sábado, 4 de março de 2017

Cheiro de maçã

Vermelha no rosto,
Cheirava à maçã,
De resto, nua, era o doce
Alvo da alma da maçã.

Acidente

Mais um acidente
Investiguem os mesmos
Suspeitos de sempre
A começar pela Fortuna
Essa deusa que tudo nos dá
E tudo nos tira
O triunfo e a derrota
O infortúnio e a bonança
A juventude e a velhice
A vida... A vida... A vida...

Vaidades em Curitiba

Bela Curitiba
A vaidade vive em ti
Em cada esquina
Um Salão Marly.

Penduricalhos de Curitiba

Curitiba é mui bela
Porque belos são seus filhos
E mui belas são suas mulheres
O resto é penduricalho
De prancheta de arquiteto.

Raro dia

Raro, feito para ti
Este dia que se clareia no horizonte
Num abraço de chegar.

Lua em Aquário

A Lua está em Aquário
E há peixes soltos
Na sala da astróloga.

Órbita

Contrariando as leis universais
Minha etérea saudade
Descreve longa órbita até você.

Neurônio cansado

Cansado, o sofrido neurônio
Disse às células do coração:
"Chega, não amem mais não!"

Aproveita, poeta

Poesia nada nos custa
Aproveita Poeta, antes que taxem
O luar e a luz das estrelas!

De supetão

Do nada, de supetão
Há gente que topamos na vida
A quem damos o nome de Paixão.

Tresloucado

Tresloucado, oiço as estrelas
Tristes, elas lamentam
O triste destino dos homens

Bruto, porém mole

O sistema aqui é bruto
Mas, o coração trai-me
E tem a dureza da manteiga.

Que liberdade é essa?

Dizes a ti que és livre
E segues delirantes líderes
Que tiram de ti a liberdade.

Largo da desordem

Curitiba, Feira do Largo da Ordem
Comia um pastel com Gengibirra
E pensava na birra e desordem da vida.

Não me convidem

Não me convidem
Para bares sem balcão
Sem cerveja barata
E que só servem as "artesanais"
E que te colocam fitas no braço
Com medo de que tu fujas
Não me convidem
Para bares da moda
Com petisco gourmet
Sem gosto, sem vida
Com ruídos chamados de música
Com gente de falsa felicidade
Sorrisos de múmias
Poesia não vive nestes ambientes
Poesia precisa da verdade
Poesia para ser limpa e bela
Precisa sair
Da bruta realidade
Daqueles que brindam mais um dia
Sobre esta apocalíptica Terra.

Desacordos

Olho para a Serra e o céu é limpo
Penso sair, chove
Vida, vamos entrar num acordo?

Foi um domingo assim

Foi um domingo assim
Que se molha aos poucos
Um chuvisco aqui, ali outro
A molhar teu cabelo
A desfazer a maquiagem
Dos teus olhos, do teu rosto.

Nunca falhou

Tu que aqui estás
E como eu não sabes até quando
Vive bem as tuas horas
O tempo não respeita felicidade
E muito menos a dor
Ele para no minuto em que deseja
E pelo que se nota
A esse compromisso nunca falhou.

O incauto

Chamo de grande iludido pelo Tempo
O incauto
Que deixa a felicidade para mais tarde.

Assopra

Vida para adiante
Velas no mastro
E se faltar vento
A gente assopra.

Previdentes

Ó previdentes, gente do pé-de-meia
Que tal viver um pouco e com alegria o agora
Antes daquela que aposenta para sempre?

Sem perder a fofura

Hás de emagrecer
Mas, sem perder a fofura jamais!

Tatu-bola

Eu conheço um tatu-bola
Que é filho do tatu-bolão
Neto do tatu velho
Que mora lá no sertão.

Amor antigo

Ventinho de chuva
Ventinho de saudades
É novo este dia
É antigo este amor.

Ipês e jasmins

Como não fazer poesia
Ao zanzar por Curitiba?
De dia, o doirado dos ipês
À noite, o suspirar do jasmim.

Feitiço bom

Tem gente que tem feitiço nos olhos
Feitiço bom, de não se esquecer.

Quisera entoar um canto

Quisera entoar um canto
De esperança para meu povo
Que sarasse os calos das mãos
Que secasse as lágrimas do rosto
Que mostrasse que somos fortes
Ao retirarmos do quase nada
Felicidades impossíveis
E os risos da própria miséria e sorte.
Miséria que nos deram
Esses que nos chicoteiam
E nos roubam, escravizam
Vendem e nos matam
Quando crianças, quando jovens
Quando velhos e sem forças
E que infantilmente, ingenuamente
Outorgamos voz, voto e mando.
.Quisera entoar um canto
Para você, meu amigo, amiga
Irmãos de mesma sofrida sina
Quisera, mas não posso.

O ofício dos pássaros

Enquanto estudo e escrevo
Aparece-me um pássaro
Depenado, mirrado, feinho
Porém, de canto belo, que nunca ouvi
Canta sem se importar comigo...
Canta, verde ave canora
Canta porque é ofício teu
Compor a trilha sonora
Para os desencantos meus.

A viúva

Vestida de negro
Com seu velho xale
A viúva coloca na mesa
Uma chávena de chá
Duas xícaras e biscoitos
Espera a amiga Saudade
Comadre dos domingos
E de todas as tardes.

Cão ingrato

Quase mais nada me causa espanto
Neste mundo que é um circo sem pano
Nem mesmo a mordida de ingratidão
Do cão que salvei da fome e abandono.