segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Carrancas da chuva

Meus olhos logo cedo fogem pela janela
Buscam as carrancas da chuva na Serra
Que guarda no ventre das nuvens baixas
As ameaças das águas que tomou do Mar
Volto para mim, sou as pedras dos morros
Indiferente à tempestade que vai passar
Há de passar, assim é, assim sempre será.

Barulho dos versos

Ainda hei de acordar sem o barulho dos versos
São pontuais, sacodem-me, não me dão descanso
Crianças, querem falar e pedem-me papel para brincar.

Na caixa

Tal é o grau de nossa servidão ao inútil
Que pensar fora da caixa
Já é um baita ato revolucionário.

Distraída

Ela era tão distraída pela sua dor
Que ao andar por um caminho florido
Só contemplava as pedras, não via a flor.

Educação e Doutrina

A educação liberta. A doutrina escraviza.

O Céu que trai

Céu azul quase o dia inteiro
Traiu-me como o azul dos teus olhos
Prometeu tempo bom, mas choveu.

Tementes

O amor nos faz tementes
Porque não queremos perdê-lo
Tememos deixar a vida
Tememos que nosso amor a deixe.

Sina e ofício

Tenho por sina e ofício
Revirar o lixo deste nosso tempo
Talvez encontre nele algo que se aproveite
Nem que seja uma pequenina palavra
Que te diminua a amargura, que te faça contente.

Venho de longe, caminhero

Venho de longe, caminheiro
Por esta longa estrada
Com os passos cada dia mais curtos
Com a pele pelo Sol enrugada
Vi coisas belas, conheci anjos
Demônios e gente bárbara
Susto não tenho mais
O espanto morre aos poucos com o cabra
Venho de muito longe, caminheiro
E já sei onde esta estrada acaba.

 

Fumo

O bom caboclo fala "nóis fumu"
É quase como os romanos falavam, "fuimus"
Na realidade, o caboclo sabe o que todo brasileiro sabe
Do governo, qualquer que seja ele
Se leva isso mesmo: fumo!

Um bom dia

Um bom dia para ser feliz. Não espere.
Tente, não adie.
Haverá outro dia?

Marca de infância

Criança,
não é o primeiro amor que nos marca.
É o primeiro adeus.

Antigos domingos

Resolvi visitar antigos caminhos, antigos domingos
Envoltos em sombrias paisagens
Lá estavam os antigos muros, antigas grades
Adormecidos amigos já sumidos, nunca esquecidos...
O passado dorme em cova rasa e aberta
Em algum lugar da paisagem e certamente, aqui dentro, no peito
Lembrei-me do negro doido Badu
Contando os carros da cor azul que passavam na estrada
Sem saber contar, sem saber diferenciar cores
Lembrei-me dos loucos... dos loucos
E eram tantos vivendo em mundo outro
Lembrei-me dos meninos paralíticos
Correndo com suas pernas de madeira e ferro
Lembrei-me dos tristes domingos
Em que os pequenos desgraçados
Esperavam em vão a visita
Da mãe e dos parentes que nunca tiveram.

Não cortem os pinheiros

Não cortem os pinheiros daquele caminho torto
Aquele caminho foi meu e de tantos outros pés
Por ali passaram os colonos italianos em carroções de uvas
Os polacos que fugiram da fome e da guerra
Nos pinheiros estão dessas gentes as lembranças
E num deles o nome dela em marcas de canivete
Num coração criança
Não cortem os pinheiros
Não arranquem de Campo Comprido a amplidão da eternidade.

Cadê?

Adulta, não conseguia entender: "cadê as fadas, só existem as bruxas?"

Roubaste

Roubaste tanto
Mas não poderás gastar
Assim enganou-te a vaidade
Dando-te mais
Do que poderias carregar.

A pior memóra

Tenho a pior memória que existe. Aquela que nada esquece.

Dorme o Guaíba

Chove mansinho
Silêncio do vento
Dorme o Guaíba.

Curitiba tem

Minha terra não tem metrô
Nem creche para os piás
Curitiba também tem, Seu doutor
Calçada para tropeçar
Minha terra tem ipês, meu amor
Para os olhos embelezar....



Minha terra tem boa gente
Que trabalha sem parar
Fedentina e rio morto
Para os gurizada nadar


Minha terra tinha pinheiros
Aves que vinham cá gralhar
Hoje tem prédios pra todo lado
Para no mercado especular
Tem favelas populosas
Para políticos explorar.

Minha terra tem ipês, meu amor
Para os olhos embelezar....









