terça-feira, 27 de setembro de 2016

Adivinhação



De tudo, meu amigo, pouco se explica
Há coisas que carecem de adivinhação
A Alma, o Espírito, o Universo, a Vida
E as coisas que habitam o coração
O amor então! Meu amigo. Meu amigo!
Este não tem mesmo explicação
A gente sente e só isso já é muito bom!

Efêmera juventude

Encontrei-a só
Amargurada com a vida insossa
Alma perdida que não via mais poesia em seus dias
Morrera e teimosamente respirava
Dei-lhe a minha mão
Que nas suas mãos tentava segurá-la sobre o abismo
Buraco verrumado por anos de culto ao inútil
Pela busca da beleza onde não há beleza
No ódio pelas suas naturais rugas e decadência da pele
(Lamentava-se: "Ó juventude, efêmera, tão breve!")
E senti em suas mãos a frieza do zero absoluto
Própria dos defuntos
Estava morta, do viver perdera o costume
Nem mesmo o encanto da poesia
Tem o sopro quente para ressuscitar os mortos
Era ela um Lázaro que amava sua tumba.

Nhoque

Nhoque de batata na água quente
A farinha que nossas mãos coladas
Minha cabeça em teu colo
E a chuvinha fria lavando tristezas
Deste domingo que já se faz memória

"Cultura"

Desconfie daquele que fala na "cultura do ódio"
Certamente é um sujeito que não tem cultura
Porque não há cultura nele, só o ódio.

Não és Bolt

O circo olímpico já desceu pano
A vida segue e o tempo é tirano
Um ovo na marmita, arroz sem feijão
Não és Bolt, és operário, meu irmão!

Absurdos

De tanto viver entre absurdos
De tanto ver tanta loucura
É nossa sina ser o absurdo
Mordidos pela loucura também.

Tolo

Ah, o amor
Tolo sem sabê-lo
Mil vezes tolo sem tê-lo!

Auroras no bolso

Trago auroras guardadas no bolso
Para dá-las a quem tenho carinho
Ah, pode ficar, tenho tantas!
Elas em graça me são de graça
Sempre doiradas com poesia.

Sobras e caviar

Deprimente um homem virar o lixo para comer sobras.
Mais deprimente ainda é ver um homem se tornar um lixo para comer caviar.

Pançudo e rememlenta

Errar todo piá pançudo, ou guria remelenta, erra
Agora, desculpar-se ao se saber errado
Isso é coisa para homens e mulheres de verdade.

Vesga et míope

Se teu amor é vesgo
Não te preocupes
O meu é míope, meu bem!

A vida é luz

O Sol macio em teu rosto
Brilho que anuncia
O fim da fria estação
Apanhe uma margarida
Enfeita teus cabelos
A vida é luz, Maria!

O homem sem dentes

Vi um homem sem dentes
Cabelos brancos...
Tomou uma cachaça e rezou
Por todos os bêbados
Pelos amigos que
Iguais a ele desta vida desgostou.

Pés de bailarina

Ela me vinha com os pés cansados
Dançara, dançara, dançara tanto
Eu via aqueles pés em feridas (horror, horror!)
E os lavava com água quente
E ela, me contando da beleza do espetáculo...
...Enquanto eu desenrolava a gaze
Via que não havia dor, havia a mais pura alegria
No sangue escuro colorindo a sapatilha.

É Setembro, linda!

É Setembro, Linda
Faze como as flores do campo
Que se guardaram neste Inverno
E agora se mostram coloridas
Veste tua de alma de cores
Teu corpo com florido vestido
O mundo está por demais cinza
E teu perfume dá vida à vida
Dá-me vida, Querida.

Caixa de Pandora

Os sonhos a gente guarda no peito. Mas, cuidado com o que tu sonhas. Eles odeiam lugares fechados!

Os estúpidos

Os estúpidos só precisam de uma causa estúpida e de um líder mais estúpido do que eles para uni-los na estupidez. Por isso, este mundo, que se esqueceu da lógica sã, lhes oferece tantas causas, tantos líderes.

Lá vem verso

Não se iluda
Poeta calado
É poema represado!
Tenha certo
Que lá vem verso
Para queimar as gordas nádegas
De quem o cala!

Os maus odeiam

Os maus odeiam cães, gatos, até seus semelhantes
Os maus odeiam a música e a poesia, os crepúsculos, a vida
E outras coisas que dizem de amor e coisinhas doces e simples
Os maus odeiam
E tamanho ódio não cabe numa existência inteira
Os maus a si odeiam e isso faz parte de suas maldades.

Que vida

Que vida esta
Feita de sustos
Tão curta, tão bela!

Vai outono

Vai Outono, vai Setembro, vai dântico fado
Venha a Primavera pintada de tintas vivas
E suaviza essas paisagens tiranas
De desolação, tristeza e guerras
Venha, algo há de ser belo aos olhos do homem
Ainda há de nascer uma flor em seu peito de pedra.

Briga com os versos

Fiquei dois dias brigado com os versos
E, em motim, esses rebeldes tiram-me o sono
Não se querem presos em mim
Que algazarra, que tortura desses insurretos
Não mais resisto, ei-los, aqui os declaro libertos!

Na Régis

Todo dia na Régis Bittencourt
Todo dia uma reza
Para reforço na guarda dos anjos.

Carícias da luz

A luz do Sol te acaricia e acorda
Um dia, mais um dia, único dia
Sem outro igual: vive, este é o convite!

Dia de dúvidas

Gosto destes dias feitos de dúvidas
Há frio, há calor, Sol desconfiado... Chuvinhas... Chuvas
Inconstantes, imprevisíveis como a vida.

Teimosa

O canto do sabiá te saúda pela janela
Ipês doirados, violetas, primaveras...
Mas disso tudo, o importante
É que aquela florzinha, tão mirradinha
No duro asfalto, em teimosia vingou.

Sabiá surpreseiro

Senti e experimentei, nesta manhã
A alegria de Francisco, a fé de Francisco
Quando um pássaro, um miúdo pardal
Desceu sobre a minha mesa
E das minhas mãos, dividiu comigo o pão
Olhei para o alto, para o Sol, nosso irmão
E lhe agradeci, neste primeiro dia de Primavera
A sua luz, a esperança que me trouxe aquele pássaro
E a poesia singela de tão surpreseiro gesto.

Flor defunta

A flor do ipê cai, morre e, mesmo defunta
Ainda encontra beleza
Para enfeitar a rua e nossos olhos.

Segredo

O único segredo seguro do mundo é aquele que nem teus olhos sabem; se souberem, eles te traem!

A boa Mariquinha

A roliça Mariquinha, boa de carne, boa de curvas
Ganhava a vida torcendo pescoços
Era só chegar gente pra jantar no sítio
Que lá da cozinha vinha a ordem
"Pega uma galinha no galinheiro!"
Mariquinha era uma mestra em sua arte
E alguns minutos depois
Lá estava o pobre bicho de pescoço mole
Todo depenado a cumprir o destino
Ditado pelas macias mãos da boa moça.