terça-feira, 4 de maio de 2010

Instrumental I

Dá-me, estimada e querida amiga,
Divino e celeste diapasão para afinar
O estampido da cosmogonia explosiva
Desse Big Bang que nos fez em vida

Dá-me, ainda, um metrônomo novo
Que consiga mensurar a vagabundagem
Desse nosso tempo andarilho e pulsante
Em ordinários relógios descartáveis

Dá-me, querida, uma semínima pontuada
Para que eu possa compor uma infinita ária
Com os longos ais suspirados no sofrimento
Dessa gente que só espera a câmara que arde.

sábado, 24 de abril de 2010

Amor galático

Em noites de Lua,
Tinha por hábito
Orbitar galáxias.

Circundava estrelas,
Bebia da láctea via
E ficava bêbado.

Tinha este estranho hábito
De fugir da gravidade
E ocupar vácuos profundos.

Seu mal foi encontrar a Anã Branca.
Paixão doida, provocada por neutrinos.
Logo ele, que nunca descia das alturas!

Mas, amor é amor. Cacete,
Branca estava iluminada
Por raios gama!

Tinha agora um buraco negro no coração.
Calculava: luzes não percorrem linha reta;
O amor universal segue linha torta.

Talvez, ao vencer 10 mil anos-luz,
Consiga coragem para pedi-la
Em casamento. Tímido, tímido.

Caminhava pela Via Láctea,
Sonhava buracos de minhoca
E se enforcava na teoria das cordas.

domingo, 18 de abril de 2010

O homem metade

Morria de lembrança.
Pensava, matutava
E morria todos os dias.

Tinha por castigo
Uma vida longa
Muito além da conta.

Vivia para lembrar
Não o que fez
Mas o incompleto.

Tudo lhe fora metade
Por isso não mais dormia
Dormir era viver pela metade.

Amou pela metade
Odiou pela metade
Viveu pela metade

Somente acumulou metal por inteiro
E viu que este buscar pelo inteiro
Era a razão dele ser metade.

domingo, 11 de abril de 2010

O som do silêncio

Há os que não suportam o silêncio,
Ouvem música, escutam ruídos,
Mas jamais o que vai n'alma escondido.

Fogem da própria consciência,
Das desilusões e horrores havidos
E arrogam a si o alívio das ausências.

Temem ouvir suas próprias dores,
As dores que hão impingido
E as dores de todas as gentes.

Alguns dormem de rádio e TV ligados,
Querem esquecer o destino contido no sono,
Que apavora até mesmo o mais fiel dos crentes.

O sono é a amostra grátis da eternidade.
O sono nos faz da degradação tementes.
O sono nos dá essa quietude veemente.

O sono é antigo compadre do que já não existe,
Do silêncio que nos será apresentado por inteiro,
Impiedoso, no raspar da pá do silencioso coveiro.

sábado, 10 de abril de 2010

Linda vai embora

Ó linda, para onde tu vais
Com o olhar a queimar
Este dia tão frio e de tanta solidão?

Ó linda, para onde tu vais
Com a luz de meus olhos
Roubada de tanta coisa triste.

Ó linda, não vás não, é que cansei,
Cansei de ver o horror do mundo,
Horror que tanto me entristece.

Linda, ó linda, de mim não desertes,
É que careço de tua beleza numa prece,
Mandinga para espantar tanta coisa feia!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Virgo et Scorpio

Não ligue não,
Sou tímida e tenho medo!
Não o medo de amar somente,
Mas o medo da solidão
Que certamente virá de brinde.

Paixão e solidão cultivam antiga amizade.

Não há constância nos homens.
Nem mesmo nos regidos por Plutão.

É de sua natureza;
Os escorpianos matam o objeto do desejo
Quando deles se fazem enfastiados.

De modo contrário, gostamos de guardar entulhos.
Nós, as nascidas em Virgem, conservamos organizadamente
Em nossos corações amores únicos e impossíveis.

A púrpura é sua cor predileta
E combina com a dor que sangra
Na pele de quem você fere.

Você há de se ressentir dos meus amores antigos,
Terá até mesmo ciúme do que ficou guardado em meu peito.
Ciúme dos infelizes que fizeram minha história.

