sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Adeus ao querido amor


Dizer algo antes do adeus
É quase que premeditar um crime
É fazer sofrer sofrendo
É matar matando-se

Dizer algo depois do adeus
É cavar uma cova sobre outra cova
É confessar um pecado sem perdão
É tentar segurar o vento com as mãos.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Testamento de Horraca de Pedro


Era de mil duzentos e quinze.
Horraca de Pedro entregou seu corpo,
A sua casa inteira,
Até mesmo o leito e sua manta nova,
Ao mosteiro de São Salvador de Salto.

Para Maria do Pelágio:
Uma ovelha, uma cabra e seus filhotes.
Outro quinhão foi para os leprosos.
E para o abade e a São Martinho de Candaosu,
O prelado aqui na terra
E o santo lá do outro lado,
Também houve lembranças,
Cuidadosos que eram de sua alma.

A piedosa Horraca sabia das coisas
E para a outra desamparada Maria,
Filha de Pedro Calvo,
Deixou um moio de pão
E dele anual porção
Até que Maria encontrasse marido!  

(Poema baseado no testamento escrito em latim bárbaro, mas já com traços do português. Documento guardado no Mosteiro de São Salvador de Souto, perto de Braga, Portugal).

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Uma noite na Lua

Brincavas, menina.
A Lua estava com sono
E o mundo se construía
Na TV primitiva
Em vidas descoloridas

Esconde-esconde
E eu que nunca te achava
Queria ver a águia pousar
Na Lua da poça d'água
A Apolo XI

Meu mundo era sideral
Nos pulos de Armstrong
E o teu tão normal
Em passos saltitantes
No jogo de amarelinha.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Utopia

À Christa Wolf, in memoriam 01/12/2011

Não mais além do que fraca lembrança
Daquela ternura ao se falar de coisas graves
Das bandeiras utópicas que fizemos tremular
Nas tardes de ventania e revoluções

Não mais do que fraca esperança
De ternas palavras aos que precisam
Porque são tantos os que pedem
Suave vento para soprar suas feridas

Não. Tudo foi varrido para os cantos
Os sonhos estão debaixo do tapete
E os hipócritas vestem-se de vermelho

Não. Minhas palavras não vão além do canto
Que espera outra partitura mais verdadeira
Para a revolta do homem escravo do homem.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Os números que vos representam

Deus meu, tenha misericórdia
Dos homens que contam o mundo
Em frias parcelas numerais...
Eis seus algarismos, eis nossos pecados:
Sete bilhões de almas
Dois terços de famintos
E outros tantos percentuais
De doentes, de sobreviventes
Dos que já repousam em terra fria
Dos que se cobrem com o vento
Daqueles que não têm alento
Daqueles que não sabem ler nem contar
E ignoram que são números
Talvez terror, errante erro,
Nas tabelas da indiferença
Do burocrata a calcular.


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Zanga das horas


Que enfado! Que amofinação!
Repetir a vida a vida inteira
Tirar a remela dos olhos, acordar
Escancarar a bocarra diante do espelho
Lavar os dentes que ruminam afazeres
Todos ainda por fazer
E que se repetem, repetem, repetem
Espero, hoje, algo novo no ritualístico
Caminho que vai da mesa ao sanitário
Talvez, uma música desrotinante, nova
Feita numa escala de doze ou mais notas
Realmente diferente
Para embalar o repetir e a zanga das horas.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Metafísica


Metafisicamente
Procuro teus olhos na noite
A Lua de monóculo
Grande e cheia
Não gosta de metafísica
Apaga-se em melancolias
E deixa-me o negro dos céus
A mostrar-me
Que nem em sonho
Teus olhos vivem.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Ela: o vazio

Comento novelas, falo de filmes adocicados
Leio um livro e tento manter minha mente ativa
Faço compras no shopping, ligo para uma amiga

Roupas para mostrar-me bela aos embasbacados
Um sapato novo para novos passos ao desconhecido
E um batom quente para o beijo que trago guardado

Mas tenho nos olhos velha tristeza dos entristecidos
E braços fortes que ganhei à custa das despedidas
Para abarcarem o nada que acompanha os esquecidos

Espero assim que a Sorte dê outra sorte a minha vida
E desfaça o desbotado bordado desses dias tecidos
Com as cores da monotonia que me fazem tão aborrecida.

Ele: o vazio

De tempos em tempos Baco me convida...
Quer-me em riso, entorpecido, alienado
Narcotizado, feliz com essa minha vida

Meus amigos acompanham-me obstinados
Na esperança de esquecerem suas misérias
Neste mundo no qual estamos aprisionados

Em tal momento o real não é mais a matéria
É o doido gesto do suicida que se deseja vivo
E tolamente se mata por inexistente vida etérea

E no final da festa em que vivo ainda prossigo
Sinto no peito o frio vácuo de todos os abismos
Dessa falsa felicidade, pois não sou contigo.

Ela: os olhares

Uns me olham com os olhos da carne
Desejam-me por brevidades, por momentos
Querem-me em suas vidas como experimento.

Outros me olham com os olhos da utilidade
Desejam-me útil para preencher vazios
A breve brevidade em ínfima eternidade

Outros me olham em profunda indiferença
Para esses sou o nada na paisagem do caminho
Aquilo que se vê, mas não se vê serventia

Desses também ignoro tudo, não preciso deles
Não quero o olhar que me tire a roupa do corpo
Somente desejo os olhos que me deixem a alma nua.

Ele: os olhares

Os olhos mostram os espíritos das pessoas
Quando miro alguém, procuro o fundo dos olhos
E só então vejo sentido na alma que se me apresenta

É nesta hora que saberei de teu nome e existência
Porque até então tu eras-me um olhar ausente
E tua alma na minha alma não se fazia presente

Gasto assim a minha vida cruzando olhares
Sigo a multidão vendo-me em retinas
Umas em ternura, outras em distanciamentos

Nos olhos que são escritos o que se é e deseja
E ler tais livros vivos é que nos faz viventes
Pois só sou vivo se teus olhos me sentem.

