segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Esperança Mendiga


Ela esmola nas ruas
Nas portas das igrejas
Aos que passam
Mostra suas feridas
E roga o ajutório
Reservado aos pedintes

No rosto riscado de infelicidades
Nada mais lembra sua juventude
Em que se trajava de finos tecidos
Sedas vermelhas, cores vivas
Azul cor do céu e alvíssimo branco

Ah, como fora bela, corada
Amada por onde passava!
Hoje, vive ali, sob sol e chuva
A ser lembrada de vez em quando
Em prosa de ilusionistas

Penitente, em desconsolo ela segue
Neste mundo do sofrer e da cobiça
Invisível, amarga e triste
A santíssima Esperança Mendiga.

O ausente


Trato o ausente como existente
E só penso no que ele pensaria
Penso no que diria, no que faria
Ao ver o resultado de suas lutas
Que foram interrompidas de abrupto
E que não desapareceu com ele
Um filho que se formou
Ou uma filha que se casou
Netos, bisnetos, outras gentes
E ele não viu, não viveu para isso
Ou ainda os resultados de sua obra
Que em vida parecia não ter vida
E hoje é citada, badalada
E é motivo de lembrança de seu nome
¿O que diria o ausente?
¿O que faria aquele que aqui não mais está?
Não sei, invento possíveis sentimentos
Opiniões de acordo com o temperamento ausente
E concluo que folhas que caem da árvore no Outono
Jamais poderão saber do quente Verão
Somente a árvore saberá disso
Porque em si, na árvore, as novas estações
Precisam das folhas ausentes para existirem.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Ano Novo, velho homem


Próximos estamos de virar mais um ano
De arrancar mais uma folhinha dos calendários
Nada de novo, pois o homem ainda se faz velho
Já disse, contar as horas é nossa pior invenção
Passam-se os dias e o homem não muda não
Comemoramos um tempo novo para práticas velhas
Indiferença para com nossos irmãos
Que morrem de coisas bestas, como a fome, solidão...
Que se esfolam em campos de batalha
Que aprendem a educação das frias convenções
Somos ainda o que sempre fomos, feras
Deixamos as cavernas, mas não a clava
E o costume de fazer sofrer, de esganar
Poucas são as esperanças, mas digo que não
Talvez amanhã, nasça um homem novo
Junto com o Ano Novo, uma nova civilização.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Ah, esses fingidores!


Poemar
É descrever tardes brilhantes
Alegres, tão distantes, longínquas
Jamais vividas, porém sentidas
Mesmo que se esteja imerso
No pavor das trevas de triste noite

Ser poeta poemando
É sentir o peso da despedida
Sem nunca ter sentido o encontro
É perceber o coração pulsando
Mesmo se percebendo morto

É amar muito... Muito e tanto
Em total solidão
Sem ter o amor, no entanto

É dizer sempre: tenho fé, acredito!
Mas, sendo do desengano o pranto.

Soneto do cair da tarde


Aguardei o cair da tarde
E depois de muito esperar
Vi a tarde caindo mansinha
Num manso de não se notar

Ao longe, o céu amarelinho
Misturava-se ao vermelho
E depois ao azul que se despedia
Em bordada mortalha de linho

Carcereiro das belezas esquecidas...
Sim, queria aquele cair da tarde
Nestas minhas miseráveis linhas...

Mas, na penumbra, nas barras do ocaso
Vi que a tarde não se faria prisioneira
Deste liberto soneto em desalinho.

Pé de café


Vou adiante, não sou árvore
Preciso seguir meu caminho
Mas olho para trás, mansinho
Para dar adeus ao que fica

Do pé de café já sinto saudades
Melancolia das grandes, medonha
Deixo-o fincado no seu destino
De solidão à beira da estrada

Chora cafeeiro bendito, chora Maria Bonita
Chora José no eito, já caminham as horas
E a saudade é como o gosto amargo do café
Que nos amarga o peito no nascer da aurora.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Então é Natal...



¿Então é Natal
E quanto mais caro
O presente
Maior é o amor?

Então é Natal...

¿Então quanto custa
Nosso invendável abraço,
Nosso olhar de te bem-querer
Neste teu mercado?

De dia uma santa...