É este férreo desejo que você arrasta como mistério...
Ele me assusta e diz que devo guardar de você distância.
(Seu veneno escondido sussurra-me que sou a próxima vítima!).

terça-feira, 6 de abril de 2010

Scorpio et Virgo

Sou de Escorpião,
Concebido de coração escondido
E provido de mortal veneno guardado.
Tu és de Virgem,
De alma escondidinha também,
Entretanto, transbordante em afetuosidade.

A rigor, não combinamos.

Porém, desconfio das estrelas
Que te entregaram em fado aos nativos em Peixes
E a mim a esta gente regida por Vênus.
Tu és, portanto, meu desafio
A arder a fio em férreo desejo incendiado.

Duvido igualmente que tenhas que viver só, triste em terra
E que eu deva triste viver entregue à solitária e fria água.
Creio que há possibilidades
De combinarmos a púrpura com o azul-prateado,
Altas temperaturas com teu rubor e senso prático.

Mas, o que eu queria te dizer, soprar-te aos ouvidos,
É que sou a constância pela qual pelejas,
Cercado de mistérios, é verdade,
Mas que tua inteligência já tem por compreendido.

Meu ciúme iria bem com tua entrega total...
Sabes, sou poeta, e posso suplicar às estrelas
Para que elas te digam das falhas dos horóscopos
Ao te olvidares dos signos ascendentes
E dos desejos que ignoram as vontades dos astros.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Meus versos não eram teus

Guardo em mim tua amena e delicada meiguice,
A mesma de quando vieste a meus olhos míopes
Tão mulher - fresca água boricada n'alma em desânimo.

Não. Não há raiva nem vingança
Naquilo que te digo e hei miseravelmente escondido.
É que me faltou tempo e jeito enquanto esperava-te outra.

Sei que menti, meus versos não eram teus,
Eram para uma deusa rematada,
Como bem acabadas devem ser as deidades de Apolo.

Mas os poemas casavam tão bem contigo!!!
Tinham tuas medidas, tuas adjacências,
E, logo, deslizavam tão lisamente sobre tua alucinante língua.

Confesso: meus escritos não eram para ti,
Eram dulcíssimos oblatos para coisa em eternidade;
Singelas linhas para quem se ama em segredo e verdade.

Tu foste, aparentemente, meu sonho aprumado em vida sem prumo.
Porém, meu verso buscava outra diva
Tão perfeita e em imperfeição que, por certo, nunca te teria em rumo.

Bela tu és,
Musa não és;
Perdoa-me
Essa liberdade
Sem licença
E maléfica
Na minha
Imprudência
Poética.

sábado, 3 de abril de 2010

O desespero do tempo

O tempo é uma tola criação humana.
Nada do que existe, além do homem,
Consegue se medir em horas e séculos.

Terrificados com essa párvoa invenção,
Oramos a um Deus que guarda em si o tempo
E que se faz, assim, seu sempiterno dono.

Ao orar queremos esquecer do fruto interdito
Que nos deu o mais cru dos conhecimentos,
Aquele que nos mostra nossa bárbara condição.

Somos os registros dos futuros necrológios,
O ter e o haver contábil dos cemitérios.
Somos covas cravadas no tédio dos calendários.

Somos os vazios entre os ponteiros dos relógios.
Somos as lágrimas na ampola de clepsidra
Derramadas ao nos lembrarmos do coveiro.

O tempo é nosso manso e cruel algoz
E saber contá-lo - medi-lo e não vê-lo
Na sua fome feroz - é o nosso desespero.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Ela sofria de tristeza

Minha amiga foi internada!
Veja que coisa de doidos:

As pessoas não são mais tristes,
Elas sempre estarão
Delicadamente deprimidas;

A melancolia é a novíssima
Mistura de melão com melancia
E o pânico é um medo
Que apareceu ontem
Determinado pela
Organização Mundial de Saúde.

Veja que paraneia:

Os terrores dos homens
A cada dia têm novos nomes
E novíssimos remédios
Determinados por terapeutas
Tão louquinhos
Quanto os desvairados que tratam;

Os laboratórios multinacionais
Gostam deste novo mercado
- Loucura dá muitos trocados! -

Imaginem, ser atacado
Por distúrbios antigos
- Doença boa é doença nova! -

Minha amiga sofria de tristeza!
Louco! Estúpido poeta:

Doideira é coisa de antanho,
O correto, até mesmo na loucura,
É tratar a doidinha, a estúrdia,
Por desajustada social
(Ou, a levemente aluada que da Lua se serve);

Justa é a sociedade
Que nos determina os ajustes
Do que nunca foi justo,
Do que nunca se ajustou
À justiça dos que vivem a acromania
Dessa insana realidade;

Saudável é a sociedade que determina
O injusto código dos manicômios,
Dos hospitais de alienados
E de nossos códices legais.

