segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Sossos ossos

Plantei várias árvores
E uma delas cresce
Perto da minha janela.
Meço-a quando posso:
Ela viceja
E me deixa
Alguns centímetros mais velho.
Sim, deixei de lado os minutos,
O meu tempo agora tem outra escala,
Com zero conhecido e final
Que não vai além do metro.
Creio que isso nos mostra
O nu científico compreensível.
Essa é a demonstração
De que obedecemos,
Fielmente, ao destino
Do grande escândalo
Molecular do ácido
Que nos determina vivos
E a tudo que imaginamos vivo.
Recebemos novas dimensões
Para depois nos evanescer
Num amontoado carbônico
Cadavérico.
Por fim, a árvore como caixa
E nós lá, dentro dela, sossos ossos,
Embrulhados para presente
Aos deuses que não se cansam
De ganhar mórbidas lembranças.

Mulher de sapato novo

Como não considerar estranho
Um ser que se alegra verdadeiramente
Com um sapato novo,
Com uma sandália nova,
E ainda por cima, deles faz coleção?
O mundo pode estar se acabando
Mas se uma mulher ver um sapato novo
E compra o novo sapato,
Pode escrever, amigo, o mundo recomeça
Ali mesmo, naquele momento,
E o tempo passará a ser contado
Em novíssimo calendário,
Sempre depois da compra do último sapato!

sábado, 29 de janeiro de 2011

Imaginações

Imagino,
Por Deus,
Como imagino!
Passatempo
De poeta
É imaginar!

Imagino,
Com todo respeito,
É claro, você
Todinha nua,
Nuinha aqui,
Na minha frente,
Como papel
Em branco
Esperando
Mancha de tinta,
Só para de tinta
Se manchar.

Imagino,
E se imagino,
Toda poesia
Nasce
Do imaginar,
Sem respeito
Algum,
É claro,
Ao poeta,
Ao poetar!

Canção para o amor que termina

Loucuras de amor eu também fiz,
E ao amar quem também não faz?
No amor a gente quer ser feliz...
Românticos o coração nos faz.

Senti ao te conhecer, senti
A loucura que aos céus nos ascende.
Louca ternura por ti senti,
Louca loucura que o Sol acende.

Nunca imaginei a vida sem ti,
O começo do fim não se sente.
Há castelos que caem por si,
Por que o nosso seria diferente?

Loucuras de amor eu também fiz,
E ao amar quem também não fez?
No amor a gente quer ser feliz...
Romântico o coração me fez.

Samba da ingratidão

Amor é brincadeira dela,
Que não respeita ninguém.
Amor é brincadeira dela,
Que não respeita ninguém.

Vivia numa viração danada,
Caminhava aos trancos e barrancos,
Quando a vi deitada na calçada,
Da vida quase entregando os pontos.

Da rua não se deve juntar nada
Diz velho ditado, que eu ignorei.
Da rua não se deve juntar nada
Diz o ditado, por isso eu chorei.

Amor é brincadeira dela,
Que não respeita ninguém.
Amor é brincadeira dela,
Que não respeita ninguém.

Dei conforto e fiz tudo por ela
E ela desfez e a tudo não quis.
Dei carinho e fiz tudo pra ela
E ela me fez um infeliz.

Da rua não se deve juntar nada
Diz velho ditado, que eu ignorei.
Da rua não se deve juntar nada
Diz o ditado, por isso eu chorei.

Amor é brincadeira dela,
Que não respeita ninguém.
Amor é brincadeira dela,
Que não respeita ninguém.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Cantiga de Santa Maria




Santa Maria, Strela do dia
Mostra-nos via pera Deus e nos guia... *


Santa Maria, Estrela do dia
Que a Deus nos guia,
Mostrai a vossos filhos a boa via,
Ó Virgem Maria!

Bem-aventurada
Santa Maria, Estrela e Guia,
Ó Senhora amada,
Clemente, Virgem Santa Maria,
Escutai as vozes dos pecadores
E por nós olhai.
Na morte aliviai nossas dores
E por nós rogai
A misericórdia
De Deus, Maria, Estrela do Dia.
Ó, por nós rogai,
Beata Mãe, Luz dos nossos dias!

Santa Maria, Estrela do dia
Que a Deus nos guia,
Mostrai a vossos filhos a boa via,
Ó Virgem Maria!


