quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Conversa com a jana

Os sonhos não nos querem adultos. Adultos não sonham, tem pesadelos. Crianças sonham e como sonham!

prefiro o abismo do que um caminho reto e sem surpresas, cheio de tédio!

É melhor viver com as asas cheias de remendo por cair do que nunca ao menos ter tentado voar!

Cicatrizes no coração são prova de vida. Quem não as têm, não viveu.

Vou por qualquer caminho

Eu vou por qualquer caminho
Decido neste caminhar
Se é p'ra lá ou p'ra cá
Com a morte a nos espreitar
A vontade do andarilho
É não parar de caminhar.

(arrumar a métrica e desenvolver)

Amante manhosa

A poesia é amante manhosa,
Faz biquinho, desfeitas,
Mas sempre nos procura!

Na base do chinelo

Poema que nasce torto
A gente arruma a martelo
Sujeito que nasce torto
Nem com surra de marmelo.

Perdido no Boqueirão

Perto do aeroporto
Perdido nas ruas do Boqueirão
Durmo no hotel
Ou durmo no avião?

Vocação para Jó

Não tenho vocação para Jó
Mas minha fé cristã é testada todos os dias
Por mais que a vida esteja ruim
(e esta é contradição!)
Ela, a fé, cresce infinitamente 
Em meu coração.

Vexame de amor

A loucura saudável nos prescreve
Pelo menos um vexame por dia
De preferência, vexame de amor.

Faxina no coração

Livra-te daquilo que te faz mal
Faça uma faxina em teu coração
E leve, descobrirás que as nuvens
Não são inatingíveis não!

Capim e dissimulados

Capim em jardim bem cuidado não nasce
Assim como o falso amor dos dissimulados
Em coração alertado não vinga.

No cabo de enxada

Só quem puxou um cabo de enxada
Dia após dia, Sol após Sol
Sabe o que é ter uma alma honesta.

Quem ama teme

O homem destemido
Aquele que não teme nada
Nem mesmo a morte
Certamente nada ama


O amor nos faz tementes
Porque não queremos perdê-lo
Tememos deixar a vida
Tememos que nosso amor a deixe


E estes temores são os horrores
De quem ama e vive.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A luz que me beija

Na noite, quando a escuridão me chega
Componho poema negro, de medo
Que invariavelmente rasgo e queimo

Aguardo assim a manhã em sonolência...
E nos primeiros acordes dos passarinhos
Na dança alegre das joaninhas e borboletas
Sinto o escuro que me deixa e a luz que me beija
Devagarinho, em carinho para acordar

É quando empresto as cores do arco-íris
Para encantar o pássaro, a joaninha e a borboleta
Em poemas doces que canto da minha janela
Para que todos o oiçam em esperança

Oiçam, peço, mesmo em dia de chuva
Em manhãs cinzentas e tardes molhadas
O meu manso canto que sai deste peito cansado
Misturado a monotonia dos pingos d'água
Encantamento para afastar tristezas
E que tenta dar a nossos dias, tristes dias
A alegria de um mundo solidário e encantado. 

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Napoleões de hospício

Ter a profunda consciência
Da própria humanidade
E do fato de estar no mundo
Transformaria-nos, a todos,
Em napoleões de hospício,
Não suportaríamos a verdade.

A feminista do lupanar

Fez um curso meia-boca
na faculdade de fundo de quintal
Decorou o discurso fácil
das cartilhas e almanaques
Mostrou íntimas partes
em passeatas a protestar
E hoje, em decadência
num lupanar
Lamenta-se, se descabela:
"Ninguém nunca me chamou de Beauvoir!"

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Sartre, o corno manso

Em filosofia, há o chifre de Beauvoir, sartriano
Que aqui no Brasil é conhecido, há muitos anos
Como corneada em cabra manso.

Vulgaridade e classe

Tirar a roupa e ser vulgar
Não faz de mulher alguma
Uma Simone de Beauvoir
Que tinha classe e sabia pensar.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Tremedeira

Cismado, abalei-me
Com este amor terremoto
Ao te ver, tremo.

Coração roubado

E tu que desapareceste na penumbra da noite,
Depois de me roubar o coração exangue,
Saibas que ele a mim não faz falta.
Falta faz ao cardiologista, pobre e sem grana,
Que faturava horrores, com os eletrocardiogramas.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O andarilho e as pedras

Neste longo caminhar por onde caminho
Descobri que há mais amor nas flores e nas pedras
Do que nos corações dos homens.
O homem inventa-se a si mesmo, na vaidade
Ah, as pedras e as flores são o que são
Em simplicidade, em natureza!

domingo, 17 de janeiro de 2016

Cuidado, ó infeliz!

Cuidado ao dizer
"Eu te amo"
Que pode ser prelúdio
Da sinfonia de uma vida inteira
Às vezes feliz...
Por vezes infeliz, apenas.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Contrastes

O Sol alegre lá fora
Meu coração triste aqui dentro
Ó vida, como adoras contrastes!

Alma pintada

Tenho a alma pintada
Com a cor do zarcão
Para não ser enferrujada
Como foi meu coração
Hoje amo a mesma mulher
Que amei há tantos anos
Não é um amor qualquer
É um gostar cigano
Desses que com a vida vai
É um amor verdadeiro
É um amor tirano
É um amor que de mim não sai
Porque não o desejo noutro plano
É o amor de minh'alma
É o amor que a mim não é engano.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

A arte dos meus amigos

Hoje acordei em calmaria
Sentido-me como sereno verso
do Zeca Corrêa Leite
Como traço que desconstruiu coisas antigas
E se fez novo numa tela da Maze Mendes
E o meu dia pintou-se nas vivas cores
De uma aquarela da Latif Salin
Ouvi depois o canto do pássaro
Que saltava dos mosaicos da Magaly Floriano
E me espiava do vitral em luz, imitando
O tilintar dos vidros coloridos
Justapostos por Nelson Martins.

Vá, mas sem a chave

Deixei-te sair do meu coração
Vá, aqui estavas a contragosto
Vá, e não leves a chave
Porque hei de encontrar
Quem por ele tenha carinho e gosto.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Lav'alma

Os céus nos dão os dias de chuva
Para que nos guardemos ensimesmados
E a aproveitemos em grande faxina n'alma.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

"Treme-treme"

Encontrei-a no elevador
E ao ver suas formas
Descobri porque o prédio
Chamava-se "treme-treme"
Acontece que a moça de boa vida
Costumava levar trabalho
Para seu apartamento
Epicentro de terremotos
Provocados por pulos e gritos.

Abraço o vento

Abraço o vento
Que traz teu cheiro
É um abraço de saudade
Em teu perfume denso.