Elegante

Era daquelas mulheres que você não conseguiria imaginar sendo deselegante. Nem mesmo nua. Principalmente nua.

Um luxo

A maioria vive a vida de forma medíocre. Não se dê a esse luxo de ser a maioria.

A letra "u"

Limpei o teclado do comp*tador
E *m resto de biscoito, j*nto com café e bolo
(...)
Eram os lazarentos que travavam a letra "u"
(Não vou fazer a rima, mas dá vontade!).

A poesia ri

A poesia tem essa doida magia
Canta amores inventados
E depois ri dos desencantados.

O tolo

Não temais o tolo. Temei aquele que se faz de tolo para vos enganar.

Rebele-se

O rebelde não segue líderes messiânicos, ou a moda. O nome disso é trouxa.

II
Sede rebeldes, inclusive contra a rebeldia burra das causas vazias.

Matutações

No silêncio da noite
As estrelas, os astros todos
Seguem sua procissão
E eu aqui, diminuto, ínfimo
Alcanço com os olhos
Esses pontinhos de brilho
Em demasiada admiração
E matuto comigo
Sobre a verdade da criação
Mas já achei uma, outra quero não
Sou tão pequeno
Para ter em mim
Diversa explicação
De que as estrelas brilham no Céu
Para alegria do meu coração.

A olho nu

Nossos olhos não mentem
O que nossos corações sentem
Vivem nus, esses indecentes!

Tudo é

A vaidade é a glória e a desgraça dos homens.

Contigo

Contigo sinto
Essa doida vontade
De me esquecer
Ser amor, apenas ser.

Comichão

Paixão é um comichão...
No coração, é claro,
Não em outro lugar!

Culto

Homens de espírito cultuam o espírito. Jumentos cultuam farsas de carne e osso.

Sois pó
Grande ou pequeno
O fim é um só.

Liberdade tirana

A tirania tem uma estranha liberdade como conceito, a feita de sangue.

Deus mortal

Que vazio deve sentir no peito o ateu que perdeu seu deus mortal!

Boa-noite, Felicidade

Boa-noite, Dona Felicidade!
Prazer em vê-la... Há quanto tempo!
Fique, não tenha pressa
Esquece esse seu relógio, as nove horas...
Os salamaleques
Senta aqui, à minha mesa
Enquanto eu passo um café
Minha história é longa... Prometo contar tudinho
Mas não vale chorar, mulher...
Pode ser triste até, sem graça
Mas em você sempre tive fé.

A alma da maçã

Vermelha no rosto,
Cheirava à maçã,
De resto, nua,
Era o doce-alvo
Da alma da maçã.

Nosso tempo

No mundo de mentiras absolutas, a verdade ganha uma relatividade que nunca teve.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Ai!

Trôpego
Andava
Claudicante
Suava
Maldita
Unha encravada!

Ao péd da serra

Aqui, ao pé da Serra
Há lágrimas que choram
Saudades do Mar.
O sonho da chuva é ser oceano.

Sapatilha de ponta

Comprou sua primeira sapatilha de ponta
E saiu por aí, ao som das orquestras
O mundo, pensava, é um grande palco
Se há música, há de se dançar.

A sabedoria do pássro

A sabedoria do pássaro
Está em se abrigar em boa árvore
Durante as tempestades
Pois ele sabe que a chuva terá
O céu por algum tempo
Mas não por todo o tempo
E que, na manhã seguinte
É o Sol que reinará.

Aquele fim de tarde

Se ao final da vida me perguntarem
"Que fim de tarde tu te lembras?"
Direi:
O de uma sexta-feira, com nuvens vazadas pela luz do Sol
Em calmo jardim, com ameixas no pé, amarelinhas
Tapetes de flores dos ipês e mortas folhas sob os meus pés
Em tímida Primavera cantadas pelos sabiás enamorados
Com o vento trazendo-me saudades do que não fui
Do que tolamente me sonhei nos meus já esquecidos invernos...
Sete de outubro de dois mil e dezesseis...

O fantástico

Aos domingos à noite
Saio de casa e miro a Via Láctea
O céu é o fantástico.

Curitiba nublada e calada

Na nublada e calada Curitiba
Poeta tem que ter muita imaginação
Imaginar a Lua, as estrelas ou até mesmo o Sol
E o pior, imaginar diálogos com o vizinho!

Soberba burrice

Triste país em que a cultura tornou-se sinônima de soberba e a burrice é motivo de aclamação pública.