* Mote tirado às Cantigas de Santa Maria (100), atribuídas a Afonso X, o Sábio, rei de Castela e Leão (1252-1284).

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Eudóxia Macrembolitissa, ou simplesmente Dó

É claro meu amor e caminho,
Eudóxia Macrembolitissa,
Que um dia vou fazer para ti
Um poema tão grande quanto teu nome.

Se não o faço, não é porque não quero,
É por culpa de teus pais,
Que copiaram teu exótico
E impossivelmente doce nome
Daquela grande regente bizantina,
Que jurou ao marido,
Quando ele morria,
Que jamais se casaria novamente.

Porém, Eudóxia Macrembolitissa
Nem esperou esfriar o defunto
Constantino, a quem dera sete filhos,
E com Romano se casou.

Mas, eis que a Fortuna espreita-nos
E por ter feito desfeita à Morte,
Eudóxia Macrembolitissa
Terminou seus dias
Num convento de freiras.

Mas o que eu queria te dizer,
Eudóxia Macrembolitissa,
É que por força de rima e métrica,
Vou fazer um soneto para ti,
Bizantino, cheio de voltas.

Entretanto, reduzirei teu nominho,
Eudóxia Macrembolitissa,
Com muito carinho, é claro,
Para o simples e terno Dó,
Que rima com meu xodó,
Dó, Dozinha, no poema só!

Cantiga da pastorinha

Vem ver pastorinha
Os carneiros.
Vem ver pastorinha
Os outeiros
E os campos florindo.

Tange a bela
Pastora o rebanho.
Leva a bela
O branco rebanho
À cancela.

Canta a pastorinha
Sua canção
Para as ovelhinhas
No cordão
De nuvens branquinhas.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Os bons mourejam

Moureja o homem modesto
Que porfia na sua peleja
De viver probo e honesto.
Os maus não passam sem teto
E os bons eu vejo passar.

A chuva começa a pingar,
Falta comida na mesa...
O bom tem que trabalhar
Para da Sorte ganhar
Nesse mundo seu tormento.

Espanta-me o sofrimento
Dessa gente indefesa
Que finge contentamento,
Em espanto, sem alento,
Co'a a pobreza a lhe matar.

Os bons vivem a chorar,
Na vida não veem beleza.
São os náufragos no mar
Da riqueza a se ostentar
Na malícia e esperteza.

Moda do padre e do santo

Violeiro 1:
Preste atenção, meu compadre,
Nessa moda que essa vida explica,
Eu lhe digo a reza que reza o padre
E'ocê o que o santo apita:


1 - Violeiro que não toca a viola
2 - Não ganha mulher bonita.
1 - O sujeito que fugiu da escola
2 - Vai trabalhar de marmita.
1 - O goleiro que não segura bola
2 - Vai comer galinha frita.
1 - A nora que não tem boa sogra
2 - Vai ter uma vida aflita.


Violeiro 2:
Gostei dessa moda. Vixe compadre!
Na viola que se agita,
Vamos inverter a reza do padre
E o que o santo apita:


2 - Vai ter uma vida aflita
1 - A nora que não tem boa sogra.
2 - Vai comer galinha frita
1 - O goleiro que não segura a bola.
2 - Vai trabalhar de marmita
1 - O sujeito que fugiu da escola.
2 - Não ganha mulher bonita
1 - Violeiro que não toca a viola.

Violeiros:
Vamos deixar de conversa, compadre.
O povo está no espanto,
Já viu que aqui nunca teve padre
E que aqui não tem santo!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Amor à romana

Mote:
Ela me chamou seu dono
E me disse coisas ternas
Com as palavras vulgares
Para me excitar.*

Glosa:
Tratei por finda a procura
De novo amor e afeição
Pra queimar meu coração.
Assim findava a loucura
Que o espírito apura
Ao tornar a alma tranquila
No fel em que se aniquila.
Senti isso ao cair da noite:
Em voz doce, doce açoite,
Ela me chamou seu dono.

