quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Sutiã & calcinha

Você se veste
Procura a calcinha
Fica brava
E acha o sutiã

Céu claro lá fora
Procuro seu nome
Na memória falha
Fico bravo
E acho outro nome
Que em meu travesseiro
Escondido guardo

Estou cansado
Durmo, acordo, durmo
Você sai, nada diz
E a porta fica entreaberta
Cubro o rosto
E deixo meu vagabundo coração
Exposto e sem chaves.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Reporquices

Ao jornalista Valdeci Lizarte

Um crime,
Redação,
Polícia,
Escrivão,
Assassinato.
Fotos, furo,
Um sanduíche de presunto,
Um escândalo, cadáver,
Declaração do meliante,
Instituto Médico Legal.
Relatos, atos, pratos.
Uma feijoada,
Um roubo,
O acusado...
E a certeza que somos
Arautos da porquice humana.
- Por favor, me passe a pimenta e a mostarda...

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Teus filhos




Ó Deus de todas as eras! Deus da guerra!
Vejo de novo as crianças trucidadas,
Mortas no solo sagrado palestino
À sombra da igreja, templo e sinagogas.

São cenas de terror ou apenas cenas
Para lembrarmos de tua ira e grandeza,
Ou para mostrarem nossa crueldade
Tão grande quanto de ordinário assassino?

São cruéis teus caminhos e mistérios,
Que toda fé não resiste e sucumbe
No sangue desses inocentes meninos.

Vamos à guerra em teu nome, bom Deus!
No matar - tolice! - não somos covardes!!
No matar somos, em verdade, teus filhos!!!

I

Terra de homens e santos,
Sagrada, purificada,
Santificada por teus mártires,
Levanta teu véu para chorar,
Levanta teus olhos e vê:
De tuas fontes brota o sangue
Do terror, da dor e morte.
Não escondas mais teus crimes!
Todos já sabem da infâmia
Ocultada pelos teus muros,
Outrora sólidos, firmes
E hoje finas cascas de vidro.

II

Ó Israel! Ó vil lugar
Da discórdia e do pecado;
Em nome do que é sagrado,
Hipócritas, despi-vos do véu!
Mostrai que vosso Deus é a paz,
Mostrai que vosso Deus é a vida
Tão sagrada quanto a terra
Que vossos imundos pés pisam.

Soem as trombetas agora,
Mostrem a carnificina
E que os céus nunca perdoem
Estas torpes iniquidades.
E que os infernos recebam
Os animais que usurpam
O Santificado Nome
Para matar a inocência.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Cantiga para o anão de jardim


Como dormir nesta noite de fadas?
Um duende ronca sob minha cama
E uma voz da floresta ao lado me chama
Para ouvir as histórias que guarda

Calço meus sapatos, arrombo portas
E num escuro caminho me lanço...
Lá longe, o anão brinca no balanço
E canta uma cantiga esquecida e morta

Sua voz tem o timbre d'um gramofone,
Que acorda a Lua e ilumina esta noite insone.
O estranho homem conta-me um segredo:

"Feliz é aquele que sonha sem medo,
Com ouvidos para cantigas de ninar,
Este é puro. Este homem sabe amar."

O verde de teus olhos

O verde fluorescente
De teus olhos invadiu-me;
Na minha noite: sublime,
Fina luz, completamente.


Fogo quente, incandescente,
Que minh’alma toma e alcança
Do frio da desesperança.

Dá-me deste verde manso
A doce luz do descanso
O verde infindo, esperança.


Dá-me do que queima, a energia,
Quero renascer novamente,
Sair desta triste letargia
Co’a luz verde incandescente
De teu manso amor somente.

Pedra imaginária

Voir le reflet de l'âme dans la vague

Vagarás por certo nesses incertos dias
Vá por aí, por lá, além mar, meu coração
Variante de minha alma tão estanque

Que fizeste tu ao levar contigo minh'alma
Arrastada pelas tuas mãos nas ruas de Paris?
Que fazes tu com meu espírito por entre teus dedos?

