulsão do coração e seus batimentos.

Quando rio, sou o riso dos mésons discretos.
Quando falo, sou o falar dos compostos.
Quando penso, sou o pensar dos fótons.
Quando vivo, sou dos átomos o triste gesto.

domingo, 11 de julho de 2010

Ao pé da serra

Denso, mas transparente
Como uma lágrima...
Quem me dera
Um poema assim!
Mário Quintana


A translucidade da fria cascata
Aproveitava-se das sombras
Para refletir no fundo do rio
A nudez angélica de teu pudor.

Ao longe, os morros da serra
Espiavam nossa ingênua natureza
Feita de inocentes brinquedos,
Espumas sobre as duras pedras.

Nossos lábios gelados aqueciam-se
Em beijos refrescados pela torrente
E dispensavam, assim, toda palavra
Que, em desdém, o puro amor rejeita.

Livres, naturalmente libertos e leves,
Amava-nos sobre a rubrocidade
Do pejo do espelho que nos tinha presos
Em abraços abrasados nas águas imersos.

sábado, 10 de julho de 2010

O monge na cela

Logo agora, que me dedicava à vida monástica
E como um monge perambulava pelos jardins
Recitando elegias de malditos e ateus poetas.

Logo agora, em que resolvera renovar os votos
De amor à antiga companheira, à solidão plena,
E desacreditar na verdade dos amores das fêmeas.

Logo agora, tu me apareces a confundir-me as preces
Balbuciadas em lábios trêmulos em que pende o cigarro
A fumar, após o pigarro, meus pensamentos indecentes.

Logo agora, vens iluminada apenas pelo branco da pele,
Nua, sem nada, ornada somente com o doirado dos cabelos...
Nua, na noite, abandonada na cama de lençóis incandescentes.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Das razões do riso


Calados, sós então sem companhia,

íamos, um adiante, o outro em seguida,
como frades menores, pela via.
Dante Alighieri

Não sei, amigo, quanto te custou este teu riso fácil,
Este sonoro gargalhar de tua grave e própria miséria.
Digo-te: não há graça e grandeza no que nos espera!

O mundo já nasceu com vontades de desaparecer
E nos reservou apenas essas pequenas paisagens
Sempre exibidas com variações de luzes em disfarce.

Rir, amigo, é fugir do choro desejado constante
Pelos fados revelados nos anéis dos orbes celestes
E por este vago Universo que se expande e fenece.

Nascemos, amigo, já vítimas dos minutos que nos arruinam,
Com curtos braços para longas e contínuas despedidas
E olhos úmidos para serem secados pelo sal da terra.

Rir, amigo, é o nosso jeito de fugir do terror e do medo
Ao nos sentirmos abandonados no oceano do incerto,
Na titânica ignorância da existência e de nós mesmos.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Olhai os lírios do campo

Passou por este mundo
Como um lírio do campo,
Nada teceu, nada fiou.
Vagabundo, vestiu-se de trapos.
Ignorou, por conta e risco,
O esplendor de Salomão
Em sua diviníssima glória.
Porém, amou perdidamente o Sol
Que lhe matou aos pouquinhos,
Infinitamente, todos os dias.
A luz, que lhe dera cor e vida,
Fora-lhe também a escura mortalha
De toda beleza sempre efêmera.

sábado, 5 de junho de 2010

Cirurgia para peito doente


Abrir o peito com uma fina faca
E dele retirar a alma em essência.
Será isso um procedimento cirúrgico
Para conhecermos quem nos habita
Há tanto tempo, o tempo todo.

No começo,
Ela, a alma, aparecerá fetal,
Ligada pelo cordão umbilical
Ao que nunca entenderemos de fato,
Aos deuses que nos conceberam,
Aos demônios que nos forjaram,
Aos infinitos que nos impõem susto e medo.

Depois, a alma
Será criança curiosa.
Chamará a si os sentidos
Para sentir o mundo
Ao tatear os elementos:
Sentirá no rosto o mistério da chuva,
O frio do vento que a tudo leva
E será arrastada também, sem rumo.

Depois, a alma
Será a adulta dúvida de si,
Esquecerá sua natureza etérea,
Assumirá a dureza dos concretos
Que cegará aquela fina faca
A nos libertar do nosso próprio peito.

Assim,
Os homens que conhecem suas almas
Estão curados e se privam da loucura.
É fácil reconhecê-los:
Portam no tronco estranha cicatriz,
Ferida mal fechada, mal costurada,
Mas que lhes devolveu a sanidade.

Não pense escapar,
Não há como fugir do cirurgião,
Todos estão fadados
A essa incisão terrível.

É certo,
Que alguns não devem suportar
A ausência dos anestésicos
E o inevitável encontro
Com a essencial fragilidade
Imaterial que nos faz vivos.

Amolemos nossas facas nas pedras em que tropeçamos.
Afinal, do que nos serve a vida, se desconhecemos
O mistério deste sopro divino que nos habita e sustenta?