quinta-feira, 7 de abril de 2016

Espermacete

Não se confunda, pudica senhorita:
Espermacete é aquilo que escorre da vela, denso e quente... Explico, latim medieval: sperma ceti (sêmen da baleia, macho, por óbvio); substância gorda usada na confecção de velas e cosméticos no tempo dos afonsinhos.

Menina da perna torta

Aquela menina namoradeira tinha a perna torta
Mas de resto era bem feita, quente, em brasa sempre
E o namorado da vez dizia: "Ah, a perna!... !Quem se importa?"

sábado, 26 de março de 2016

A jato

Cuida com o que pedes a Deus
E diante dos homens e dos ratos
Pediste Justiça e ela veio montada num jato!

Arte é liberdade

A arte exige do artista a insubmissão, pois sua natureza é a liberdade. Artista submisso a governos, não é um artista, é um lacaio do status quo, que se vendeu por 30 moedas.

Os três josés

Filhos de nordestinos que pediam chuva
Éramos três irmãos josés em homenagem ao Santo
Dois se foram e no meu coração choram
Em chuvinha fina, em saudade contínua, em pranto tanto.

O resto apenas

Não há nada mais encantador
Do que a inteligência...
O resto, amiga minha,
É isso, o resto apenas.

Na estrada II

Na estrada, quase fronteira com o Paraguay,
esperando a tempestade.
O mundo é lugar arriscoso,
aqui ou num aeroporto europeu,
se carece de uma boa reza,

Na estrada

Na estrada, lamento passar correndo pelas cidades
Feito penitente fugindo dos próprios pecados
Sem vê-las, sem senti-las, sem conhecê-las
Sem abraçar os sonhos de suas gentes.

Pão e silêncio

Eu trago as mãos estendidas
Como quem oferece o pão
Feito de verdade e poesia
Para quem tem paz no coração
E aos ingratos em tormentos
Ofereço o silêncio do perdão.

Até o medíocre evolui



Creio na evolução dos seres.

O medíocre, por exemplo,

inevitavelmente torna-se-á

um tolo completo e, sem modéstia,

alcançará a glória dos estúpidos.

Quartinho de despejo



Joga fora o que tu pensas amar e não te ama
Teu coração é o templo das coisas puras e boas
E não quartinho de despejo para velhas tralhas.

Bom destino



Faz o bem para o bem do teu fado
E tua alma se sentirá recompensada
Mesmo que tu não escutes o obrigado.

Nada não



Claros são meus dias
Belos nos meus olhos, suaves em minh'alma
Não me ofereças a noite, a tua escuridão
De ti e da tua mentira não quero nada não.

Mentir para si



Vive na mentira, é a própria falsidade
E diz que isso é felicidade
No dia em que morrer, vai dizer a si
- Ó meu Deus, não morri
Mudei de casa, é uma tumba, a mais linda que já vi!

sexta-feira, 18 de março de 2016

Nos meus velhos olhos

Nos meus velhos olhos
Já cansados, escorados nas muletas das lentes
Trago antiga Esperança
Cada vez mais menina, cada vez mais nova
Em ternura, em contentamento.

domingo, 13 de março de 2016

Domingo burocrático



Tanta coisa para me ocupar neste belo domingo, tanta poesia nas ruas e eu aqui, neste castigo dos textos técnicos, inspirado nas burocracia das tabelas, na falta de beleza dos gráficos. Mas tem nada não, teimoso, entre um frio parágrafo e outro, faço verso para o ocaso sonolento do domingo. Para aquela flor que teve, neste dia, a sua vida inteira em formosura e eternidade
Ao circular por Curitiba
O jovem intelectual imaginava-se
Em sorumbática perambulação
Pelas ruas e cafés de Paris
A indagar em vão a seus sofridos neurônios,
Sobre as teorias filosóficas que lhe obrigavam
A tomar uma atitude existencial
Ser um existencialista
Como Sartre, Beauvoir etecetera e tal

Não e não, não suportava mais não
Aquelas sensações de homem com comichão:
Desorientação e confusão
Face a um mundo
Aparentemente sem sentido e absurdo.


domingo, 28 de fevereiro de 2016

Saudade vai à missa

Esta chuva que cai na manhã deste domingo
É água de lavar saudades
Que limpinhas, como anjos, vão à missa
E no altar, nos pedem perdão por serem o que são.

Inferno eterno

Se viveis é porque tendes esperança. Somente no inferno ela não existe. Dante escreveu que na porta do Inferno estava grafado: abandonai aqui todas as vossas esperanças. Inclusive a esperança de ter uma segunda morte, pois lá o sofrimento é eterno.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Hipócritas e cretinos

Creio piamente na evolução animal
Os hipócritas dissimulados, por exemplos
Aos poucos deixam de ser apenas estúpidos
E avançam e chegam ao grau máximo dos cretinos.

Decência

Viver não carece experiência
É necessário sim, decência
E muita coragem para ser
A verdade que respira e anda.

Recado de Pí

E Pí disse ao Erre: "cada um no seu quadrado!".

Combatentes das águas paradas

Bons-dias, ó vigias das águas paradas,
Ó combatentes dos mosquitos,
Ó patrióticos soldados da pátria arrasada!

O sovaco da jiboia

É mais fácil vender desodorante para jiboia do que tentar demonstrar aos teimosos os erros por eles cometidos.

Sorvete que derrete

Há jovens que buscam a estabilidade na vida. Rio desses ingênuos. Sinto muito informar, a vida é tão estável quanto um sorvete em tarde quente. Você pode até consegui-la por algum tempo, mas essa falsa estabilidade lhe cobrará tudo que a juventude carrega de mais importante no seu coração, a capacidade de sonhar. E não existe coisa mais triste neste mundo do que um ser humano, vegetativo, que não mais sonha.

Água de poço

"Se a tua vida anda mais sossegada do que água de poço, sem emoções, dá uma sacudida nela. Em águas paradas só prosperaram os mosquitos da dengue", mestre Xunda, no sermão do Morro do Buraco Quente, 1999.

Golfinhos e meninos

Um filhote de golfinho bonitinho morto por turistas...
Um menino morto a tiros, na Síria...
Um outro raquítico menino morto desnutrido, em África...
Um outro "bandidinho" que passa fome nas ruas sob seus olhos...
E assim seguem-se os nossos civilizados dias... Isso não tem mais jeito não!

Cruz da infância

Na infância, fiz cruz de madeira para tumbas de cemitério
Naquela minha iniciação na arte da marcenaria
Aprendi as primeiras letras no que era escrito nela
E principalmente aprendi que nome grande ou pequeno
Nome de rico ou de pobre, na cruz sempre cabia.

Fígado e coração

Faço a contabilidade dos sábados vazios
E vejo que meus bons amigos partiram
Deste mundo em riso, sem seus fígados e em sacanagem
Deixaram nas minhas mãos seus corações.

Tempo dos ignorantes

Dessa roubalheira toda, uma coisa fica evidente
Que o marketing político nos vendeu essa gente
Ignorante, baixa e que chegou até a presidente.