Indefinido, finado em vida - sina minha -
Aguardo tua volta sentado sobre pedra imaginária
Volta e meia estendo o braço e aceno
Para qualquer navio que na neblina passa

Vi teu rosto ontem num quadro de Lautrec
Indefinido, sina minha, nesses olhos fracos
Teu cabelo curto e em movimento
A dançar o último baião do velho Gonzaga

Minhas mãos soltaram-se das tuas
Tu deste um giro sobre o próprio corpo
Desaparecendo nua numa noite de frio

Vagarás, por certo, nesses incertos dias
Vá por aí, por lá, além mar, meu coração
Variante de minha alma tão estanque
Tão distante quanto meu olhar sem ação.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Agulhas para coser anjos

Vejo o postal
Que você me enviou
As coníferas da
América do Norte
Dizem-me de um estranho mundo
Em que as montanhas
Alcançam os céus
E, pontiagudas, furam
As bundinhas dos anjos

Sim, estas terras foram feitas
Para povos celestes
E para os pobres diabos
Como eu
Que preferem expiar
Seus pecados
Abaixo do Equador
Sobram apenas
O puro medo de voar
Em corpo,
Alma
E pensamentos.

Sina nordestina

A meu pai Heleno, nordestino e
pioneiro das terras norte-paranaenses
Sou um cabra nordestino,
Vim para o Paraná,
Encontrei aqui trabalho
Para o mato derrubar.

Ganhei tanto dinheiro
Que eu nem podia contar.
Passou tanto Janeiro
E eu querendo voltar.

Esqueci mariazinha
Que estava namorando,
Esqueci da rocinha
E do gado minguando.

Ah, meu Deus, triste sina
Do caboclo nordestino
Que deixa sua terra
Pensando voltar pro ano.

Hoje já estou bem velho
Mas, posso me alembrar
Do pedido do meu velho
Para um dia eu voltar.

Pra poder fazer uma prece
Junto ao cruzeiro da estrada,
Pois o infeliz não esquece
De sua primeira morada.

Quero lá deixar minha alma,
Aboiar os bois que não aboei.
Talvez no céu e com calma,
Abraçar a mãe que abandonei.

Ah, meu Deus, triste sina
Do caboclo nordestino
Que deixa sua terra
Pensando voltar pro ano.

Alhures gravitas

O mundo tem desses costumes
De dar voltas sobre si

Encontrei-te ontem,
Numa volta dessas
Alhures do imaginar,
Mais madura,
Numa noite de frio
E bebida quente

O mundo tem desses costumes
De dar voltas sobre si mesmo

Meu coração rodopiou
Em torno de ti
Gravitei no giro de teus olhos

O mundo tem desses costumes
De dar voltas sobre si
De encompridar os adeuses
De dar gravidade
Aos nossos pensamentos

Louco mundo este que gira
E a tudo mistura
Num tempo que não sabemos
E logo, mãos espalmadas
"Até um dia"
Noutra volta, quem sabe?

Forró do burrão


Pisa, pisa, pisa, pisa...
Meu coração pode pisar,
Pisa só pra me judiar.
Pisa, malvada, só pisa...
Meu coração pode pisar...


Mulher já fiz que não posso
Pra você ficar comigo.
Você diz que sou só amigo,
Assim eu vou ter um troço.

Eu comprei água de cheiro,
Vendi o burro, comprei carro,
Sou honesto, tenho trabalho,
E de você nenhum beijo.

Mas, vou lhe dar um agrado,
Talvez o último agora,
Não me faça acreditar, ora,
Que eu vendi o burro errado!

Pisa, pisa, pisa, pisa...
Meu coração pode pisar,
Pisa só pra me judiar.
Pisa, danada, só pisa...
Meu coração pode pisar...

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Caneta-tinteiro

Em tempos difíceis
Em que as Ninfas
Se faziam ausentes
Em que as Musas
Teimavam em vagar
Pelo Olimpo
Ou galinhar
Para longe da poesia
Os poetas tinham também
Uma boa desculpa
Para vagabundear
E nada produzir
Além da própria preguiça:
"Chiii! Acabou-se a tinta!"
...
"Chiii! Não imprime!"

Sonoridades mudas

O que dizem os acordes do violão distante
A não ser a solidão plena em Ré menor?

