sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Bolo de baunilha

Ah, aquele cheiro de desodorante barato
Dissolvido no mais puro álcool
E que você dizia ser perfume!
Ah, aquele aroma de baunilha
Que saltava da cozinha
E que você dizia ser um bolo
Feito de prazer!
Ah, aquele afeto comum
Sem filosofias
Que você dizia ser amor!
Ah, essas saudades
Feitas de coisas simples
E que você deixou tão grandes!

Desacordos

Vivo em desacordos com a vida
Porque faço poesia

Os meus versos são contrariedades
Porque vivo a poesia

As letras não aceitam conformidades
Porque são revoltas

O poeta não aceita falsas alegrias
Porque essas mentiras
São angústias sorridentes
Deste mundo que morre.

No meu céu

O dia já vai pela metade
E de você notícia alguma
Telefone mudo
Jornais falando do ontem

Os aviões passam
E deixam rastros de nuvens
Num céu tão limpo.

Você passou ontem
E teu caminho
Apagou-se do meu céu.

Música e poesia

A música  e a poesia
De vez em quando
Deixam o céu
Para nos mostrar
Aos pouquinhos
Do que é feito
O coração de Deus.

Árvore morta

Não procure frutos
Em árvores mortas
Aqui não há amor
Já dei o que tinha
Alimentei o belo
Alimentei os porcos
Fiz sombra a tudo
E hoje nem folhas
Tenho para abrigo.
Vá, nem todo verde
Guarda em si a vida.

Abandono

E aquelas velhas vontades
Nascidas na juventude
E que hoje esperam
Missa de sétimo dia?

E aquelas velhas esperanças
Que sofreram descasos
E que hoje jazem
Em campo santo?

E aquele velho você
Que tomou outra forma
E que hoje sofre
De abandono?

Amor incerto

Diz-me esperar resposta,
(Todos querem respostas!)
A minha mudez é resposta,
Porque se algo digo,
A resposta será dúvida,
Dúvida sempre.
Se me perguntas se te amo,
Posso dizer que sim,
Mas os meus pequenos gestos
Podem dizer que não.
Se me perguntas se te quero,
Posso dizer que sim,
Mas quando fitas meus olhos,
Tu procuras um escondido não.
Não há certeza no amor
E é isso, a falta de certeza,
Que o faz tão divino.

Mágoas passadas

No teu corpo encontro
fogo guardado
a esperar centelha
que sobreviva
às densas chuvas
que vêm de teus olhos.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Bachianas


Ouço-te de longe
E do longe vem
Os tristes gemidos
Das Bachianas
Que deixam tua alma
Em suavidades.

Imagino a orquestra
A acompanhar-te,
Ou solitário violão
Na noite só.

No alto, bem no alto,
A estrela pisca
Como se suspirasse
A chorar
A imensidão do espaço
Que a separa
Do teu lamento sentido
Em agudos mansos.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Meu jeito

Caso eu chorar,
Não se espante,
O choro é a nossa
Primeira expressão.
Nascemos chorando
Ao mundo querendo não.

Caso eu chorar,
Não faça espanto,
Esse é meu jeito,
Nascemos no berreiro,
Num susto com a luz,
Temendo a escuridão.

Caso eu chorar,
Não chore não,
Essa é a nossa
Destinação,
Chorar
No mundo,
Sentindo
O mundo
A nos fugir
Pelas mãos.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Feira de Caruaru

Amigo, estou indo, me vou...
Vou com a mula Cambaia...
Sei que são muitas léguas,
Mas vou no passo curto,
Antes que a noite caia.

Vou para a feira, amigo,
Vou à feira de Caruaru,
Vou ver boneco de Vitalino,
Vou dançar xote de Gonzaga...

E adepois, depois, amigo,
Tenho saudades de Severina
Deitada na rede de saia
Tomando vento safado
No calor que dela se espalha...

Eh, Severina me espera,
Mulher feita de fibra,
De carinho sem descanso.
Eh, vida severa!...

Eh, Severina, xodó danado!...
Durante sete dias
Trança-me as sandálias
De couro cru e corado
Pelo suor de suas pernas,
No sal de suas lágrimas.

Sei que sou vira-mundo
E ando pelos caminhos
Que a tudo gasta e maltrata.
Mas, Severina, fica triste não,
Todo ano volto, fica triste não!

Severina, todo ano eu volto
No lombo da Cambaia,
Pro seu quente colo,
Pra buscar novas sandálias.
Severina, fica triste não!

Na noite que ela não veio

Na noite que ela não veio
As estrelas se apagaram,
A poesia foi-se embora,
Os lençóis se esfriaram.

Na noite que ela não veio,
O destino em cores vivas
Lançado ao fogo morto
Também tornou-se cinzas.

Na noite que ela não veio,
Eu escutava Cesária Évora
Que na canção vaticinava
A mais doída das saudades.

A chave


Cadê a chave? A chave, cadê?
A chave de minh'alma, cadê?
Talvez, o padre que me batizou,
Ou o bruxo que me benzeu,
Quando eu ainda era uma criança
Cheinha de quebrantos,
Tenham com ela consumido.
Talvez, meu primeiro lindo amor
Ou o meu último e sem graça
Tenham a levado consigo. Cadê?
Cadê a chave? A chave, cadê?
Quero ver o que vai comigo,
Quero ver quem eu sou
Além do meu lado exterior,
Cadê a chave? A chave, cadê?

Depois da festa

Os dias depois da festa
São calmos, sonolentos.
Os dias depois da festa
São velórios da realidade.

Ontem, éramos exagero,
Ríamos no riso de Baco,
Entornando pipas de vinho
Para esquecer o hoje.

Hoje, agora, depois da festa,
Sobra-nos o necrológio,
A última citação nos jornais
Daqueles que seguem o rumo.

Ontem, ela estava comigo,
Ria, ria muito e tanto ria...
Hoje, só posso ver seu rosto
Grave, pelo vidro do caixão.

sábado, 25 de dezembro de 2010

A gaivota

Tão rara quanto inverosímil,
Ela deslizou pelo meu deserto,
Mancha branca no limpo céu,
Aquela só e solitária gaivota.

Vinha do mar? Não sei. Da praia?
Não sei. Distante era o oceano.
Depois, inútil seria explicar o voo
De tão exótico pássaro marítimo,
Intoxicado que ia de contentamento.

A gaivota descreveu círculos no céu,
Voou baixo para admiração e beleza
E no final da tarde, com o sol fresco,
Foi-se e ganhou as sombras da noite.

Nunca mais a vi em milhares de tardes,
Passou ali por um único dia apenas,
A contrariar todas as lógicas esperadas,
Para dizer a mim que a surpresa,
Por ser surpresa, jamais se repete.

Dulcineia e Beatriz


Porfiei na teima de buscar a ti
Percorrendo densos infernos,
Como se buscasse morta amada,
Tal fez o poeta Dante ao cruzar,
Ainda vivo, o terrível Aqueronte
A servir negras almas a Cérbero.

Ou ainda, de lutar insanamente,
Como soldado de Cervantes
A bater-me com os moinhos
Espalhados ao longo da vida,
Igual aos cavaleiros errantes
Em solitárias e graves batalhas.

Ora te sentia longe, inexistente,
Como a dulcíssima Dulcineia
Nascida de minha demência.
Ora te sentia longe, impossível,
Imortal no céu inalcançável
Como a beata e pura Beatriz.

Estive sempre em desvantagem
Nesta busca própria dos cegos,
Pois, ao meu lado não ia Sancho
A trazer-me para a realidade
Nem caminhava comigo Vergílio
A desviar-me do fosso em perigo.

Não sei nem como é teu rosto,
Somente de ti tenho vago esboço,
Mas prossigo inda nessa procura
Porque de outra forma morreria
E sentido para a minha triste vida
Por certo, certamente, me faltaria.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Pudica


Era uma moça tão pudica,
carola mesmo,
que nos dias santos
tomava banho frio
para acalmar a alma.

E eu, que nada acredito,
junto dela, com um ramo
de arruda na orelha,
um patuá no bolso,
a buscar melhor sorte.

Ela, toda ainda molhada,
sentou-se à beira da cama,
tirou o crucifixo do pescoço,
estendeu-me o branco braço
e tocou-me com sua febre.

Terras defuntas

Meu jardineiro está louquinho.
Encosta-se no muro, quieto
E depois dana-se a conversar
Consigo mesmo, com o ego seu.

Ele coloca a mão no rosto,
Pensa e planeja em voz alta
A próxima tarefa no jardim,
O próximo desatino em flor.

À medida em que se dana,
Dá vida ao que não floresceu;
Morre ao dar vida às plantas.

Meu jardineiro ficou louco,
Porque seu antigo amor
Floresce em terras defuntas.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Fechado para balanço


Ao final do ano,
Todos deveriam
Fechar o coração
Para balanço.

A conta deve ser feita
Na praia, se possível,
Antes de se pular as ondas,
Numa contabilidade solitária.

E dentre os ativos,
Passivos, imobilizados
E restituições,
Na soma
E subtrações,
O resultado
Esperado
Tem que ser um só:
Saldo negativo,
Um deficit medonho
Ao se saber
Que se deu amor
Além da medida
Desejada e querida
Pelos egoístas sovinas,
Que só amam a si,
Ou talvez, nem isso.

Nesses números finais
Jamais espere
A contrapartida.
O verdadeiro amor
Jamais espera paga,
Deve ser gratuito
E desinteressado.
E depois, na vida,
Em que nos danamos
A acumular bobagens,
Este é o único capital
Do espírito
Que, ao ser dado,
Não se faz prejuízo.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A Idade do Cobre

Sempre faço cópias
Dos meus escritos
Em folhas de papel
E uso para tal
A não tão habitual
Caneta esferográfica,
Uma grande tecnologia
Do século passado
E hoje quase esquecida.