A dona de minha afeição não quer ganhar na loteria,
Ela quer, na sua suave e sã loucura,
Livre da camisa de força, ser dona da Bayer.

Telúrica, minha amiga conta histórias para os homens selenitas. (Apenas faz estágio na demência!). Conversa com seres pequenos e verdes porque, no ano que vem, vai interromper consultas médicas para vender pílulas de felicidade. Não conte isso para ninguém - a insensatez sensata dessa minha estimada não pode ser compartilhada!

domingo, 28 de março de 2010

A amargura da doce amiga

Vejo-te amarga, doce amiga,
Os anos te envenenaram.
Os féis do tempo tomaram-te.

Mas ainda guardas uma leve doçura
Na voz em que contas a tua história
(Soprano cantas, piano sussurras...).

Lembro-te na canção de roda,
De vestido rodado a girar,
A girar - a rodar ingênuos dias.

Era menino, tu eras menina
E o amargor passava distante,
Na carruagem da Bela Adormecida.

A maldade estava numa madrasta,
Num lobo que espreitava porquinhos,
Ou no escuro ventre da baleia de Jonas.

E a bondade? A bondade estava em todo lugar,
Nos anões a cantar, no pobre rouxinol chinês,
Na Terezinha de Jesus, eternamente a desabar.

Hoje sabemos que a vida não é um conto de fadas.
Nossas madrinhas tiraram longas férias em terra distante.
Sobraram-nos apenas esses pesadelos em azedume.

Esquece! Vamos brincar de roda, aqui, neste momento.
Giremos: solta tuas belas e bem guardadas tranças,
A inocência não comporta em si amarguras, criança!

quarta-feira, 24 de março de 2010

Das formigas e moscas

Várias são as coisas risíveis
Naquilo que chamamos
De espírito humano,
Uma delas é essa estupidez
De portar no peito
O germe do fim
E ao mesmo tempo
Essa soberba vontade
De determinar as coisa infinitas:
Formigas que miram o céu,
Moscas que contemplam a eternidade.

terça-feira, 23 de março de 2010

A liberdade em beleza

Defendo a liberdade do homem,
A liberdade do livre pensar.
Queres dar um rótulo a isso
E sentencias: "sois de esquerda".

Que seja, amigo das etiquetas,
Sei que tu não concebes nada sem marca,
E deseja-me etiquetado e arquivado
Dentro das tuas classificações utilitárias.

Serei, por tua compreensão,
Esquerdo ao sonhar um homem livre?
Há lado mais humano?
Que luta há de ser mais bela?

Dá-me sim este dístico,
Porque a liberdade
Convenceu-me inda menina,
Ao acariaçar um pobre menino,
De sua beleza e fascínio.
E desde lá, a carrego leve,
Em clareza e claridão,
No meu esquerdo
E por demais sinistro coração.

domingo, 21 de março de 2010

Desonra (Pecados capitais)


Não vos envergonha,
Caro político larápio,
Caro jornalista venal,
Caro empreiteiro gatuno,
Caro juiz vendido,
Caro funcionário corrupto,
Caro prevaricador usurário,
E caros advogados do infortúnio,
O dinheiro roubado
Que alimenta
Vossas gordas proles,
Vossas festas grosseiras,
Vossas vaidades,
Vossas luxúrias,
Vossas volúpias,
Vossas iras compradas,
Vossas avarezas para com o bem?

Não vos incomoda
O sono em macio travesseiro
Ter condenado à fome e à morte
Milhares de crianças,
Cidadãs brasileiras?

Não vos incomoda
Ver esse povo sem remédio,
Morrendo em filas
Porque o dinheiro
Da Saúde foi roubado
Por Vossas Excelências?

Não vos envergonha
Saber que até o próprio
Berço em que dormem
Seus inocentes filhos e netos
Foi comprado com o desespero,
Suor e sangue de nossa gente?

