Hoje leio na Gazeta do Povo uma raridade
Neste nosso tempo por demais abestado:
Uma triste morte provocada pela paixão.
Foi assim:
Odair Francisco de Oliveira
Resolveu passear com a dona de sua devoção,
A sua companheira feita para todas as merecenças
E reverências de um apaixonado.
Odair, cheio de confiança e razão,
O que é muito próprio de quem vive
A flutuar no espaço sideral do bem-gostar,
Ignorou a advertência do nome do lugar.
Embora penhasco bonito, porém arriscoso,
Ele teimou em caminhar, sem jeito e maneira,
Pelas beiras do Vale da Pirambeira,
Lá pelas perdidas bandas do Norte do Paraná.
Ali, suspensa na parede do imenso precipício,
Viu formosa orquídea feita para o brilho dos olhos
E satisfação do nariz de sua querida.
Odair ficou louco - como manda o manual
Dos tresloucados que se apaixonam -
E improvisou uma corda para buscar a flor...
D
e
s
p
e
n
c
o
u
-
se.
Era novo, 38 anos, forte, mas não resistiu
Aos terríveis ferimentos no apaixonado tórax.
O sargento-bombeiro disse que o golpe fatal
Veio com a irreversível parada cardíaca,
A qual calou definitivamente aquele coração
Que batia somente por seu amor e carinho.
Da planta e sua beleza ninguém sabe o fim,
Da namorada de Odair nem é citado o nome.
Para os jornais lágrimas póstumas
Não interessam aos leitores ligeiros.
E depois, morrer de amor e paixão
Está tão fora de moda, mas tão fora de moda,
Que seria um desperdício de tinta e papel
Falar do destino deveras insano e cruel
Daquela infeliz que ficou sem sua orquídea!