Ela: a procura



Como saber-me viva se ninguém mo diz?
Como saber-me viva e necessária?
Como saber-me viva nos braços do vento?

Há no mundo uma vontade do encontro
O criado, posto que separado,
Sente saudade do tempo que se fazia junto

Por isso as coisas e as gentes se procuram
Obedecemos à vontade universal
Que nos pretende e nos quer de mãos dadas

Mas não pode ser qualquer mão nas minhas mãos
Há de ser aquela que ao roçar-me os dedos
Dê-me a certeza de que meu coração abarque.

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Ilustração: "Nua sentada num divã" ("La Belle Romaine"), de Modigliani.

Ele: a procura


Não fomos feitos para a solidão
Do outro que vai ao nosso lado
Precisamos sempre da eterna opinião

Sem essa companhia na caminhada
Não temos a quem comunicar
A beleza e os perigos da paisagem

Sim, há os que pensam caminhar só
Mas há aí um monstruoso engano
Pois estão no meio de uma multidão

O segredo é procurar a companhia certa
Que tenha conosco o mesmo passo
E o olhar no mesmo ponto do infinito.

Efemeridades


Sou água em calmo lago
Que sofre de longa melancolia
Pelos dias em que foi tempestade

Na juventude que me aqueceu
E deu-me o cetro entre os meus
Já habitei os céus e as nuvens

Mas que efêmero rei, que reles deidade,
Que me tornei nesse tempo de efemeridades
Sem saber que perdia a breve mocidade

C
H
O
V
I
Sem sorte até perder a intensidade
Até acabar-me nesta calmaria de morte
Feita com as gotas de todas as saudades.

As rosas que morrem


Cultivo um jardim
Para a vida breve da rosa
Cultivo um jardim
Para a eterna alegria de teus olhos

A rosa vai morrer
O próprio jardim é seu feliz cemitério
Assim, ao cultivar o belo, expresso meu desejo 
De que a eterna alegria que dou aos teus olhos
Tenha em tua alma magnífico túmulo.

Mármore


Amofinam-me o comum
E os rostos de mármore
Que fingem respirar e viver.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Em meus sonhos tu vivias


Eu já te conhecia antes de te conhecer!
Tenho essa convicção, crença mesmo,
Reforçada a cada vez em que te vejo real,
Porque tu figuras em antigas paisagens
De tudo quanto hei sonhado.

Os desejos são os artífices dos sonhos
E tu és meu querer manifesto.

Pensar-te como deverias ser
E ver-te linda ao alcance das mãos
Faz-me sentir em estranha realidade imerso.

Que susto bom, meu amor e caminho...
Que susto bom!
Topar com um sonho vivo,
Com olhinhos repletos do bem gostar
E com o coração batendo aqui...
Aqui, aqui... Em mim, tão bem juntinho!

 

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Harém de Damasco

Queria estar hoje em Damasco
- Gosto da fruta e gosto do nome -
Não sei se gostaria mais ou menos de ti
Estando em Damasco, comendo damasco
Vendo-te na dança do ventre
No harém em que, por certo,
Tu atearias fogo, por ciúme e ódio de mim,
Deste pobre paxá
- Pudico e circunspecto -
Que só consegue imaginar concubinas
Copiadas de tua nua matriz
Sempre a exalar o mais puro jasmim.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Lançamento: Polaca



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Lançamento: A caminho de Cocanha



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Lançamento: Carmina Noriis



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Lançamento: Orquídea na Pirambeira



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terça-feira, 26 de julho de 2011

Em ti, a plenitude


Acordo de madrugada
Estico o braço para o lado
E encontro o vazio.

Perco o sono vazio
E percorro cada segundo
Esquecido e repleto de de ti.

Há muito tempo que não sonho
Nem contigo nem com coisa alguma
Fiquei vazio e só no tempo passado
É que me encontro, me imagino.

Era o tempo que tu estavas em mim
E por isso, eu existia em plenitude
E lutava e amava e vivia e vivia
Sem precisar sonhar, pois sonhava.

sábado, 23 de julho de 2011

A minha revolta usa lantejoulas


Passei do tempo das descobertas
Embora de roupa nova, de pano importado
Certas coisas aparecem-me
Com cheiro de naftalina

Amofinam-me a velha música
Com novos arranjos
A velha trama romântica
Em livro fresco, de tinta fresca

O lixo literário reciclado
O lixo musical reciclado
O lixo de nossos dias
Cada vez mais lixo
Cada vez mais imprestável

Até mesmo minha revolta sorrelfa
Está de vestido novo, dissimulada e sonsa

Vestia-se de trapo quando menina
Hoje, apresenta-se teórica
Com justificativas
E nas lantejoulas, o orgulho das bestas
Que se intelectualizaram.


quinta-feira, 21 de julho de 2011

Poema da linha torta


Quisera dormir o sono dos sensatos,
Daqueles que têm a vida como nada,
Porque não se deram conta dela,
Vivem apenas, respiram apenas.

Quisera não ter sabido da morte de um amigo,
Ou de outras coisas que me desagradam.

Ou, na verdade,
Quisera
Desagradar-me
Sem sentir
O desagrado.
Isso, sem senti-lo...

Os sensatos não sentem, calculam.
É preciso de quilos de matemática
Para ser um deles.

Por isso, aprendi muita aritmética
E de nada me adiantou ser amigo dos números,
Minhas contas sempre terminam
Em poesia, em versos das mais absurdas
Geometrias, sem teoremas, sem postulados,
Sem demonstrações algébricas.

Minha poesia é a geometria da linha torta,
Do círculo povoado de tangentes,
Da esfera povoada de gente,
E nela todas as retas terminam
No bem querer, no bem sentir
Que vejo no infinito de teus olhos.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A menina na praça

Triste como um azulejo azul
Lusitano e desbotado
E que guarda antiga gravura
De um tempo em que se partia
Dos portos em choro e saudade

Triste, irremediavelmente triste
Sentada num banco de praça
Sem saber que está na praça

Lá está o pipoqueiro
Crianças brincando com balão de gás
E pombos em vadiagem
Ignorantes que são da paz que representam

Triste, inconsolável e triste
Sentada num banco da praça
Enfeitando com a sua tristeza
A melancólica paisagem.

terça-feira, 19 de julho de 2011

A "expertise" dos jacus de teta


O Brasil não tinha uma boa ave mitológica
Até que a sábio e certeiro homem do povo
Criou o fantástico pássaro jacu de teta.