É que tenho medo
De uma revolta eletrônica,
De uma greve dos elétrons,
Esses novos escravos
Que são obrigados
A guardar nossos
Pensamentos e afazeres
Em memórias chipadas,
Guiados por vias de cobre.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Caixa de luz

 À Jacqueline Denise Alcantara

Quisera ter guardada,
No fundo do bolso,
Uma caixa mágica
Com o brilho do Sol
E nos dias de chuva
Ou de pura tristeza,
Abri-la com cuidado.
A luz dela sairia
A misturar risos,
A buscar felicidades,
A nos iluminar
Junto com os escuros
Que escurecem
Deste louco viver
A louca vontade.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Onde os adeuses naufragam


À Natália Núñez
Olhas para o mar
Porque há sempre
Uma esperança
A navegar
No clarão dos teus olhos,
Relâmpago
Das tempestades.

Olhas para o mar
E a ele jogas
Vontades do coração
Que, em vão,
Saltam as ondas
E depois
Batem nas pedras,
Afogam-se
Nos vagalhões,
Em impiedades...

Olhas para
O desconhecido
Ondulante
E te acalmas
Ao repousares
Teus olhos
No horizonte
Curvo
Como tuas costas
Que carregam
O mundo.

Para lá seguiram
Os adeuses
Compridos,
Alongados
De infinito a infinito,
Perpétuos,
A se repetirem,
A se repetirem...

Lá, onde o céu
Encontra o mar,
Naufragaram
Os últimos barcos
Que deixaram
Expostas
Suas rasgadas velas
E as lusitanas
Cruzes
Em que Vasco
Crucificou
Todas as saudades.

Agenda de sábado


Tomar café ouvindo os passarinhos...
Ler aquele velho livro
Que me aguardou tanto.
Comprar sapatos para os pés cansados
E que ainda se encantam
Pisando mundo.
Cortar os cabelos teimosos
Que me sobraram no pensar.
Tomar uma cerveja com
Os bons amigos
Que comigo dividem a fé no homem
E escutar aquela canção antiga,
Linda, linda e feita de saudade!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Sem sustos

As crianças da creche,
Da creche vizinha,
Estão num berreiro só.
Esperam Papai Noel,
Balas e doces
São a promessa.
Eu cá, estou só, quieto
A escutar o pregão
Do verdureiro,
A contar os raros carros
Na rua, sob minha janela.
De repente,
Um silêncio e uma única voz:
"Olha o Papai Noel"!
Mais silêncio:
"Olha a melancia"!
As crianças gritam
E meu coração silencia
Porque não mais se assusta
Com a simplicidade da vida
Que flui em sonhado trenó
E na voz do vendedor
De melancias.

Homem moderno


Ford nos moldou a vida
E não notamos
 
Somos o operário de Chaplin
E não notamos

Viver tornou-se uma linha de montagem
E não notamos.

No mundo de Ford
As coisas precisam ser refeitas
Repetidas, repetidas ad aeternum
Num despropósito medonho
E sem sentido
Para justificar o moderno.

Vamos ao trabalho
Todos os dias
Fazemos o que nos mandam
Todos os dias
Também mandamos fazer
Todos os dias
Para obter o repetido
Todos os dias
Voltamos para casa cansados
Todos os dias
Até o dia que não voltaremos
Para casa
Porque ganharemos descanso
Compulsório
Eternas férias de nós mesmos.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Natal à venda

Um outdoor pode vender o Natal,
A televisão pode vender o Natal,
O shopping pode vender o Natal,
Porém, não quero comprá-lo.
Fico contente em apenas vê-lo
No duro coração dos homens
Que, somente nesse momento,
Agem em terna humanidade.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Masmorras

Tento fugir
Das masmorras
De teus olhos.
Neles, quantas
Torturas.
Neles, tanta
Dissimulação.
Neles, quantas
Ilusões.
Neles, tanta e tanta,
Quanta e quanta
Mentira.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Vermelho

A bandeira
Da minha vida
Tem um vermelho
Que imita as rosas
Do meu jardim.

Negativas

Negaste-me
Os dias bons e ensolorados ao teu lado
Negaste-me
As noites de luar refletidas em teus olhos
Negaste-me
Os abraços em intermináveis tardes
Negaste-me
Teu sono tranquilo depois do amor
Negaste-me
Teu aperto de mão nas horas sombrias
Negaste-me
Teus beijos que me acordavam para a vida
Negaste-me
A felicidade que só tenho em saudade.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A caixa de Euclides

Compactuo contigo revoltas
Contra esse mundo cúbico
A nos limitar a criatividade,
A nos por freio à imaginação.

São dois mil e trezentos anos
Sobre os nossos pobres ombros
Que dizem de nossa infelicidade
Axiomática e tridimensional.

Três vezes maldito é Euclides
Que nos prendeu nessa caixa
Sem as medidas do espírito!

Ah, se tal geômetra fosse poeta,
Ele teria explicado a geometria
Nas dimensões de nossas almas!




quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O segredo de Messias

Quase nunca vou a velórios,
Prefiro entristecer-me só,
Sem a companhia do morto.
E, depois, o morto é sem graça,
Não chora com a gente,
Não ri dos presentes,
Não reclama das coroas de flores.
Não nos fala dos segredos,
Aquilo que ele leva mudo
E que morreu com ele.
Basta morrer para se tornar
Um chato de verdade.

Um dia, o Messias me ligou,
Estava muito doente.
Aflito,  queria falar comigo:
"Coisa importante!".
Antes do encontro,
Marcado para o dia
Seguinte, o Messias morre.
O que queria o Messias?
Não sei, ninguém sabe.
Morreu deixando-me
A curiosidade.
Quer coisa mais chata
Do que isso?

Mas eis aqui uma verdade:
O verdadeiro segredo,
Aquele que merece esse nome,
- SE-GRE-DO -
É bagagem do morto
E somente dele.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A arte de comunicar o nada

Nada me causa tanto
E tanto aborrecimento
Quanto as mensagens
Que nada dizem de nada.

Uma anúncio publicitário fajuto,
Uma poesia agressora da língua
E texto escrito no balcão do açougue
São simplesmente nojentos.

Ora, se nada há para ser dito,
Por que me fazem perder tempo
Com essas bobagens vazias
Destinadas à boca do lixo?

Veio-me às mãos agora
Um suspeito poema...
Suspeito como seu dono,
Que deveria ser preso.

Preso pela polícia, isolado
E guardado na solitária.
Acusação: assassinato
Da última flor do Lácio.

Ali, naquelas linhas,
Encontro o sujeito,
(Quando encontro o sujeito!)
Separado do verbo.

Ali, os verbos intransitivos
São bárbaros transitivos
E os oblíquos são tomados
Pelos pronomes retos.

O objeto direto, então,
Deus meu, também
Vem entre vírgulas,
Enquanto nus são os vocativos!

Será um novo Pessoa?
Um Saramago, talvez,
A inovar a velha língua?

Não, não, meus amigos,
É apenas unitriste ser,
Entediado com a vida,
Que, na falta do que fazer,
Elabora tristes rabiscos,
Garranchos de analfabeto,
A comunicar o que realmente
Tem na sua cabeça intestina:
O vácuo total e completo!

As sobras do banquete


De ordinário, os poderosos não gostam dos poetas.
Nós somos perigosos a adivinhar seus desejos escusos.
Por essa razão preferem-nos presos, talvez defuntos.
Obtusos, não sabem que as tumbas nos retumbam.

Só há um tipo de poeta que os poderosos adoram,
O poeta menor, o poeta vendido, o poeta lambe-botas.
Aquele que se bota preço para louvar grandes nulidades,
Aquele que vê no mecenato uma obrigação do Estado.

O poder veste-se com a vaidade de fingida virtude
E dá cores celestes a tudo que não vale ou presta,
Cores que se emprestam falsas à lira dos graxistas.

E assim segue este velho mundo, bambaleando, girando...
Com os poderosos de vaidades se empanturrando
E os maus poetas no chão, ao redor da mesa, ciscando!

domingo, 5 de dezembro de 2010

Até logo

Não finjas que não sabes
O que na minh'alma vai.
Faço-me entorpecido
Pelo que desejo e sinto
E meus olhos me traem.
Dizem eles o que minto,
E que de ti por carinho omito,
No adeus para nunca mais.

Consciência ecológica

É, minha amiga, tens razão,
Somos artífices da destruição,
Porque fodemos em celeridade
A tudo que metemos as mãos!

Alquimia


Para a petroquímica 
Jarde Dembiski
Dá-me um remédio forte,
Tenho o coração em dor.
Injeta-mo na veia, doutor,
Ao matar-me, terei sorte.

Não o acetylsalicylicum
Comprimido na Aspirina,
Ou a alucinada morfina
A deixar-me paralítico,

Dá-me esquecidos alquímicos
Formulados com feitiços
De femininas entranhas.

Dá-me essa poção, doutor,
Pois minh'alma me estranha
Ao sofrer do mal de amor.

Bom-dia, capim!

Tenho medo de perder a razão,
Andar por aí a dar bons-dias
Às árvores e às moitas de capim.
Mas, meu Deus, e se já estiver louco,
Irremediavelmente insano?
E se o verdadeiramente sensato
For saudar a árvore e o capim?

Sim, olho ao redor e vejo risos soltos,
Riem de mim, por certo,
Porque reservo o meu bom-dia
Para o Belizário, o barbeiro,
Para o Pedro, motorista do ônibus,
Para os colegas de repartição.