Grande é a distância entre o som vibrado
E aquele que nunca sairá da garganta
Venha senhora dos pensamentos meus
E diga-me o que vai em sua alma

Mostre-me tudo o que você não vai me falar
Nesta noite de abismos ao invés
Nas estrelas medidos e perdidos
Em mil sons, notas longas, decibéis

Conte-me o que você jamais ousaria
Faça um gesto com sua voz muda e conte-me
Do luar que desapareceu, das terras
Outras eras, outros mundos seus e só seus

Caminhe por todo o meu corpo
E aqueça este peito frio que lhe chama
Arda-me em seus s, no seu seio
E afague todas estas lembranças, chamas

Quero um poema mudo, um violão calado
Um segredo guardado e uma nota nua
Quero ouvir o que você fala e eu não escuto
Quero um sussurro em seu suspiro guardado

Sonhos sôfregos sofridos sorrateiramente soltos
Busquem os segredos desta mulher que me assombra.

Mandinga, nega



Vim pra te ver sambar,
Nega vim pra te ver,
Quero te ver rodar,
Nega quero te ver

Mexendo, remexendo,
Meu coração pisando...
Não vês que estou sofrendo,
Pois estou te amando?

Tu tens o samba no pé,
Tenho-te no coração.
Aprendi a sambar até,
Não me jogues fora não!

Fiz mandinga ao luar
Pra sambar contigo.
Fui no bruxo rezar
Pra sambar contigo.

Dá tua mão e vem pra cá,
Quero te ver sambar,
Roda a saia mulata...
No samba vou te amar.

Interior

Mudo
Falo
A mim
Mesmo
Sobre
Rosas,
Flores...
De ti
Muda,
Triste,
Nada
Falo.
Mudo,
Amor
Calo.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Do tempo (Negativa II)



Não. Não quero falar da eternidade
É preciso muito tempo para falar da eternidade
E o tempo me é caro.

Penso tantas coisas
E estas coisas, por certo,
Um dia pensaram-me.

Lá fora o instante, o momento,
Derrete-se nas escuras paredes
Dos prédios e escorre pelas ruas.

Lá fora é cinza,
Cá dentro sou cinza.

Sendo assim,
Meu peito se faz tábua estreita,
Tal e qual a do velho e bom Graciliano.

Por isso,
Escrevo barbaridades
E sonho tonalidades escuras.

Para manter esta tábua estreita,
Em que escrevo, já disse e fiz doidices.

Não quero discutir o eterno
E nem vou fazer o que devo fazer.
"Pela tábua estreita?", pergunta-me.
Sim, porque o tempo me é estreito.

Outono

O Outono é puro mistério...
...É uma mulher linda, linda
De olhos tristes
E irremediavelmente linda
Que salta do décimo andar
Morre e ninguém
Sabe o motivo do gesto.

O Outono é um mistério.

Que nos contorce a alma
Que nos deixa em feridas

Mas por ser mistério
Nos dá em alguns dias
Umas parcas bandagens
Que remendam, porém
Nada curam, nada saram.

O outono é um mistério.

Que nos deixa taciturnos
Que nos faz moribundos

Mas por ser mistério,
Não chega definitivamente
A matar, a trucidar
Limita-se a torturar
Como aborrecidas
Cócegas na sola do pé.

Inverno

Não.
Não me acuse de ser frio
Não posso ser frio
Frio é seu olhar
Frios são gestos calculados
Amor de hora marcada
Com ofício
Protocolo
E carimbo de recebimento

Junto meu corpo ao seu
Sinto um calor bom
Lá fora tudo é gélido

Levanto, vou à janela
Sopro no vidro
E escrevo um poema
À mais fria das mulheres
De corpo quente e lábios ardentes

Você dorme
Apago o poema
Esqueço a fúria
E procuro seu colo.

Primavera

É madrugada
E a poesia não dorme
Os corações não dormem
E a solidão é insone

É noite fria
E as estrelas
Lançam seus raios-estalactites
Na direção de minh'alma
(mais fria que o frio curitibano)

É Primavera
Os vasos avisam
As flores nascem
Gerânios, gardênias
Jasmins...
Os vasos transbordam
E meu coração congela-se.

As flores nascem
E eu em cada pétala
Penso um poema.

Chope preto
Noite clara
Conversas... risos...