Resultante de uma cruza, porco tetrápode
Com a ave bípede, esse animal não anda direito
E também tem dificuldades para alcançar os céus.

Tal a Fênix, ele se banha em resina do que não presta
Para atear fogo sobre o próprio corpo
Porém, renasce das cinzas em ignorância profunda.

Não é ave solitária, gregária anda em bandos
Pela iniciativa privada. Da cloaca tira a iniciativa,
Usa e abusa do público com se usasse uma privada:
Defecando todos os horrores do mundo,
O roubo, a pilantragem, a dilapidação do erário.

Ave política, para justificar sua fome pelo patrimônio do povo
Inventa discurso novo, cheio de voltas e floreios
E palavras vazias de significados, mas que soam bonitas:
A última agora é a tal de "expertise",
Que roubou aos gauleses, mas que afirma ser dos ingleses.

Nem uma nem outra, caros jacus mamários:
Essa palavra é dos romanos e também de nossa língua.
Vem de primários tempos, sendo nada mais do que adjetivo
Com outra terminação, é claro: expertus, experto.

Assim sendo, caros jacus espertos,
As suas espertezas de voar sobre o idioma,
Como voa uma galinha, nos mostra que esperto mesmo
É falar experteza e não cantar como o galo europeu.
E depois, o povo brasileiro já sabe que a grande "expertise"
Desse pássaro folgado é se fingir de leitão para mamar deitado!

sábado, 16 de julho de 2011

Faxina n'alma

Desejo de fazer faxina na vida,
Jogar as rotas lembranças fora,
Tirar as velhas roupas da alma,
Dar-lhes uma vestimenta nova.

Lavar com água e sabão a saudade,
Esfregar no tanque seu tecido
Encardido e sujo dela mesmo.

Passar água sanitária
Em cada cantinho do coração
Para deixá-lo sem os bolores
De remotos amores e da solidão.

Colocar de molho a minha poesia
Para que ela fique branca,
E seja paz somente, apenas esperança.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Vontade em tempos de Web

Nunca aprendi a conviver com a distância,
Odeio apartar-me do que gosto;

Antigamente, quando o distanciamento era grande,
Eu sangrava as saudades com uma carta
Ou, se tivesse dinheiro - porque dizer "alô" era caro -
Fazia interurbano, mandava telegrama,
Sinais de fumaça e batuques de índio americano.

Hoje tenho facilidades instantâneas,
Mando e-mails, deixo scraps,
Faço o diabo no Twitter, Facebook e Skype.

Mas creio que nada disso modifica
Essa minha louca vontade pré-histórica
De sentir o tremor de teu corpo
Quando de leve te mordo a língua!

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Quando te aborreço

Sei quando estás aborrecida comigo.
Hoje nem encostaste no piano,
Somente leste as partituras
A andar pelo jardim.

Andas de lá pra cá
E cantarolas uma melodia
Feita de suspiros profundos.

Não sei exatamente o que te aborrece,
Deixei meus escritos sobre a mesa
E talvez tu viste ali outra mulher.

Mas, como explicar isso novamente a ti,
Como dizer que a arte não escolhe tema
E que a poesia foi feita para louvar
O que aos olhos se desmancha em poemas?

Não hei de me censurar,
Deixar de falar do que bem quero,
Mesmo que isso te aflijas.
Pois bem sei que tu tens alma de artista
E haverás de perdoar a minha arte
Sempre no início da noite
Quando me abraças e sorris.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Quem és?

O que há em ti, criatura,
Que te faz cada dia mais bela?

O que te faz cada manhã mais agradável?

Talvez, a resposta esteja no que escreves
E com a insegurança da mocidade
Tu me escondes, ou na verdade, me negas.

Mas, não adianta tantos e tantos segredos,
Nos teus olhos há um livro que,
Em cada noite, leio mensagens ocultas.

Um dia, talvez, aprenderei teu dialeto
E poderei dizer quem tu és e a mim te explicarei
Para pura satisfação da curiosidade deste amante
Triste, triste, que no amor é cansado e incrédulo.

Louis Vitton

Deus meu, mantenha-me longe dos vulgares,
Dos homens e mulheres de frases feitas,
Perfeitamente enquadrados nesta modernidade
Hipócrita em que tudo está perfeito
Se dentro do politicamente correto, é lógico.

Deus, me mantenha um ogro das ideias
Para que a tudo aprenda em humildade
Pois quero saber por que voa suave o passarinho
E não quanto custa uma bolsa Louis Vitton
Para carregar o vácuo de certas cabeças.

E que assim seja pela manhã, à tarde e à noite,
Enfim, pelos séculos e séculos, amém!

Orquídea na pirambeira


Hoje leio na Gazeta do Povo uma raridade
Neste nosso tempo por demais abestado:
Uma triste morte provocada pela paixão.

Foi assim:

Odair Francisco de Oliveira
Resolveu passear com a dona de sua devoção,
A sua companheira feita para todas as merecenças
E reverências de um apaixonado.

Odair, cheio de confiança e razão,
O que é muito próprio de quem vive
A flutuar no espaço sideral do bem-gostar,
Ignorou a advertência do nome do lugar.

Embora penhasco bonito, porém arriscoso,
Ele teimou em caminhar, sem jeito e maneira,
Pelas beiras do Vale da Pirambeira,
Lá pelas perdidas bandas do Norte do Paraná.

Ali, suspensa na parede do imenso precipício,
Viu formosa orquídea feita para o brilho dos olhos
E satisfação do nariz de sua querida.