Lupanar sem fronteiras

O problema deste lupanar que virou o mundo
É que tem gente levando muito a sério
O ditado "cada um dá o que tem".

Querubim

O mundo é assim, querubim!

Chato à beça

Quando o homem inventou o esquadro
Tudo ficou alinhado em ângulo reto, chato à beça
A tarefa da Arte é mostrar que o mundo
Não está obrigado a isso, pois ele é esférico e torto, lindo.

A poeira da estrada

Trago e preservo sobre os ombros
A poeira de uma longa estrada
É ela que me lembra quem sou
Ela é a verdade que erra e que, ao final de tudo
Misturar-se-á novamente com a terra.

Ilumina-me

Teu sorriso
É a melhor definição de luz
Que conheço.

A fama

A fama neste mundo que idolatra inutilidades do momento
É sopro de vento sobre os vaidosos feitos de areia.

A moça oblíqua

"Eu se fodi na prova", ouvi no pátio da faculdade de uma mocinha bonitinha, mas, certamente, ordinária, no uso da língua pátria, é claro. E pensei: se fodeu mesmo! Caso não quisesse se foder, concordaria os pronomes da forma correta: eu concorda o oblíquo "me"; o tu com "te"; o você, ele, ela com "se"; nós com "nos", vós com "vos" e vocês, eles, elas com "se" também.

Fogo no rabo

Não é bombeiro que apaga fogo no rabo
O nome disso é outra coisa.

Passai ao largo

Vulgares, fúteis, afetados
Por favor, passai ao largo
Tenho preguiça de vós!

Para parar o tempo

Descobri como parar o tempo
Ao colocar dentro do meu coração
O teu sorriso, no dia em que te conheci.

Tarefas da poesia

As tarefas da Poesia são: dar riqueza e vida ao idioma
Sutileza ou gravidade ao pensado, densidade ao amado
E certa candura e piedade à dura alma dos homens.

Saudade d'ocê

Acordo, adoço meu café
E imediatamente, na minha boca
Sinto doce saudade d'ocê.

PECados

Que eu PEC
Que tu PECs
Que ele PEC
Que ela PEC...
Nós PECamos...

Inveja do vento

Fiquei com inveja do vento
Que veio me contar
Que te viu nesta tarde
E arrepiou tua pele...
Ah, tive um arrepio de saudade!

Os homens e as coisas

Dar significado ao ar que se respira
Embora espantados, mas com Esperança
Diferencia os homens das coisas
Embora muita gente teime em ser coisa
Indiferente à brisa, como uma pedra bruta.

A cidade mata

A melhor cidade para se viver é aquela que não oprime, aquela que como gente te trata, aquela que não te mata. Mas, as cidades estão doentes, porque os homens que vivem nelas estão doentes. Sofrem de bárbaro egoísmo centrado nos próprios umbigos e pelo egoísmo dos homens as cidades oprimem e matam.

Um cão atropelado

Vi um cachorro atropelado, agonizando no meio do asfalto. Fui ajudá-lo e ele me mordeu. Irracional e assustado, com as entranhas para fora, banhado em sangue, o cãozinho não sabia que estava morrendo. E, hoje, olhando para o curativo no braço, penso nas pessoas que tentei fazer o mesmo e que me morderam como um cão. Mas sem mágoas, ficaram apenas as cicatrizes em minh'alma. Um cão não tem a consciência de que é um cão.

O caixão das seitas

Quando libertos
Assustadora, porém bela
É a realidade
Aos sujeitos que estão
Mortos dentro do caixão
Das seitas que seguem!

Soprinho

Gratidão
É sentir no rosto um sopro de carinho do vento
E devolver a ele um poema num soprinho.

Guarda a brisa

Suave é a solta brisa
A abrir caminho à violenta tempestade
Guarda-a no teu coração, pois ela volta
Neste mundo é erro pensar que o mal é perene.

Nem mesmo a morte III

Dezesseis anos, exangue, e agora sem vida
Morreu na escola invadida, com a lâmina no pescoço
Por ironia, em Santa Felicidade, nesta sorridente Curitiba
Que a terra seja leve a quem a este absurdo incentiva.

Nem mesmo a morte II

Nunca entenderei a estupidez da morte e nem desejo entender
E a morte violenta de uma criança não quero entender mesmo
Pois, além de estúpida, é impiedosa, absurda, inominável.

Nem mesmo a morte

Nem mesmo a morte de um inocente é capaz de convencer os estúpidos inconsequentes de que eles são estúpidos.

