sábado, 31 de agosto de 2013

Anjo e Demônio

Há mulheres que só o olhar é condenação e pecado. Provas incontestes que o diabo existe. Mas também há nelas um anjo escondido, dos bem safados, que nos leva ao Céu. Sabemos disso, temos certeza disso, e mesmo assim teimamos em amá-las, em sublimes danações. Do contrário, a vida não nos teria serventia, seríamos tão vazios como o escuro vácuo que jamais terá em si o brilho das estrelas.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Insanos

Viver é equilibrar-se na beira do abismo
Em debilidade, em cena de insanidade
Soprando o vento para não despencar-se.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

jardineiro de coisas inúteis

Aos que desejam vida calma e tranquila
Nunca amem, nunca queiram o bem
Porque amar a quem desdenha o amor
Ajudar a quem não quer ser ajudado
É tratar com alpiste rastejantes serpentes
Na vã esperança de que um dia
Elas voem e cantem como pássaros
É regar e cultivar ervas daninhas
Em jardim condenado, sem flores.

domingo, 25 de agosto de 2013

sábado, 24 de agosto de 2013

Antigos quintais

Houve tempo e que já vai longe
Que uma tarde durava a vida inteira
Sim, havia Sol nas tardes que me lembro
Um calor medonho de fritar miolos
Cachorros pulguentos, sujos, ramelentos
Que se chamavam Rex, Pitoco ou Bolinha
Invariavelmente vira-latas
Cachorro de raça só inventaram depois
Houve um tempo que a simplicidade
Nascia em todos os quintais
Como um pé de manga, figo ou laranjeiras
Houve um tempo que a Esperança, moça solteira
Brincava de roda com todas as crianças da Terra.

Réquiem para coisa viva

Certas paixões
Merecem ser
Enterradas
Em cova rasa
Sem rezas
E cerimônias
De adeus
São arrependimentos
São memórias rotas

Outras paixões
Meu Deus! Outras
Que morrem
Em fingimento
Tanto e quanto
Que assombram
Até pensamento
São beijos de ausentes
Que de seus lábios frios
A morte ainda se sente.

Teto de poeta

Casa de poeta não tem teto
Nosso teto
É o Céu que cobre o mundo.

Sorvete em dia quente

Tu podes correr
Enfrentar este mundo apressado com pressa
Mas, essa pressa nos impede o gosto
A vida tem que ser saboreada
Lentamente até que se acabe o doce
A vida é sorvete nas mãos de criança
Em dia terrivelmente quente

E lá pelas tantas
Quando te restar, talvez
Apenas o rosto lambuzado
Tu cairás em ti

Chegaste ao mesmo lugar a que todos chegam
E carregado de bagagens bobas
Como um asno que não tem a consciência
Da serventia daquilo que carrega

De resto, é dar uns passinhos atrás do vento
A cuidar para que o sorvete não derreta:
A Terra é redonda e curvo é o Universo.


Liberdade

Desconfia das doutrinas que não comecem com a palavra Liberdade. 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Soneto-haikai do fogo encantado

És minha fogueira
Que me consome inteiro
Meu desejo e amor
Que te comem por inteira

És a maneira
Que encontrei nesta vida
De me incendiar
No eterno fogo padecer

Língua labareda
Chama sempre viva eterna
Beija-me, acende-me

Queimo com teus beijos
Abrasado na fria noite
Como tocha de luz.




Lua na cabeça

Vou para rua ver a Lua
Rezando, pois na maré
Que ando as avessas
Será um grande espanto
A Lua não desabar inteira
Nesta duríssima cabeça.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Galática

Disse-me que estava cansada
Havia procurado seu amor
Pelos quatro cantos do Universo
Em cada planeta, em cada poeira cósmica
E só havia encontrado coisa que não presta...
Enquanto a astronauta intergalática falava
Pensava cá com os meus pés:
Eita, mulher rodada! Haja foguete! Haja!

domingo, 18 de agosto de 2013

A Esperança vive

Neste mundo velho
De porteiras arreganhadas
Para coisa que não presta
Vou gastando meus sapatos
Em andanças, sem rumo certo
Enxugando lágrimas dos olhos
Tragando muita fumaça
E os amigos que vão comigo
Também não suportam mais
Ver tanta desgraça
Que grassa por todo canto
Mas nada disso mata a Esperança
Nossa velha irmã
Que num canto de paz nos guia
Nos marca as passadas
E diz aos nossos corações
Sou viva ainda, anda, andai!