Odair ficou louco - como manda o manual
Dos tresloucados que se apaixonam -
E improvisou uma corda para buscar a flor...
D
e
s
p
e
n
c
o
u
-
se.
Era novo, 38 anos, forte, mas não resistiu
Aos terríveis ferimentos no apaixonado tórax.

O sargento-bombeiro disse que o golpe fatal
Veio com a irreversível parada cardíaca,
A qual calou definitivamente aquele coração
Que batia somente por seu amor e carinho.

Da planta e sua beleza ninguém sabe o fim,
Da namorada de Odair nem é citado o nome.
Para os jornais lágrimas póstumas
Não interessam aos leitores ligeiros.

E depois, morrer de amor e paixão
Está tão fora de moda, mas tão fora de moda,
Que seria um desperdício de tinta e papel
Falar do destino deveras insano e cruel
Daquela infeliz que ficou sem sua orquídea!

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O que fica pelo tempo

Deixamos migalhas
De nós mesmos pela linha do tempo
Com o firme e doido propósito
De marcar caminho
Para um dia retornarmos
Do grande labirinto
Do Minotauro
No qual nos metemos.

Aprendi a infinitar-me em miúdos
Pedacinhos - uns maiores,
Outros menores, dependendo
De quanto me pedem.

Assim, ficaram partes de mim
Nas mãos de muita gente.
E de muita gente eu também
Coleciono porções diminutas.

Às vezes
Dou-me conta dessas porções
E tento juntá-las
Num esforço impossível,
Porque desprezo o ruim,
Aquilo que não serve
Para emendar meu coração
Feito de retalhos alheios.

Mas mesmo assim
Sou contente,
Há em mim apenas
A melhor parte das pessoas,
A mais pura paixão dos amores,
A plena gratidão dos amigos,
E lá no fundo, mil tijolinhos
De algumas mágicas horas
Somados às pequenas tristezas
Ao se tentar achar serventia
Até mesmo para os nacos
Que me deixam os infelizes.

domingo, 10 de julho de 2011

Estrelas novas

Largue tudo,
Vamos embora, vamos caminhar!
Sair do que somos,
Sair para passear!

Há sempre uma estrela nova
No firmamento nos esperando
E que os amantes devem admirar.
Do contrário, ela deixará
De ser uma estrela
Dos que se apaixonam,
Ganhará então um nome feio
Dado pelos astrônomos
E ao amor não mais servirá.

Amor não demora, demora não!
Vamos salvar as estrelas!

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Instantâneos


Vejo antigas fotografias
Sim, fui mais jovem, criança
Meus amigos também
Eles tiveram os mesmos brilhos nos olhos
Que tive ao sentir as primeiras claridades
Num tempo que já não se conta
Em anos, mas em décadas, séculos

Eis aqui no papel
O que havia lamentavelmente esquecido
Ou só me lembrava em rascunho
Uma festa de aniversário
Um dia qualquer num Verão qualquer
Em que se passeava aos domingos
Pelas ruas e praças da cidade
O antigo amor em sorrisos
O tio sorridente e embriagado
A tia que realmente ficou pra titia

Quantas histórias, meu Deus,
Nesses momentos em que almas
Ficam registradas em luz
Nos instantâneos do tempo
Mesmo aquelas que já se apagaram.

O Outro

Há um grande engano no outro
Nem sempre o que imaginamos
Como uma perfeita roupagem
Cabe no manequim alheio

Idealizamos coisas e pessoas
Damos a elas nossa imagem
Ideais e semelhanças
- Pequenos deuses fabricando gente -

Por isso dos desenganos, do espanto
Quando alguém não reage
Da forma de nosso gosto e vontade

Haveria, por certo, aqui maior felicidade
Se nós compreendêssemos que o outro
É para se compartilhar e não para se criar.

------
Ilustração: Cézanne - Cinco banhistas.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Perfume para o pensamento

Compraste vela de cheiro
Posso sentir daqui
É um cheiro bom
E que dá perfume
Ao que penso e escrevo

Tu dormes em suavidade
Enquanto eu tiro da noite
Todos os aromas
Para falar de ti

Tu tens esses costumes
De dar bondade às coisas
De dar luz ao que é opaco
De dar sensibilidade
Ao que é grosseiro

Mas o que eu mais gosto
É essa capacidade que tu tens
De perfumar o pensado.

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Ilustração - John Willian Godward

terça-feira, 5 de julho de 2011

Quando conheço seus sonhos


Quando quero conhecer verdadeiramente a pessoa
Pergunto o que ela sonha,
Não o sonho de projetos futuros, o por fazer
Ou aquilo que desejamos por conquista
Mas os sonhos tidos e havidos, ou pesadelos
Aqueles devaneios que não são combinados
Porque acontecem na noite da razão

Boa parte das pessoas diz não se lembrar
Outras acham que não devem contar
Outras ainda, seguem seus sonhos como novela

Daí concluo:

As que não lembram do sonhado
Geralmente se fazem pessoas pouco interessantes
Dizem o trivial, fazem o trivial, têm a vida como peso
Afirmam-se contentes com essa realidade bárbara
Que barra até mesmo o seu outro viver

As que acham que não devem contar suas graves quimeras
Têm medo de se trair, pois guardam desejos secretos
Coisas muito íntimas, medonhas barbaridades
Essas já são mais interessantes, são mistério

E por último, as noveleiras sonhadoras inveteradas
Aquelas que acham que essa vida é o sonho
E que a realidade está do outro lado
Aquelas iluminadas que enxergam com o espírito
Estas valem a pena e são as que transformam o mundo
São artistas, são poetas, são humanas!!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Talvez

Tem muita gente infeliz neste mundo
Umas mais e outras apenas melancólicos
E essa infelicidade vem delas mesmas
Encaram a vida como coisa para mil anos

Estão sempre de olho no amanhã
Não admiram o belo alvorecer de hoje
Porque pensam no entardecer do amanhã

A infelicidade vem para elas
Porque se julgam eternas.
Não, meu amigo, não somos deuses
Somos o que somos, ciscos ao vento

Nubífagos, os infelizes andam em temores
Porque querem o que ainda não existe
Esquecem-se que para frente tudo é talvez
De concreto é o sonho que sonhamos agora
Não o sonho que vamos sonhar talvez.