E logo fugiu-me o sono
- Infeliz e tempestuoso,
Afastado dos bons gozos,
Os sagrados e profanos,
Dessa vida, louco sonho.
Ao ver-me entre suas pernas
E nas brasas sempiternas
De seu olhar incendiado,
Ela abraçou-me apertado
E me disse coisas ternas:

"Quem ama não se governa,
Porque a alma não é dela
É da outra alma feita nela!".
Estava pois, possuído
Por aquele amor bandido
Que roubara dos altares,
Pudica mulher e dama
A qual se excita na cama
Com as palavras vulgares.

Tonto pelos ares
E aromas do amor,
Fiz-me em torpor
Na guerra infinda,
Sem fim posto ainda.
Eu queria parar
E ela gritava...
E no cio xingava
Para me excitar!

*Et mihi blanditias dixit dominumque uoucauit
Et quae praetera publica uerba iuunant. (Ovído in Liber Tertius: VII).
(...Ela)... E me chamou seu dono e me disse coisas ternas com (as) palavras vulgares para me excitar.

A dança d'alma


Minhalma já foi criança,
Com as tranças
Lindas voando na brisa,
Abraçada a outras almas...

¡Vive, alma,
Pelo sonho que se bisa!
¿Por que, gasta pelos anos,
Com os sopros
Da morte tua dança atiças?

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Toada beira-mar

Canta com seu violão,
Meu irmão,
Toda alegria é caminho...
E em noite de lua cheia,
Se a sereia
Cantar e pedir carinho,
Dá amor a te cuidar,
Pois no mar
É que ela faz o ninho.

Toada do caminho

Peão, vou pelo caminho,
Eu Sozinho,
Devagar pra não cansar,
Na teima de penitente
Dessa gente
A viver a se gastar,
Em busca da boa sorte
Ou da morte,
Que vêm em qualquer lugar.

Moda da choça de palha


Mote:
Quero ao descer as montanhas
À luz que o luar espalha
Ouvir no vale a viola
Soar na choça de palha. (Fagundes Varela).

Glosa:
Quase nada saberia
Dessas doidices modernas,
Ou dos céus, ditas eternas,
Das falsas sabedorias,
Se me faltassem os dias.
Falar assim não me acanha,
É no alto que se apanha
A friagem do vento.
Quero morno vento! Vento
Quero ao descer as montanhas!

Um dia veio aqui um moço
Querendo o sítio comprar,
Para um clube montar.
Então eu disse, Seo moço
Não vendo e faço gosto
Dessa casinha de palha
Que os meus filhos agasalha.
Como se faz pra vender
O sonho que há de ser
À luz que o luar espalha?

Disse ao moço da cidade
Com paciência e calma
Que na roça tenho a alma
E toda a felicidade
Em clarão e claridade;
Burro trato na espora
E mandei o moço embora.
Perdi o meu tempo, ara!
O tempo que tinha para
Ouvir no vale a viola!

A semente vai na cova,
Tem que morrer pra nascer.
Sonho bom para se ter
Nessa vida que nos sova
Sabe quem do sono acorda.
Corda afinada não falha,
Viola boa a vida talha.
Quero tocar a viola, ai
Para o canto que consola
Soar na choça de palha!

sábado, 22 de janeiro de 2011

Canção do peregrino a Aparecida

Cumpro promessa a Nossa Senhora,
De Aparecida, Nossa Senhora.
É promessa tão pequena,
Ai meu Deus, minhas dores!
Ai meus Santos, tantos andores!

Fiz a promessa a Nossa Senhora.
Mas ao ver este povo,
Milagre pra mim não quero mais.
É um povo que tanto sofre
Em tanto sofrimento, meu Pai!

A minha graça não quero mais,
Rezo um terço pra minhas dores,
Rezo dois para o pobre sofredor.
Troco minha graça pelas graças,
Entenda-me, meu Senhor!

Rezo os terços pros pecadores,
Que no mundo só querem paz.
Troco minha graça pela do povo,
Que só quer de Ti o amor,
O amor que de Ti se faz!

Aos que chegam ao mundo de azul

Quando vieste ao mundo
Eu estava lá, no hospital.
Carregado pela enfermeira,
Carregado pela infeliz sorte,
Passaste por mim num pano
Com as pudicidades cobertas
A alertar-te que aqui
Os inocentes têm que se banhar
Nas água dos hipócritas.

Quando vieste ao mundo,
As árvores embaladas pelo vento
Simplesmente não se deram conta
Que tu estavas no mundo.
E todo o resto também foi a ti
De uma indiferença pungente.