Sim, ouço risos de piedade,
Risos de comiseração.
Falam de mim pelas costas:
"Lá vai o doido, o doidinho sim,
Que ignora as árvores,
Que não dá bom-dia ao capim".

sábado, 4 de dezembro de 2010

Lava-me as feridas

Tenho meus punhos em sangue
De tanto dar porrada
Em pontas de faca.
Quando estendo a ti
Os meus braços,
As minhas mãos,
Pouco quero.
Não quero abraços,
Ou felicitações por ter batido
Naquilo que não tem mais jeito.
Quero sim, um curativo,
Gazes que me estanquem o sangue,
Porque amanhã, bem cedo,
Devo acordar
Para mastigar o arame farpado
A cercar-nos em nós mesmos.
Devo encher de porrada
Esses minutos vazios
A nos determinar o fim próximo.
Lava-me as feridas,
Trata-as levemente,
Amanhã devo amanhecer
Para acariciar o tédio.
Acariciá-lo inteiro
Do único jeito que ele entende:
Na pancada justa e bem dada,
Num certo e certeiro tapa.

Fado da agonia

A chuva chora e eu canto
Saudades tuas, saudades...
É esse o meu triste fado
Ao pensar-te... Pensar-te...

A chuva escorre fria
Pelo meu rosto triste,
Aflito e sem alegria
Ao querer-te... Querer-te...

Ai meu Deus, que agonia
Ter no peito este fado
Vestido da fantasia
Do desejo a desejar-te...

Fado meu que me mata,
Que amar não vale a pena.
Fado meu que me falta
Ao amar-te, ao amar-te...

Minha pátria

Meu amor por ti
Chegou-me ao peito
Numa ancestral caravela
Que trouxe-te distinta
Na cruz das velas
Dos cruzados
Lusitanos.

Sim, meu amor nasceu
Além oceano
Lançado ao mar
Para encontrar-te
Sob o Sol austral.

Sim, ele viveu a crueldade
Da incerteza dos rumos
Porque sabia-te meridional
Desenhada numa constelação
A revelar-se no céu escuro.

Abismos

Gosto de ver teus
olhos
E descobrir neles
portos,
Grandes infinitos
abismais
Construídos sobre
mistérios:
Um não-sei-que de
inferno,
Um não-sei-que de
paraíso
Em que meus olhos
ancoro.

Ouvir a ti

Desejo te ouvir sem essa mania
Minha de adivinhar-te o sofrimento,
Os teus desejos nunca completos,
As tuas inseguranças em sutilezas;
De suspeitar exageros expressos
Em tuas lágrimas em fartura.

Quisera, meu bem e desespero,
Interpretar-te por meio do olhar.
Ao olhar-te apenas entender-te.
Mas não é assim que se decifra
Os mistérios ilógicos da mulher.
Para isso, não há fórmula alguma.

Tenho que parar com essa mania
De ouvir música e as pessoas
Adivinhando as notas e os gestos
Medidos em imponderável partitura.
Quero ouvir como todo mundo,
Surpreso com o que se repete.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Lambeta

Não gosto de elevadores,
Mas o mundo moderno
Não perdoa sujeitos antigos
Como esta singular pessoa,
(Totalmente fora do seu tempo!).
E lá estava eu, na caixa que anda,
Junto com uma velhinha em hora-extra,
E um mulherão que caiu num rio de perfume
(Criatura para muitos talheres
E baixelas de prata: sensual,
um corpão a expulsar carnes
Pelo vestido mínimo e generoso).
No décimo andar, a maravilha desce
E a velhinha vocifera em inveja,
Num lamento pela sorte diversa:
"Lambeta!".
Bom, pensei, um mulheraço assim
É para isso mesmo, engordar o olho,
Trazer à luz desejos esquecidos,
Ressuscitar tudo, até palavra mortas!

Vivendas

"Ora, onde vivem os poetas?",
Pergunta-me
O espantado e brutal amigo.
Olho para ele
E tomado pelo riso,
Respondo-lhe
Sinceramente:
"Na alma das coisas;
Na tua alma bruta,
Inclusive e absurdamente!".

sábado, 27 de novembro de 2010

Olhar


Amanhecer e renascer todos os dias.
Olhar este mundo com olhos de criança,
Com a curiosidade de criança
E, principalmente,
Com a alegria de uma criança.

domingo, 21 de novembro de 2010

Meus velhos livros

Meus velhos livros
Meus bons amigos
Jazem
m
o
r
t
o
s
Na estante

Já disseram-me tanto
Enquanto eu descobria
Com intensa alegria
A tristeza do mundo

Hoje dormem quietos
Uns furados pelas traças
Outros faltando a capa
Encardidos e puídos
Enterrados
em

No pó das prateleiras e
Na solidão dos eruditos.

sábado, 20 de novembro de 2010

Moda do nego Tião

Preste atenção, rapaz,
na história que vou contar,
Aconteceu já faz tempo
E eu não esqueço mais.
Numa fazenda de gado,
Lá em Minas Gerais,
Vivia uma moça bonita,
Filha do fazendeiro,
Um homem severo demais.
A moça um dia se engraçou
Com Tião, o capataz,
Que era um homem de cor,
Bom de laço e trabalhador.
O fazendeiro descobriu
E cismado ele ficou.
Jurou de morte o nego Tião,
Com preto a filha não casava não.
Ficou assim muitas noites,
Pensando em como matar o peão.
Até que teve a ideia
De formar uma comitiva
Pra levar gado a Goiás.
E no terceiro dia da viagem,
Quando um boi se desgarrou,
O Tião ele fez ir atrás
Pra buscar a laço
O boi que escapou.
Tião foi na disparada
Nem um minuto ele pensou,
Quando ele entrou no mato
Um tiro se escutou.
Era o jagunço na tocaia
Que nego Tião matou.
Hoje eu conto essa história
Pra mostrar que o preconceito
De raça ou de cor,
Nos faz fazer besteira
Porque do neguinho Tião,
O fazendeiro é avô.
E agora na cadeia
O velho passa solidão,
Ele não pode ver a filha
E o seu netinho Tião.
Pra terminar a conversa
Fica aqui uma lição,
O que interessa num homem
Não é a sua cor,
Basta que ele seja honesto,
Gente de bem e trabalhador.
.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Moda da moça roubada

Cochilou, o cachimbo cai...
Morena me dá um beijo,
Não tenho medo do teu pai.

Faz tempo que não te vejo,
Faz tempo que não te abraço,
Teu beijo é que me queima, ai, ai...

Tô morrendo de saudade
- Eita, que coisa encardida! -
E a saudade de mim não sai.

Sem teu carinho sou infeliz,
Na vida não tenho gosto...
Homem que não namora, ai, ai...

Quem tem filha bonita não dorme.
Vamos fugir pra casar agora...
Cochilou, é sogro além de pai!

Meu cavalo tá c'os arreios,
É só nele deitar a espora,
Cochilou, o cachimbo cai!

Cantoria do caminhante


Vá homem de Deus,
Vá pela vida afora...
A morte faz tocaia,
Só não se sabe a hora.
Vá homem de Deus,
A fé é sua Senhora.

Vá, mas não vá sozinho,
É bom ter companhia,
Alguém que nos dê a mão
Na difícil travessia.
Alguém que nos dê amor
Paz, carinho e alegria.

Ande e preste atenção
No ruim que aparece,
O mal mata o coração
E ao homem entristece.
Siga o rumo dos justos
E ao cantar essa prece,

Peça um bom caminho,
Que um homem de bem
Aqui não deixa mágoas
Das mágoas que se tem.
Andar nos põe adiante
E os tropeços também.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Pequena Gramática para os pequenos I

Oi, sou a simples sílaba,
sempre estou sozinha,
mas se você me juntar
a outras amigas minhas,
formo palavra novinha
que antes você não tinha!

O solitário A quase nada é,
o MOR sozinho é um terror
E juntos formam a palavra
Mais bela de nossa língua:

AMOR!

Tem palavra curtinha e bonita
com o nome de monossílaba.
"Mono" quer dizer uma só,
como em AI, PÉ, TI e PÓ.

Tem também as dissílabas,
que são as de duas sílabas:
junte agora CAN com TE
e CANTE por toda a vida!

Outras há com três sílabas,
são chamadas de trissílabas:
junte A e PREN com DER
e APRENDER virá à vida!

E as palavras que restaram,
as com mais de três amigas,
com quatro ou mais sílabas,
São as grandes polissílabas!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Aniversário

Alimentem o relógio, esse doidinho,
Que de graça  mastiga o tempo,
Que junta tantas vidas à vida minha!

II

É, a vida passa apressadinha
E eu que não tenho pressa
A sigo, passinho por passinho.

Receita para deixar de ser gente

Para deixar de ser gente
Não se carece de ciência ou esforço,
Basta que o sujeito se anoiteça,
Apague a luz e se esqueça.

É bastante que ele não perceba
O alvorecer, o entardecer, o anoitecer,
O Sol e a Lua repetindo caminho;
Que não olhe para nada, nem para si.

Depois, é necessário que ele faça
Uma pesada faxina n'alma:
Não tenha lembranças,
Não tenha amores,
Nada tenha em si guardado.

Que ele tenha a alegria toda
Em desprezo e jogada de lado
Junto com as afeições e afetos;
Não tenha temor e também desejo,
Ira, ódio, paixão e jamais prazer.

Isso feito, que ele siga
Sozinho ao cemitério,
Que se deite numa cova rasa
- Sempre há uma de boca aberta -
E aguarde a doce compaixão
Do humilde coveiro
E a solidariedade dos vermes.