Noturno

Toda vez que acho que a alma humana
Não tem mais conserto, e que não há salvação mesmo
Escuto Chopin e impossivelmente revigoro-me.

Cantadores de feira

Encantam-me os cantadores de feira
Desconhecidos poetas do povo
Que arranham violas, violões
A espera de moedas, admirações
Encanta-me a simplicidade anônima
Que tanto bem faz aos nossos corações.


Rua Cruz Machado

Na Cruz Machado
Rua de muitas cruzes
E grandes pecados
Vi o gato preto curitibano
Descendo pela ladeira
E a mariposa mariposando
A se vender por um bocado
De churrasco do bichano.

O salto

Um dia quis ser paraquedista
Criança, faltava-me o pára-quedas
E armado de um guarda-chuva
Pulei do telhado até alcançar o solo
Em susto grande, estatelado
Tornei-me então poeta
Desses que saltam com grande alegria
Para o desconhecido das palavras.

Ana

Clara é a manhã, Ana
O dia veio clareando
Leve como teu beijo.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Às vezes vivemos

Irrita-me a pergunta
Se eu realmente vivi
O que escrevo. Ora,
Poetas escrevem, sonham,
Escrevem sempre
E às vezes vivem,
Não necessariamente
Nessa ordem.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Valquíria

Valquíria gostava de cavalgar
E escolher seus guerreiros
Para grandes batalhas de amor
Era fogo, amante, chama
E em noites incandescentes
À beira da própria fogueira
Despia-se na varanda
Se refrescava na rede
Fingindo longos abraços no vento
Mas mesmo assim queimava
Enquanto ventava mais se abrasava
E vinha toda de suor molhada
A me convidar para sentir
o cheiro do incenso em fumo
Que de si exalava
Aroma de carne, perfume de flor.


Confissões de um andarilho III

Todos somos andarilhos
Sem pouso certo, sem hora para chegar
Mas com única hora para sair, certa, inadiável
E nessa caminhada
Nesse ir para não sei onde
Que a vida nos obriga
Tu poderás caminhar sozinho
E a tudo observarás atento
Porém, a quem contar das descobertas?
Então, te sentirás só e incompleto

Mas se tu gozares de boa companhia
E se tiveres com quem dividir a paisagem
A quem contares do voo da borboleta
Do leve bater das asas dos pássaros
Da tarde vermelha que se despede do dia
E das ascetas estrelas que temos em guia
Serás um menino com espírito de poeta.


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Ipês de Curitiba

Ipês floridos
Amarelo que traz a Primavera
Roxo que sepulta o Inverno.

Caboclo na praia

Nasci apartado do mar
O Ivaí, o Paranapanema
O Igapó, o Paraná, o Iguaçu
E  as barrentas roxas enxurradas
Foram-me na infância
As referências sobre o infinito
Por isso do meu susto grande
Quando na juventude
Deparei-me com aquela água toda
Lambendo a Baía de Guaratuba
Ora com língua de vaga
Ora com língua de onda
A dizer-me que as infinitudes
Sempre podem ser acrescidas
De coisas imensuravelmente maiores
E que por mais grandioso
Que o infinito se apresente
Ele será sempre minúsculo
Perante a criação divina
Que se chega aos poucos
Aos nossos corações caboclos
Feitos para abarcarem sem pressa
Essas bonitezas, esses mistérios do mundo.

Alma nos Olhos

É nos olhos que se espelha a alma
E a poesia está nas retinas de quem vê
Num passarinho, na vidinha que passa
Em épicos amores, nas simplicidades...
Triste é o espírito que ao viver se cega
E se nega a ver a beleza que o cerca.

domingo, 11 de agosto de 2013

Das sílabas simples

Não gaste palavras
O importante no mundo
Vem nos monossílabos
Pai e mãe
Reunidos no dissílabo
Amor.