Olha o menino que gira o pião
Porque amanhã, esse giro será talvez
Olha com ternura teus amigos
Porque amanhã, a ternura será talvez
Olha para teu amor ao teu lado
Porque amanhã, ao teu lado, ele será talvez
Olha para dentro de ti nesta hora
Porque amanhã, aí dentro, tu serás talvez.

Rosa dos Ventos


E assim segue a vida
Carregada pelos perigos
Empurrada pelo vento
Ao Cabo das Tormentas

Tateia as ondas do mar
O marinheiro cego
Com os apontamentos
Da Rosa dos Ventos

Mas o rumo se faz
Inseguro e incerto
Para quem tem coração
Para quem sente como sinto
A mudança das marés
No trocar de direção

Marujo não lance âncora
Ouça o seu capitão
Estamos em pleno mar
Não quero parar mais não
Quero seguir pros abismos
Quero ver onde vai dar
As águas da criação

Quero navegar pelo tempo
Quero ver o que não vi
Remar pelo que não sei
E por fim me descobrir.

domingo, 3 de julho de 2011

Turca


Sabe Turca
A gente precisa se perdoar
Falei tanta barbaridade
Porque estava com raiva
E na raiva a gente só faz besteira.

Também você me deixou
Quando eu mais precisava
E para falar a verdade
Nosso caminho nunca deu
Em boa estrada.
Tua mãe sabia das coisas
Poeta, militante e ativista
Do movimento sindical...

Eu indo para a pensão
E você para Damasco
Você pensando na vida
E eu no espaço

Você com quinze anos
E eu Guevara
Você morena vestida de azul
E eu mestre do mais puro vermelho

Falei e se falei foi pra lhe machucar!
E agora devo lhe confessar
Sabe aqueles versos que lhe fiz
Com símbolos alquímicos
Pra gente ser feliz
Até hoje me tornam um nada.

Sabe Turca,
A verdade é que você me faz falta!

Vestido vermelho


Cheguei em casa e lembrei d'ocê
Do seu vestido trágico e vermeio
Cheio de flor a voar também
No forró apertado, no vai-e-vem

'Cê 'tava que 'tava, da festa a mais bonita
Ficamos só nós dois no salão
No frio imenso e aquele calorão
Dançar sem música, ninguém acredita!

Sandaia de couro, chapéu de vaqueiro
Vestido de chita trágico e vermeio
Forró arroxado, ai que desespero
Sodade d'ocê e 'ocê não vem!

sábado, 2 de julho de 2011

Cantiga do bem imaginar


Não falo mais da morte
Porque dela já muito falei
Falo da vida, menos triste
Porque do triste me apartei

Falo do Céu que nos cobre
Das amizades que terei
Das coisas mais bonitas
Da beleza que em ti encontrei

Não falo mais da morte
Essa estúpida a nos espreitar
Falo das coisas que entendo
Dos enfeites a te enfeitar

Não falo mais da morte
Da tristeza em meu olhar
Falo de ti que me alegras
No caminho a caminhar

Falo de ti que me carregas
Sem reclamar do peso a carregar
E daquilo que encontro
Neste mundo feito no imaginar.

Fuxico ao pé da cerca

- Foi?
- Foi e danou-se...
- Arrastada pelo tinhoso?
- Virge Mãe, desconjuro!
- Em dia santo?
- Santo Antônio, comadre!
- Lambeta, eu sabia!
- Que nada, menina danada...
- Já foi daqui embuchada?
- Não vi barriga...
- E o pai? Aquele lesado!
- Agarrou na bebida!
- E a mãe?
- Não fez caso...
- Que lambisgóia!
- É... Também é exibida!
- Quem é o moço?
- Não é aqui da vila...
- Não tem nome?
- Dizem que é Durvalino...
- O filho da Chica?
- Não. Ninguém conhece...Apareceu!
- Mas adadonde, filha de Deus?
- Na quermesse...
- Mas que cabra da peste!
- Ih, esqueci do almoço!
- Corre então, muié... A língua queima...
- Mas é a linguiça que no fogo padece!
- Inté!
- Inté, adepois nós proseia!

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Doce como groselha


Tarde de sol que, de tão longe,
Aparece-me desbotada
Numa fotografia antiga e esmaecida:

Tinhas fita no cabelo
E um envergonhado vestido
Que, com a ajuda das meias,
Deixava-te de fora só os joelhos.

Era o tempo dos rubores no rosto,
De versinhos enamorados, sussurrados,
Ou apenas soprados ao pé do ouvido.

Havia também o circo na praça,
De tigres cansados e palhaços tristes.

Aquela tarde foi a mais bela tarde
Porque nela se guardou nossa pureza
Numa maçã do amor
Que dividíamos a nos lambuzar
Em impossível e impensado pecado!

E se o mundo fosse naquela tarde só amargor?
Certamente, a nossa inocente candura
O envolveria com o rubro mel da groselha.
A Terra seria uma maçã envolta por caramelo
E todos seriam felizes como são as crianças
Nas velhas fotografias de uma tarde esquecida.


A princesa na cela



Quando eu era menino
Colocava meu chapéu de jornal
E logo me transformava em pirata
Corsário, capitão de navio
Ou general de Napoleão
Ou ainda o que me desse na telha.

Às vezes pegava uma tampa de panela
E um pedaço de uma boa madeira
Eram o meu escudo e dourada espada
Para assaltar o castelo
E roubar a mais formosa das princesas

Ela era mais bela que Dorotéia
Nem mesmo de La Mancha para tê-la aos pés...
E por minha sorte vivia nas redondezas
E tinha teu nome, teu rosto, teu coração

Verdade, o teu coração
Que ainda não era meu, mas seria
Tinha essa certeira convicção
Que nuca passou disso: convicção

Meu cavalo relinchava com voz de vassoura
Mas não temia batalha, nem rugir de canhão

Ah, quantas guerras eu vi
Quantas pelejas na calçada
Contra os outros meninos
Que ousaram olhar para ti

Hoje sou dos combates cansado
Vassoura uso para varrer chão
Jornal para ler, madeira para os móveis
E tampa de panela não sai do fogão.