Espantados


Ando camuflado pela cidade,
Porque desejo ver sem ser visto.
Em meus mimetismos diurnos 
Confundo-me com os muros,
Com o cinza dos prédios
E o negro dos asfaltos.
As pessoas passam por mim,
Pisam-me,
Chegam até mesmo a atravessar-me,
Carregadas que vão pelo espanto.
Indiferente, a nada disso ligo,
Não é o meu espectro proposital
Que apavora aos que passam,
Sei que eles se espantam
Com o próprio susto de viver
Que os acompanha.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Versos ao fogo

Faço versos como alguém
Que ateia fogo
Ao próprio corpo
E sai tranquilo,
A indesejar os bombeiros,
Com grandes esperanças
De que as chamas só deixem
Da decadente carcaça
Ardente braseiro.

Faço versos como se fosse
Morrer já no minuto seguinte.
Mas, não corro pelas ruas
A anunciá-los
Como se grita os incêndios.
Eles não têm pressa
Porque sabem - e como sabem!-
Que depois de escritos,
Mesmo afixiados em fechados livros,
Estarão a arder pela eternidade.

Os lusos oceanos

Outros povos como fêmea
Tratam o mar abissal.
Os latinos queriam-no
Neutro, indecifrável
E profundo,
Quase na feminina
Abundância dos medos.
Precisou o lusitano povo
Tratá-lo como homem
- Na porrada, no desespero -
Mare caelo confundere,
Para ver o que vai além
E domar o vasto oceano.


N.A.: Mare caelo confundere, expressão latina, "remover céus e mares".

O jardineiro do Éden

Sem prévio estudo e com muita ira,
Vós me acusais de contraditório.
Sim, sou! Sou isso e muito mais,
Humano, talvez, se assim desejais.

Amigos, somos pura contradição!
Desde o primo ovo aleatório,
O dualismo está a nos condenar
Como a dúvida que  nos anatematiza.

É próprio dos que vivem com a morte
Latente, omnipresente, dentro de si,
Para o bem do própria saúde e juízo,
Este opor-se à evidência condenatória.

Vivemos enquanto morremos é a verdade.
As sobras disso são alucinadas esperanças
Para nos trazer tranquilidade n'alma,
Para justificar esse escândalo a devorar-nos.

Sim, sou humano e necessariamente dual.
Amo já pensando na inevitável despedida.
Creio descrendo porque é o que me resta
Neste Éden abandonado pelo jardineiro.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Só o homem consegue sorrir

Em África, um menino à fome sorriu-me,
Deu-me de graça a única graça que tinha.
Nele nada poderia ser oferecido além dos ossos
Somados ao miserável sorriso que lhe fazia humano.
(Nunca tive tanta vergonha de pensar-me humano).

- Deus meu, vi ali uma caveira sorridente,
Feliz porque adivinhava próximo o próprio fim.
Ali, a morte significava esperança
E sorrir parecia ser a última prece.

Canção para ouvir depois da chuva


Veio-me como chuva de Verão,
Em força e intensidade,
Corisco a correr arisco no céu,
A tudo devastando, pondo ao chão.

Molhou-me os olhos,
Turvou-me a alma.
Trouxe consigo o vento
Que acompanha toda tempestade,

E, depois, foi-se silenciosa,
Deixando atrás de si
O fim clamando pelo recomeço,
Os pássaros saudando a calmaria
Numa melodia de alívio.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Vida descartável

Houve um tempo em que nada era descartável,
Uma ferramenta, uma panela de barro,um garfo...
Tudo que se ia juntando era para ser guardado,
Até mesmo coisa aparentemente sem utilidade.

Houve um tempo em que guardávamos nossa história,
- Pessoas amadas, fotos de viagem e velhos diários -
Sem que nossos corações ficassem duros e cansados
Com tudo aquilo que hoje julgamos inutilidade.

Tempo em que um amor de infância, mesmo o não correspondido,
Teria um bom lugar cativo nas lembranças caducas e senis.

Um tempo em que uma carta querida ficava guardada nos livros,
Acompanhada de seca e vitalícia pétala de rosa,
Vivo marcador na última página lida e com lágrimas borrada.

Houve um tempo de cartas de amor, de muita saudade,
Em que a amada não podia ser deletada com um toque no mouse
E, depois, enterrada defunta em túmulos virtuais.

Houve um tempo em que o amor era verdade simples na simples realidade.

sábado, 6 de novembro de 2010

Haikais V

no hospício,
o Sol a pino torra
os miolos moles.

*
a chuva deita-se
sob cobertor estrelado
e no rio dorme.

**
a suave brisa
lambe a pele morena
molhada e quente.

***
amei-te ontem,
hoje nem saudades
tuas me sobram.

****
as rosas coram
e ficam vermelhinhas,
porque vivem nuas.

*****

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Musiquinhas

E essas musiquinhas que não saem da cabeça da gente... Reuniões, discussões de trabalho no dia trocado por dinheiro... E a musiquinha lá, indiferente, batendo caixinha de fósforos, pandeiro, reco-reco... E um contínuo solo de trombone... "Dotô, jogava o Flamengo, eu queria escutar"... E eu, que nem torço pelo Flamengo!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Amor arcaico


Sei que assim inda hei vivido
Poisque assim inda hei amado
Mui e mui a ti, menos a mim,
Poisque sou por ti desprezado.

Há me devorado agudo pejo
Nas horas que hei de olvidar
Tuas mortais carícias e beijos,
Pera, só, de mim lembrar-me.

Sigo-te - amaldiçoado cortejo! -
Em tristeza, na lágrima a nadar
Abandonada só, solta no Tejo...

Bem sei que outro tens em teus ais...
Mas, amar-te outra vez eu desejo,
Pera morrer de amor uma vez mais.


No Português do século XXI

Amor antigo


Sei que assim ainda tenho vivido
Porque assim ainda tenho amado
Muito e muito a ti, menos a mim,
Porque sou por ti desprezado.

Há me devorado grande vergonha
Nas horas que tenho que esquecer
Tuas mortais carícias e beijos,
Para, sozinho, lembrar-me de mim.

Sigo-te - amaldiçoado cortejo! -
Em tristeza, na lágrima a nadar
Abandonada só, solta no Tejo...

Bem sei que outro tens em tua aflição...
Mas, amar-te outra vez eu desejo,
Para morrer de amor uma vez mais.

Meninos empinam pipas

Os meninos correm pela minha rua...
Estão empinando coloridas pipas,
Rotos, esfaimados, porém felizes.
Enquanto seus estômagos roncam
As cores correm, sobem, trêmulas
E alegram o céu do Dia de Finados.
Doce é a infância que nos permite,
Com esses inocentes brinquedos,
Desdenhar os horrores do mundo,
Voar esquecidos de nossas misérias.

sábado, 30 de outubro de 2010

Não desistas de ti

Não desistas de ti,
Desfaz-te dessa pele de tristeza.
É Primavera, linda,
Enfeita teus cabelos,
Tira o mofo do vestido,
A solidão é da loucura a cela.
Vamos sair dessa prisão,
Passear pelos jardins,
Ver o que nessa vida passa
Além da televisão.
Vamos fazer nosso próprio filme,
Escrever os diálogos da novela
Baseada em nossos improvisos.
A vida é resistência, querida,
Bela ou ruim é para ser vivida.
Resiste! Não desistas de ti!

Dá-me um beijo, querida

Dá-me um beijo, querida,
Um só, dá-me.
Longo... Desses em que
As línguas se enrolam
Desesperadamente,
Quentes.
Um beijo, dá-me
E prometo pedir
Ao coveiro
Que me enterre vivo,
Pois a minha missão
Nesta terra
Estará concluída.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O que és tu?



O que és tu?

Infeliz agregado do pó do Universo;
Junção aleatória dos tristes fulgores
Das estrelas que não deram certo?

Uma reunião de partículas que pensam;
A união de canibalescas células
Numa sociedade delimitada num corpo,
Que nasce e morre sem se explicar?

O que és tu aos olhos da eternidade?

O criador de Deus, ou de Deus a criatura?
Filho do acaso e da combinação
Da água com a poeira das pedras
Que o tempo esmaga e consome?

O que és tu perante teus olhos?

Um desconhecido;
Um colecionador de vaidades,
Inclusive a de não se pensar
Parte deste frágil contexto do incerto?
Ou aquele que apenas se maravilha com a criação,
Não é deus e também não se vangloria
De algum deus ter criado;
Aquele que vive enterrado na raiz da árvore
E se sabe pequeno para entendê-la
Em plenitude e verdade?

Chuva da tarde

Chove. Densa é a chuva em teus cabelos
A cascata segue das doiradas mechas
E na tua blusa, na altura do coração
Desagua na pureza que vem dos céus.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O máximo da solidão

Deu boa-noite ao pernilongo
Que lhe sugava o sangue.
Dormiu e anjo algum
Prontificou-se a velar
Seus brancos sonhos.

Topada

Basta caminhar por este mundo
Para saber que o amor é um tropeço d'alma.
Aparece assim do nada, de supetão,
Em surpresa e aflição.
Mas, o gostoso vem depois
Do bendito susto, quando nos dá
Uma puta vontade de gritar:
"Eu te amo, danada!".

Manifesto da poesia de amor



Às favas com as teorias acadêmicas
Que no poema aparecem fardadas
Em continência ao General Abstrato,
Alinhadas e contidas em si mesmas.

À merda os conceitos filosóficos
Que transformam a poesia
Numa miscelânea de teorias
Metasuprafísicas e subjetivas.

Quero falar de amor,
O concreto e o ausente.
Quero ser piegas e barato.
Quero falar de gente!

Quero meu subjetivismo
Tendo um único objetivo
Positivo, claro e expresso
No ridículo "eu te amo".

