quarta-feira, 10 de março de 2010

O último poema de Safo

É, querida Safo, tua poesia perdeu-se
Por sacanagem dos monges copistas.
Pensavam fazer justiça com as próprias mãos
E condenaram os velhos costumes de Lesbos.
A intolerância deles deixou muito pouco de ti
E um grande legado à imaginação humana:
Como eras, como dirias, como escreverias
Sobre o amor avessado de fêmea para fêmea?
Hei de perguntar a Cronos, ao deixar o mundo dos vivos,
Em que obituário do tempo consta teu último poema
E por que a ignorância tomou-te a pena?
Da segunda pergunta suspeito resposta,
Mas da primeira, como gostaria de lê-lo!

Um comentário:

José Fernando Nandé disse...

Uma amostra do pouco que sobrou dessa poeta depois de 2600 anos:

A uma mulher amada___
"Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro! Quem goza o prazer de te escutar, quem vê, às vezes, teu doce sorriso. Nem os deuses felizes o podem igualar. Sinto um fogo sutil correr de veia em veia por minha carne, ó suave bem-querida, e no transporte doce que a minha alma enleia eu sinto asperamente a voz emudecida. Uma nuvem confusa me enevoa o olhar. Não ouço mais. Eu caio num langor supremo; E pálida e perdida e febril e sem ar, um frêmito me abala... eu quase morro ... eu tremo".