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sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

Da sabedoria

Eis o Sábio
Que vaga pelos escuros
E sussurra para os que não dormem:

Não vos canseis à toa...
Tudo é ilusão.
Gastamo-nos nas inutilidades
E vemos nelas somente vaidades.

Observai, o próximo minuto
É tão cheio de incertezas
Quanto o é a eternidade.
Viveremos o próximo minuto?
E até que ponto da eternidade?

A tolice dos homens nos diz
Que é possível uma eternidade
Para nós, e também para os tolos.
Porém, a ilusão da eternidade não vai além
Dos vossos últimos suspiros e da cova do cemitério.

O que sabemos desde que deixamos o ventre de nossa mãe?
Apenas que estamos no tempo de viver.
O que vem antes, o que vai depois, quem sabe?

A eternidade só parece possível
Para o espírito ou energia.
Não sabemos nos medir em energia,
Não nos reconhecemos como espírito.

Não corrais atrás do vento...
Tudo é vaidade.
O homem é vaidade.
A matéria morre;
A energia vive.

Trabalhei para gastar o tempo,
Tive a ciência para gastar o tempo,
Tive a arte para embelezar o tempo,
Nada valeu. O tempo gastou-me nessas vaidades.

No trabalho apenas vi o refazer constante
Das tolices que damos tanto valor.
Ganhei dinheiro com essas tolices
Para alimentar mais vaidades.

Construí uma casa para me guardar do frio,
Para me guardar do sol, para me guardar do ladrão.
Ergui um templo para meu Deus e nele guardei meu espírito,
E descobri que a casa e o templo só guardavam vaidades.

Vi o Sol nascer todos os dias,
O Sol se pondo todos os dias,
O rio correndo todos os dias,
O vento soprando todos os dias

E se me faltarem os dias?

Tudo continuará como é:
O Sol a nascer,
O Sol se pondo,
O rio correndo,
O vento soprando...
Tudo como foi, é e será.

Nada é novo,
Mas mesmo assim
Olhamos para o mar,
Esperando um mar novo;
Olhamos para o homem,
Esperando um homem novo;
Escutamos palavras,
Querendo uma palavra nova;
Ouvimos um som antigo,
Esperando uma música nova.

Tudo se afadiga,
Menos nossos tolos desejos,
Nossas tolas vaidades.

O Sol ilumina a Terra
Para que possamos ter
Em nossa ciência
A incapacidade da vaidade.

Tudo que há abaixo do Sol
Existe e nossos espíritos
Não alcançam suas verdades.
A ciência limitada em nossas cabeças
Apenas nos faz aborrecer,
Pois ela também é vaidade.

Talvez o prazer fosse nosso significado
E mesmo o prazer não passa de vaidade.
Ao sabermos condenados à morte
Do que nos serve o riso? Do que nos serve o choro?

O Sábio está quase sem voz.
Acordai aquele que dorme,
É mister escutá-lo:

A morte é caminho que devemos percorrer,
Todos nós, um dia, dela ganharemos passagem.
Para onde nos levará ninguém sabe;
A certeza é que ela não admite bagagem.

Sensato, portanto, acumular apenas aquilo que nos dê boa velhice,
Tenhamos apenas o suficiente para comer, beber e nos divertir.
Tende filhos para que eles se lembrem de vossos ancestrais,
Mas não deixeis muito para que eles não se esforcem,
Mas nem pouco para que padeçam e vos amaldiçoem.

Trabalhai o necessário,
Amai o necessário,
Tende um Deus necessário,
E sede necessários.

Tudo além disso é vaidade, nada mais do que vaidade.

O trabalho e a diversão nos distraem da morte.
O amor nos liberta da carne
E Deus nos dá esperança.
Mas sem excessos.
Do contrário
Sereis escravos,
Sereis amargos,
Sereis fanáticos.

Não espereis a generosidade nos homens
E a justiça em sua política.
Mas dai de coração e sede justos.

É melhor ter um coração alegrado pela bondade
E um espírito banhado na justiça
Do que perder o sono e temer a hora da morte.

Não prometais nada
Nem a vosso irmão
Nem a Vosso Deus.
Pois, a vida só nos promete a morte
E ela pode nos quebrar a promessa.

Não ameis a matéria
O amor vem do espírito
E no espírito deve ter refúgio.
O amor fora do espírito não é amor;
É desejo, é posse, é dominação, é doença e aflição.

Ao andar pela noite do tempo,
Vi que a bondade e a maldade nascem da mesma árvore.
Ao esticar o braço para alcançar esses frutos,
Senti gastar-me no mesmo trabalho.
Ao alimentar-me do mal,
Senti que me faltava o sono e sobravam-me os pesadelos.
Ao alimentar-me do bem,
Senti que dormia tranqüilo e tinha bons sonhos.

O que é mais sensato neste tempo de viver?
Só o tolo se alimenta da maldade e da vaidade.

