segunda-feira, 30 de março de 2015

Nos Campos de Guarapuava

Nos Campos de Guarapuava
Nas sesmarias que restaram
Ainda ecoam selvagens gritos
Dos Kaigangs que ali tombaram
E nos restos da Fortaleza do Carmo
Nada lembra Nossa Senhora
Que por certo, naquele sertão
Ao ver o sofrimento d'outros escravos
Chorou todas suas lágrimas
Nas cristalinas águas do Jordão.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Até jaz

Herberto Helder - (23/11/1930 - 23/03/2015)


Adivinho quando morre um poeta
O silêncio come a noite
Os pássaros não voam
Pois não há vento

Sei quando um poeta baixa à terra
Em respeito, as árvores viram estacas com cabeleiras lunadas
Nada se move
Nada se mexe, anda ou rasteja
Pois, morreu o poeta

Foi assim no encantamento de Vinícius
Com certeza foi assim com Pessoa
Com Ovídio, Camões, Catulo
Grande, minúsculo, tanto faz
O poeta na cova agora jaz
Muito puto no prelo de suas próprias indagações
Assobiadas nas canções do seu próprio tempo, sempre impróprio
Pois foi curto sempre.

Fervente

Era chamada de Sal de Fruta
Pois até na água fria
No amor, a danada fervia.

Quaresma

Respeito a Quaresma,
Não como carne...
Nem galinha.

Injusta vida

A vida é feita injustiças,
uns têm conta no bar,
outros na Suíça.

Culpas para toda vida

Meus amigos,
Não carreguem consigo
Pelo resto da vida
A culpa de ter condenado
Em vez de ter educado,
Matado
Em vez de ter preservado a vida,
Feito a injustiça, iludidos
Ao tentar fazer a justiça.

Charlatães da modernidade

Neste melancólico início de século, ganhamos velocidade, técnica e as facilidades decorrentes. Mas, não avançamos um milímetro para decifrarmos a mais antiga angústia: a de se fazer vivente com morte anunciada. Por não resolvermos o essencial problema, os charlatães e aproveitadores de todos os tipos aparecem e nos prescrevem fórmulas mágicas de unguentos para relaxar espíritos. Induzem-nos com propaganda, ideologia, religião salvadora e com todas as verdades absolutas deste mundo roto e travestido com a roupa da prosperidade. Mas essas fórmulas têm prazo de validade curtíssimo e funcionarão bem até que o primeiro infortúnio nos subtraia da catalepsia induzida.

O ateu solitário


Solitário e ateu,
Quando recebia 
Aos sábados
Pela manhã
Testemunhas de Jeová,
Mandava-os entrar,
Fazia-os sentar
E os servia: 
Café e chá
Com bolacha Maria.

Woodstock

Era uma outra era
Em que uma flor de laranjeira
Enfeitava teus cabelos
E acreditávamos
Na revolução de Aquário
Na Paz
No amor
Que nunca se fizeram.

Cegueira de poeta

Na sempre nublada Curitiba surrealista
Poeta que diz namorar a Lua e as estrelas
Precisa urgentemente de exame de vista.

Carrancas

O que seria de mim
Ao enfrentar as carrancas da vida
Sem a suavidade de teu sorriso?

A vida que gera a morte

Não. Não descartaste um feto,
Deste a ele a mais desumana morte
Sem possibilidade alguma de defesa.
És livre dele, viva.
E ele é vida abortada: morto.

Janeiras Afonsinas





Janeiro veio
Janeiro vai:
feliz daquele
que dele sai.

Janeiro veio
Janeiro foi:
feliz daquele
que tem seu boi.

Janeiro veio,
Janeiro, ó dó:
triste daquele
que vive só.

Janeiro veio,
Janeiro vai:
feliz daquele
que tem seu pai!

segunda-feira, 23 de março de 2015

Outono triste

Outono,
Melancólica estação.
São dias que choram
E que se escurecem.
É a manha do mundo
Para se demonstrar,
Como tudo,
Triste também.

segunda-feira, 16 de março de 2015

domingo, 15 de março de 2015

sábado, 14 de março de 2015

A Santa Mãe que me socorre

Desde menino adotei mãe alheia.
A minha, a de verdade, não conheci.
Mas, deu-me o mundo mãe postiça,
Divina e linda como todas as mães.
Dela também nunca vi o rosto,
Um retratinho amarelado sequer.
Ela acompanha-me o tempo inteiro
E sem descer do altar, ou dos céus,
Perdoa-me os desatinos, as revoltas,
O que foi feito de ruim e o não feito.
Mesmo ao resvalar pelos abismos
Encontro suas mãos em socorro
E faz-me guiar seus outros filhos
Órfãos que dela têm se socorrido,
Desvalidos sem norte ou abrigo,
Gente que por este mundo anda
A procura de paz e alento.

terça-feira, 10 de março de 2015

Adeuses & Saudades

Somos feitos de adeuses e saudades.
Na vida, engana-se quem pensa estar chegando.
Da vida estamos sempre de saída.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Os nomes da morte

Num tempo que já vai distante
E de fingido respeito
Chamava-se "passamento" 
A morte de algum sujeito
E nas rádios, depois da Hora do Angelus
Debulhavam-se lágrimas 
E votos de pesar à família enlutada
Pelo branco e maquiado defunto 
Que tinha passado desta para melhor
E que agora estava em câmara ardente
No próprio e derradeiro velório

Enquanto as beatas na sala fofocavam:
"O desgraçado deu adeus ao mundo!"

O padre arrematava: 
"Entregou a alma a Deus"

A viúva em suspiros já tinha saudades: 
"Apagou a vela de vez!"

Os bêbados, que nem conheciam o morto, diziam em coro:
"Foi para o beleléu"
"Bateu as botas"
"Foi para a cidade dos pés juntos"
"Esticou as canelas"
"Foi comer capim pela raiz"
"Empacotou"
"Vestiu o pijama de madeira"
"Foi para o além"
"Virou presunto!"

A sogra comemorava:
"Foi bom, parou de sofrer, já estava na hora extra!"

E num canto, um chifrudo do defunto, com despeito, em rogo praguejava: 
"Bem feito, entregou a alma pro diabo!".

Amortecido

Uma nova paixão
Amor
Tece.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Morte, a democrata

Democrática Morte
Que aceitas entre os teus
O pobre e o abastado
O avarento e o pródigo
O saudável e o lazarento
O demente e o normal
Sem distinção de raça
Cor, sexo, ou origem social.

***

Democrática Muerte
Que aceptas entre los tuyos
Al pobre y al rico
Al avaro y al pródigo
Al saludable y al leproso
Al demente y al normal
Sin distinción de raza
Color, sexo, u origen social.

(Versão para o espanhol de Félix Coronel)