E eu rabiscando
De olhos fechados
Teu rosto
O teu retrato
Num guardanapo de papel.

Verão

Chove. Trovejou a noite toda.
É manhã. O céu é sem graça
E os olhos da desgraça
Avizinham-se, rondam-me.

É Fevereiro
Anúncio de Março,
Vermelho inferno
No céu feito de mormaço.

Canto e Vozes. Ouço um canto,
Soprado da igreja ao lado.
É um desses cantos antigos,
longos, medievais,
Anuncia: "O Paraíso é infinito
E os homens são mortais".

Caio em mim,
Ou antes, tropeço
E um anjo Serafim
Sopra-me aos ouvidos:

"Dezenove dias de Fevereiro,
Cinqüenta após Janeiro,
Sem respostas, sem cartas,
Ou um sinal de fumaça, talvez",

Choveu e nos meus olhos
Nem parece que tanta água desceu.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Oceano


O mar agita
Veleiros e
Meu coração
Cogita
Do querer e
Do sentir
E as partes de mim
São vagas e
Dispersas
Nas ondas deste mar
Transfiguram-se
Ondeiam, somem-se
Num Universo
Paradoxal
Aproveito-me e
Traduzo a ele
O que vai em mim
Responde-me o mar
Com o ignoto
O trascendental
Finjo entender e
Fujo depois
Num vôo cego
Precipitando-me
Por entre as estrelas e
Brincando
Afundo-me
De quando em quando
Nas profundezas
Do vazio oceano
Adimensional
Depois passeio livre... Livre...
Sou pássaro galático
Espectro imerso
Nas águas do vácuo
Do cuspe
D'algum deus desconhecido.

Casamento de Bento



Compadre bate a zabumba,
Toma tento xexelento,
‘Tamo na casa de Bento,
Pra tocar forró e zabumbar,
Deixa a morena de lado,
Não é hora de namorar.
Zabumbeiro vamos tocar,
Bento é cabra nervoso,
Tem parte com o tinhoso,
Tu não vai querer apanhar.

Sanfoneiro puxe o fole,
Casamento pé-de-serra
É coisa de perder a goela.
Comadre de perna mole
Só se tu puxar o fole
E o zabumbeiro zabumbar.
Começa o empurra-empurra,
Hoje ‘tá casando Bento,
Cabra muito violento,
Vixe, não quero apanhar!
Deixa a morena de lado,
Não é hora de namorar.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Resistentes

Resista
É dado ao homem resistir

Resistir ao dia
Sobreviver à noite

Por isso resista

É belo resistir

Faça-se resistência
E seja resistência
Das mais puras

Resistência só e para si
Não serve: é egoísmo
Resista em nome
De seu semelhante
Em favor da Justiça
Em favor da vida
Mesmo que isto
Possa lhe trazer a morte


De resto, a vida sem resistência
É o mais puro morrer
É derreter-se num cemitério
É apodrecer-se sem saber.

Mas foi assim


Lembrei-me outro dia

É... Foi exatamente noutro dia



Que de tão distante nem

Mais ousava lembrar



Mas foi assim: seu corpo

Nu estendido na cama



E um lençol branco, finíssimo,

Desenhando todos os seus contornos



Mas foi assim: uma luz mortiça

Dava-lhe o aspecto de estátua grega



E um calor dos infernos

Colando o lençol em seu corpo



Você levantou-se, sorriu,

Enrolou-se no lençol e foi ao banho



Mas foi assim: uma tarde de Verão

Em que seu corpo era estátua de mármore.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Em nada

Às vezes fico com os olhos perdidos
Perdidos por aí
Você fala, fala, fala...
Da roupa, da festa, do dia
E eu nada escuto

"No que você está pensando?"

Olho para você e nada digo
A avó doente
O irmão imprestável
O limão e a cachaça
A vida e a morte
Um cachorro
Ou um filho

"No que você está pensando?"

Olho para você e nada digo
E rio no meu rio interior
Que vai da fonte
E corre além
Além de mim, além

E respondo:

"Nada. meu bem, em nada"

E no outro dia
Um poema sonhado
Surrado e pensado
Clava-se num papel amarelo

"Nada, meu bem, em nada".