O Sábio está quase sem voz.
Acordai aquele que dorme,
É mister escutá-lo.

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(Livre interpretação do Eclesiastes)

domingo, 9 de janeiro de 2011

Oração do beberrão devoto

Ó Senhor dos manguaçados,
Que nunca me faltem
O limão, o açúcar
E a divina cachaça.
Fazei que ao andar
Por este vale de lágrimas,
Mesmo que me plena escuridão,
Ou no vale da morte por atropelamento,
Eu encontre um bar aberto
Com bebida barata
E mulheres dispostas.
Dai-me as boas marcas
E livrai-me do uísque falsificado.
Dai-me garçons atenciosos
E donos de bares que me
Ofereçam bom crédito
Na doce ilusão e promessa
Do pagamento no dia
Santificado a São Nunca.
Dai também boa educação
Ao padre Nicolau,
Que toma vinho sozinho
Sem oferecê-lo aos fiéis
Que vão à missa
À espera da saideira
Ou caideira matinal.
Piedade, ó Senhor,
Aos que bebem,
Aos egoístas que bebem escondidos,
Aos hipócritas que pecam e nos criticam,
Aos humildes que não têm o que beber,
Aos soberbos que bebem e desperdiçam,
E aos que não bebem também,
Porque para todos
Só há um destino,
Um caminho que só o Senhor sabe,
Que não se revela em hora e dia
Para o pobre ou rico,
Para o sábio ou tolo,
Manguaçado ou sóbrio,
Ou seja, para ninguém!

Amém

terça-feira, 19 de julho de 2011

A "expertise" dos jacus de teta


O Brasil não tinha uma boa ave mitológica
Até que a sábio e certeiro homem do povo
Criou o fantástico pássaro jacu de teta.

Resultante de uma cruza, porco tetrápode
Com a ave bípede, esse animal não anda direito
E também tem dificuldades para alcançar os céus.

Tal a Fênix, ele se banha em resina do que não presta
Para atear fogo sobre o próprio corpo
Porém, renasce das cinzas em ignorância profunda.

Não é ave solitária, gregária anda em bandos
Pela iniciativa privada. Da cloaca tira a iniciativa,
Usa e abusa do público com se usasse uma privada:
Defecando todos os horrores do mundo,
O roubo, a pilantragem, a dilapidação do erário.

Ave política, para justificar sua fome pelo patrimônio do povo
Inventa discurso novo, cheio de voltas e floreios
E palavras vazias de significados, mas que soam bonitas:
A última agora é a tal de "expertise",
Que roubou aos gauleses, mas que afirma ser dos ingleses.

Nem uma nem outra, caros jacus mamários:
Essa palavra é dos romanos e também de nossa língua.
Vem de primários tempos, sendo nada mais do que adjetivo
Com outra terminação, é claro: expertus, experto.

Assim sendo, caros jacus espertos,
As suas espertezas de voar sobre o idioma,
Como voa uma galinha, nos mostra que esperto mesmo
É falar experteza e não cantar como o galo europeu.
E depois, o povo brasileiro já sabe que a grande "expertise"
Desse pássaro folgado é se fingir de leitão para mamar deitado!

sábado, 4 de março de 2017

Matuto

Ao homem simples, aquele trabalha com a terra, damos o nome em desdenha de matuto. Na realidade, um sábio especialista na arte do bem pensar, do ponderar, pois enquanto tira do solo seu sustento, especula, indaga das razões, enfim, filosofa, sem o clarão das letras, com a mente livre a iluminar a própria vida como um pirilampo em noite sem luar.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Nem mesmo um sábio para entender a mulher

Santo Deus! Há tanta coisa difícil nesta vida
Física Quântica, Latim, Matemática...
Mas todas com certo esforço se entende
Mas nunca, mesmo o mais sábio dos viventes
Vai entender uma mulher desesperada
Escolhendo roupas e sapatos para sair de casa.

domingo, 21 de abril de 2013

Sonhos alados

Teus sonhos alados
Estão hoje sobre a montanha
Divisam horizontes, os novos
Conferem os rumos
Em cartas siderais
E lamentam antigos voos
Desastrados por Ícaro
E desistem de alcançar o Sol
Não por covardia ou preguiça
Mas por vontade e esperteza
Para eles, experientes, sábio é
Orbitar a Lua
É nela que mora a poesia
A luz que ilumina os escuros. 

domingo, 9 de janeiro de 2011

Dos gênios do nada

Duvido de todo homem
Que passa pela vida
Sem saber do que é constituído
E dos átomos que o fazem ser.
Duvido do homem que não se sabe
Energia condensada na matéria.
Duvido do homem que se expressa
Pretensamente sábio
E não se sabe medir em massa
Multiplicada pelo quadrado da luz.
Duvido da sabedoria vulgar
Comprada nos títulos acadêmicos
Dizendo que ali está um gênio
Especialista em qualquer coisa
Mas que mal sabe de si.