Sopro solar

Coloca teus braços sobre meus ombros e vamos!

Vou te mostrar que a casa do poeta é o mundo inteiro
E que ela tem por teto, apenas,
O firmamento carregadinho de estrelas.

Sobre meus ombros...Vamos!
E bebe da luz do Sol,
Aos golinhos,
Porque a sede de poesia
É a verdadeira sede,
A da beleza que nunca se acaba.

Vou te mostrar... A tua mão dá-me...
Que é a poesia que nos torna gente
E que é por falta desta poesia
Que nossos corações tomaram as feições do Àrtico.

Segure meus ombros curvados pelo peso da despoesia
Dessa gente que não é humana e nada sente...
Vamos!!
E te mostrarei o vale onde dormem as letras
Dos poemas que não foram domados.
Vale onde os poetas vagam
A amar os abismos
Por debaixo de cada coração empedrado.

Vou te mostrar... Que para se ter a poesia
Há de se amolecer, aos pouquinhos,
Com o sopro solar de nossas bocas,
O mar gelado dos corações dos homens.

Beijo solar

Quando o Sol brilhar
Deixe-me adormecer
Num sono diurno
De sonhos iluminados

Deixe-me desfalecer
Abandonado no lago
Desta manhã azulada
E de espreguiçamentos

Quando o Sol queimar
Quero teu beijo
Tão terno e eternizado
Quanto o azul do amanhecer.

Amor infinitesimal

Destripei e esquartejei
Um átomo de mim.
Tirei-lhe os prótons
Arranquei-lhe os elétrons.
Com os nêutrons fiz
Um colar de contas para
A mulher que me olhava da janela.
Para ela, e só para ela,
Que tinha os cabelos enfeitados
Com todas as cores
Da Rosa dos Ventos.

Flores solares

Setembro, 22...
Hoje o Sol deveria anunciar a Primavera,
A nona deste Século nado-morto,
Mas não há Sol e as flores banham-se numa chuva de tristeza imponderável.

Há uma frente fria congelando os jardins
E os poemas vegetam dentro de sementes que não brotaram.

Escuto o sussurar do vento soprado do Norte...
Promete-me noutro dia, quem sabe na morte, a luz das primitivas eras.

O tempo, os elementos, a poesia
E tudo que nos enche a vida de vida
Felizmente desconhecem calendários
E se fazem, simplesmente se fazem,
desconsiderando relógios e as revoluções solares.

Vadia

A Lua,
Esta doce vadia,
Some por sete dias,
Noutros brilha para todo mundo,
Mas, pudica,
mesmo que sempre nua,
Não é de ninguém.

Etérea

De que matéria tu és,
De que tênue trama atômica
Surgiram teus olhos
Em súplicas de amor?

Quero agora saber do teu cheiro
Que tu abandonas
No circuito dos astros,
Nas revoluções dos planetas ao invés.

Por que deixas tuas mãos,
Enfeitadas com os anéis de Saturno,
Agarrarem o luar
E iluminar todos os sóis?

Que energia faz teu corpo tremer
Num beijo, num soluço até,
Neste prazer ínfimo e infinito
No qual te orbitei?

Para a inveja dos anjos e demônios

Deus não quis que o homem voasse,
Por isso, criou os poetas, anjos e demônios,
Que são seres parecidos com os homens;
Nem no mais nem no menos,
Só nas asas não são iguais.

E nesta parecença apenas,
Para espanto dos bichos alados,
Num porém da vida,
Nesses poréns que a vida descuida,
Em noite de encantamentos, talvez,
Em noite de poesia cheia,
Os poetas, que por assim não saberiam voar,
Negam-se em humanidade e
Avoam, e avoam, e avoam...

Avoam para invejança doutras criaturas
Que tentam cantar a manhã
Numa mesma melodia que se arrepete em eternidades.

Não há poetas entre os anjos e demônios,
Por isso eles desconhecem os versos do dia que se faz.
O voo deles é apenas parte da melodia da coisa repetida.

Para desesperança dos tinhosos e imaculados
Que gostam da ordem e coisa não mexida,
O senhor criou o poeta,
Para voar, para escrever Sua poesia,
A mistura de tudo o que foi criado.