A vida perdeu o encanto
Porque de tanto nesse mundo fazer guerra
Esqueci-me da infanta trancada em sua cela

Verdade, ficaste presa na minha infância
Com as tranças crescendo por sobre a janela
Ah, as lutas! E foram tantas que esqueci teu rosto
Teu nome e que era por ti que eu deveria ter lutado.


A poesia do velho quintal


Não sei se é uma dádiva dos céus
Ou a mais terrível sacanagem
Que se pode fazer com um ser humano
- Às vezes nem tão humano assim -
Nasci poeta e fazia poesia
Sem nunca ter lido poesia
Em casa não tinha livros de poesia
Aliás, em casa não havia poesia alguma!
Eu é que tinha que arrumar poesia
Cavar no quintal para desenterrar poesia

A primeira poesia que conheci veio da música
Do velho rádio teimosamente ligado
Poesia quase sempre ruim, porém poesia
Havia também no meu quintal um bode
Um porquinho e alguns cães
Dois pés de manga e um de mamão
Também tinha uma bananeira
E uma rua infinita que me convidava

Um dia cansei dessas poesias de quintal
E ganhei mundo pela rua infinita
Para fazer dos infinitos poesia.
Hoje sou além do meu quintal e da minha rua
Mas não consegui fugir de mim e da poesia
Segredo: nós dois viramos a mesma coisa!

Conselhos da Coralina


Cora Coralina, a sempre menina sábia de Goiás
Pede aos poetas cuidado com os adjetivos
Cascas de banana dentre as classes gramaticais

Concordo, as poetas têm um jeito especial de versejar
Fazem sensíveis versos que homem não sabe imaginar
Sabem a hora exata de um bom elogio no verso encaixar

Sobra aos poetas o uso de termos adoçados, doces,
Divinamente doces. Quindins feitos por doceiras de Minas
Para dar gosto às inspiradoras musas, porém sem enjoar

Certa está Coralina, a poeta que nos ensina o simples e o belo
Não devemos exagerar ao descrever o horrendo ou o bonito
Porque na natureza o bom adjetivo já vem nas coisas escrito.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A bela paisagem


Já não andamos pelos mesmos caminhos
Tu vais por sendas do concreto armado
Das coisas físicas e tão sem sentido para mim

Eu vou pelas trilhas do imaginário
Que me permitem parar às vezes
Para projetar coisas que não são

És contente com essa realidade inventada
- Com este viver artificial que chamas real -
E sobre tal escolha, nada, nada posso fazer

Vai! A mesma sepultura destinada a mim
Também te espera. Não importa a vereda
Estamos condenados a terminar concretados

Posto que o fim é o mesmo, igual a todos
Por que seguir o rumo de triste paisagem
Se a paisagem do sonho é a que se faz bela?

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Não cantei Neruda



Pediu-me que declamasse Neruda,
Queria sonetos fortes,
Queria ouvir o amor...
Disse-lhe que não. Faltava-me inspiração.
E depois, não havia o mar
Para cadenciar os versos
A cada onda pontuados pelas vagas.
Não existiam também luzes de prata
E uma enorme cordilheira
Para as sinuosidades do cantado.
E depois, como cantar Neruda
Para quem não vivia o amor?
Para cantar Neruda, para falar do belo,
Exige-se de quem ouve
Muito mais do que ouvidos.
É necessário, em absoluto,
Um coração pronto,
Uma vontade, um desejo de querer o outro,
Mais, muito mais do que a si mesmo.
Enfim, havia ali uma incompatibilidade:
Ela queria ouvir Neruda
Como se ouve uma notícia no rádio
E eu queria sentir os versos de Neruda
Como se sente o coração disparado.

domingo, 26 de junho de 2011

História abreviada


Andei pelo Campo Santo,
Olhei morada por morada,
E vi nas fotografias
Histórias abreviadas,
Nos rostos da crianças,
Nos rostos dos homens,
Na beleza das mulheres eternizadas.

Andei pelo Campo Santo
Com um ramalhete de flores
Para enfeitar tua nova casa,
Para tê-las em teu jardim
E perfumar teu sono eterno.

Levei também um maço de velas
Para te fazer menos escuro
O caminho que caminhas
Desprovido de Sol, da luz que tinhas.

Levei ainda o último poema
Escrito para ti em desespero:
Foste tão cedo, na manhã da vida
E me deixaste antes do entardecer.

Fui ao Campo Santo dizer-te
Que tenho que quebrar meus votos,
Deixar de ser fiel a ti
Neste caminho que me resta.

Há muitos anos que não vivo
Porque deitei-me onde estás
Para esquecer-me. E ontem,
Num sonho disseste-me: viva!
E vivo teimosamente hei de ser.

Esquina do pensamento


Hoje iria caminhar um pouco,
Sentir o mundo com os meus pés,
Certificar-me de suas decadências
Esperando algo de novidade na esquina.

Porém, há uma chuva anunciada
Pela moça do tempo
Que aparece na tela da TV
Sempre depois de alguma calamidade.

Assim sendo, impedido pela tempestade,
Vou caminhar por mim mesmo,
Por este meu mundo não menos decadente,
Repleto de surpresas nas esquinas do pensado.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Faz duas luas que não te vejo

Conto as luas até te encontrar de novo
Sinto a tua falta e como sinto
Ao ver o quarto vazio, a sala vazia
Meu peito vazio, minh'alma tonta
Sem saber o que fazer sem ti.

Tua fotografia virei para a parede
Não aguentei mais teu sorriso estático
Estás nela mas não estás
És papel, és a inexistência que ri.

Conto as luas esperando-te no infinito da rua...
Tua ausência me pesa o peito
Que é leve quando estás por perto.
Conto as luas
Conto, conto, conto...
E conto as saudades entre os segundos
Sempre em crescentes, sempre cheias de ti.