Quero a filosofia das paixões
(Inconfessas, desenfreadas, rasgadas, descaradas, safadas, ribombantes, retumbantes!)
Presa aos versos amimados,
Simples, singelos e delirantes.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Haikais IV

Porta retrato, obra de Luiz Rettamozzo
a porta porta
Porta-retrato da Mazé
o retrato do Retta
e não se importa.

*

a Mazé Mendes
guardou-se emoldurada
no sofrer de Frida.

**

veja o fantasma
escondido nas sombras,
o que o assombra?

**-
ei, belisco-te!
quero-te neste sonho
que se faz real.

***
distintamente,
mesmo na miséria,
ela não chorava.

****
o Seo Vizinho
pediu ao dedo Minguinho:
- junte-se ao adeus!


*****
o Fura-bolo
foi expulso da festa
pela peraltice.

******
o mafagafo
procura a mafagafa
para afagá-la.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Sentenças (Haikais III)

três tigres tristes
comeram o palhaço
e se alegraram.


**

a gramática
ensina às palavras
os bons costumes.

***

engasga-gato
é trava-língua falso
e divino prato. 

****
o dicionário
é a prisão provisória
da sabedoria.

*****

os calendários
são promessas futuras
de obituários.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Sentenças (Haikais II)

farto banquete
é o alegre funeral
da fome morta.

**
cumpre destino
a panela que espera
a galinha ciscar.

***
os vagabundos
têm um bom emprego:
vagar pelo mundo.

****
o suspiro
é o apito da fábrica
das saudades.

Sentenças (Haikais I)

a boa solidão
à afinação dos grilos
nos faz atentos.

**

a má solidão
com o terror próprio
nos sintoniza.

***
nesta manhã,
o burro come capim
e tu, hambúrguer.

****
a rosa morta
repousa sobre o caixão
da bela defunta.

*****
o formulário
guarda a fórmula
da cretinice.

******

o velho ofício,
a carta operária,
aposentou-se.

********
amor de perdição
levou-me tudo; levou-me
até o ar dos pulmões.

*********
o operário dorme
sonhando com o martelo
mágico de Thor.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Maria me dá notícias


Gosto de ter ver, Maria,
De vestido negro e curto.
Nessas horas meus olhos
Míopes, porém suspeitos,
Passeiam por tuas pernas
E sobem e sobem e sobem
E adivinham-te os peitos.

Maria, coloca outra roupa não!

Não quero ver no noticiário
As imagens deste mundo cão,
Quero ver tuas pernas, Maria,
Que atiçam até pudicos elétrons
Insepultos na tela da televisão.

Como nascem os poetas


Nasci no Vale do Encanto,
Onde nascem todos os poetas.

Lá, ainda no choro primeiro,
Cada pobre e condenado rebento
Tem os lábios no hidromel adoçados
Por Melpômene, deusa e oráculo,
Enquanto suas irmãs e os sátiros
Dão de beber ao pelado ser nascente
O fel do saber e do conhecimento.

Depois, Érato suspende o miserável,
Apontando-o ao infinito firmamento:

"Apanha as estrelas, menino...
Assim! Estende tuas mãozinhas
Para que elas aprendam a acariciar
Como nos acaricia o roçar do vento!"

E no ato final do imolamento,
Calíope morde-nos a língua
Num primeiro beijo misturado
Ao amargor dos sofrimentos.

Desta maneira está pronto o bardo
Que nunca padecerá de esquecimento.

Lembrará que mesmo no pesar
É sagrado dever do poeta
Misturar a palavra doce e amiga
Ao sal das lágrimas do tirano Tempo.

Recordará que o verso só chega à boca
Movido por escondida e crônica dor
E que somente nesse padecimento
É que a sua poesia se faz
Bela,
Paz,
Vida
E de toda vida o encantamento.

O passarinho


Hoje,
O dia amanheceu-me triste.
Vi um passarinho mortinho,
Filhote ainda,
Peladinho,
No chão
Estatelado,
Apeado
De alto
Ninho.

De olhos enormes, ainda fechados,
Provava do destino a eternidade
No sono friorento dos anjinhos.

Morreu ensaiando penugens
No corpinho feito de vidro.

Morreu numa queda,
Sem asas de voar, voandinho.

Morreu sem dar um pio,
Sem na minha janela cantar.

Morreu sem alcançar a beleza,
Sem encantar este feio mundo,
Sem ser de fato passarinho.

Lunação

À Mara Regina Barros

A Lua Cheia ilumina a minha rua.
No céu imenso... Ela tão pequenina!

A Lua dorme de lâmpada acesa
Enquanto tu, no quarto escuro,
Dizes que estás cheia
De tudo quanto na vida 
Tem muita importância,
Mas que, imprudentemente,
Desejamos em renúncia,
Quando a alegria abandonamos.

Vê a Lua, seu brilho desdenha 
Nossos mortais desejos,
Porque mesmo na tempestade,
Ela sempre será o que é
A cada vinte e oito dias.

Aprendamos, em infinitos ciclos,
A Lua por séculos nos ensina:
Minguar-nos por entre as trevas,
Aumentar-nos depois timidamente
Até revelar-nos em brilho único
Sempre em surpresa, eternamente.
.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Quando dos céus desceste

Lembro-me do dia em que dos céus desceste,
Havia no horizonte um não sei quê de nada
Enfeitado por cúmulos que ameaçavam choro
E um crepúsculo repetido, repetido, repetido...

A vida escondia-me o riso e era carranca de barco
A assustar monstruosidades submersas no oceano;
Mourejavas tu nas nuvens das ilusões desenganadas
Em que este triste capitão em tristeza flutuava?

Tiraste o manto que me obscurecia o adiante navegável.
Desceste dos céus para realinhar-me a louca bússola
Que, maluca, para qualquer ponto cardeal apontava.

Desde então, sigo seguro por mar calmo e radiante teto.
Feliz, tenho no timão tuas mãos a aprumar-me o navio
Longe do medo, porque pelo amor e alegria tu navegas.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Alma-metade

Creio. Outra vez creio ter encontrado
A alma que é de minha alma a metade.
Sei que pode haver aí engano,
Mesmo aos poetas, especialistas em ver
Coisas que, mormente, não se vê,
Não é nada fácil essa procura.

Há os que nunca encontram
Essas almas complementares,
Porque de caprichos a vida é feita
E caprichosas são as ilusões,
As miragens nesse grande deserto
Cheio de movediças areias encantadas,
Que abrigam fatais serpentes
E o tempo perdido que nos relógios
Se amontoa a formar memória
Em agonia de morte.

Mas eis que assim cantava:
Minha alma-metade andava só,
Assim como eu andava.
Nos olhos, muitos sofrimentos,
Assim como os que nos meus choravam.

Nas mãos uma rosa invisível,
Assim como a que carregava.
- A quem dá-la em louvor,
A flor última da roseira cansada,
A quem dá-la em amor? -
É o que nossas almas perguntavam,
Enquanto que, num olhar apenas,
A vida, Os dissabores e os horres
Se faziam refletidos no mesmo espelho.

A bailarina na chuva

Graça dança estranho ballet na calçada...
Chove, ela ri, delira e acha graça.

De graça, Graça grassa por todos os olhos
Dos curiosos que se babam.
Afinal, há muito espanto naquele espetáculo
Oferecido pela bailarina nua.

Graça treme, tem os lábios roxos,
Olhos distantes, alienados, frouxos...
Sua dança é prazer, é o gozo
A deixar-lhe inteirinha molhada,
Até mesmo nas partes
Em que a chuva divina
E a baba dos pasmados babosos
Não chegam em atrevimento.

A sirena da ambulância interrompe a cena.
Graça para, curva-se e agradece
Aos que prestigiaram suas piruetas
Coreografadas por graciosa demência.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Pelos campos da eternidade

Foi naquele infinito caminho
Que a vi pela última vez.
Foi-se por ali, ali mesmo,
Contrariada, a colher flores
Pelos campos da eternidade.

Deixou-me nos lábios o gelo
De derradeiro e singular beijo.
Extremado gesto de quem ama
E teme a fatalidade do destino
Desencantado e no desespero.

Foi por aquele caminho, aquele mesmo,
Sem volta, sem apelo de retorno.
Foi-se pela trilha que se faz segredo
Dos mapas de nossa vida toda
E que só se revela no último suspiro.

Espera

Enquanto o ar encher-me os pulmões,
Enquanto a luz mostrar-me o horizonte,
Enquanto a Lua anunciar-me a madrugada,
Espero-te.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Ladra

Roubaste de mim
Os melhores anos
Ornados de vida.

Tiraste de mim
Os velhos caminhos
Enfeitados de luas.

Mataste meus sonhos
Que a tudo guardavam
Em projetos e esperanças.

Hoje, carregas contigo
Estes despojos infensos,
Envelhecidos e sem preço.

A que te servem eles,
Se te curvam as costas
Em peso e pesadelos?

Arrasta-os contigo
Como o condenado
Preso ao vira-mundo.

Nada disso quero de volta,
Fiquem contigo teus crimes
E os apresente a Caronte.

Porém, avisa ao barqueiro
Que a gravidade de tua alma
Pode afundar-lhe o barco!

domingo, 10 de outubro de 2010

Requiem para coisa triste

Hoje acordei com desejo
De compor poema novo,
Escrito para os amigos,
Com o feitio de domingo,
Ensolarado e contente,
Repleto de espreguiçamentos.

Seria um poema assim
Como este que por estas invisíveis linhas vai se alongando,
Teria que ter em si
O brilho dos olhos de todas as gentes do mundo,
Aromas da aurora,
Perfumes da esperança
E sinceros votos de que a vida se faça num bom descanso
Para os que lutam
Como velhos quixotes pela paz e justiça entre os homens.
Seria um poema assim,
Que tivesse dentro dele o silêncio e o conforto dos campos santos
Cantados numa missa matinal,
Requiem para tudo quanto é ruim e que povoa nossos tristes dias.