Lá do alto, completo,
O verso escapa da boca do poeta e diz
Do tempo que há de vir
Do tempo que perdeu a asa,
Do agora, deste poema sem hora.

Avoa poeta
E canta inteira a poesia de Deus.
Avoa poeta,
Sua vida é avoar
Para a invejança das criaturas
Cante o poema que se escondeu
Na mais alta nuvem
No céu, nas alturas
E que nem Arcanjos e anjos caídos
Podem alcançar.

Negativa III

Não.
Não pode ser o vácuo
O lugar das inexistências
Pois tudo que existe
E que virá a existir
Precisa de espaço.

Não.
Os astros que enchem nosso céu de luz
Que nos fazem em poemas
Que nos velam o sono
Que nos têm em sonho
Não são vaga-lumes condenados à morte.

Não.
A vida não pode ser explicada apenas
Pelo início e pelo fim
Pois há o meio
E é no meio que se vive.

Miudezas

Juntem esses poucos retalhos,
Juntem esses pequenos ciscos,
Juntem os pensamentos apequenados,
Juntem as migalhas da mesa,
Juntem o que nos sobra direito ou torto,
Juntem essas pequeninas coisas
Porque é de miudezas que se enche o mundo.

Juntem os últimos suspiros dos moribundos
Juntem tudo que vaga entre os vagabundos
Porque é a partir do miúdo que se explica o todo.

Juntem o ar da manhã com o vento noturno
Juntem os signos às luas de Saturno
Juntem o perdão à pena do condenado
Juntem o remédio aos irremediados
Porque é da miudagem que se tem o inteiro.

Juntem tudo que não presta
Juntem tudo que tem serventia
Juntem tudo e bem juntado
Porque é da miuçalha que o Universo se veste.

Canora

Ouça,
A verde ave canora canta...
É um canto único, novo.
Em suave sonoridade
Canta
A velha esperança renascida na aurora.
Ouça,
Não há dor neste canto,
A esperança não comporta dores de outrora.
Ouça,
No último agudo
Há o riso de uma criança
Gerada na dor - esta velha senhora.
Ouça,
Ouça a esperança canora
Que nada espera
E se faz num canto único
A cantar o agora.

Lá fora

Minha doce senhora,
O céu já é claro,
Vejo isto pela janela de seus olhos,
Lá fora o frio quer encontrar sua pele
Durma novamente
Vou-me
Vou-me
Lá fora, vejo pela janela,
A labuta quer tirar a minha pele.

Ausente


Tinha o olhar de nadavê,
As feições do nadacrê,
E passeava pelo mundo
Satisfeito como grama
Em dia de chuva.

Dava por si raramente
Quando na dor se sentia.
Percebia nestes momentos,
E somente neles,
Que tinha em si, nos ossos,
O ruminar do existir
E o tempo a roer tudo.
Mas logo esquecia o tudo e o tempo.
De resto, como vivia bem
Na ignorância total de si!

O pavor de sempre

Cansam-me as tragédias do mundo,
Elas se repetem, tragicamente se repetem...
Meus amigos arregalam os olhos,
Comentam manchetes,
Fazem o sinal da cruz...
E na fila do banco, e no conforto da cama,
Na solidão sanitária,
Oram evocando terrível Deus.
Cansam-me meus amigos
Com as tragédias embutidas em suas rezas.
Ignoram eles, ou assim pensam ignorar,
Que ser homem entre os homens
É a única e verdadeira tragédia
De final por demais conhecido:
A estupidez se repete na morte
E, estupidamente, nos apavoramos sempre.

A caminho de Cocanha

Meus pés são cansados
Mas, a Cocanha hoje chegarei!

Em Cocanha não há pecado
E se houver, um abade esfarrapado
Há de dispensar minha confissão.
Em verdade, em tal cidade
Não viver bem é aberração .

Meus pés são cansados
Mas, a Cocanha hoje chegarei!


Ah, Cocanha fica além de Passárgada,
Dorme no colo do vento
E tem, em léguas bem medidas,
O tamanho do nosso pensamento!
Lá todos são soberanos,
Porque só há engano
Em apenas ser amigo do rei:
É preciso também ser rei no lugar do rei!


