sábado, 28 de fevereiro de 2015

Matuto cismado

Sou matuto cismado,
Desses cabras que conversam em voz alta com a cisma,
Sem da cisma esperar qualquer resposta.
Pela manhã, cedinho, com o Sol quase desperto,
Sigo o caminho da roça a cismar pelos matos adentro.
E pergunto ao meu bom Deus, por que no mundo tem tanta criatura
Sem atinar da felicidade que sinto ao beber da água do ribeirão?
A felicidade
De quando sinto na cara o vento,
De quando sinto crescer os calos nas mãos,
De quando sinto a terra que se revira contente para dar vida à semente?
E Deus, que deve ter cismas mais importantes, não responde nada não.
Já à tardinha, com o Sol mortinho,
Encosto a enxada no eito
E trago a viola pro peito
Pra esquecer as cismas do cansado dia
E procuro nas cordas soltas
O canto que pode ser alegre ou triste
Dependendo do entendimento
Que tive daquilo que não sei nada não.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A encomenda

T. S. Eliot, poeta, Nobel de Literatura de 1948
"A vida é longa demais"
Disse Eliot
Talvez sim, no tempo do poeta
Em que a velocidade
Era menina de berço
E de gatinhas se arrastava

A vida é curta demais, digo
Tão rápida hoje
Que já se nasce
Com cova sob encomenda
Em cubículos no cemitério.

Paixão em águas profundas

Júlio Pomar, “Mulheres na Praia”, 1950, óleo s/ tela
Paixão
É nau com naufrágio anunciado
Em águas profundas para riso de Netuno
Porém, 
Capitão, ela é inevitável
Vá fundo! 
Como descobrir as mansas águas do amor
Ao se largar do barco da paixão o remo?

A geometria do torto

Poema não carece de régua e compasso
Para dizer e marcar o que há de direito no torto
Sua geometria é feita nas curvas dos sonhos
Nas infinitas retas que juntam teu coração ao meu

Sua natural assimetria diz que cada criatura é diferente
No sentimento que se carrega nesta terra penitente

Um poema é feito por poeta criança que desenha
Uma manhã ensolarada generosa em esperança
Que pode ser clara, doce, boa e bela
Para as almas inundadas de amor e compaixão

Mas que pode ser o prenúncio do inferno diário
Para as almas amargas que nada mais esperam
E vagam na devassidão do ódio
Em perpétuo e penoso calvário. 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Coração andarilho

Sou miserável poeta
Tudo que tenho porto comigo

Calço velhos sapatos contentes
Para gastar mundo
E escondo no bolso
Caixinha de lembranças
Onde guardo sonhos

Carrego nos cansados braços
Uma lira de orvalho
Para cantar os encantamentos 
Dessas paisagens
Dessas frescas manhãs
Em esperanças
Dessas mornas tardes
Em labutas tantas
Dessas noites artesãs 
Das cismas dos viventes

Tanjo a lira para poemar a magia
Que sai do meu coração
Em ornato ao que é simples
Em admiração pelo que vive.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O nome do acaso

São tantos os mundos dentro doutros mundos
Que na falta de melhor explicação
Dizemos que eles são fruto do acaso
E o acaso é o nome de nossa ignorância.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Ventos de Maringá

Ao Joubert de Carvalho, in memoriam

O vento me trouxe de longe
Os aromas do café torrado
Nas quentes tardes de Maringá
E a saudade na música de Joubert
Da cabocla que garrei a maginá.

Para ser livre

Os livres
Leem
Os livros.

Borduna no graxista

Ó mau poeta graxista
Que desejas
As sedutoras tetas
Da fama e fortuna
E que usas da lira
Para alisar e dar brilho
A biografias de pulhas
Ladrões ordinários
Famosos por nada

Dos honestos 
És a patrulha

És um farsante
De marca barbante
E mereces na cabeça
Uma borduna!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Milho para bicicleta

É tamanha a insânia em que vivemos e tal
Que qualquer pessoa dita correta
Não está livre de acordar no seu quintal
Dando milho para bicicleta.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O sono do anjo cego

O viver nesses insanos dias
Obscenamente intolerantes, medonhos
Obriga-nos a desejar dos ignorantes
A capacidade de fechar os olhos
E sobre tábuas de pregos
Com a cabeça num travesseiro de pedra
Dormir tranquilo como um anjo cego.

Divinos infinitos

No andar pelas noites
Há de se notar a paisagem
Das imensidões pontilhadas no céu
Para se ter a noção exata do próprio tamanho

Há de se saber que nos é dado como criaturas
Em humildade de coração
Poder apenas guardar
Nesses nossos pequenos olhos
Grandiosidades, divinos infinitos
E todas as luzes da criação.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Oração para velório de corrupto

Vendeste tua alma, ó infeliz
Saibas que é para sempre
Para isso não há resgate
Serás vazio eternamente
E teu vil bolso cheio
Jamais comprará para ti
A paz das almas dos inocentes
Que roubaste, que mataste
Em tua corrupta vida, pois é maldito
O dia em que tu nasceste.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Para se saber vivo

O amor te faz vivo
É o atestado de vida de tua alma
Sem o amor e a capacidade de senti-lo
És apenas uma carcaça que respira.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A escola no jardim

Existiu uma escola sem carteiras, sem TV, sem computadores, sem paredes e até mesmo sem quadro e giz. Mas ninguém reclamava, pois os alunos aprendiam com alegria, seguindo pelo jardim o grande mestre Aristóteles, que ensinava somente uma coisa: pensar.

Para o conforto da alma

Duas coisas que um homem nunca deve se esquecer: a bondade que lhe fizeram e a maldade que ele fez. A primeira para conforto de sua alma e a segunda para repará-la praticando o bem.