Quando vieste ao mundo, chorei
Ao te ver de roupinha azul desbotada,
Já usada por outro infeliz como tu,
Era a mesma cor do uniforme
De trabalho de teu pai e avós.

Quando vieste ao mundo,
Ele, teu pai, não estava no hospital.
Não porque se fazia indiferente
Como o vento que soprava fraco,
Mas porque fazia hora extra
Para alimentar o novo operário
Que acabara de chegar alarmado,
Fadado e marcado como escravo,
De olhos para o mundo fechados,
Em choro, fome e espanto.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Adeuses e crueldade

Nosso destino é esse mesmo,
Lá pelas tantas, um inopinado adeus
A encher de lágrimas os olhos teus.

Os adeuses não nos dão aviso,
Vêm num murchar que não se acredita
A encher de lágrimas os olhos meus.

E entre os adeuses, o mais cruel adeus
É o adeus de amor, o mais cruel adeus
A encher de lágrimas os olhos teus.

É o adeus nunca sonhado e que não se queria adeus
Mas nasceu mesmo a não se querer, o mais cruel adeus
A encher de lágrimas os olhos meus.

Urgências

Tu me falas de urgências...

Sim, minha hora é urgente,
Meu penar sobre os versos é urgente
E pede todos os silêncios
Contidos na falta de urgência.
Os silêncios da coisa eterna,
Os silêncios glaciais que devo derreter
E colocar em forminhas
Para ganharem forma.

Urgente, minha amada,
É ter teu coração batendo aqui, comigo,
Pois quero entendê-la
Em plenitude e verdade.

Não te quero apenas de forma vulgar e urgente,
Quero ter as tuas dores e alegrias em mim.

Quero de ti
A outra escondida em ti e silenciosa,
Inteira, plena
Nas urgências que minhalma pede.

Urgente agora é parar o vento
Que, neste momento, em silêncio sopra
E ameaça levar junto com ele
A última folha verde desta árvore morta.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Mentira da chuva


No chuvisco plic-plic,
A chuva sempre mente.
Na garoa orvalhada,
Que o frio se sente:
"Eu não molho nada!",
Ela nos diz, contente!

Quem me chama de Lisboa

Quem me chama de Lisboa
E se faz escutar no Amazonas?
Quem canta em Lisboa
O meu fado de degredado?

Quem me emprestou este idioma
Para dizer de saudades?
Quem a língua dos romanos sangrou
Para lhe dar sentimentalidades?

As águas do Amazonas tropeçam
Na minha lus'alma sempre sedenta
Das águas que correm no Tejo.

Quem pôs este Atlântico enorme
A separar irmãos que se desesperam
Nas dores nostálgicas que nele navegam?

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A história de amor de Botelho Pinto

Chamava-se Maria Botelho Pinto.
Casou-se com Mário Tarugo Vara,
Pois que andava só e deveras encruada.
Na lua de mel, as coisas ficaram bravas,
Porque Tarugo insistia e colocava,
Numa dor de unha encravada,
Uma vírgula depois do nome da amada.
E no vai e vem que a todo amor agrava:
- Maria, Botelho Pinto! - Tarugo suspirava!

Mote das flores

Mote:
Lá se vão as flores
E com elas meus amores!

Glosa:
Há no vaso flores
Mortas de saudades
De antiga cidade,
Antigos amores,
Veteranas dores.
Viver é perder
Tudo a se querer.
Lá se vão as flores
E com elas meus amores!

Cantiga de amigo

- Morena linda,
O que queres?

- Quero meu amigo!
Quero meu amigo!

- Morena bela,
O que esperas?

- Espero meu amigo!
Espero meu amigo!

- Morena bonita,
O que desejas?

- Desejo meu amigo!
Desejo meu amigo!

- Morena triste,
Dá-me um beijo!

- Não, meu amigo!
Não, meu amigo!

Mote do desengano

Mote alheio:
Cada dia que passa é mais um dia
De saudade, tristeza e desengano.