Pai

Não. Não é a tristeza da falta
Mas a alegria de lembrar-te,
Que faz este dia tão especial.
Mesmo com lembranças poucas,
Sou no mundo por ti
E apartado de tuas mãos
Quanto nele hei sofrido. 

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Ela: a espera

Vazia a tarde ia
Cheia a Lua vinha
E eu a esperar-te
Vazia de amor
Cheia de saudades.


O cão me deu boa-noite

Noite, escuro das escuridões,
Barulho lá fora
Pensei ser um cão
Vi isso ao longe naqueles olhos
De antigos brilhos apagados
Que me suplicavam piedade

Pensei ser um cão
Que revirava o lixo
Que comia lixo
E se lambuzava com restos azedos

Pensei ser um cão
Que cheirava e sentia o gosto
Dos pedaços de carnes podres
E roía até os ossos
Daquelas sobras imundas

Cheguei ao portão iluminado
Ele notou-me e se afastou do lixo

Pensei ser ele um cão
Aquele ser roto, torto, quase morto
Que se deitou na calçada fria
A me desejar boa-noite
Pedindo-me desculpas
Por ter se parecido com um cão
Ao me revirar o lixo da rua
Seu prato e refeição de carniça.

Summertime

Sopro na janela fria
E escrevo no vapor
Saudades do teu calor
Daquele quase esquecido
Ao dançarmos colados
Como o suor e o desejo
Era ela Ella, escutas?
Summertime, lembras?
Notas longas contínuas
Na noite suada
Para depois despertar
Como alados anjos
Na manhã que veio
Summertime cantando.




Previsão do Tempo

O serviço de meteorologia anuncia ventos
Ventanias e tempestades no cair da tarde
E no meu peito uma leve brisa em sopro
Anuncia uma canção suave em calmaria
Inspirada no mar verde-calmo de teus olhos.

domingo, 4 de agosto de 2013

Solo de Violino

Solo de violino...
Notas que furam
Os escuros da noite
E em tristeza
Na agonia dos agudos
Se despedem do domingo.

Escuros & Silêncios

A escuridão sempre apavorou o homem
Nela, em breu, nada se vê
Além daquilo que vai em nós mesmos
Por isso, nos assustamos
Porque não é fácil encarar o que não conhecemos
Estranhamente, os escuros são irmãos dos silêncios
E escutar nossos silêncios
É meio caminho para a loucura plena
Eis o inferno do homem
A escuridão do caixão e o silêncio dos cemitérios.

sábado, 3 de agosto de 2013

Pen drive lazarento

Pen drive minúsculo
Programado para tomar
Chá de sumiço
Quando o vivente mais
Precisa de ti

Por que fazes isso comigo?

Ó dispositivo dos infernos
Tu és pequeno
Mas um grande lazarento
Que roubas a minha memória
E com ela somes
E de riso te matas
Até me ver no ridículo
Dos três pulinhos dos parvos
Para São Longuinho!
Aparece, ó descomungado!

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Fim de tarde

Fim de tarde, camarim da Noite
Que se pinta de escuros
Quentura que se esfria
Luz que devagar se apaga
Ocaso das minhas horas
Tão únicas e irrecuperáveis
Em que reguei as flores que plantei
Para a alegria e perfume
Doutras tardes, doutros dias
Desse meu jardim que morre.



quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Se tens dúvidas, vives

Se tens dúvidas: pensas, existes
A dúvida é o grande sinal
Que nos diz vivos

Podem ser dúvidas de fé
-- Crer ou não crer? --
Na dúvida creio.

Mas como responder
Ao que poderia ter sido
E não foi, não aconteceu
Ah, se eu não tivesse feito
Ah, seu eu tivesse dado um jeito
Como seria, como viveria hoje?

A dúvida sobre o não vivido
O real que não foi real
A possibilidade negada, é o sinal
De que construímos nosso destino
E prova que ele não existe
Como sina, como coisa determinada
É apenas isso, destino, caminho

Mas, o encontro com vontades antigas
Desejos esquecidos e revividos
Como o amor juvenil, latente
É a segunda chance de viver
Aquilo que nos negamos
Em outros tempos desatentos.