Nas salas de aula IV

Escola ocupada
Aluno desocupado
Professor desocupado
Mentes desocupadas e o capeta solto; juntando
É lógico que terminaria em tragédia.

Nas salas de aula III

No inferno das escolas que deixaram de educar há muito tempo
A morte de uma criança é apenas um detalhe formal
Que foi subavaliado pelos invasores e birrentos professores
Ignorado pelas autoridades e demais responsáveis
Que não se comoveram e esperam, por certo, mais um cadáver.

Amigos, por onde começo

Ao escolher meus amigos ou amigas, nunca fui guiado por coisas do tipo religião que pratica, crença que professa, partido e ideias que defende; antes de tudo, observo a honestidade. Daí começo conversa, caso contrário não interessa.

Velhos moços

Ah esses moços, pobres moços
Que já nascem velhos
E não contestam as mentiras
Que minha geração inventou para eles
O Woodstock durou não mais do que quatro dias em 1969
E faz até hoje enriquecer mercadores da alienação e patifes
A revolta pela revolta morreu de tênis e jaqueta
Que hoje dão muito lucro à Nike e à Lee
Tudo é mercado e está no mercado
As ideologias libertadoras e outras coisas bonitas
Ganham etiquetas e acabam nas prateleiras
Das livrarias ou servem de souvenir para turistas
Nos lemas vazios de uma camiseta do "Tche".

Adestradores e Educadores

Há uma diferença muito grande entre um educador e um adestrador de alunos.

Teimosia

Dá-me de tua água
Tenho essa teimosia: viver
Dá-me de tua alma
Tenho essa sede: viver.

Nas salas de aula II

Criamos uma geração de estúpidos doutrinados por estúpidos
Se tu afirmas que o Sol brilha além das nuvens
Terás como resposta: "invenção da mídia, o brilho do Sol é golpe!"

Em questão de caráter

Em questão de caráter
É falsa a afirmação de que opostos se atraem
Honestos não suportam desonestos
Quem ama a verdade não se dá com mentirosos.

Nas salas de aula

Doutrinação virou "espírito crítico"
A quem pensam que enganam
Espíritos de porcos!?

Engasgado

Meu olhar corta de viés essas medonhas doidices do mundo
Talvez assim, o torto ganhe feições de direito
E os absurdos do meu tempo passem-me sem engasgo pela goela.

Museu do Zóio

Foi num domingo de sor, no Museu do Zóio
Que marquei encontro com a mardita
Esperei um par de hora e ela nada
Queria só dois dedo de prosa com a bendita
Pra ver se já tinha passado a lavage cerebrar
Que fizeram com ela, a burguesa-comunista
E quando estava para ir embora
Ela me apareceu ainda mais esquisita
Tinha trocado a camisa do Tche
Por um camisolão amarelo de chita
O livro da Beauvoir pelos livros do Prabhupada
Tava com brinco, depilada... Tava quase bonita
E cantarolava não mais Lula-lá nem a Internacioná
Me deu um bolinho de arroz, sem sar, a encardida
E fez eu cantarolar o Hare, Hare... Krishna, Krishna...
Tomei um susto e olhando para minhas botinas
Coloquei a curpa nelas, que sempre me fizero andá
Com gente que por si só não gosta de pensá.

Segredos no ar

Tua voz chega-me e beija-me em ondas
Em arrepios do ouvido ao corpo todo
Sonoridades no ar a me contar segredos
Modulados em calmo mantra do gostar.

In memoriam

Enterremos nossos mortos
E os guardemos in memoriam
Em saudade e aperto no coração
Porque somos tudo o que foram
E inevitavelmente seremos o que são.

Da margarina

A vida não é uma propaganda de margarina, menina!

Defuntos vivos

Não me preocupam os mortos que dormem nos calmos cemitérios
Causam-me espanto e pena
Os vivos que se declaram mortos, finados defuntos em seus infernos.

O feitiço

Sempre gostei das bruxas
Só elas têm um feitiço
Chamado paixão brava, amor
Desses de virar a cabeça!

Corno realista

O capeta é o ser mais realista que existe, pois já nasceu com os chifres.

Dia de Finados

Ó finados em vida
Indiferentes que só têm olhos para o próprio umbigo
Eis, alegrai-vos, este é vosso grande dia!

Cotistas

Certo, meu amigo, sem esticar muito a prosa
É que cada um tem uma cota de oxigênio neste mundo
A tarefa é gastá-la bem, dando sentido ao ato de respirar.