Glosa:
Quisera ter vindo ao mundo a passeio,
Namorar mulher fiel sem desengano,
Viver solto nos rumos tal cigano
E enfrentar tudo na vida sem receio.
Mas, Deus me quis pobre poeta a relho
E deu-me por sina algo desumano,
Que é sentir no envelhecer dos anos
A esperança que de mim se distancia.
Cada dia que passa é mais um dia
De saudade, tristeza e desengano.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Imolado

Nesta vida sangro
Como sangrou Cristo.
Não sou dono
Até mesmo de minhas roupas
E no dia-a-dia me sacrifico.
Na minha cruz de santo imolado
O que me dói não são os pregos
Nem a lança que me fura o lado,
Mas, saber que o ladrão
Terá no céu um bom bocado.

Doutora na praia

 À Carmen Sílvia Garmêndia
Ó menina dos livros,
O que fazes aí desnuda
Sem o Código Penal,
Solta, a negar-nos ajuda
No rol da Justiça muda
Nas férias do Tribunal!?!

Janeiras

Janeiro veio
Janeiro vai:
feliz daquele
que dele sai.

Janeiro veio
Janeiro foi:
feliz daquele
que tem seu boi.

Janeiro veio,
Janeiro, ó dó:
triste daquele
que vive só.

Janeiro veio,
Janeiro vai:
feliz daquele
que tem seu pai!

Invocação

Ó Santo Deus nas alturas
Que por minha vida vela,
Ajudai-me no cordel
Em que o amor se revela
Nessa história encantada
Pela luz de bentas velas.

Gemedeira do olho gordo

A inveja vai te matar!
O dialho a pôs no mundo
Porque nela tem o fumo
Dos infernos a queimar
E dos bobos a abrasar.
Bateu olho gordo em mim,
Um olhar assim sem fim,
Meio torto, enviesado,
Mando o cabra pro diabo!
Ai! Ai! Ui! Ui!...
Gemer de dois é assim!

Galope à beira-mar II

Vamos cantar, meus amigos,
Canto simples, canto manhoso, choroso,
Canto nosso, canto maneiro, gostoso,
Que a vida pede cantigas, amigos,
Porque o que é bonito guardo comigo!
Tristeza é não cantar
Na fortuna, na nossa sorte, ou azar...
Sempre há uma alegria escondida
E saudade acoitada, só e sofrida,
No galope à beira-mar!

domingo, 16 de janeiro de 2011

Na Praia dos Ganchos

Perdida em meus olhos
Como uma andorinha
Que passeia livre
Na primeira luz
Deste domingo
Segues o vento
Que te faz tão bela
Neste meu amanhecer.

Mon couer

Gosto, mon couer,
Quando danças
Leve e nua
Dans la rue
Que imaginas.

Finges estar em Paris
E danças... Sobre
Les feuilles mortes
Dos meus poemas
Que tombaram dos céus
Num outono sem fim.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Nauta

Navego pelos vãos de tuas pernas e de teus braços
E agarro-mo, como doido náufrago, às margens
De teus incandescentes lábios entreabertos,
Como se portas fossem do que guardas em pecados.

Ocaso

Hás-de te acostumar, amigo,
Ao com que morre contigo,
Já que a juventude te escapa
Pelos vãos dos dedos
E leva com ela, agarradas,
As luzes do amanhecer.

Não és mais o que era,
Não és mais o senhor
Dos sonhos impossíveis,
Das bravatas de valentia,
Das damas de companhia...
És apenas o que se vai.

O Sol se põe para todos,
Para mim, está no ocaso,
Para ti, também é poente.
Resta-nos fitá-lo
Em sua desistência do dia
E verificarmos que sempre
Poderíamos ter feito mais,
Aproveitado melhor o seu calor
Que se traduzia em vida.

Fizemos pouco, é verdade,
Porque a juventude
Passa sem dela nos dar notícia.
A juventude vem e passa
Num adeus triste e indecente,
Como se portasse bilhete
Para um mundo inexistente.

É quando nos damos conta
Tardiamente, num susto grande,
De que não levamos em conta
O que conta os calendários,
Em essência e excelência,
A nossa natural decadência.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Carnaval nipo-polaco

Curitiba tem
Japonês no samba
Caipira com adoçante
Polaco bamba

Curitiba tem
Crente cordão
Jacaré no lago
Vina com pão

Curitiba tem
Neve no Carnaval
A Boca Maldita
O cara-de-pau

Curitiba tem
Garibaldis sem Anita
Saci branquelo
Operário sem marmita!