De dia
Uma santa
À noite
Uma diaba
De dia
Faz reza e canta
À noite
Amor que não acaba.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Amor de R$ 1,99


Bem-vindos ao mercado do amor sem compromisso
Dos sonhos fáceis, enquanto durarem os estoques
Ah, se esse amor comprado não vos servir
Não vos preocupeis, fabricaremos outro
Menos complicado com manual de instrução
Estamos no Século XXI, aqui tudo se compra
Tudo se vende, em tudo há preço
Conforme o anúncio na televisão

Esta vida está por demais utilitária
Tudo deve ter uma utilidade imediata
Para depois ir sem culpas para o lixo

Nesse mercado, só não vendemos amor de verdade...
Aqueles antigos com longo prazo de validade
Arcaicos, fora de moda, saíram da linha de produção
Não davam lucro, porque o lucro está na quantidade

Por isso, escolhei para vós uma versão novinha agora
Fabricada em série, com seguro contra a saudade
E quaisquer outras complicações, depressões e melancolias
É o amor que não incomoda, pois é somente mercadoria.

domingo, 22 de dezembro de 2013

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Música das galáxias


Maravilhosos são os invisíveis músicos
Que tocam a música do balé das galáxias
Que divino espetáculo, Deus meu, que espetáculo!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A mesmice, o veneno do espírito


A mesmice é lento e letal veneno para o espírito
Embora existam os que sobrevivam com suas almas já mortas
Essas assombrações que andam pelas ruas, taciturnas
E que em nome da falsa estabilidade sem riscos
Trabalham em repartições, amam a rotina
E têm o relógio como único deus em suas preces diárias
Os que lutam contra isso tudo
São os guerreiros que realmente vivem
Eles zombam das convenções, e das caducas autoridades
Que evocam a tradição e ordem para justificar a morte em vida
Esses, os que remam contra a maré realmente vivem
Porque bebem da fresca e rebelde água da vida
E não se fazem zumbis das convenções, do consumo e das inutilidades.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Ser nuvem

Tenho todos os motivos do mundo
Para não estar alegre nem contente
Meu coração se encheu de tralhas
De coisas que me dão tristeza eterna
Mas meu espírito diz que não
Há contentamentos nas infinitudes pequenas
Na folha carregada pelo vento
No dia que tanta brilha, tanto, tanto...
Nas nuvens branquinhas, bonecas de algodão
Uma que imita ovelhinha, outra um pastor
Uma outra danado cão sem patas
O mundo vive sem as minhas melancolias
¿Por que hei de ser triste, em dor
Por que não ser nuvem também?

sábado, 14 de dezembro de 2013

Triste Curitiba


Triste Curitiba
Outrora amada
E hoje abandonada
Já ouço teus ais
Choro dos pinheirais
O que fizeram contigo?
Bucólica e bela
Das capitais
A mais singela
Hoje colosso de pedra
Obra dos que te mal governam
Que te maltratam e vendem
E injetam carros nas tuas artérias
Congestionadas, entupidas
E o povo, teu povo Curitiba
Amontoado em articulados
No frio, no sol e na chuva
Dos pontos, nas calçadas
Teu povo, bem-amada
Que engole os gritos
De pavor
E chora seus filhos mortos
Na violência que te deram
No descaso que te tratam.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Subiu, mas cai


Gravidade, tu que a tudo levas ao chão
Louças preciosas reduzidas a cacos
Até mesmo a última fatia do abençoado pão
E não perdoas nem os pentelhos do saco
Avisa a essa gente artificial e siliconada
Que tu és lei e ainda não foste revogada!

Viver é colecionar saudades

Meu espírito vai com os amigos
E os espíritos deles ficam comigo

Acontece que este mundo
Ao contrário do que dizem
Ficou muito, muito grande
Que não cabe numa vida só

E basta passar um avião
Que este moderno homem
Ativa seu genético dom
Pelo qual se faz nômade

Somos, pois, universais
Cada amigo leva consigo
Pedaços de nossos corações
E nós carregamos os deles

Assim, sem sair deste lugar
Sinto o meu espírito saltar
Atravessar continentes
Vencer longos desertos...

Mas das antigas saudades
A que mais me revolta
É a das almas encantadas
Num encanto sem volta

Viver com toda intensidade
É inventar para si saudades.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Assombração de peixes


Nos jardins da Igreja do Cristo Rei
Existe um lago com cascata artificial
E nesse mundo limitado vivem carpas
Elas nadam pela água que se repete
Bem nutridas, às crianças divertem
E a mim também, que cultivo o hábito
De fugir da missa para pensar no além
Penso que, daquele estranho mundo dos peixes
Olhando de lá, devo parecer um espectro
Fantasmagórica figura a assombrá-los
Sim, sou a assombração das carpas
Sombra insólita alumiada por velas
Que tenta explicar o mísero lago
Numa dimensão iluminada por trevas.