sábado, 25 de dezembro de 2010

Dulcineia e Beatriz


Porfiei na teima de buscar a ti
Percorrendo densos infernos,
Como se buscasse morta amada,
Tal fez o poeta Dante ao cruzar,
Ainda vivo, o terrível Aqueronte
A servir negras almas a Cérbero.

Ou ainda, de lutar insanamente,
Como soldado de Cervantes
A bater-me com os moinhos
Espalhados ao longo da vida,
Igual aos cavaleiros errantes
Em solitárias e graves batalhas.

Ora te sentia longe, inexistente,
Como a dulcíssima Dulcineia
Nascida de minha demência.
Ora te sentia longe, impossível,
Imortal no céu inalcançável
Como a beata e pura Beatriz.

Estive sempre em desvantagem
Nesta busca própria dos cegos,
Pois, ao meu lado não ia Sancho
A trazer-me para a realidade
Nem caminhava comigo Vergílio
A desviar-me do fosso em perigo.

Não sei nem como é teu rosto,
Somente de ti tenho vago esboço,
Mas prossigo inda nessa procura
Porque de outra forma morreria
E sentido para a minha triste vida
Por certo, certamente, me faltaria.

2 comentários:

Vera Nilce disse...

Caraca ! que coisa mais linda! espero que este esboço um dia seja mais que um simples esboço e sendo mais que dulcineia e beatriz lhe traga muito mais inspiração na vida pra tao belos poemas ... abraços

José Fernando Nandé disse...

O bom do poema é quando ele sai de um fôlego só. Foi o caso deste. Nunca digitei tão rápido, tal era o medo que ele fosse adiante enquanto eu me distraísse nos versos.