Teima


A vida é coisa teimosa.
No jardim, em terrível Inverno,
Tenho rosas orvalhadas
Para êxtase de meus olhos.

Nas rubras pétalas,
Falsos colares de pérolas,
Em pequeninas gotas d'água,
Em teima, sobreviveram
Ao gelo da madrugada
Para saudarem, efêmeros,
Uma única e bela manhã de Sol.

Reencontro


Nunca falei contigo,
Uma timidez inexplicável
Dizia que era melhor assim,
Calar-me, guardar de ti distância.

Ontem, depois de uma vida toda,
Tornei a topar contigo
E a timidez que julguei perdida
Voltou-me para os mesmos conselhos.

Fomos apresentados novamente
Como se nos dessem uma segunda chance
Em roteiro de fados delirantes,
Daqueles que, na terra arrasada
Por intermináveis guerras,
Ainda se anunciam em esperanças.

Não, minha amiga, torno-me novamente calado,
Porquanto o tempo se apresenta curto
Para te dizer tudo o que não disse
A vida toda, por timidez e covardia.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

És meu Céu


Quando digo a ti que tu és meu Céu
Não estou exagerando.
Tu és a minha medida astronômica
A dar-me as dimensões dos infinitos.

Meço coisas distantes
Com a velocidade da luz de teus olhos.
Escuto a criação inicial,
O sopro de Deus sobre minúsculas partículas,
Quando me dizes bem baixinho
Os segredos que guardas desde menina
E que te contaram as fadas, o fado em destino,
Ao te determinarem mulher, tão feminina.

Miro ao longe Vênus em brilho
E mais adiante o grande Marte vermelho
E vejo neste noturno Céu
As tuas mãos em palmos a marcar
A distância entre os astros,
A grandiosidade do amor que nos orbita.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Cativos, indecentes e roubados


Ah! Esses amores que julgávamos esquecidos
E que, inopinadamente, nos tornam à mente
Em arrepios, em indecências, em arrependimento...

Ah! Esses amores que ficaram pela vida
Aguardando, quem sabe, novo tropeço neles mesmos,
Um novo começar sempre adiado pelo medo:

São teimosos e nos fazem cativos
De um desejo falsamente não desejado,
De quem guardamos sempre e sempre
O último beijo - impudico e roubado.

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Ilustração: Manet, 1857

Capricho dos deuses


Um dia, um deus esquecido
Vai acordar no Olimpo
Olhará para o que foi criado
E achará tudo muito chato
Creia, o céu ainda há de desabar
Como desejavam os antigos
Num grande espetáculo
Num grande evento
Para a glória do circo
Para o bem da tragédia
Para quebrar as monotonias
Das coisas e das criaturas
E daí outro deus
Menos sonhador, porém prático
Vai começar tudo de novo
Moldará o barro
E soprará sobre ele
E desta vez
Com um pouco mais de capricho.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Quando ando distante


Não sei o que te faz tão feliz.
Dizes, em agrado, que é estar ao meu lado
E eu rio e duvido,
Porque nem sempre estou em mim.

Estou quase sempre nas minhas tristezas
E quando saio delas
Encontro-te em alegrias
No vestido novo,
No livro que estás lendo de Camus,
Nas histórias que me contas
Tentando contagiar-me a alma.

Não desejava, mas sou triste e distante,
E tu finges não saber disso,
Porque compreendes os distanciamentos dos poetas,
O outro mundo que a nós inventamos,
Tão diverso e contente, que a realidade
Torna-se insuportável.

Assim, tornei-me menos amargo
Nos meus votos de silêncio de horas e dias até,
Pois sei que tu estás comigo nestes dois mundos
E bebes do mesmo cálice
A carregar-me a cruz quando estou já cansado.

Amar talvez seja isso,
Saber a hora exata de invadir o mundo alheio,
Nos momentos de cansaço,
Nas horas da desilusão
E oferecer ao que se faz amado
A alegria que lhe falta,
Num abraço apertado,
Na mansidão do olhar apenas,
Sem palavras, sem perguntas...

Tu, em tua inexplicável devoção
A esta pessoa que envelheceu na infância,
Entendeste muito bem
Que ando pelos longes do meu pensamento
Mas é a ti que sempre retorno.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Gerações no lixo


Toda manhã sou carregado pela tristeza.
Abro a janela e vejo uma velha senhora
Vestida de trapos a revirar o lixo.
Abre saquinho por saquinho, escolhe...
Dias há, em que suas netinhas a acompanham
No frio, com roupas gastas, desbotadas,
Menores do que o tamanho dos magros corpinhos.
Carregam caixas, restos de outras casas,
Restos de outras vidas menos miseráveis.
Para uma, o futuro nada foi além de sobras,
Para as outras, o futuro será feito de lixo.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Tua voz


Suave como tua pele
Ouço a tua voz
Quebrando meus silêncios

Ao ouvi-la aprendi
A interpretar
Teus desejos e vontades

Sei quando tu estás brava
Contrariada com alguma coisa
Em teus agudos trêmulos

Mas, poucas vezes vi em ti
Algum descontentamento
Geralmente, tua voz ri

Ri em compassos bem compassados
Na harmonia que tens com a vida
Amas a vida! Invejo-te tanto!

Noutras horas, tua voz
Calça pantufas, macia, macia
É a tua manha a buscar carinho

Mais tarde sob a Lua, tua voz fica rouca e nua
E me diz coisas inimagináveis, e tão tuas,
Até que, de súbito, te chegues contido grito
Arrastado num delirante gemido entre dentes.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Olhos ao longe


Como arrumar jeito
Para me aproximar
Do teu olhar distante?

Teu olho brilha
Ao ver o que não vê
Quero estar nele

Por trás desta cortina
Há mais do que uma retina
A mirar o longe

Há o mel
Que adocica
A realidade

Olha-me
E faça-me doce
Os tristes dias

Vê, o que era longe
Agora é perto
E pode até te abraçar

Falar coisas ternas
E ser em teus olhos 
A visão de toda a vida.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O que teu olhar me falou

Conjuga-me
Como um verbo que pode acabar
Em coisas que vivas se sentem
Leia-me
Como um livro
Indecente
Que a tudo esconde
Nas entrelinhas de um conto de fadas.