-------------
Ilustração: "Palhacinhos na Gangorra - Portinari.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Errante

Triste como uma tarde de garoa
Foi como te vi ontem.
Disseste-me ter amado errado
Mais uma vez, outra vez.
Amor, amiga, é tentativa
Baseada em método antigo
Que nos exige grande
Trajetória pelo erro.
Amar é errar buscando acerto.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A magreza da Polaca

Sonolenta,
Cansada,
Irritada,
Sem fome,
Magra;

Com dores de cabeça
- Tonta, ela desmaiava -
De repente,
A Polaca deixou de ser rosa
E largou-se pálida no meu colo.
Leucemia, disse o médico.

Leucemia é o diagnóstico.
Leucemia é a condenação
Ouvida nos consultórios
Transformados em tribunais
Sobre repentino cadafalso.

Olho para a Polaca e ela chora.
Tinha dores, estava fraca,
Branca, branca, branca...
Sem esperanças, sem remédio.

Desespero,
Vontade de bater com a cabeça na parede.
Matar os médicos,
Arautos do mundo dos mortos.
Morrer também.
Blasfemei, chorei, gritei,
Soquei nuvens distantes,
Soquei-me, em sangue deixei-me
E os deuses nem ligaram
Para essas doidas revoltas
Do doido tolo dos tolos
E mantiveram a sentença
Em duras e cruas palavras
Inspiradas pela impotência:
Leucemia aguda, sem cura.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

As cores da Polaca

A Polaca de pele rosada
Passeia pelo jardim
De roseiras enfeitado.

Dá-me a flor do cabelo,
Peço,
Dá-me a flor, dá-me.

O azul dos olhos da Polaca
É meu céu em contraste
Com o vivo rosa a cobri-la:

Tu és rosa, Polaca!
Tu és foda, Polaca!

Pois no desejo de amar
Finges um não querer
Que se traduz por sim e sim
À sombra das cerejeiras.

Amas assim
Desesperadamente
E pedes a mim,
Entre gemidos,
Nova tatuagem
Na macia pele,
Intensa
E impressa
Por carinhoso
E vermelho tapa!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Teatro


Desfaze-te dessa máscara teatral
Ganha quando te disseram adulto.
A falsidade não frequenta teatro,
Porém, interpreta maus personagens.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Domingo

Levantar bem cedo,
No domingo,
Dando bom-dia
Aos passarinhos.
Passar café...
Beber aos golinhos...
Eita vidinha
Que passa voando!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Inutilidades

Remexo coisas esquecidas...
Organizo quinquilharias
Em amontoados de inutilidades.

Estilingue de infância,
Bolas-de-gude,
Um espelho trincado,
Pregos enferrujados,
Parafusos,
Chaves de antigas casas,
Chave de desabitado quarto,
Um travesseiro sem uso...

No meio dessas coisas, o tempo perdido,
Horas dedicadas ao que não tem valor,
Anos guardados em baús renunciados,
E tua fotografia sem cor, sem saudade.

Fórmula secreta

Senti ontem teu perfume em outra fêmea
E desisti de continuar o que nem havia começado.
Como explicar à infeliz criatura que tua essência
Fora violada em sua fórmula secreta,
Feita de flor de laranjeira, rosas em pétalas
E raros óleos do Oriente Médio?
Como explicar que guardava nas narinas
Teu cheiro de êxtase, único e intransferível?

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Efêmera

Felicidade, tu que és
A mais efêmera
Das efemeridades,
Passa teus braços
Por sobre meus ombros
E serve-te deles
Como travesseiro.
Fica aqui noturna ave
E dá-me sono quieto,
Em que o sonho
Seja de ti repleto,
Porque sonhar
É o que de graça
Ainda me resta
Além dos corvos
A rondar-me
Os pesadelos.

Banzo e saudade

Não sei se sofro de banzo ou saudade.
Porém, trago em mim melancolia guardada
A compartilhar antigas lembranças de adeuses
Choradas no Tejo e no Atlântico dispersas.

Melancolicamente meus olhos choram
As tristes naus e caravelas naufragadas
Que a porto ensolarado algum chegaram
Por imperícia e má sorte deste marinheiro.

Em vão tento alcançar os mágicos e longínquos continentes.
Terras virgens olvidadas, sonhadas em noites passadas,
Esquecidas das cartas náuticas e dos mapas supressas.

Em banzo e saudade nas minhas lágrimas Magalhães navega,
Vasco segue com a lusitana vela de proa enfunada por Netuno...
E desisto, pois a boa esperança não é norte neste mar soturno.

domingo, 5 de setembro de 2010

O juntador de sílabas

O sujeito é um empilhador de palavras.
Qualquer novo som ouvido
Torna-se um rugido
Desenhado em letra de domingo
Em mais um inútil livro
Financiado pela Lei de Incentivo
À Cultura dos incultos imbecis;

Lei infalível que os políticos criaram
Para garantir a ausência de críticas
Da "intelectualidade" e acadêmicos
Aos podres poderes constituídos.

Em troca, pelo silêncio consentido,
Deram aos verdugos da nobre arte
A possibilidade deles viverem
Em eterna vagabundagem
Custeada pelos impostos
Surripiados aos iletrados,
Povo anêmico e faminto.

Na realidade, o "escritor" de quem falo
Sempre se fez um gozador,
Porque diante da pilha de letras,
Arranjadas sem guardar sentido,
Anuncia aos quatro ventos:
- Escrevi mais um neopoemanovo;
Poesia neomerdística
Feita nas coxas e parasita!

E os trânsfugas da inteligência,
Meus colegas de imprensa,
Os maus neocríticos literários,
Da neo-arte e outras neosandices,
Saúdam o amontoado silábico
Como quem saúda e aplaude
O neopalhaço no circo:

- É um novo Bilac!
- É um novo Camões!

Por não terem estudado a gramática,
Avessos aos dicionários
E às sutilezas da inculta e bela língua,
Todos eles ignoram
Que ali está um cara,
Ignorante de pai e mãe,
Um asno parido,
A ganhar fácil dinheiro,
A brincar com as palavras
Como se elas fossem
O que vai dentro de bonito penico:
Sílabas do cagatório das verbas públicas
Que em farta urina navegam, fedem e flutuam!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O Céu que nos condena

Estamos todos miseravelmente condenados a viver sob o mesmo céu.
O Sol que dá vida à unicélula nos dá também os dias, as horas, os desalentos.
A Lua a nos inspirar o amor é a mesma a revirar o mar revolto nas tempestades.
O vento que nos refresca é o mesmo que as ondas encrespa e nos fere de morte.

Há muito risco em viver e sonhar como conteúdo desta campânula azulada,
Neste aquário airado que se serve dos elementos para quebrar monotonias,
Nesta angústia de querer se adiantar ao imprevisto já predestinado pelos deuses
Que a tudo parecem governar em inúteis e descuidados gestos, em preguiça divina.

Talvez, o céu nos caia por sobre as cabeças como adivinhavam bárbaras profecias.
Estaríamos assim libertos do cativeiro, do túmulo moldado em ancestrais eras.
Flutuaríamos, por certo, na liberdade dos espaços a comunicar nossos desesperos.

Talvez, o céu nunca saia de seu lugar e deixe de cumprir seu estático destino,
Pela eternidade há de sustentar as estrelas para nosso boquiaberto e tolo êxtase.
Assim, eterno, o céu nos lembra que somos apenas o infeliz arranjo de brevidades.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O riso dos deuses

Encha-se de cuidados no que for pedido
Aos deuses entediados a rir nos espaços.
Muita luz nos machuca os cansados olhos
E a escura noite ao cego se faz dia claro.

Eu pedi à Fortuna um destino leve,
Remediado no bolso e da cruz liberto
De semear nos campos desta estéril Terra
Algo além do que meu coração quer e cala.

Roguei amor também para beleza da vida.
Mas, nesse artigo os deuses me foram avaros.
Deram-me dias felizes que, felizes, me tiraram.

Por vontade da Sorte sou o guizo dos rufos,
O tolo atrás do vento que a vaidade carrega,
O títere do supremo fastio das deidades.

domingo, 29 de agosto de 2010

A polaca na praia

"Nam castum esse decet pium poetam
Ipsum; versiculos nhil necesse est"
Catulo



A tarde dorme em preguiça comprida...
O Sol desenha para si caminho doirado
E a loira onda se penteia sobre o oceano
Com os macios dedos roliços da brisa.

Graciosa como o silencioso voo da gaivota,
A Polaca caminha pela praia de Boa Viagem.
As espumas lambem e lambem as suas pernas
E as salgam. É o tempero do pecado da carne.

Sigo seus passos que se acomodam na areia...
Guia-me ainda o rubro vinco na pele que foge
Da minúscula e apertada calcinha de seu biquíni.

Ela para, junta um búzio e o leva ao ouvido:
- Querido, estás a ouvir ao longe o mar rugindo?
- Não. Só ouço o meu choro por este dia findo.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Antinós

Há de se encontrar por aí
Um outro eu, um outro você.
Nisso não há engano algum
Ou especulação do tédio
Que de há muito tempo
Sequestrou a Filosofia.
Temos sim, um outro eu.
Um eu antimaterial.
Um antinós ao avesso
Feito da antimatéria de Dirac
E guardado em outra dimensão.
Oremos por nosso anti-eu,
Mais um entre os desconhecidos.
Oremos,
Porque o que ele faz, o que ele pensa
Nem os deuses deste nosso mundo irreal
Percebem e sabem.