Teu colo


Eu estou voltando
Minha flor e caminho,
Levando nas mãos
Infinito carinho
E no coração
Saudade imensa,
Tão grande, tão grande,
Quanto o céu estrelado.

Trago aqui comigo,
No peito guardado,
Teu cheiro e perfume;
O teu meigo lume,
Brilho de teus olhos,
Luz deste meu caminho
Que busca teu colo,
Sempre teu, teu colo!

Brasil-caboclo


Levo no peito saudade,
Essa herança lusitana
Estranha - a carraspana
Tropical e sem verdade! -
Que é banzo sem vontade,
Que me faz assombração
Como Dom Sebastião.
Sou de sangue índio, crioulo
E mouro no Brasil caboclo,
De Mãe Preta e Pai João!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Aboio de partida



Eh, eh, gado magro
Lá está a estrada
Que no peito trago
A me aboiar...

Eh, eh, eh boi
Eh, eh, eh boiá
Bora, peiá!

Pela estrada
Nós vamos agora
Antes que Janu
Comece a chorar!

Eh, eh, eh boi
Eh, eh, eh boiá
Bora, peiá!

Janu me espere
Vou atrás de pasto
Para o boi magro
Pastar e engordar!

Eh, eh, eh boi
Eh, eh, eh boiá
Bora, peiá!

Saudade d'ocê
Levo comigo.
Por isso, vou logo
Para não chorar.

Choro de vaqueiro
É aboio, eh boiá,
Saudade, peiá!

Aboio de chegança

Eh, eia, mundo velho
Sem porteira, eia,
A nos segurar.

Eh morte, a feia peia,
Que deste mundo
Nos faz apear.

Eh, eh, eh boi
Eh, eh, eh boiá
Bora, peiá!

Troveja e não chove,
Corisco faz fogo
E o mato morto
Na fumaça sobe.

Eh, eh, eh boi
Eh, eh, eh boiá
Bora, peiá!

Meu Coração bate
Alegre e ligeiro
Quando te vejo
A me esperar!

Eh, eh, eh boi
Janu na janela
Bora, peiá!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Romance da bela infanta

 

Vê minha bela infanta
O quão triste eu estou
Ando triste neste mundo
Sem falar de amor
Canto triste pelo mundo
Tomado pela dor.

Mas se tu quiseres
Tudo pode mudar
Tu comigo vais
No campo a cantar?
Tu comigo vais
No mundo a amar?

Mas se tu quiseres
Tudo vou enfrentar
Tu comigo vais
No campo a cantar?
Tu comigo vais
No mundo a amar?

Vê minha bela infanta
O quão triste eu estou
Ando triste neste mundo
Sem sentir o amor
Canto triste pelo mundo
Tomado pela dor.

(Apenas uma proposta de letra para esta música que gosto muito!)

domingo, 9 de janeiro de 2011

Dos gênios do nada

Duvido de todo homem
Que passa pela vida
Sem saber do que é constituído
E dos átomos que o fazem ser.
Duvido do homem que não se sabe
Energia condensada na matéria.
Duvido do homem que se expressa
Pretensamente sábio
E não se sabe medir em massa
Multiplicada pelo quadrado da luz.
Duvido da sabedoria vulgar
Comprada nos títulos acadêmicos
Dizendo que ali está um gênio
Especialista em qualquer coisa
Mas que mal sabe de si.

Oração do beberrão devoto

Ó Senhor dos manguaçados,
Que nunca me faltem
O limão, o açúcar
E a divina cachaça.
Fazei que ao andar
Por este vale de lágrimas,
Mesmo que me plena escuridão,
Ou no vale da morte por atropelamento,
Eu encontre um bar aberto
Com bebida barata
E mulheres dispostas.
Dai-me as boas marcas
E livrai-me do uísque falsificado.
Dai-me garçons atenciosos
E donos de bares que me
Ofereçam bom crédito
Na doce ilusão e promessa
Do pagamento no dia
Santificado a São Nunca.
Dai também boa educação
Ao padre Nicolau,
Que toma vinho sozinho
Sem oferecê-lo aos fiéis
Que vão à missa
À espera da saideira
Ou caideira matinal.
Piedade, ó Senhor,
Aos que bebem,
Aos egoístas que bebem escondidos,
Aos hipócritas que pecam e nos criticam,
Aos humildes que não têm o que beber,
Aos soberbos que bebem e desperdiçam,
E aos que não bebem também,
Porque para todos
Só há um destino,
Um caminho que só o Senhor sabe,
Que não se revela em hora e dia
Para o pobre ou rico,
Para o sábio ou tolo,
Manguaçado ou sóbrio,
Ou seja, para ninguém!