O negro que te veste


Tu vieste de negro vestida
De negro como os mistérios da noite

A Lua
Era branca no branco nu do teu colo
Prata na prata de tua pulseira e anel
Deste-me teu misterioso beijo
E amaste-me em profundo enigma
Por sete dias assim ficamos
Eu a te decifrar
E tu me decifrando
Depois, foste como vieste
Com a mesma veste
Com as mesmas luzes em reflexos
Estilhaçando minh'alma
Tão sem gosto e incolor
Entre teus dentes.


terça-feira, 14 de junho de 2011

Cão vadio


Um dia frio, sem atrativos
Além da janela
Tudo parece dormir
Em preguiça imensa
Corações batem mais lentos
Pássaros não cantam nem voam
Ao longe, solitário cão zanzando
E eu, desprezado pelo sono,
Deixo meu coração bater manso
Escutando o silêncio
Vadio e vadiando
Por pensamentos soltos
Como um cão
A escolher poste para mijar.


segunda-feira, 13 de junho de 2011

Saudade de tocaia


Saudade é cangaceira
Que pega o cabra de tocaia.
Traiçoeira, ataca o caboclo
Quando ele está sozinho.
Vem de mansinho,
Sem fazer barulho
E nos fere em fino corte
Com um punhal agudo
Cutucando o coração.
Mas, não chega a matar.
Essa é sua brincadeira,
Infernizar a vida da gente
E armar todo dia, sempre,
Uma nova tocaia
Nos escuros, antes do sono.
A saudade não nos quer mortos,
Ao nos fazer susto,
Ao nos conceder o vazio,
Ela só quer ser lembrada.

sábado, 11 de junho de 2011

Bomba H no jardim


Estava tudo tão arrumadinho
O jardim no seu lugar
As roseiras crescendo
E depois os botões
E depois as rosas
E depois minha alegria
De contente jardineiro
E vieste para corromper
O cenário
Colheu o botão
Despetalou a rosa
E como uma bomba H
Deixou por lá
Tua radiação
A fazer-me mutante
Jardineiro triste
Em jardim arrasado
Por infinito inverno.


sexta-feira, 10 de junho de 2011

Zodíaco da amada


Ela gosta de ler jornais
E ver as notícias dos signos
As manchetes do futuro
Se Vênus vai bem
Ela vai bem
Se o Sol está em Plutão
Ela diz que estou bem

Não ligo para esse hábito
Da minha Polaca
Parece dar certo

Raramente tem coisa ruim
E os astros são camaradas
Ao nos apontarem
Todo o santo dia
Como sendo muito propício
Para o amor e carinho

E olha que a Polaca
Leva isso muito a sério!

À noite, acende uns incensos
Velas perfumadas
E na penumbra
Convida-me para cumprir
Nosso belo destino
Desenhado nas constelações.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O amanhã dos amantes


Tu me perguntas de quando o Sol raiar...
Como vai ser, o que há de ser?...
Calado, nego resposta,
Porque não sei resposta.

Sei apenas do hoje,
Deste momento singular,
Que a Sorte inveja
Pronta para tomá-lo
Em seus perversos braços.

Somos os bonifrates da Fortuna
E ela me deu agora esse grande prazer
De estar contigo, de saber-te.
Amanhã? Amanhã?
Marionetes não são conscientes
Do próximo passo,
Do puxar do barbante e do cadarço.

Para os amantes, o que está por vir
É tão incerto. É tão inexato.

Importa, querida e amada,
Este minuto que transformamos em eterno
E não há o amanhã naquilo que não tem extremidades.
Nele, tudo é o agora e com intensidade.
Sejamos pois, intensos em carne e alma no amor,
Porque pode ser breve esta pequena eternidade.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A freira ensina latim


Era a madre superiora,
Já velha, ainda forte,
Embora austera,
Gostava de palavras ternas.
Apontava para o quadro
E fazia-nos repetir
As esquecidas declinações:
"Rosa, rosa, rosae..."

Na janela do hábito fechado,
Em dia de calor,
Sua boca se movia
Trêmula e indecisa
Ao nos ensinar
Mais uma conjugação:
"Amo, amas, amat..."

Dizem que morreu aposentada
Cultivando jardim imaginário
E chamando os alunos
Para a última lição:
"Rosas amo... Vitam amamus..."

terça-feira, 7 de junho de 2011

Quente como chaleira no fogo


Sabes querida, queria aqui falar de amor,
Mas, creio não ser esta a forma adequada,
Afinal, quem ousaria hoje falar de amor
E em poesia, em versos adocicados?

Não, dizem os acadêmicos, isso acabou,
Os românticos falavam de amor no século 19,
Nós, no século 21, temos que falar sobre o nada,
A dura metafísica do nada que sobra no nada
Em que nos transformamos sem amor.

Como falar, escrever, sobre teus passos
Que sigo ao mesmo tempo que admiro tuas pernas
E empilhar
Palavras
Sem sentido
Ao gosto
Do crítico
Ou do acadêmico?

Como minha bela, dizer que tu és bela
E por isso, e só por isso,
Tu mereces um poema assim, na segunda pessoa,
Íntimo como um beijo no umbigo?

Como minha doce flor de laranjeira
Dizer que tu tens essa aparência,
Se a única laranja que os pasmados conhecem
É aquela comprada na feira?

Sim, meu amor e paixão,
Nego-me a fazer a poesia de shopping center,
Cheia de pingentes vazios,
Falsos brilhos e que por isso vai bem
Com essa gente que não ama
E se agrada com versos tolos.

Amor meu, eis o meu desabafo
Que faço aqui a ti encolhidinha nos meus braços
E quente como uma chaleira esquecida no fogo:
Amar a ti é mais importante do que seguir a moda!