Meus pés são cansados
Mas, a Cocanha hoje chegarei!


Em Cocanha, o amor se tem aos metros
Cantado em versos e de graça dado.
Lá não há o certo e o errado,
O direito e o avesso,
O torto e o perfeito.
Lá cada um é de seu jeito.


Meus pés são cansados
Mas, a Cocanha hoje chegarei!


Lá meus amigos não negarão seus abraços,
As belas mulheres não medirão minha carteira.
E dividirei meu copo servido por Baco
Com o abade gordo, sorridente e bêbado,
Porque em Cocanha não há pecado
Para quem desejou na vida apenas ser e ter estado;
Em Cocanha sou rei no lugar do rei!


Meus pés são cansados
Mas, a Cocanha hoje chegarei!


Toada corre-mundo

Corro mundo, corro dia,
Carrega-me o vento, ventania,
A tristeza e a alegria.
Meu caminho é a saudade
De teus beijos vida minha.
Sou caboclo corre-mundo,
Que tem nos olhos
O feitio das paisagens,
No peito, vida minha,
Carinhos não esquecidos,
Amor, calmaria e tempestade.
Corro mundo, corro dia,
Só não corro da saudade.

Quinta Avenida



Seres bovinos ruminam o ar da manhã.
Guiados por seus pés, deixam-se engolir por carcaças de lata.
Bovinamente vão fazer alguma coisa,
Ocupar o tolo tempo entre o nascer e o morrer.
Tolamente moverão mundos e fundos.
E no ruminar do ar da noite,
Depois destas tolicies todas,
Num fundo poço, hão de descobrir
Que de nada valeu tanto esforço
Porque o mundo, que de seu eixo não se moveu milímetro,
Bovinamente rumina o tempo do homem.

Insulto

Fagundes Varela
Morreu no Século XIX
De insulto cerebral
(Está no seu atestado de óbito!)
Vou adiante
Em nosso Século
Século findo
Permeado de absurdos
Profundamente nauseantes
E bárbaros
Esta é a causa da morte
De todos os poetas! (29/10/97).

Celas abertas

A Ana Clara Garmendia

Arrependimento mata, Maninha
Se eu soubesse que seria tão duro assim
Tudo de errado teria feito

Teria Cativado a flor
Num jardim somente meu

Teria preso os pássaros
Armado arapuca
E guardado o canto deles
Numa concha pequenina
Abandonada no jardim

Teria roubado a flor do campo
E aprisionado sua beleza
De uma semana
Numa garrafa carmim

Arrependimento mata, Maninha
Se eu soubesse
Roubaria de você o perfume
E o guardaria todo num frasco
Antigo, translúcido, marfim

Arrependimento mata, maninha
Por respeitar o belo
Nada de belo guardei para mim

Estou morto, Maninha. (Verão de 1998).

Noite

Na mais profunda das ausências
Sinto teu cheiro e teu calor
Enfim, teu corpo inteiro
Enrolado no meu
Como lençol
E teu peito serve-me
De magnífico travesseiro.

Fogueiras de antigo Inverno

Zunido de bala no escuro
Zumbido de abelha na bananeira
Estampido das cores do arco-íris
Assobio de cana chupada numa tarde de Inverno
Calafrio do medo de assombração
Frio medroso ao namorar Maria Imaculada da Conceição em arrepios
Debaixo do abacateiro plantado pelo pai da moça, seu Matassete
Frio aquentado nas mornas fogueiras de São João que queimavam:
Estampidos de um coração moço, inocente e absurdamente tolo.

Sem pecados

Maria Francisca
Tem no nome marcas da caridade.
E na Casa da Luz Negra
Maria Francisca
Troca, com orgulho,
A luxúria pela piedade.
E para os homens avaros
Dá, sem ira, gratuito amor.
Bela, Maria Francisca é invejada
Pelas gulosas e gordas companheiras de ofício.
Maria Francisca ri da vaidade alheia
E, em silêncio, depois de mais um ato de caridade,
Pede a Francisco e Maria
A paz de impudica santidade.