Costume

Sentir é o nosso estranho costume
E descrever o que a gente sente
É dos poetas a estranha mania.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Vício do espírito

Vivi o tempo da escuridão.
Para gente que assim sofreu,
Distinguir os vultos nas trevas
É costume que viciou o espírito.
Aprendemos a amar o quase nada.
Para nós, uma mísera réstia
É fulgor. É claríssima manhã
Ensolarada em praia tropical.
.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Danada

Minh'alma fez as malas
Com roupa alguma.
Desistiu de mim
E vai ganhar mundo.
Pobre e danada,
Minh'alma vai pelada.

O dialeto das lesmas

O mosteiro está mais quieto do que o de costume.
De vez em quando um leve arrastar de sandálias...
Um toque de sino a pedir desculpas pelo incômodo
Ao marcar a hora e o tempo de nossas orações.

O jardim está vestido de morte neste inverno,
Pouco verde, poucas cores, muita vida latente
A esperar a ressurreição no mês de setembro,
O levantar dos túmulos, o explodir das sementes.

Frei Joaquim anda pela horta. Consulta as plantas
E tenta entender o segredo das que resistem ao gelo.
- O frei não anda bem, conversa até com as lesmas! -

Creio que aos poucos todos aprendem este dialeto
Que nos permite conversar com coisas sem alma,
Flores, árvores, lesmas, com os doidos e nós mesmos.

domingo, 22 de agosto de 2010

O ciúme da Polaca

A Polaca anda estranha,
Deixou seus bordados,
Não assa mais "maréco"
E nem cozinha-me pierogi.
A Polaca anda triste,
Nunca quis tê-la assim.
Ela sentiu cheiro de mulher,
Perfume doutras fêmeas
Em meus poemas.
Ontem, antes de dormir,
Fez discurso, falou desatinada:

- Quero que você escreva meu nome,
Publique minha fotografia,
Cansei de inspirar a sua poesia.

Cansou nada, pensei,
A Polaca está com ciúme
E não sabe que na rima
Nem sempre sua polaquice cabe.
Depois, dormiu com a bunda virada,
Virada para a parede
(E que bunda a Polaca tem!),
De pijama amarrado
E por sobre o lençol.
Chorou e soluçou a noite toda.
Pela manhã, puxou o meu braço
E fez minha mão sentir seu peito
(E que peitos a Polaca tem!):

- Escreva, mas não esqueça
Que meu poeta mora aqui também!

O wojak da polaca

Estou quase morto de cansado.
Distraí-me com geométricos
Cálculos o dia inteiro...

A Polaca toca Chopin...
Ouço a música que julgo
Matemática, tal é a sua perfeição.
As notas em luta,
Fracionadas, nuas e breves,
São os sons dos números
Que saltam do piano
E de repente estancam
Numa nota solta, firme e leve:
- Abrace-me, wojak,
É de amor que devem
Morrer os guerreiros!

Flor seca

A flor morrendo foi,
Seguia destino ao secar,
Assim como os jovens sonhos
Que morrendo foram
No destino a murchar.

O fogo da beata

- A vizinha tem fogo na periquita!
Disse-me a velha beata
Ao fazer o sinal da cruz três vezes.

Sei lá, talvez a menina tenha a bacorinha incendiada,
Pois a vi pela manhã, num frio de freezer,
A caminhar descalça e em trajes mínimos.

E a beata, que devia estar cuidando da própria vida,
Toca a ver hipócrita maldade nos incêndios alheios
E esquece que, no mesmo fogo, forjou onze filhos!

sábado, 21 de agosto de 2010

Flores no céu

A Terra não encontra resistência
Na escuridão do vácuo que atravessa.
Dizem que de longe é rápida bolinha,
Azulzinha! Infantil e inocente brinquedo.

Nela sou boquiaberto passageiro
Às vezes só, às vezes triste ou contente,
Porém estarrecido com tanta velocidade
Ganha na atração dos sóis e planetas.

Aqui, na minha poltrona, nela viajo...
E a Terra executa órbitas elípticas
A embalar meu coração tão estático.

A minha janela abre-se para o céu florido
De estrelas... Deus meu, pare a Terra, pare!
Porque quero sentir o aroma da paisagem.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O beijo na polaca

Por que queres me beijar assim, polaca?
Poeta beija de um jeito diferente,
Com versos que te mordem a língua
E que no céu da boca estrelas acendem.

É que guardei para ti palavras em fogo
Que hão de me escapar ao lamber-te
E que lentas e silenciosas se juntarão
Ao clarão de teus olhos em êxtase.

Não. Não renego teus lábios quentes,
Dulcíssimos como a rubra groselha
A enfeitar teu lácteo corpo, doce deleite.
 
Assim, murmuro a dizer-te o quão és bela...
É que no sussurro também há cálida carícia
A provocar arrepios no vão entre tuas pernas.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Elogio ao clichê

Eu adoraria ser um clichê
De feitio e semelhança
A essas roupas quase perfeitas
Feitas em escala industrial
E que vestem todo mundo,
- Embora nos deixem
Com as bundas ao deus-dará!

Ser o perfeitamente normal.
Ser o ser que acorda pela manhã,
Urina, defeca e vai para o trabalho.

Ser o perfeito pateta.
Ser o ser que acorda pela manhã,
Mija, caga e vai para o calvário.

Ser o perfeito boca-aberta,
Acordar pela manhã
E escancarar um medonho sorriso
Para o papagaio da Ana Maria Braga.

Eu amaria deitar-me num molde
E sair de lá com um rosto imbecilizado
Desses de propaganda de margarina.

Como gostaria de ser um alienado,
Olhar o Sol e contentar-me
Apenas com o seu brilho e calor,
Sem tentar explicar quem no céu,
No meu céu, o Sol colocou.

Seria-me sublime ignorar a existência
E somente existir ignorando a dúvida.

Clichê, artificial alma que pode ser comprada
Em afamadas butiques e grandes supermercados
Que têm em estoque todas a superficialidades!

Como gostaria de sê-lo, impagável clichê,
Para me desobrigar de querer desvendar
Esse mundinho para lá de obscuro e sem verdade.

sábado, 14 de agosto de 2010

Flutuações

Há ambientes em que vejo pessoas flutuando,
Não e não! Não estou com o espírito narcotizado
E muito menos sofrendo sob os eflúvios do álcool.
É que, quando amam, as pessoas flutuam,
Despem-se de suas pesadas carcaças e flutuam.
Coisa de dar inveja, amigo, uma puta inveja!

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Olhos de Capitu

À Fernanda Rocha
Francisco era de Assis,
Machado era de Assis...
Enfim, essa gente de Assis
Costuma avistar-se com
Os anjos de Michelangelo.

Francisco viu Fernanda
E disse que o pecado
Não era tão pecado assim.
Fernanda não peca
E se pecar, a sua beleza
Suplica-nos perdão eterno.
As belas estão dispensadas
Dos atos de contrição,
Ladainhas de piedade
E água benta na língua.

Há cem anos, ou mais,
Nosso escritor Machado
Anteviu no cristal da cigana
Os olhos de Fernanda,
Em obliquidades,
Em relances,
Dissimulados.

Machado de Assis viu ali
Mais do que uma personagem.
Ele viu todas as possibilidades
Nos olhos de uma mulher.
Fernanda tem olhos de Capitu!
Abismos por debaixo da rocha
Que deixam casmurros,
E permeados na dúvida,
Os ousados olhares
Que com o de Fernanda cruzam.

A polaca toca Beethoven

Ouço a Sonata ao Luar...
Os dedos rosas da Polaca
Contrastam com o branco e preto
Do teclado do piano quase espelho.
Tento dizer algo, pois é manhã,
Faz um frio tremendo e ela,
Entre os graves e agudos,
Exige-me pianíssimo silêncio.
Na última nota, uma lágrima
Imponderável escorre de seu rosto
E nele deixa um rastro de felicidade
Que se deseja impossivelmente
Em terna e eterna eternidade.

sábado, 7 de agosto de 2010

A Polaca canta

Ela lava a roupa e canta
A canção da velha Polônia,
Triste saudade. Saudade triste.
(Saudade que só seria possível
em palavra nos corações lusitanos!):
Cante Polaca, cante, cante
E alveje assim, em velha tábua,
Minha triste e encardida alma.

Plumas

Ontem ventou sobremodo.
Almas pesadas por aqui ficaram.
Poetas com plumas no peito
Voaram e desapareceram
Pela escura cortina noturna.
Meus bons amigos seguem caminho...
Porém antes, ainda deste lado,
De pé sobre as mesas dos bares
Declamaram bárbaros poemas
E eivaram-se no desejo do verso
A exigir única morte honrada
Neste mundo virado num pandeiro velho,
O bom fim por cirrose hepática.

Sentinela

- Quem vem lá, no calar da madrugada?
- As horas que estão por vir...
- Sois boas ou ruins?
- Somente a noite sabe, mas ela é calada!
- O que guardais para mim?
- Rumos incertos em horas exatas, mais nada!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A polaca dorme

Acordo e vejo Curitiba com seu sorriso cinza.
Molhada, a cidade aguarda-me com seu abraço frigorífico.
Encolhidos, os pássaros congelam o voo e vegetam no alto dos pinheiros.
Os cães latem na cadência da chuva fraca e contínua.
A polaca ainda não foi comprar broa de centeio na panificadora, dorme, dorme.
Perdeu a hora sob a colcha de retalhos amarelos imitando o Sol, quente, quente.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Nemo

Amo o pobre, deixo o rico,
Vivo como o tico-tico.
Luís Gama

- Nemo é nome de peixe -
Esboça em sua sabedoria
A menininha para este velho
E miserável poeta.