Amém

Liberdade do pensar

Não queira dar densidade aos meus pensamentos
Porque o pensar é para o poeta a única liberdade.
Nada há nesta Terra que possa segurá-los
Porque o que se pensa não respeita a gravidade.
Bendito seja aquele que voa para as estrelas
Na hora que bem deseja, no dia que bem quer,
Sem trajes de astronauta e anuência da Nasa.

É vã toda e qualquer tentativa de dar grades
Ou grilhões e pesos às asas da poesia inquieta,
O que é feito para voar sempre voa e voará
Para dizer o que não foi dito e que nos altos é.

O poeta pode estar no exílio, mas sua palavra não,
Pois ela é etérea e livre viaja pelos imensos
A denunciar os supremos escândalos
Daqueles que se vendem e se calam por um punhado de ouro
E queimam no inferno ao renegarem o paraíso da liberdade,
Única razão digna de se viver neste mundo a nos prender
Na mentira, nas falsidades vendidas nas esquinas
E que dão ao hipócrita a dimensão que ele não tem.

Sísifo

Descer profundamente
Naquilo que nós, em nós, desconhecemos
E buscar ali, sem cordas a nos segurar,
As razões a nos determinar
Tanto padecimento.
O que fiz eu ao mundo, meu Deus,
Por que me fizeste no mundo?
Por que me distrais fazendo-me começar
Este tudo que tem por fado o recomeço?
Dá-me ao menos o direito à revolta,
O direito de dizer não quero mais.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Breve paixão por Perpétua

Perpétua foi-me a mais breve paixão.
Enganou-me a promessa do nome
Enganou-me o coração
Que sempre espera do amor
Felicidades permanentes
E em profusão.
Perpétua passou-me como passa-me o vento
Levemente suave e refrescante
Em sufocante noite de Verão.

Como se me apresentam os versos

Apresentaram-se dois poemas novos
No meu amanhecer.
Ontem, eram sílabas soltas, sem sentido
E que dormiram comigo
Para no sonho de poeta
Ganharem brincos e penduricalhos.
Hoje, cambaleante e sonado
Tomei nota de algumas palavras
Para guardar as bases e estruturas
Da futura lapidação e encaixes.
Mas, para que no segredo não fique
Posso dizer deles o adiante
Que um fala da Rua das Flores
E que o outro é sem flores delirantes!

Chamado noturno

Oiço no meio da noite
A voz de antigo amor.
Arrepia-me a pele
Esse chamado noturno.

Benzo-me no sinal da cruz...

Há de ser assombração
De quem se fazia defunta
Na tumba branca caiada
Com a cruz assinalada
Na minhalma esmorecida?

Há de ser ela própria
Em pessoa, a suicida
Que à vida retorna
Para devolver-me
A vida que me tomou?

Acalmo-me, essas hipóteses
Agradam-me sobremodo
Porque nada há de pior
Do que ser chamado
E não escutar o apelo
Da saudade que vai conosco em viagem...
Que vai cansada
De tanto desassossego
Infelicidade e desgosto.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Pingo d'água


Mania boba essa, besta, besta,
De achar que todas as coisas têm sentido!
Nada tem sentido fora de nós mesmos:
Se não vejo, se não boto as mãos,
Se não escuto, se não sinto o cheiro
Ou o gosto, com prazer ou desgosto,
A coisa não existe,
É coisa inexistente,
É coisa ausente.

O mundo é feito de miudagens
E só encontraremos sentido nele
Ao examinarmos as pequenas partes
Deste grande todo inexplicável.

Não se explica a montanha
Por meio de um único grão de areia,
Mas é preciso entendê-lo nas pedras
Para se saber o que é a montanha.

Carece-se pois, olhar melhor,
Matutar nos detalhes miúdos.
Às vezes, é necessário assumir
As dimensões de uma formiga
Para admirar a grandeza do pingo d'água
E alegrar-se com ínfimas sobras.