Não vos incomoda
Que vossos nomes
E de todas as gerações
Que vos seguirão
Estarão manchados
Pelo labéu desses
Torpes pecados?

Não vos incomodam
As quentes chamas
De inexorável inferno,
Que fatalmente
Vos esperam
Por todo o resto da vida
E na morte impreterível
E sempre inadiável?

Não vos incomoda a desonra eterna?

sábado, 20 de março de 2010

O homem na montanha olha para o umbigo

Tenho que colocar ordem em minha vida,
Comprar um pinguim de geladeira,
Subir numa montanha e lá ficar
A ruminar filosofias e outras besteiras.

Deixarei de usar luz elétrica,
A luminosidade da Lua será suficiente.
Jogarei pingue-pongue comigo mesmo
E ganharei de mim, surpreendentemente.

Terei um cão que não come e não late
E cantarei louvores ao pernilongo
Que suga meu sangue empedrado
Pelo frio de um inverno escuro e longo.

Noutro dia, caminharei descalçado no deserto.
Gosto dos meus pés aquecidos
Por grandes andanças e passos perdidos
Neste mundo que por Deus foi olvidado.

Não ouvirei estrelas, delas nada pode ser escutado.
Depois, descansarei nesses infindáveis dias contente
Por meditar naquilo que eu poderia ter sido
Mas que por teimosia sempre tenho desprezado.

Ao morrer, doarei os meus órgãos ao feiticeiro
Para que deles saia alguma mágica desconhecida
Cheia dos caprichos de quem há vivido
A buscar explicações no próprio umbigo.

Amor físico

Fui atraído pela sua singular matéria
Na razão direta de nossas massas
E na razão inversa do quadrado de nossas distâncias,
Tudo isso multiplicado por uma constante
De atração animal e sexual;
De forma empírica, irracional,
Sem equações e validações matemáticas.

Hoje, estudo a termodinâmica de seus beijos
E a hidrodinâmica de sua boca na minha boca.
Perto de você, as batidas de meu coração
Têm brusca variação na aceleração
E se perdem na velocidade e no tempo.

Já quebrei dois termômetros e um calorímetro
Quando fiquei longe de seus olhos em plasma.
Calor, sentia muito calor. O médico disse ser febre,
Inexplicável e delirante febre de amor carnal.

Ao seu lado sinto-me curado
E temo - e como temo! - que tudo termine
No zero absoluto em que as paixões são extintas,
No zero glacial da total ausência de sua energia vital,
No zero representativo do nada em que nos tornamos
Quando do amor somos ausentes ou em tolice dele desertamos.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Os anjos da procissão

Na Semana Santa,
Em dia de procissão,
Pendurei-me numa árvore
E, pasmado, acompanhei,
Com os olhos arregalados,
Aquela gente que se arrastava
Curvada sobre os círios,
Pendida por tanto pecado.

Menino demônio,
Invejava as asas tortas
De querubins d'outros meninos,
Que seguiam como frades a procissão,
Ainda com os corações limpinhos
Sem a precisão da faxina do padre.

Inveja tola daqueles anjinhos
De asas feitas de brancas penas de ganso
- ou das galinhas mortas no domingo -
Amarradas com barbante,
Em armaduras de arame,
Pregadas em pobre e falso linho.

Foi quando passou o cantadador
Que em dor a procissão seguia.
Lembrei que ele me havia dito,
Em nossa operária feira,
Que poeta pode voar sempre,
A semana inteira, a vida toda,
Em dia bento, na noite do tempo,
Em dias de pagãs folias festeiras.

Poeta pode falar do Cristo morto,
Do Menino em Belém nascido
E em Nazaré criado e havido;
Chorar na Hora do Angelus, nas Ave-Marias,
Cantar a perene tristeza dos homens
E também as suas efêmeras alegrias.

Para isso seria o bastante
Montar nas asas da poesia
E seguir a procissão dos danados,
Dessa gente que quer a remissão
Dos seus seguidos terríveis pecados.

Perdão para essas pesadas cruzes
Arrastadas em molesta paixão
Pelo mesmo calcário da Via Crúcis
Que levou Jesus, o Cristo, a ser crucificado.
Cristo, o filho e cordeiro de Deus imolado,
Que por nós derramou o seu sangue inocente
Nas pedras do Calvário em que foi fincado.