Digo-lhe em minha sapiência
Ganha a duras penas
Das traças das bibliotecas:

- Houve tempo, no tempo de Nero,
No tempo em que nossa língua
Nem existia e Portugal ainda dormia,
Que "nemo" significava ninguém.

 - Mas, como alguém pode se chamar ninguém!?! -
Duvidou a infantil mocinha, fã de desenhos animados.

- Qualquer pessoa pode se chamar ninguém.
E garanto: ser nemo na ordem universal
É nosso estado absolutamente natural!

A infanta me olhou, franziu a testa e emendou:
- Nemo bobão!

Dá o mesmo trabalho, vivente!

Gastar a vida na multidão
Gastar a vida sendo você

Gastar a vida na ignorância
Gastar a vida no conhecimento

Gastar a vida no rancor
Gastar a vida no amor

Gastar a vida em coisas menores
Gastar a vida em que vale a pena

Gastar a vida esperando a morte
Gastar a vida vivendo apenas.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

A palavra

A palavra para dizer tudo
Que precisa dizer a palavra
Deve ser cunhada num poema
(Invariavelmente recolhido
No silêncio dos livros!).

Em seu gosto e sabor
Deve ser açucarada na ponta da língua
Mesmo se nascida em amargo peito contrito
E vomitada por desprovidos de espírito.

Algumas vezes
Deve ser paina só e esvoaçante
Pelo céu em tarde quente
E de calma, calma brisa.

Outras vezes
Deve ser a trovoada - com cuidado! -
Porque o raio na tempestade
Fulmina a verdade do verbo.

Sempre, sempre
Deve desprezar os penduricalhos
Os enfeites de última hora
Que lhe dão falso brilho.

E pela eternidade
Deve ser densa em sua precisão
Porém suave no significado
Para não machucar os dicionários.

sábado, 24 de julho de 2010

Vento na macega

"Ainda sinto na pele o sol e a lua,
ouço a chuva cair na minha rua,
e a vida ainda me aperta nos seus braços".
Fernanda de Castro in 

"E Eu, Saudosa, Saudosa"


Ame, triste moça! Ame, pobre pirralho!
Amem! Amem ao infinito, jovens e velhos!
A vida afora amar não pode ser algo
Além de daninha erva a espera da sega.

Amem! Proclamem algures e alhures a pessoa amada.
Gritem! Pode ser clamor avulso e perdido na tarde.
Importante que o amor a todos seja gratuita dádiva,
Porque se abrasada, toda macega na ventania arde.

Assim, que nos incendeiem os estrênuos ventos
Por este mundo feito de tumulto e tempestades.
No amor sabemos que não somos bem seguros,
Sem amor somos no mundo o conteúdo do nada.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A felicidade é polaca

Doirada toda até nos mais escondidos pelos
Por sobre uma pele arrepiada em puro rosa,

És albinua sob a Lua,
És o lume do meu Sol,
És a minha lúdica polaca.

És aquela que grita lá da cozinha
Inda esfaimada, em pelo, sem pudor:

- Estou fritando "maréco", amor!

E doiras na intensa chama a ave
Que, na cama, darás a comer
A este poeta que sofre no torpor
Da anterior extenuante cruzada,
Mísero sarraceno sobrevivente 
Do mais loiro dos incêndios.

domingo, 18 de julho de 2010

Carta de mundo distante

Sonhei ontem ter recebido carta tua, grata amiga.
Vê o quão reveladores podem ser os sonhos,
Em especial, esses que conosco envelhecem!

Quem hoje ousaria escrever cartas, estimada minha?
No máximo um e-mail, um SMS, mensagem de celular.
É, o mundo mudou, não há mais Código Morse,
O plec-plec-plec nervoso dos galopantes telégrafos,
Somente há o infotráfego sequencial em óticas fibras.

Somos cidadãos do mundo e instantâneos.
Ganhamos mais tempo para perder mais tempo,
Essa é a verdadeira lei a nos reger os dias.

Mas eis o que te dizia: recebera perfumada cartinha,
Dessas que vinham em leve envelope par avion
E com as bordas nas cores de nossas vidas:
Liberté, égalité, fraternité. (Lembras disso?).

No papel tu descrevias vários países da Europa,
Os cafés de nossa luminescente e belíssima Paris,
Homens preocupados com mais uma crise econômica
E contava que tua missão na ONU estava terminada.
Tudo acabara, requereste aposentadoria e descanso.
A Amércia Central feriu-te e deixou-te o coração fraco,
As guerras no Golfo e nos Balcãs foram-te a gota d'água.

Mas, que sonho triste e besta. Simplesmente, tu não mais existes!
Sumiste na fumaça do ataque a bomba, covarde e terrorista.
Foste e deixaste os velhos sonhos numa carta possível,
Porque somente os mortos podem escrever para os mortos.
E depois, tenho que te dizer, há tempo não abro a caixa dos correios.
Para o bem de minha saúde, desisti completamente de esperar
Neste mundo em chamas, a ranger os dentes, notícias que valham a pena.

O pano que nos cobre

Não sei se Bandeira disse, mas deixou latente:
A maioria dos poetas reescreve seus poemas,
Seja logo após escritos, no prelo ou pendentes.
São vestidos de festas que devem ser revistos.

O poeta, alfaiate atento ao pano cosido,
Sabe que sempre cabe um ponto novo,
Um alinhavo, uma lantejoula, uma cava,
Naquilo que há dito, porém obscuro.

Ah! São tantas as festas, tantas divas
Disputando as mesmas blusas e saias,
Que o poeta junta panos com cega agulha:
Corisco no céu a bordar estrelas nuas.

Há poemas que exigem trajes de freiras,
Mui pudicos como anjinhos de sacristia,
Porque falam de coisas de sério respeito,
D'alma, de Deus, da morte e seus ofícios.

Há outros que nos saem peladinhos ou seminus,
Impróprios, na devassidão e luxúria implícitos,
Que deixam a bunda e seios da amada expostos
Porque o amor é para o poeta única sina e vício.

Há poemas que exigem apenas vestes comuns,
São os escritos de exercício, calmos e sisudos.
Para esses, costuramos uniformes de trabalho,
Macacão de operário, ou um terninho rústico.

Mas fato é que, seja a poesia de qualquer tipo,
Ela sempre há de nos exigir atenção e labuta,
Às vezes no temível arremate capenga ou bonito,
Ou nos "as"  despidos da crase, esta filha da puta!

sábado, 17 de julho de 2010

Meu coração

Não mais pulsarás
Vou te congelar
Numa câmara fria
Usando a criogenia
Dos adeuses
Das barregãs perdidas
E das amantes
De um único dia.

Não mais baterás
Pelas belas mulheres
Pelos perfumes alucinantes
Pelo amor terrível
Em outros peitos lascivos.

Não mais sentirás
Encantos
Nos oblíquos olhares
Nos sorrisos dissimulados
Nas formas de feitio feminino
A chamar-me para o pecado.

Serás apenas um enfeite
Da vida meu pingente
Frio como o vácuo das trevas
Inerte como solitária erva
Que alegra este mundo
Porém, estática,
Às criaturas serve de pasto.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

De esquina

Vou ver se te esqueço lá na esquina.
Depois do chope,
Deixarei toda saudade na latrina.

Vou ver se te esqueço lá na esquina.
Depois da dor,
Outros amores, eis a nossa natural sina.

Vou ver se te esqueço lá na esquina.
Depois do vinho,
Dormirei na casa de suspeitas meninas.

Maltratos do tempo



A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus.
Vinicius de Moraes

Desejo tolo,
Impossível e tolo,
Vê-la novamente
Na mesma juventude,
Em igual meninice
Que hoje é perdida
Na noite dos anos.

O tempo nos maltratou
Tanto, tanto e tanto quanto
A leve água em velha rocha
Mortificada na areia fina.

Somos gastos, este é o fato
E para isso não há conserto
Ou salvadoras cirurgias plásticas.
Reforma-se a pele,
Jamais a alma em andrajos.

De resto, o que nos resta,
É o desespero
Contra essa ordem
Violentamente natural:
Todo nascer
É o princípio da decadência
E beber da vida é morrer
Num requinte perverso,
Lentamente, aos golinhos.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Sou substância e palavra

Sou substância e palavra,
A junção de químicos elementos,
A vida pensada pelos deuses
Que se alimentam de vento.

Minhas células nunca dormem
Nem dormem meus pensamentos;
Há horror no roubo dos elétrons,
Há temores naquilo que faço e penso.

Minha palavra é impulso fotônico
Moldado em ancestral gramática
Dos que passaram pela vida
A juntar primitivos grunhidos aos fatos.

Meu amor, meu ódio, meu silêncio,
Meu querer, meus distanciamentos
Podem ser mensurados pela elétrica
Pulsão do coração e seus batimentos.

Quando rio, sou o riso dos mésons discretos.
Quando falo, sou o falar dos compostos.
Quando penso, sou o pensar dos fótons.
Quando vivo, sou dos átomos o triste gesto.

domingo, 11 de julho de 2010

Ao pé da serra

Denso, mas transparente
Como uma lágrima...
Quem me dera
Um poema assim!
Mário Quintana


A translucidade da fria cascata
Aproveitava-se das sombras
Para refletir no fundo do rio
A nudez angélica de teu pudor.

Ao longe, os morros da serra
Espiavam nossa ingênua natureza
Feita de inocentes brinquedos,
Espumas sobre as duras pedras.

Nossos lábios gelados aqueciam-se
Em beijos refrescados pela torrente
E dispensavam, assim, toda palavra
Que, em desdém, o puro amor rejeita.

Livres, naturalmente libertos e leves,
Amava-nos sobre a rubrocidade
Do pejo do espelho que nos tinha presos
Em abraços abrasados nas águas imersos.