Devoto

Sou devoto das coisas simples.
Na complexidade própria,
Na complexidade do entardecer,
Fico simplesmente parado,
Observando, vendo... Escutando
As explicações dos matos e flores,
Que crescem sem fazer barulho,
Sem mostrar que crescem.
Escuto minhas explicações
Sobre as dúvidas que crescem:
Por que a chuva molha a terra,
Por que deste molhar leve,
Por que dos adeuses,
Por que dos encontros,
Por que do conhecer...?
E em resposta simples,
Sem fazer barulho,
Devotamente rezo.

Eternidades

Senhora dos pensamentos meus,
É hora de recomeçar os versos,
Alisar esse tempo de bárbaros
E dele tirar a fina pele.
Sonho contigo, minha senhora,
Pois de ti emana toda poesia
Que se faz luz na noite dos homens.
Descobri a eternidade, minha senhora,
Queria confessar isso agora,
Ela mora nas entrelinhas dos versos
E, escondida, só se mostra aos poetas.
A poesia é eterna,
O poeta é eterno,
E tu, minha senhora,
És a substância
Dessas eternidades.

Felicidade

Sei que a felicidade é fugidia
E o tempo é a sua desgraça.
Não adianta trancá-la numa garrafa,
Como um gênio a nos dar fortuna,
Ela vem e simplesmente passa.
Resta-nos reconhecê-la,
Vivê-la em plenitude
E tê-la depois em recordação;
A lembrança do tempo bom
Faz belo o que foi ilusão.

Coração

Veio-me com o coração cansado.
No peito, um largo rasgo
Dizia-me de antigos sofrimentos.
Veio trazendo-me antigo amor
E o riso de antigas tristezas.
Veio-me acordar de letárgico sono
Imposto por mim mesmo.
Veio-me linda como em criança
Na doçura do primeiro beijo.

Para a poeta continuar esta décima

Não quero mais a noite dos silêncios,
Quero a vida, quero a alma da fala.
Guia-me o peito a rosa-dos-ventos
Que no vento a minh'alma espalha.

Crescente

A Lua quer crescer
E forma um “cê” enorme
Num céu inexplicável, escuro e limpo
A Lua é a alegoria da vida
Do crescente ao minguante, do "cê" ao "dê"
Sempre Lua
Sempre, sempre...
Venha ver a Lua
Venha ver a gente
Nossos braços
Formam “cês” e "dês" enormes
Que tocam ombros
"Cês e dês" de abraços
Que aninham amizades
Que guardam amores
"Cês e dês" complementares
Que, num minguante,
Estarão cruzados sobre nossos peitos
Definitivos
Em adeus e despedida.

É isso

Resta-nos, amiga,
Morrer para viver
Quiçá um sonho eterno.

A cor do abismo

Esperar-te...Esperar-te...
Quanto tempo inda posso
Mirar ao longe a esperar-te?
Lá, leve sombra passa
À sombra das disformidades,
Tão viva, tão presente...
Lá, teu rosto some
Tão vivo, tão presente:
Sei que tens ainda os cabelos da noite estrelada,
Ainda tens como prisioneiro o riso de minh’alma,
Ainda tens teu olhar distante pregado no que não foi,
Tão infinito que não mais o tens em alcance.
Ainda tens nos olhos todas as profundidades;
Neles, o negro é meu antigo abismo,
Vazio contínuo, queda sem fim...
Neles desde a infância caio; desabo sentindo no rosto o vento,
O leve vento soprado pela tua eterna e terrível ausência.
Desabo e nele caio
A esperar-te... A esperar-te...
Quanto tempo posso ainda?

Unidos do Vaticano

Há um boi nos ares
Da América do Sul
Há uma brasa, ilha,
No Planalto Central
E um rio que nos arrasta
Para as águas da Guanabara
Em todo janeiro
Que se faz em fevereiro
Nas carnes das mulatas nuas
Nos morros, vilas, favelas.
Viva, salve, Mangueira!

O burocrata não caiu no samba
Por falta de protocolo, terno e gravata

O turista argentino não foi para a avenida
Por pura incompatibilidade com os seus pés

Todos, a mulata, o burocrata
E o argentino sumiram na quarta-feira
Pois há um boi nos ares
Da América Latina
E uma brasa, ilha, no Planalto Central.
E viva o Vaticano, que decide todo ano
Quando será o nosso Carnaval!