(Escorreguei da árvore e tive uma queda suave como folha em tarde de outono.
Por certo que, desde aquele tempo, o verso já me amparava na leveza do vento).

Os dias de março

Os dias de março caminham velozes.
Outros marços caminharam velozes,
Mas os marços de infância
São tão lentos, tão lentos
Que custam chegar a minha memória.
Havia neles surpresas de hora em hora
Havia neles brinquedos de criança
Havia neles o desejo de chegar ao agora
Para descobrir que os bons marços
Eram aqueles de outrora.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O último poema de Safo

É, querida Safo, tua poesia perdeu-se
Por sacanagem dos monges copistas.
Pensavam fazer justiça com as próprias mãos
E condenaram os velhos costumes de Lesbos.
A intolerância deles deixou muito pouco de ti
E um grande legado à imaginação humana:
Como eras, como dirias, como escreverias
Sobre o amor avessado de fêmea para fêmea?
Hei de perguntar a Cronos, ao deixar o mundo dos vivos,
Em que obituário do tempo consta teu último poema
E por que a ignorância tomou-te a pena?
Da segunda pergunta suspeito resposta,
Mas da primeira, como gostaria de lê-lo!

Desconstrutivismo poético

Não apontes para mim!
Não sou adulador dos hipócritas.
Não me peças que a minha poesia
Sirva para reerguer as ruínas
Deste teu podre mundo!

Canto o canto do que se aniquila
E, desprezando todas as claves,
Gravo no pentagrama os agudos
Que compõem a sinfonia
Da universal desconstrução.

Nela estão os gritos
Dos que padecem,
Os graves urros
Dos desesperados
E os calmos e confusos murmúrios
Daqueles que, em vigília,
Oram por perdidas almas.

Não me condenes por ter nascido poeta
Num tempo em que os poetas são anacrônicos.

Por isso,
Não sigo os códices dos profetas
Que falam em nome de Deus.
Contento-me, apenas, em sentir Deus
Na aragem da manhã
E até mesmo na putrefação
Dos cadáveres desses dias defuntos.

Não me condenes por ter nascido poeta
E devoto da verdade, mesmo que nunca encontrada.

Por isso,
Não sigo os líderes da multidão,
Os enganadores e aproveitadores,
Contento-me, apenas, em seguir-me
Guiado por essa antiga e esquecida guia
Que é a liberdade de dizer não.

terça-feira, 9 de março de 2010

O cheiro do fim

Vejo-vos, amigos, mui preocupados
Com a flatulência dos séculos
A consumir a camada de ozônio.
Destino cruel esse da humanidade
Que, ao acalentar sonhos ledos,
Prepara-se para ser exterminada
Pelos próprios e flácidos peidos!

Suruba atômica

Diz-me que gasto tempo
Ao estudar a ciência dos homens.
Apraz-me, caro amigo,
Ver a suruba dos átomos nas moléculas,
Dos dativos elétrons,
E constatar que nós somos
Um amontoado de células
Que brigam para não envelhecer.
Há muita justiça nisso,
Pobre ou rico,
Ignorante ou erudito,
Todos estão à mercê
Dos distúrbios eletrolíticos.

domingo, 7 de março de 2010

Crueldades celestinas

Nunca mais cuidei das roseiras.
Na realidade, elas dispensaram-me
De tal insano empenho.
As rosas brotam, exuberam-se
E tornam à terra por si,
Sem a necessidade de exéquias, requiem
E lamentos de carpideiras.
Nada será diferente disso
Por maiores que sejam os meus cuidados.
Elas serão sempre reféns do ciclo
Contido na celestina crueldade
Da beleza sucedida pela tragédia.

sexta-feira, 5 de março de 2010

O olhar do carrasco

- Viver é isso: esperar a morte apenas?
Dizes que não há resposta
E que a porta do compreensível
O vento da noite há de ter fechado.

(Um cão passa e, em comiseração, mija no poste)

Falas de algo que não entendo,
Falas de mim.
Logo a mim que nada falo!

Olhas para meus olhos
Que de há muito deixaram de ver
E uma luz enlaça-me ternamente.

Olhas logo para meus olhos
Vazados pelos punhais em brasa
Desses horrores diários!?

Olhas logo para meus olhos
Que até ontem louvavam a misericórdia
No negro capuz oferecido pelo carrasco
Às suas vítimas antes do definitivo ato?