Para a  formiguinha,
O apoucado orvalho
É profundo poço
E o bocado de migalhas
É farto almoço.

Novena

As beatas chegavam no começo da noite
- Uma delas trazia a capelinha da santa -
E logo punham-se a desenrolar o rosário.
Algumas de olhos fechados,
Outras de olhos abertos, fitando o teto,
Em busca do céu que estava lá fora.
Pater Noster et Ave Maria
Resumiam a fé, aliviavam dores,
Tiravam grandes toneladas das almas.
Por fim, o Salve Regina
A lembrar que todos ali estavam
Mergulhados num vale de lágrimas,
Gemendo e chorando,
Inclusive eu, aquele menino
Que começava destino
Já evocando a misericórdia dos céus.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

As pequenas tragédias de cada um

Todo mundo tem algo de trágico na vida
Um mal nascer
Uma desavença familiar
Um amor terrível
Algo querido que se foi
Planos que ficaram à deriva
Enfim
Cicatrizes d'alma.

A felicidade por inteiro
Só é possível para quem não vive
Para quem não sente
Para os que passam por esta vida como uma pedra
Pedra inerte, cômoda e que não sangra
Porque viver é colecionar essas pequenas tragédias
E a sabedoria está em curar bem as feridas abertas
Enquanto a alma à lâmina do infortúnio fica exposta.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Ao alcance das mãos

Bendito seja Deus
Ao criar-te para a beleza do mundo
E maravilhar meus olhos.

Duas vezes bendito seja Deus
Por deixar-te ao alcance
De minhas mãos.

Do que me valeria o jardim
Sem os aromas florais
E suas complexidades
Floridas desnudadas pela luz?

Mil vezes seja bendito
Aquele que me deu o tato
Para dar-te carinho
E amor que vazam
Do nascedouro
De minhalma!

domingo, 2 de janeiro de 2011

Artistas

Passar o Ano Novo
Sentindo a arte de amigos.
Falar sobre pintura,
Uma nova escultura,
Boa música,
E dividir com eles
O mesmo pão,
O mesmo vinho,
Nos deixa esperançosos
De que a arte
É a salvação do homem.

O desconhecido que ria

Para nós, ele era um tonto,
Ria de tudo, até de enterro.
Andava com um paletó puído,
Toscos sapatos furados
E amarados com barbante.
A péssima figura desmangolada,
Ao final da tarde, lia no jornal
A parte dedicada aos mortos.
Assim, espalhado no banco da praça,
Ria, e do que ria ninguém sabia.
Como tinha algum recurso,
Pensávamos que era aposentado
Por demência ou coisa que a valha.
Um dia não mais apareceu
E desde então, ao ler o jornal,
Sentado na mesma praça,
Rio muito, na gargalhada satisfeito,
Ao ver a lista dos ricos poderosos
Que do mundo levam paletó novo
De boa madeira e de flores repleto.

O juntador de partículas

Não quero mais cantar as estrelas
E esse Universo material,
Que cantado, cantado e cantado
Pelos séculos todos
Se faz indiferente ao que lhe damos
Em beleza e belo.

Vou cantar as cósmicas partículas
Da vida imaterial,
Poeiras que ninguém entende e deixadas
Em grande desprezo,
Porém, quando juntas e bem juntadas
São o sopro de Deus.

sábado, 1 de janeiro de 2011

O coração de Bach

Villa-Lobos falou aos brasileiros
Com o coração de Bach.
Desde então, segue o trem caipira
Cantando pelo sertão,
Atravessando a serra das almas
De todas as gentes.

Sinfonia dos insanos

Pronta está a sinfonia dos insanos.
Ela é composta de longos silêncios
E tem um prelúdio agonizante
Feito dos graves hiatos d'alma.

Nos seguidos movimentos trágicos,
No coro, ela canta a solidão dos escuros,
Dos quartos vazios, do choro contido,
Da lâmina no pulso, dos desatinos suicidas.

Depois segue rápida, pálida, exangue,
Como se fosse o branco do rosto
Da moça que saltou do prédio em chamas.

Ao final se faz espanto contínuo e reflete
Os olhos abertos e estáticos  do morto
Que se assustou com o silêncio da morte.