Soluços menores

Os Caprichos de Paganini
Correm pelas cordas
Do violino do homem tísico

O arco desce e sobre
No violino surrado

Um Ré dissonante

Ele pára, arruma a casaca
E começa do Capricho primeiro

O homem é um espectro
E um agudo infinito
Canta-lhe todas as dores

Donde vem este homem
Que mora num quarto de pensão?

Em tons graves
Agora o violino chora
O homem é apenas um braço
Um arco sobre si mesmo
Um capricho arcado
Sem destino
Sem endereço

Lá fora, a Lua não aparece
E o tísico, tosse, cospe
E repete o exercício
Eterno: Lá, Lá, Ré...

Os pensionistas estão irritados
Todos querem dormir
E o tísico continua
Mais um Capricho...

Duas da manhã
O tísico parou
A Lua apareceu
E uma tosse terrível
Toma a pensão
Tosse, tosse, tosse...

O dia é claro
O tísico silenciou de vez
Nada se expressa em som

Abro a janela
E o rabecão
Está encostado na porta
Sei o que aconteceu:
O tísico executou
Seu último Capricho
E eu, tísico d'alma,
Dormi e, desgraçadamente,
Sonhei todos os meus caprichos
Em soluços menores.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Espanto e susto


Um dia para nada fazer...
Olhar para dentro de si
E morrer de espanto e susto.

Um dia para nada fazer...
Ficar calado e escutar
O eco do que não foi dito.

Um dia para nada fazer...
Deixar o sangue estancado
Para não mais de amor sangrar.

Um dia para nada fazer...
Correr mundo sem sair do lugar,
Ir adiante num instante,
Misturar-se ao passado
E morrer de espanto e susto.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Amuleto


Tens em teus olhos a bondade das ninfas
E n’alma a maldade dos demônios,
Assim, vives a enganar quem a ti se chega,
Mergulha na luxúria e deslumbramento.

Mas, saiba que ganhei dos deuses um amuleto
Que me protege deste teu desejo
Forjado no fundo da Terra,
Arma afiada que desferes a sangrar espíritos,

E que a meu peito não arranha e fere.
Vai... Vai e busque quem possas ferir,
Deixa-me aqui neste bosque encantado,

À margem do lago a esperar Caronte.
Vai... Já escuto Sibila a me dar destino
E nele, por fortuna, tu não estás.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Do jeito que o diabo gosta


Você está do jeito
Que o diabo quer e gosta!
Arrepio em minhas costas,
Quando sinto no peito
Todo o carinho feito
Pelo amor que a gente tem.
Feito na rede ou no chão,
O amor é o amor que se tem.
Vem, me deixe no jeito,
Sem você eu sou ninguém,
Ando que nem sujeito
Que tá co’a alma no além.
Você está no jeito
E lhe quero muito bem.
Amar é meu defeito
Mas só se ama o que se tem.
Vem meu amor pro meu peito
Vem, vai, vem, vai, vem, vai, vem...
Quero-lhe a noite toda
Nua, molhada e doida,
Me dá um beijo meu bem.


Este é um Gabinete Repetido, muito antigo em nossa língua, também conhecido por Martelo Agalopado ou Galope Gabinete, que tem por base uma sextilha de setissílabos, na disposição ABBAAC, seguida de versos de metro variado; o último verso da sextilha (C) tem a rima em "em", repetida a seguir alternadamente. Os cantadores nordestinos costumam terminar os dois últimos versos em "Quem não canta gabinete / Não é cantor pra ninguém".

Mulher Rendeira (*)



Olê, sinhá bonita,
Olê, gente de casa,
Nada voa sem ter asa,
Só o amor é que isso faz,
Co’ele voa mocinha e rapaz,
Voa comadre e compadre,
Co’a benção ou não do padre,
Pra mode de namorá.

Olê, mulher rendeira,
Olê, mulher rendá,
Me ensina a fazer renda
Que eu te ensino a namorá,
Chorou por mim não fica,
Soluçou vai no borná.

(*) Estrofe composta de uma oitava de sete sílabas, de rimas emparelhadas e alternadas, acompanhada de seis versos da canção popular Mulher Rendeira, cantada em estribilho, perfazendo um total de quatorze versos. O gênero foi criado pelo cantador Cesanildo Lima, cearense, de Canindé.