Olhas logo para essas duas covas rasas
- Lagos constantes de lágrimas -
Cavadas pela pá da descrença
Na minha já mui cansada face?

Não queiras ser enterrada aqui,
Pois é grande a tristeza que há de te cobrir.
Olhos de poeta são os túmulos dos profundos enganos:
Executores que fingem ser belo o que já é putrefacto;
Dissimulados cantantes da manhã que ao nascer já caminha pelo cadafalso do dia;
Carrascos que compõem a canção fúnebre da nossa miserável e mortal condição humana.

(Piedoso, o cão volta e mija no poste; assim, o cão passa a ter sentido para o poste)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Todos os e-mails de amor...

Escrevo-te e-mails instantâneos
Tão ridículos quanto as cartas de amor
Do tempo de Fernando Pessoa.

(Escrever coisas de amor
Será sempre esdrúxulo a qualquer tempo)

Criatura, hoje não há mais carteiro!
Meus e-mails trafegam pelo ciberespaço
E, miseravelmente chegam, talvez,
Ao imaculado juízo de teus olhos
Não mais em mal traçadas linhas;
Sem perfumes, sem pingos de lágrimas.
São elétrons ridículos a falar de amor
E que temem a despropositada tecla delete
Ou o simples esquecimento na tua Caixa Postal.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Os mortos não sangram

Triste menina, arma-te com a armadura de Joana,
Empunha a lança da esperança que te faz jovem.
Não dês demasiada importância ao sangue de teus joelhos,
Cair nos é tão comum e somente cai quem em pé caminha.
Apanha este sangue com as mãos em conchas
Esfrega-o no rosto e sente seu calor.
Este rubro esteve há pouco em teu coração
Conhece a ti, pedaço por pedaço.
Nota como ele está quente e fresco,
Saiu do teu corpo para avisar
Que tu pertences a esse mundo indecifrável,
Detestável às vezes, porém por si, maravilhoso!
Mundo que só deixa sangrar os vivos,
Porque os mortos já não mais sangram.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Miragem em bytes

Vi teu rosto ontem na tela do computador
E desde então considero-te verdade.
Sim, já havia te visto antes
Belíssima miragem;
Até falei contigo, tomamos cerveja,
Criticamos esses velhos-novos tempos,
A falta de diálogo,
O homem automático,
O homem expresso em bytes
De oito bits e coração zero.
Mas precisava disso,
Ver teu rosto no computador ontem
Para perceber-te em verdade e real.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Sabedoria do rio

Ah, esta incrível mania, amigo,
De querer saber donde o rio vem,
Em que lugar vai ter e desagua!
Toma de sua água
Se isso te agrada.
Banha-te nele
Se isso é de tua vontade.
De onde ele vem
E em que lugar ele vai dar
São mistérios da sabedoria do rio,
Algo, velho amigo,
Algo que nunca vamos alcançar.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Devassa

Teu beijo, amor meu,
É a mistura de finas essências,
A quintessência da loucura.
Tem o frescor da água pura
E a violência da tempestade
A surrar um campo de trigo.

Mas, ao sentir-te melhor, amor meu,
Vejo que teu beijo
Tem um leve amarguinho de fundo,
O amargor do lúpulo do coração
De todas as fêmeas.
É por isso que te bebo
E vivo embriagado de ti.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Valéria de alma tatuada

Valéria ficou louquinha.

Louca de dar tapinhas
Em mosquitos imaginários,
No noivo que não existe
E na bochecha roxa do própria face.

Valéria ficou doidinha.

Encantada noutro mundo,
Ela deseja tirar a velha
Torturante tatuagem d'alma:
Um anjo de asas curtas,
Genuflexo e suplicante.

Valéria não quer a castidade.

Aliás, ela nunca desejou tal santidade.
Valéria, a louca Valéria,
Quer casar dez vezes em Coimbra.
Dez vezes sim! Dez vezes
Para que seu noivo dela não se esqueça!

Valéria diz que seu anjo agora ri.

Ele gargalha de verdade,
Pois tal criatura celestial
Já não lhe é apenas um rabisco n'alma:

O querubim ficou louquinho.

Ele cedeu suas asas aos mosquitos imaginários
Genuflexos e suplicantes por suas vidas
Ao pressentirem da doida o doidinho tapa!